Transformar numa parceria pacificada um dos litígios mais pesados da história africana contemporânea constitui um verdadeiro feito diplomático. Paris e Kigali conseguiram-no ao associar o reconhecimento do passado a interesses cada vez mais convergentes.
Os Presidentes francês, Emmanuel Macron, e ruandês, Paul Kagame, inauguraram na terça-feira, 2 de junho, em Paris, um memorial dedicado às vítimas do genocídio dos Tutsi. Mais de trinta anos após os massacres que provocaram cerca de 800 mil mortos entre abril e julho de 1994 no Ruanda, este gesto prolonga uma aproximação entre os dois países que poucos consideravam possível há uma década.
Batizada «L'Archive», a obra da artista Grada Kilomba inscreve a memória do genocídio no coração da capital francesa. Erguido por iniciativa do Estado francês e da Câmara Municipal de Paris na Esplanada Habib Bourguiba, este espaço de recolhimento apresenta inscrições em francês, inglês, kinyarwanda e suaíli. Pretende ser um local de transmissão intergeracional da memória, dando continuidade ao processo memorial desenvolvido entre os dois países nos últimos anos.
Vinte e sete anos de desconfiança
O diferendo parecia durante muito tempo insolúvel. Kigali acusa a França de envolvimento antes, durante e após o genocídio, desencadeado a 7 de abril de 1994, no dia seguinte à morte do Presidente Juvénal Habyarimana. Paris negou durante anos qualquer responsabilidade e defendeu a honra dos seus militares, acusados pela justiça ruandesa. As relações diplomáticas foram interrompidas entre 2006 e 2009. Nicolas Sarkozy, primeiro Chefe de Estado francês a deslocar-se a Kigali após o genocídio, reconheceu então «graves erros», sem contudo conseguir dissipar as tensões.
O desbloqueio surgiu através da investigação histórica. Entregue em março de 2021 após dois anos de trabalho, o relatório da comissão liderada pelo historiador Vincent Duclert concluiu, ao longo de quase mil páginas, pela existência de «responsabilidades pesadas e esmagadoras» da França. A comissão, que beneficiou de um acesso sem precedentes aos arquivos do Estado, afastou, contudo, a tese de cumplicidade de Paris no genocídio.
Durante uma visita ao Ruanda dois meses depois, Emmanuel Macron deslocou-se, a 27 de maio de 2021, ao Memorial de Gisozi para reconhecer as responsabilidades do seu país, antes de nomear Antoine Anfré como embaixador em Kigali, um cargo que permanecia vago desde 2015. Em Paris, neste 2 de junho, o Presidente francês reafirmou esses compromissos e enquadrou esta abordagem num esforço memorial mais amplo, citando os casos da Argélia, dos Camarões, do Senegal e do Haiti.
Uma relação reconstruída com base em interesses partilhados
O trabalho de memória realizado pela França relativamente à sua responsabilidade no genocídio dos Tutsi serviu de base ao reforço da cooperação com Kigali. Em 2024, os dois países assinaram um acordo de parceria que prevê 400 milhões de euros em projetos de desenvolvimento ao longo de quatro anos. Através da Agência Francesa de Desenvolvimento e da Expertise France, Paris apoia a formação profissional dos jovens ruandeses, a segurança alimentar e o sistema de saúde.
Esta aproximação acompanha uma reorientação mais ampla da diplomacia africana francesa. Confrontada com uma perda de influência no seu antigo espaço francófono, a França procura reforçar a sua presença na África Oriental anglófona. O Ruanda, cuja economia cresceu 9,4% em 2025, ocupa um lugar de destaque nesta estratégia. O apoio de Paris à eleição da ruandesa Louise Mushikiwabo para a liderança da Organização Internacional da Francofonia (OIF), em 2018, já refletia essa visão. Apesar disso, as trocas comerciais permanecem modestas, tendo atingido 37,3 milhões de euros em 2024. Ainda assim, a presença francesa continua a crescer, com 45 empresas instaladas em Kigali nos setores da logística, hotelaria e tecnologias digitais no final de 2024, o dobro do registado em 2021.
Uma vertente económica ainda por consolidar
A cordialidade entre França e Ruanda continua, contudo, condicionada por um dossier importante: o papel do Ruanda na guerra que devasta o leste da República Democrática do Congo (RDC), através do apoio aos rebeldes do M23. Depois de ter exigido nas Nações Unidas, no final de 2025, a retirada das forças ruandesas do território congolês, Emmanuel Macron opôs-se, em maio de 2026, à margem da cimeira Africa Forward, em Nairobi, às sanções norte-americanas contra Kigali, considerando que a pressão externa tornaria o Ruanda menos cooperante.
Durante a inauguração do memorial em Paris, Emmanuel Macron voltou a defender o respeito por todas as soberanias na região dos Grandes Lagos. Este exercício de equilíbrio evidencia a fragilidade de uma relação bilateral que ainda necessita de ser consolidada tanto no plano diplomático como económico. O investimento direto francês no Ruanda permanece limitado, com um stock de apenas 7 milhões de euros em 2023, equivalente a 0,2% do total, muito atrás das Maurícias, do Quénia e dos Estados Unidos, principais investidores no país.
Os recursos mineiros do Ruanda, nomeadamente o estanho, o tungsténio e o tântalo, classificados pela União Europeia como minerais críticos, constituem uma via de reforço da cooperação ainda pouco explorada pelos dois países.
Emiliano Tossou













Dakar, Senegal