- O câncer de mama permanece como a principal causa de mortalidade por câncer entre as mulheres no mundo todo, com uma estimativa da OMS de 135.000 mortes até 2040 na África caso medidas não sejam tomadas.
- Novo medicamento chamado Enhertu, desenvolvido pela AstraZeneca e Daiichi Sankyo, mostrou eficácia na luta contra uma forma precoce de câncer de mama.
O câncer de mama continua sendo a principal causa de morte por câncer em mulheres ao redor do mundo. Na África, onde os sistemas de saúde estão sob pressão, a Organização Mundial da Saúde prevê que, se medidas não forem tomadas, a doença matará cerca de 135.000 mulheres até 2040. Portanto, qualquer grande avanço terapêutico justificadamente chama a atenção.
A novidade veio de Berlim, no congresso de 2025 da Sociedade Europeia de Oncologia Médica. Duas pesquisas clínicas confirmaram a eficácia de um medicamento chamado Enhertu, desenvolvido pela AstraZeneca e Daiichi Sankyo, contra uma forma precoce de câncer de mama chamada HER2-positivo. No estudo mais avançado, mais de 92% das mulheres que receberam Enhertu após uma operação ainda estavam vivas e sem recaída três anos depois. Isso representa uma redução de 53% no risco de recidiva ou morte em comparação com o tratamento atual. Um segundo estudo, desta vez realizado antes da cirurgia, mostrou uma taxa maior de desaparecimento total dos sinais clínicos do câncer do que as terapias convencionais. O termo “cura” ainda não está confirmado, mas foi mencionado como uma possibilidade. A palavra nunca é trivial no universo do câncer.
Essa melhoria terapêutica naturalmente gera esperança. No entanto, ela também ressoa com uma constatação mais silenciosa. Enquanto os países industrializados já discutem o melhor momento para administrar este tratamento de nova geração, na África Subsaariana, as mulheres continuam a descobrir sua doença tardiamente, às vezes quando ela já está metastatizada. A disparidade é crescente. E não é apenas tecnológica, mas também estrutural, política, logística e humana.
Detectar cedo, tratar rapidamente
O câncer de mama é uma doença cujas formas agressivas, especialmente HER2-positivas, progridem rapidamente. No entanto, quando detectadas cedo, as chances de sobrevivência são muito altas. Daí a importância do rastreamento, do acesso à imagem médica, da disponibilidade de tratamentos e da continuidade dos cuidados. Porém, esses pré-requisitos ainda não se encontram estabelecidos em muitos países africanos.
De acordo com um estudo da OMS citado por vários meios de comunicação em 2025, apenas cinco dos 47 países da África Subsaariana possuem programas de detecção do câncer de mama. A maioria dos estados ainda depende de rastreamentos ditos oportunistas, desencadeados pela ida espontânea das pacientes ao hospital. Em um contexto de escassez de profissionais de saúde especializados e de cobertura insuficiente em laboratórios de patologia anatomia - apenas dois países da região atendem ao requisito mínimo de um laboratório para cada 100.000 habitantes - a identificação precisa dos tumores muitas vezes permanece inacessível.
O custo da mamografia ultrapassa as capacidades financeiras de muitas famílias e, mesmo quando o diagnóstico é definido, o acesso aos tratamentos básicos não é garantido. Ainda segundo a OMS, em 2022, 16 países da África subsaariana não dispunham de nenhum equipamento de radioterapia e em 5 países não havia acesso à quimioterapia em seus sistemas de saúde. As pacientes muitas vezes têm que percorrer centenas de quilômetros, ficar na cidade para uma consulta, pagar por seus exames e, em seguida, voltar semanas depois para um tratamento que não podem mais pagar. O caminho para o tratamento é fragmentado, precário e desencorajante. Nessa realidade, a palavra "cura" não é mencionada. As lutas são frequentemente realizadas ao descoberto.
Progressos reais, mas ainda muito desiguais
No entanto, houve progressos, embora ainda tenham dificuldades para mudar o status quo em grande escala. Na última década, vários países da África Subsaariana adotaram planos nacionais de combate ao câncer. De acordo com dados do Registro Internacional de Centros de Radioterapia (DIRAC), citados pelo jornal Le Monde em um artigo de outubro de 2023, 11 novos centros foram abertos em 2022 e 2023 na África Subsaariana, elevando o número de países africanos com pelo menos uma dessas estruturas para 39.
Da mesma forma, dados compartilhados em fevereiro pelo site ONU Infos revelam que 27 países africanos têm pelo menos um centro de oncologia. A Argélia e o Quênia estão entre os mais bem equipados, com 10 ou mais centros cada, seguidos pela Nigéria, Botsuana, Gana e Etiópia. Outros países, particularmente na África Central e Ocidental, ainda não possuem esses tipos de estruturas públicas.
Essas disparidades resultam em cuidados desiguais no campo. Para as pacientes, a rota para um diagnóstico e tratamento pode ainda ser cheia de obstáculos, pois a oferta ainda está concentrada nas grandes cidades. As associações de pacientes, muitas vezes fundadas por ex-pacientes, desempenham um papel crucial no apoio logístico, psicológico e, às vezes, financeiro. No Senegal, foram tomadas medidas para melhorar o acesso aos tratamentos: desde 2019, a quimioterapia é gratuita para câncer de mama e de colo de útero. Mas, mesmo assim, muitos outros custos ainda são de responsabilidade das pacientes. Para muitas famílias, enfrentar essas despesas significa contrair dívidas, vender ativos, etc.
Iniciativas privadas também tentam reduzir as desigualdades, à sua maneira. Em agosto de 2024, o Instituto Europeu de Oncologia (IEO) foi inaugurado em Abidjan. Primeiro centro privado desse tipo na Costa do Marfim, oferece tratamentos de acordo com os padrões internacionais, a um custo declarado equivalente a um terço dos preços europeus. Equipado com um acelerador linear de partículas de última geração, o IEO afirma poder receber até 1.800 pacientes por ano. Também aposta em ferramentas de inteligência artificial e telemedicina para melhorar o acompanhamento.
A lacuna entre as promessas de progressos médicos e a realidade dos sistemas de saúde africanos levanta uma questão essencial. Se a eficácia de um tratamento como o Enhertu for confirmada nos próximos anos, quais serão os mecanismos para torná-lo acessível para os países africanos que também precisam dele? A questão dos custos é, obviamente, central. Este tipo de tratamento, derivado de biotecnologias complexas, ainda é caro. As empresas farmacêuticas, até agora, não mencionaram estratégias específicas para facilitar sua implementação fora de mercados solventes.
Além do custo, o desafio também é de infraestrutura. Um medicamento, por mais eficaz que seja, não pode fazer nada sem um sistema capaz de prescrevê-lo, monitorá-lo e administrar seus efeitos colaterais. Os efeitos colaterais do Enhertu incluem inflamações pulmonares que exigem um diagnóstico rápido. Em contextos onde uma tomografia é um luxo, isso é um problema. A luta contra o câncer não começa com um medicamento. Começa com um centro de saúde, uma consulta, uma audição, uma detecção.
O futuro dependerá de vários fatores. Primeiramente, da vontade dos estados africanos em investir de forma duradoura na prevenção, formação de profissionais, equipamento de estruturas e informação das populações. Em seguida, do compromisso das organizações internacionais em fazer do câncer uma prioridade, além das doenças infecciosas. E, finalmente, das escolhas das empresas farmacêuticas. Serão elas que decidirão se suas inovações devem continuar sendo privilégio dos países do Norte ou se existe um caminho, mesmo que progressivo, para a disponibilidade mundial.
O que o anúncio sobre a Enhertu revela, além da promessa que carrega, é também o risco de uma maior fratura médica. A boa notícia é que vidas poderão ser salvas. A má notícia é que elas não serão salvas ao mesmo ritmo. A palavra "esperança" também é pronunciada, mas ainda não carrega em todos os lugares as mesmas chances de se concretizar.
Louis-Nino Kansoun












