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Sous rubrique: reflexão
Por Diaka Camara, jornalista, produtora e fundadora da agência CBC Worldwide Com & Prod, presidente da Fundação Diaka Camara.
Ainda me lembro daquele momento, em 2011, quando voltei à Guiné após anos nos Estados Unidos. Na minha bagagem: um diploma em jornalismo pela Universidade de Houston, referências e experiências acumuladas, e uma convicção um pouco ousada: a Guiné tinha histórias para contar ao mundo. Histórias que mereciam uma câmera, um roteiro e uma difusão internacional. Muitos me disseram que era cedo demais, que o mercado não estava pronto. Ainda assim, lancei a CBC Worldwide.
“Ainda assim, lancei a CBC Worldwide.”
E hoje, mais de dez anos depois, não digo isso para me elogiar. Digo porque o que construímos — programas de sucesso, a primeira reality show da África Ocidental francófona, documentários transmitidos na Africa 24, parcerias com UNICEF, Canal+ e UNESCO — não surgiu sozinho. Isso exigiu construir pedra por pedra, criando coletivamente uma infraestrutura sólida para a indústria cultural guineense. É exatamente disso que quero falar aqui.
Um país rico pelos seus criadores
A Guiné transborda talento. Seus músicos, cineastas emergentes, empreendedores criativos e uma juventude conectada e ambiciosa constituem um capital humano excepcional. Conacri vibra. As ideias florescem. A energia é palpável e contagiante. E é essa energia — que vi com meus próprios olhos desde que voltei — que me convence de que o país está pronto para a próxima etapa.
O que aprendi ao longo desses anos é que talento, por si só, não basta para construir uma indústria. Ele precisa de um quadro. Não para restringir, mas para amplificar. O talento guineense merece ser visto, distribuído e reconhecido, não apenas localmente, mas internacionalmente.
“A Guiné tem histórias para contar ao mundo. Agora, é preciso dar-lhes o palco que merecem.”
O que a África nos ensina
Em todo o continente, as indústrias criativas ocupam um lugar estratégico nas economias nacionais. Na Nigéria, Nollywood tornou-se hoje uma economia completa, geradora de divisas, empregos e influência diplomática. No Marrocos e em Ruanda, comissões nacionais de cinema atraem produções internacionais, injetando milhões de dólares nas economias locais.
Esses países entenderam algo essencial: a cultura não é um setor secundário. É um vetor de atração, imagem e investimento. A Guiné possui todos os ingredientes para escrever sua própria versão desse sucesso. Sua música brilha muito além das fronteiras. Sua diáspora está engajada. E sinais recentes — o crescente interesse de atores estrangeiros do cinema e da mídia por Conacri — confirmam que a curiosidade existe. Agora, é necessário transformar essa curiosidade em parcerias duradouras.
Simandou 2040: quando a visão nacional valoriza a cultura
Há um sinal político importante que quero destacar, que muda profundamente o jogo para nossa indústria criativa: o programa Simandou 2040, promovido por Sua Excelência o Presidente da República, Mamadi Doumbouya.
Se Simandou é naturalmente associado à exploração do maior depósito de minério de ferro não explorado do mundo, o que chama minha atenção como protagonista da indústria cultural é seu segundo pilar: o destaque da cultura guineense no cenário internacional.
É um sinal raro, e é preciso compreender toda a sua dimensão. Raramente na história recente da Guiné, uma visão de desenvolvimento nacional conferiu explicitamente à cultura o status de alavanca estratégica, ao mesmo nível das minas, infraestruturas ou governança.
Isso significa que o destaque da música guineense, do cinema emergente, do artesanato, do patrimônio imaterial e das indústrias criativas não é mais uma ambição de alguns empreendedores isolados. Agora é uma prioridade do Estado.
E esse reconhecimento muda tudo: abre portas para financiamentos públicos estruturados, parcerias diplomáticas baseadas na cultura e uma estratégia de soft power coerente e assumida.
M. Djiba Diakité, Ministro Diretor de Gabinete da Presidência da República da Guiné e Presidente do Comité Estratégico de Simandou. Diaka Camara, CEO da CBC Worldwide Com&Prod e Presidente da Fundação Diaka Camara
Para quem, como eu, passou anos a convencer investidores, parceiros e instituições de que a cultura guineense era um mercado sério, essa orientação do programa Simandou 2040 é uma validação. Mas é também uma responsabilidade coletiva.
Porque uma visão presidencial só produz efeito se os atores do setor — produtores, criadores, empreendedores e instituições — se mobilizarem para transformá-la em projetos concretos, parcerias duradouras e resultados visíveis.
“Quando o chefe de Estado faz da cultura um pilar do desenvolvimento nacional, cabe a nós, atores do setor, estar à altura dessa ambição.”
Próximas etapas
O que chamo de “estruturar” é concreto.
É um quadro regulatório claro para a produção audiovisual, que protege coproduções locais e internacionais.
São mecanismos de financiamento adaptados — fundos setoriais, incentivos fiscais e garantias — que permitem a um produtor guineense desenvolver projetos ambiciosos.
São parcerias público-privadas que se traduzem em infraestruturas reais: estúdios, formação técnica e plataformas de distribuição.
E é uma estratégia de atração para filmagens estrangeiras, pois cada equipe internacional que grava na Guiné traz visibilidade, formação e divisas.
Nesse contexto, o programa Simandou 2040 pode desempenhar um papel catalisador decisivo: direcionando parte dos retornos econômicos do projeto mineiro para o financiamento das indústrias criativas, apoiando a criação de um fundo nacional da cultura e associando os objetivos de projeção internacional a indicadores mensuráveis, como número de coproduções, presença em festivais internacionais e exportação de conteúdos guineenses em plataformas globais.
Esses projetos não são utópicos. São a próxima etapa lógica de um movimento já iniciado, conduzido por empreendedores, artistas e instituições que acreditam neste país, e agora apoiado por uma vontade política ao mais alto nível do Estado.
O soft power se constrói
Coloquei a minha imagem em campanhas contra a excisão, contra o Ebola, pelo empoderamento das mulheres, não por cálculo, mas porque acredito profundamente que os media e a cultura carregam uma responsabilidade social.
“Porque acredito profundamente que os media e a cultura carregam uma responsabilidade social.”
E, em troca, vi como um conteúdo bem elaborado pode mudar perceções, abrir debates e alterar normas. Essa é a força de uma indústria cultural viva.
O soft power de um país não se decreta. Constrói-se, com método e consistência.
Hoje, a Guiné tem uma janela aberta: uma geração criativa impaciente, instituições que querem falar de imagem e atratividade, investidores da diáspora e do continente que procuram terrenos sérios.
E hoje, tem algo a mais: uma visão nacional que coloca a cultura no coração do projeto de desenvolvimento.
Não podemos perder este momento. Não reinventando tudo, mas consolidando o que existe, profissionalizando o que ainda está em germinação e dando uma dimensão económica a uma energia criativa que já transborda.
O futuro cultural da Guiné é uma decisão estratégica. E esta decisão, se tomada em conjunto — empreendedores, criadores, Estado e parceiros —, pode tornar-se um verdadeiro motor de desenvolvimento sustentável.
Diaka Camara é jornalista, produtora e fundadora da CBC Worldwide, a primeira agência de produção audiovisual na Guiné. Fundadora da Fundação Diaka Camara para a Educação e Empoderamento das Mulheres. Outstanding Global Leader — Congresso dos Estados Unidos.













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