O BERD acaba de disponibilizar 30 milhões de dólares na Costa do Marfim, correspondentes ao seu primeiro empréstimo destinado ao setor mineiro na África Subsaariana. A escolha do níquel para esta operação inédita não é por acaso, tendo em conta o crescimento significativo desta fileira nos últimos anos.
Na Costa do Marfim, o Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) anunciou na segunda-feira, 29 de junho, a sua participação num financiamento sindicado de 180 milhões de dólares a favor da Polynickel West Africa Holding. Por detrás desta operação financeira está uma indústria relativamente recente, mas já importante no setor mineiro marfinense: o níquel.
A Polynickel, subsidiária da CoreX Holding, adquiriu uma participação maioritária na Compagnie Minière du Bafing (CMB), principal operador de níquel na Costa do Marfim. O financiamento deverá transformar o empréstimo-ponte utilizado na aquisição numa dívida de longo prazo, ao mesmo tempo que apoiará as atividades da empresa. A operação destaca também a capacidade do níquel marfinense para atrair capitais internacionais de grande dimensão, uma vez que o empréstimo do BERD (30 milhões de dólares) representa o primeiro financiamento mineiro do banco no país e na África Subsaariana.
Esta nova visibilidade contrasta com o papel ainda dominante do ouro no setor mineiro nacional. A Costa do Marfim tem vindo, de facto, a multiplicar a entrada em funcionamento de minas de ouro e a sua produção mais do que duplicou em 10 anos, atingindo cerca de 60 toneladas em 2025. Na sombra deste crescimento do ouro, o níquel foi progressivamente colocando o país noutro segmento mineiro, ligado à indústria pesada, ao aço inoxidável e às cadeias de valor da transição energética.
Uma fileira criada em menos de dez anos
A exploração industrial de níquel começou em 2017 na Costa do Marfim, com uma produção de 379 800 toneladas. Seis anos mais tarde, em 2023, atingia 2,48 milhões de toneladas. Durante este período, o crescimento médio anual foi de 36,7%, uma evolução rápida para uma fileira que não beneficia dos mesmos níveis de investimento que o ouro.
Em 2023, mais de 2 milhões de toneladas de níquel foram exportadas, tornando este minério o segundo metal mais explorado no país, depois do ouro. O volume de negócios nesse ano atingiu 55,92 mil milhões de francos CFA (cerca de 100 milhões de dólares).
Este crescimento assenta num potencial de níquel laterítico estimado em 260 milhões de toneladas, localizado sobretudo em Sipilou, no oeste, e em Foungbesso, no noroeste. Contudo, o ano de 2024 veio recordar a fragilidade de uma fileira ainda em consolidação. A produção caiu para 1,48 milhões de toneladas, uma redução de 40,2%. Esta contração explica-se, nomeadamente, pela suspensão das atividades durante pouco mais de dois meses na mina de Foungbesso durante a época das chuvas, mas também por um contexto de mercado desfavorável, com os preços do níquel numa trajetória descendente nos últimos anos.
O Estado quer assumir um papel mais relevante
Apesar deste contexto difícil, o setor do níquel na Costa do Marfim continua atrativo, tanto para investidores privados como para o próprio Estado. No início de junho, o Governo marfinense autorizou um aumento da sua participação financeira na Compagnie Minière du Bafing.
A operação envolve 1 500 ações com um valor global de 3,5 mil milhões de francos CFA, adquiridas junto da Polynickel, acionista maioritária da CMB. No final desta operação, a participação direta do Estado na CMB aumenta de 10% para 25%. Somando os 5% detidos pela Sociedade para o Desenvolvimento Mineiro da Costa do Marfim (SODEMI), a participação pública atinge agora 30%, contra 70% do operador privado.
Este reforço traduz a vontade de o Estado assumir uma posição mais forte numa fileira cuja importância está a crescer. Este movimento insere-se numa tendência mais ampla observada na África Ocidental, onde vários países procuram captar uma maior parcela do valor gerado pelas atividades mineiras.
A médio prazo, contudo, a fileira do níquel na Costa do Marfim terá de enfrentar preços pressionados pelo excesso de oferta, nomeadamente proveniente da Indonésia, que reduz a rentabilidade dos produtores. Ainda assim, o metal mantém perspetivas favoráveis a longo prazo devido à procura associada às baterias elétricas e à transição energética.
Para a Costa do Marfim, um dos principais desafios será transformar o rápido crescimento observado desde 2017 numa fileira sustentável, capaz de resistir aos ciclos de preços e gerar maior valor acrescentado local.
Emiliano Tossou













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