O mercado petrolífero mundial atravessa uma fase de reajustamento marcada por uma reorganização dos fluxos e por tensões persistentes em alguns mercados locais. Neste contexto, as grandes infraestruturas de refinação procuram garantir fontes de petróleo bruto mais diversificadas e flexíveis.
A refinaria Dangote deu um novo passo na sua estratégia de abastecimento ao importar, pela primeira vez, petróleo bruto proveniente dos Emirados Árabes Unidos. Duas cargas, representando cerca de 2 milhões de barris, foram adquiridas junto da companhia Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC), segundo negociantes citados pela Reuters. Os volumes envolvidos correspondem às qualidades Umm Lulu, bem como a uma mistura dos petróleos brutos Das Blend e Murban.
Trata-se da primeira entrada de petróleo bruto do Médio Oriente no portefólio de abastecimento da refinaria nigeriana, que até agora tinha privilegiado outras origens para complementar as suas necessidades.
Esta abertura ocorre num contexto internacional mais favorável aos compradores. O alívio observado nos mercados petrolíferos após um acordo de cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão contribuiu para facilitar a retoma dos fluxos através do estreito de Ormuz. O regresso de maiores volumes provenientes do Golfo, aliado a um abrandamento da procura asiática, aumentou a disponibilidade de alguns petróleos brutos do Médio Oriente e exerceu pressão em baixa sobre os seus preços.
Acesso ao petróleo bruto continua limitado apesar do estatuto de produtor
Para além dos fatores internacionais, a diversificação iniciada pela Dangote responde sobretudo às limitações persistentes do mercado nigeriano. A refinaria recebe, em média, entre cinco e sete cargas de petróleo bruto por mês da NNPC, enquanto as suas necessidades operacionais situam-se entre 13 e 15 cargas mensais.
Um acordo de fornecimento celebrado em naira deveria, em teoria, garantir um fluxo regular de petróleo bruto, mas a sua aplicação continua limitada pela disponibilidade insuficiente de volumes domésticos e por constrangimentos operacionais que afetam alguns terminais de exportação. O grupo vê-se, assim, obrigado a recorrer aos mercados internacionais para completar as suas necessidades.
Esta situação evidencia o paradoxo de um país que é exportador líquido de petróleo, mas que enfrenta dificuldades em abastecer plenamente as suas próprias capacidades de transformação. Nos primeiros cinco meses de 2026, a Nigéria exportou cerca de 148,9 milhões de barris, o equivalente a quase 68,7% da sua produção, reduzindo automaticamente os volumes disponíveis para as refinarias locais e aumentando a concorrência pelo acesso ao petróleo bruto.
Para responder a estas dificuldades de abastecimento, o complexo com capacidade de 650 mil barris por dia tem vindo progressivamente a alargar e diversificar a sua carteira de fornecedores. Depois de importar petróleo bruto dos Estados Unidos, Brasil, Argélia e Guiné Equatorial, a refinaria integrou em 2026 novas origens, nomeadamente Angola, Gana, Líbia e Guiana. Esta estratégia pretende garantir fontes de abastecimento mais flexíveis e distribuídas geograficamente.
O aumento das importações provenientes da Líbia ilustra igualmente esta evolução. Cerca de 2 milhões de barris de petróleo bruto líbio foram entregues em maio de 2026, uma estreia para a Nigéria.
A chegada do petróleo bruto dos Emirados insere-se, assim, na continuidade desta política de diversificação e não representa uma mudança estratégica. A operação acompanha também o aumento esperado da capacidade da refinaria, que deverá atingir 1,4 milhões de barris por dia até 2028. A este nível de produção, a dependência exclusiva do petróleo bruto nigeriano tornar-se-ia estruturalmente insuficiente, tornando indispensável uma rede internacional de abastecimento mais ampla e flexível.
Olivier de Souza













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