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Tributar o mobile money: o erro que a África está prestes a repetir Cerca de vinte países

Tributar o mobile money: o erro que a África está prestes a repetir Cerca de vinte países
Quinta-feira, 16 de Abril de 2026

Africanos instituíram taxas sobre transações de mobile money. Os dados disponíveis em 2026 apresentam um diagnóstico severo: a arrecadação é modesta, os efeitos sobre a inclusão financeira são reais, e as populações mais vulneráveis pagam a conta mais pesada.

Há algo de instrutivo na trajetória de Gana. Em maio de 2022, o governo de Accra introduziu uma taxa de 1,5% sobre transações eletrônicas, esperando obter receitas substanciais em um contexto de grave crise orçamental. O efeito foi imediato, mas contrário ao esperado: os usuários contornaram amplamente a taxa, as transações caíram e a arrecadação ficou abaixo das projeções iniciais. A taxa foi reduzida para 1% em 2023 e, depois, completamente eliminada em 2025. Três anos, duas revisões, uma abolição.

Accra não é nem a primeira nem a última a seguir esse caminho. Tanzânia, Uganda e Quênia — todos experimentaram, ajustaram e, por vezes, recuaram. Em Uganda, um estudo do Fundo de Equipamento das Nações Unidas (UNCDF) mostrou que, em quinze dias, 47% dos usuários deixaram de utilizar o serviço, e alguns segmentos de pagamentos comerciais registraram quedas de até 60% nas transações. Em vez de tirar uma lição continental, outros governos olharam para outro lado e repetiram a experiência.

É essa história que o relatório publicado em março de 2026 pela GSMA e um documento de trabalho do FMI do ano anterior contam com precisão contundente. O veredito comum merece ser lido por qualquer ministro das Finanças do continente: essas taxas arrecadam pouco, custam caro e atingem прежде os mais pobres.

Uma cacofonia fiscal no coração da UEMOA

Cerca de vinte países da África Subsaariana tinham, no terceiro trimestre de 2025, introduzido algum tipo de tributação específica sobre o mobile money. As estruturas variam enormemente: alguns taxam o valor bruto da transação, outros as taxas do operador, e outros ainda o faturamento das plataformas.

O mais alarmante é a cacofonia dentro da própria UEMOA, cuja ambição histórica é precisamente a harmonização das políticas econômicas. Benim taxa em 5% as tarifas de transação. Mali cobra 1% sobre saques desde março de 2025. A Costa do Marfim optou por tributar o faturamento dos operadores, um modelo menos visível para os usuários, mas igualmente impactante nos preços. Desde então, outros países da zona aderiram ao movimento. Nenhuma doutrina comum, nenhuma coordenação. Cada país improvisa sua própria fiscalidade sobre uma infraestrutura que, por definição, ultrapassa fronteiras nacionais.

O limite que ninguém respeita

A GSMA fez um trabalho que os ministérios das Finanças deveriam ter feito antes de legislar. Cruzando dados de preços, volumes de transações e comportamento dos usuários em cinco países, o relatório estabelece um limite analítico claro: qualquer taxa superior a 0,2% do valor da transação provoca distorções comportamentais mensuráveis e substituição pelo dinheiro em espécie. O IMF Working Paper WP/25/255 confirma essa dinâmica com dados reais. Em Camarões, os cinco primeiros meses após a introdução da taxa em 2022 foram suficientes para provocar uma queda de 40% no valor médio mensal das transações tributadas por usuário. Na República Centro-Africana, a taxa de 1% introduzida em abril de 2024 fez cair em 51% o número mensal de transações por usuário. A elasticidade-preço medida é de -2,1: quando o custo aumenta 10%, as transações caem 21%.

O International Centre for Tax and Development (ICTD), que acompanhou essas dinâmicas em sete países através do programa DIGITAX, confirma que a incidência dessas taxas é estruturalmente regressiva: as pequenas transações — típicas de famílias de baixa renda e microcomerciantes — suportam proporcionalmente uma carga muito maior do que transferências de alto valor. Ao taxar o mobile money, os Estados correm o risco não de capturar uma renda, mas de encarecer fluxos digitais que ajudavam a tornar parte da economia informal mais visível e rastreável, além de incentivar um retorno ao dinheiro em espécie.

No entanto, quase todos os países que legislaram estão bem acima desse limite de 0,2%, criando sistemas que, segundo os dados disponíveis, produzirão efeitos que seus formuladores claramente não calcularam.

A GSMA também documenta que, em todos os países estudados, as mulheres ficam entre 8 e 16 pontos percentuais atrás dos homens em termos de posse de contas de mobile money. Uma taxa que encarece o serviço reduz primeiro o acesso de quem já tem menos alternativas.

Os governos esperam arrecadar centenas de bilhões de francos CFA. Essas projeções ignoram outro dado relevante da GSMA: um aumento de 10 pontos percentuais na adoção do mobile money gera entre 0,4% e 1% adicional de PIB por ano. Frear essa dinâmica significa reduzir a base tributária futura. A receita direta pode comprometer a receita indireta — exatamente o que ocorreu na Zâmbia após dobrar sua taxa em janeiro de 2025, prejudicando suas próprias receitas de imposto sobre empresas.

Tributar o dinheiro em espécie, não o digital

A solução já foi proposta publicamente. Em Kigali, em março de 2026, o governador da BEAC, Yvon Sana Bangui, sugeriu inverter a lógica: tornar o uso de dinheiro físico mais caro para incentivar pagamentos eletrônicos, em vez do contrário. O Quênia, por sua vez, optou por digitalizar a própria arrecadação fiscal, por meio de uma plataforma pública que já coleta o equivalente a um bilhão de xelins por dia. É possível usar o mobile money para arrecadar impostos sem taxar cada transação.

A África levou vinte anos para construir algo que outras regiões do mundo ainda não conseguiram: um sistema de pagamentos popular e descentralizado, representando a maior parte das transações globais de mobile money, segundo o relatório GSMA State of the Industry 2025. O Chade quer abolir sua taxa. Gana já o fez. O Gabão a rejeitou no Parlamento. Esses recuos não são derrotas, mas sinais de lucidez tardia. Para os países que ainda hesitam, seria menos custoso tratá-los como alertas, e não como precedentes a ignorar.

Fiacre E. Kakpo

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