Há alguns meses, os preços do cacau estão em forte queda em relação ao pico alcançado em 2024. Essa situação está abalando todos os atores da cadeia de valor global, desde os produtores até os comerciantes e os transformadores.
E se a atual crise dos preços do cacau fosse apenas o início de uma nova fase destinada a durar? Essa é, pelo menos, a visão de Edward George, consultor independente e fundador da empresa Kleos Advisory, ativa nos mercados de matérias-primas agrícolas na África.
Desde o recorde alcançado em Nova York em dezembro de 2024 — 12.906 dólares por tonelada —, as cotações globais sofreram uma forte correção e agora giram em torno de 3.000 dólares por tonelada, com repercussões importantes nos sistemas de comercialização da Côte d’Ivoire e de Ghana, os dois maiores produtores mundiais.
Enquanto nos dois países as autoridades reduziram significativamente os preços pagos aos produtores (57% na Costa do Marfim e 28,6% em Gana) para tentar relançar as compras de grãos acumulados nas zonas de produção, o especialista acredita que essa crise está longe de terminar.
“O mercado do cacau entrou claramente em um novo ciclo. No ano passado, os grãos eram escassos. Hoje há muito cacau disponível no mercado. Não é a primeira vez que observamos isso. Já vimos situações semelhantes em ciclos de cerca de 10 a 15 anos. Infelizmente, a história se repete, desta vez com um impacto muito pesado”, explica Edward George.
Além da dolorosa correção dos preços ligada a uma maior disponibilidade da oferta, o analista ressalta que essa inversão do ciclo também se traduz por um enfraquecimento da demanda, especialmente nas grandes regiões consumidoras.
“Observa-se uma queda clara na moagem e no uso do cacau na Europa, na América do Norte e na Ásia”, afirma, apontando um duplo efeito.
“As indústrias de chocolate utilizam menos cacau e procuram formulações alternativas, enquanto a crise do custo de vida leva as famílias a reduzir a compra de confeitos e a frequentar menos restaurantes. Se olharmos as últimas estimativas de mercado, agora se prevê um excedente mundial de cerca de 200.000 toneladas, ou até mais.”
“Precisamos de mudanças estruturais”
Embora atualmente as cadeias produtivas em Gana e na Costa do Marfim tenham recuperado algum fôlego, o especialista destaca que ajustes de curto prazo não serão suficientes para lidar com essa nova dinâmica do mercado.
Em Gana, as autoridades já estudam um novo modelo de financiamento baseado em títulos domésticos lastreados em cacau e anunciaram a meta de transformar metade da colheita até a safra 2026/2027.
“A implementação de um novo sistema de financiamento dependerá da posição do banco central, do Ministério das Finanças e do Parlamento. Há também um histórico de captações anteriores mal geridas, o que torna os mercados cautelosos”, alerta.
De forma mais ampla, ele considera que a governança do setor do cacau precisa ser repensada, não apenas em Gana e na Costa do Marfim, mas também em Cameroun e Nigeria, onde os mercados são mais liberalizados, caso esses países queiram resistir melhor a choques futuros.
“Precisamos de uma transformação estrutural”, insiste, antes de destacar os potenciais benefícios de uma Bolsa africana de cacau (AfCX).
Segundo ele, o projeto da International Cocoa Organization de criar uma Bolsa africana do cacau poderia desempenhar um papel fundamental, permitindo que o preço pago aos produtores reflita melhor as condições dos mercados locais.
“Gana e Costa do Marfim falam muito da necessidade de reforçar a transformação local e, também nesse caso, uma bolsa poderia ser decisiva. Os transformadores poderiam recorrer à plataforma para se abastecer de grãos quando não conseguem obtê-los pelas cadeias tradicionais de fornecimento, dominadas pelas casas de comércio e pelas multinacionais do chocolate.”
Espoir Olodo.













Bamako