Após a guerra na Ucrânia, as tensões em torno do estreito de Ormuz recordam que a segurança energética depende também da capacidade dos países diversificarem as suas fontes e rotas de abastecimento, um papel para o qual o GNL contribui cada vez mais.
A procura mundial de gás natural liquefeito (GNL) continuará a crescer a longo prazo, apesar das perturbações registadas nos últimos meses. Esta é a previsão apresentada pelo grupo Shell, um dos principais operadores mundiais do comércio de gás, no seu relatório anual «LNG Outlook 2026», publicado na terça-feira, 30 de junho. O documento prevê uma procura mundial próxima dos 700 milhões de toneladas por ano até 2050, contra 422 milhões de toneladas em 2025, o que representa um aumento de cerca de 65%.
Esta projeção otimista surge num contexto difícil para o mercado. O encerramento do estreito de Ormuz, uma rota marítima essencial para uma grande parte do comércio energético mundial, retirou ao mercado cerca de um quinto do abastecimento mensal habitual de GNL desde o início do conflito no Médio Oriente, ocorrido no final de fevereiro de 2026.
Os fluxos comerciais mundiais de GNL em 2026 poderão manter-se ao mesmo nível de 2025 antes de retomarem o crescimento em 2027, estima a multinacional anglo-neerlandesa. «O conflito provocou um choque sistémico, com perturbações em cadeia em todos os segmentos da economia, mas a indústria do GNL demonstrou resiliência e capacidade de adaptação às condições em mudança do mercado», declarou Cederic Cremers, presidente da Shell Integrated Gas, no relatório.
Uma procura impulsionada pela Ásia e por novos usos
Este crescimento baseia-se em tendências já visíveis em várias regiões do mundo. A Ásia do Sul e do Sudeste deverão representar cerca de 40% das importações mundiais de GNL no período em análise, à medida que estas regiões procuram substituir o carvão por uma fonte de energia menos poluente para a produção de eletricidade. Nos mercados asiáticos mais maduros, como o Japão, os centros de dados surgem como uma nova fonte de procura energética.
Além disso, a utilização do GNL como combustível para navios de transporte marítimo deverá multiplicar-se por sete, atingindo 27 milhões de toneladas por ano até 2035. Paralelamente, cerca de 180 milhões de toneladas de novas capacidades de produção do combustível deverão entrar no mercado até 2030, melhorando a disponibilidade e o acesso ao gás para novos países importadores.
Estas projeções representam uma revisão em alta face ao relatório anterior. Conforme divulgado pela Agência Ecofin em março, a Shell previa então um aumento de pelo menos 54% da procura mundial até 2040.
Impacto para os produtores africanos
Estas perspetivas têm consequências diretas para vários países africanos envolvidos no desenvolvimento de capacidades de produção de GNL. Moçambique é atualmente o país mais avançado. O país já opera o projeto Coral Sul desde 2022 e prepara o arranque do Coral Norte em 2028. Um terceiro navio com uma capacidade recorde de 6 milhões de toneladas por ano encontra-se igualmente em processo de concurso.
Mais a norte, a Nigéria exporta GNL há mais de vinte anos através da Nigeria LNG (NLNG), empresa na qual a Shell é precisamente uma das acionistas. Paralelamente, a Argélia, segundo maior exportador africano de GNL depois da Nigéria, dispõe de uma capacidade de liquefação de 25,3 milhões de toneladas por ano distribuída por quatro terminais em Arzew e Skikda, segundo dados da Agência de Informação Energética dos Estados Unidos. Depois de ter exportado 9,54 milhões de toneladas em 2025, contra 11,62 milhões em 2024, o país registou uma recuperação dos seus volumes em 2026, de acordo com a Energy Research Unit, sediada em Washington.
A Shell estima ainda que serão necessárias cerca de 200 milhões de toneladas adicionais de capacidade de produção nas décadas de 2030 e 2040, para além dos projetos já em construção. África concentra atualmente mais de 50 mil milhões de dólares em investimentos no setor do GNL em 2026, segundo a Câmara Africana da Energia (AEC).
Abdel-Latif Boureima













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