A COP30 confirma a exclusão do continente africano nas decisões importantes sobre o clima.
A África, assumindo um papel passivo, está pagando o preço dos impactos da crise climática intensificada pelo Norte
Todos os anos é a mesma cena. Líderes mundiais se reúnem, multiplicam promessas e elevam a moral, enquanto a África sai de mãos vazias. Este ritual dos COPs se transformou em farsa. Os ricos falam, os pobres escutam. Os ricos poluem, os pobres pagam. A crise climática continua piorando sob a verniz dos discursos. A COP30, que acaba de abrir em Belém, no Brasil, não será exceção. Vai confirmar, mais uma vez, a exclusão do continente africano das decisões reais.
Depois do COP29 em Baku, ninguém pode acreditar que as negociações climáticas globais servem os interesses africanos. Apresentada como a "COP das finanças", deveria ter permitido compromissos fortes para os países do Sul, principalmente estabelecendo uma nova meta de financiamento climático para substituir a meta de 100 bilhões de dólares por ano, que ainda fica muito abaixo das necessidades reais. Terminou com um acordo tão fraco que é quase uma caricatura. A promessa de pelo menos 300 bilhões de dólares por ano até 2035 para todos os países em desenvolvimento foi apresentada como uma vitória. Na verdade, foi uma maneira gentil de dizer à África: fique com o que lhe damos e se contente com isso.
Lembremos que os negociadores africanos pediram 1,3 trilhão de dólares por ano, um valor considerado necessário pelos especialistas das Nações Unidas para alcançar os objetivos do Acordo de Paris.
Empréstimos, não reparos
O problema não é apenas a quantidade. É a própria natureza desses financiamentos. A África já gasta cerca de 163 bilhões de dólares por ano com o serviço da dívida, muitas vezes para os mesmos credores que agora dizem ser solidários ao clima. Corrigida por uma inflação média de 5% ao ano, a promessa de 300 bilhões até 2035 valerá pouco mais de 175 bilhões em valor real, de acordo com uma análise de Kudakwashe Manjonjo, pesquisador no Southern Centre for Inequality Studies da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul.
Sob o pretexto de financiamento climático, eles propõem empréstimos disfarçados de ajuda. O princípio de responsabilidades comuns, mas diferenciadas, inscrito na Convenção Climática de 1992, foi esvaziado de todo o sentido. Em vez de compensar suas emissões históricas, os países desenvolvidos empurram a África para uma nova endividamento. Como denunciou a Aliança Panafricana para a Justiça Climática em novembro de 2024, "o clima tornou-se uma nova fonte de endividamento".
Essa hipocrisia é ainda mais flagrante em Baku, onde quase 2.000 lobistas de indústrias de combustíveis fósseis foram credenciados, alguns até mesmo conseguindo acesso aos mais altos níveis de reuniões bilaterais e multilaterais. O Azerbaijão, país orgulhosamente petrolífero, presidiu a conferência comemorando os avanços nos mercados de carbono. Esses mercados, supostamente destinados a reduzir as emissões, servem principalmente para permitir que os poluidores comprem sua tranquilidade "compensando" suas emissões... na África. O continente se torna assim o depósito moral do Norte.
África, refém de um sistema rígido
As reações africanas após o COP29 foram extremamente frias. Ali Mohamed, representante do grupo de negociadores africanos, falou de um acordo "muito fraco, muito tardio e muito ambíguo". Mohamed Adow, da Power Shift Africa, denunciou a "grande fuga" organizada pelo mundo rico. E Faten Aggad, do think tank African Future Policies Hub, resumiu o sentimento geral: "Nenhum acordo é melhor do que um acordo onde os países africanos não têm fundos reais para se adaptar à mudança climática".
As consequências já são visíveis. Por falta de recursos para financiar suas transições, os países africanos estão se voltando cada vez mais para os combustíveis fósseis. O Senegal e Uganda estão explorando seus campos petrolíferos, outros estão apostando no gás ou no carvão. E enquanto o Ocidente os repreende por sua falta de coerência climática, continua subsidiando seus próprios hidrocarbonetos.
Com a COP30, o cenário já está escrito. O cenário amazônico oferecerá belas imagens, discursos sobre justiça climática, promessas de solidariedade. Mas sem a reforma do sistema, nada mudará. Enquanto o financiamento permanecer como empréstimos, enquanto as promessas não forem acompanhadas de um verdadeiro mecanismo de reparação, a África continuará sendo uma espectadora de um teatro diplomático do qual não controla nem o texto nem os atores.
Além disso, o problema não é apenas financeiro. É estrutural. O processo da COP é dominado por um pequeno número de potências industrializadas, enquanto os 54 países africanos lutam para fazer ouvir a sua voz. As decisões são tomadas a portas fechadas, a sociedade civil do Sul é marginalizada, e as grandes empresas do Norte ditam as regras.
Se o Brasil quiser dar à COP30 um alcance histórico, terá de romper com esse modelo. A Amazônia e o Congo são os dois pulmões do planeta. Eles deveriam ser a base de uma aliança Sul-Sul baseada em soberania e não em caridade. Mas isso exige uma verdadeira vontade política, não apenas uma encenação.
Para a África, o caminho para Belém é pavimentado com promessas não cumpridas. Mais uma maneira de adiar as verdadeiras decisões por mais um ano. Enquanto isso, as comunidades africanas estão pagando o preço mais alto.
No entanto, há ainda uma alavanca. A África detém minerais estratégicos: cobalto, lítio, grafite, dos quais o Norte precisa para construir sua economia verde. O continente deveria usá-los como ferramenta de negociação. Sem financiamento justo, sem minerais. Isso não é chantagem, é justiça. A transição energética não pode se basear na exploração daqueles que já estão sofrendo seus efeitos.
Em última análise, a COP30 dirá se o sistema global ainda pode se reformar ou se está condenado a repetir seus fracassos. Por enquanto, os fatos são claros. Os poderosos continuam a se aproveitar, os pobres continuam a pagar.
E quando as luzes se apagarem em Belém, a África será novamente informada para esperar a próxima promessa, o próximo roteiro, a próxima ilusão. Mas ela não tem mais tempo. A injustiça climática não é uma ameaça futura, é uma realidade. Aqui. Agora.
Olivier de Souza
Spark+ Africa Fund, gerido pela Enabling Qapital, anuncia financiamento de US$ 6,4 milhões para o Baobab Group Côte d'Ivoire, a maior instituição de microfinanças do país.
A linha de crédito de impacto permitirá ao Baobab ampliar seus empréstimos para gás de petróleo liquefeito (GPL) e outras soluções de cozinha limpa para seus clientes.
Enquanto a Côte d'Ivoire busca expandir o acesso à cozinha limpa, o Spark+ Africa Fund aposta no microcrédito para acelerar essa mudança. Sua recente parceria com a Baobab ilustra a crescente relevância de soluções inclusivas e acessíveis para a transição energética.
O Spark+ Africa Fund, administrado pela Enabling Qapital, anunciou nesta terça-feira, 11 de novembro, um financiamento de US$ 6,4 milhões para o Baobab Group Côte d'Ivoire, a maior instituição de microfinanças do país, regulamentada e habilitada para receber depósitos. Essa linha de crédito de impacto permitirá ao Baobab ampliar seus empréstimos dedicados ao gás de petróleo liquefeito (GPL) e outras soluções de cozinha limpa para seus clientes.
Esse novo compromisso faz parte de uma série de operações recentes realizadas pela Spark+ para apoiar a transição energética em vários países africanos. Em agosto de 2025, o fundo concedeu US$ 1,23 milhão à Henos Energy em Gana para fortalecer a distribuição de GPL para residências e instituições. Algumas semanas antes, apoiou um projeto conjunto com a Envirofit para a comercialização dos primeiros créditos de carbono negociáveis ligados à distribuição de fogões melhorados em Gana. Em novembro de 2024, a Spark+ também liberou US$ 3 milhões para o Altech Group na República Democrática do Congo para expandir a produção local de fogões melhorados.
Na Côte d'Ivoire, essa operação está em linha com a implementação do Pacto Nacional de Energia, pelo qual o governo se comprometeu a aumentar o acesso às soluções de cozinha limpa para 50%, ante 20% atualmente. Essa meta deve permitir que 2,4 milhões de famílias adicionais adotem alternativas energéticas mais limpas e seguras.
O país também está apostando na distribuição de fogões aprimorados, como as 300 mil unidades distribuídas desde 2021 como parte do projeto Baleine, liderado pela ENI, ao mesmo tempo em que busca superar as barreiras econômicas e culturais que ainda impedem a adesão.
Combinando a microfinança local com o financiamento climático, a Spark+ explora um novo caminho para articular a inclusão financeira e a transição energética. Se o experimento na Côte d'Ivoire for bem-sucedido, esse modelo poderia inspirar outros países da África Ocidental, onde o acesso à cozinha limpa continua sendo um grande desafio.
Abdoullah Diop
Na próxima terça-feira, espera-se que Adis Abeba seja oficialmente designada como a cidade anfitriã da COP32, planejada para 2027. A informação foi divulgada pela Reuters, que atribui a informação a André Corrêa do Lago, atual presidente da COP30 em Belém, Brasil.
A candidatura da Etiópia, apresentada em setembro passado, concorre com a da Nigéria. Caso bem-sucedida, e com forte apoio da África, marcaria o retorno do continente ao centro do palco da política climática global, cinco anos após a COP27 realizada em Charm el-Cheikh, no Egito.
Para Adis Abeba, essa designação teria um forte simbolismo. Capital da União Africana e da Comissão Econômica para a África das Nações Unidas, a cidade já é um centro crucial para grandes negociações internacionais. A Etiópia espera agora transformar esse papel diplomático em influência ambiental.
As autoridades etíopes têm orgulho de uma estratégia nacional baseada em crescimento verde e resiliência climática. O país, que obtém mais de 90% de sua eletricidade de fontes renováveis, tem como objetivo se tornar um modelo africano de transição energética. Espera-se aproveitar a COP para atrair financiamento internacional, fortalecer parcerias público-privadas e acelerar a adaptação às secas recorrentes.
A África, responsável por menos de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa, ainda é a região mais vulnerável aos efeitos do aquecimento global, incluindo secas, insegurança alimentar e pressões sobre recursos naturais. Com a rara oportunidade de sediar a COP, o continente pode aproveitar a chance de afirmar suas próprias prioridades: adaptação, resiliência, financiamento justo e o papel da juventude e das terras africanas na transição verde.
Vale notar que a definição do anfitrião da futura COP32 ocorre em um momento em que o organizador da COP31 em 2026 ainda é incerto. A Austrália e a Turquia ainda disputam essa posição, e em caso de um desacordo prolongado, a COP pode ser realocada para Bonn, na Alemanha, sede do secretariado da Convenção do Clima.
Fiacre E. Kakpo
Investimento de 60 milhões de dólares liderado pela gestora de fundos sul-africana Inspired Evolution, com a participação das instituições de financiamento do desenvolvimento FMO e Swedfund.
Financiamento apoia a expansão do Sedgeley Solar Group (SSG), plataforma dedicada à energia solar descentralizada para os setores comercial e industrial.
O crescimento da energia solar descentralizada abre caminho para uma nova etapa na transição energética favorável ao desenvolvimento do setor comercial e industrial na África, apoiada por atores nacionais e internacionais.
A gestora de fundos sul-africana Inspired Evolution, através do seu fundo Evolution III, liderou um investimento de 60 milhões de dólares em conjunto com as instituições de financiamento do desenvolvimento FMO e Swedfund. Este financiamento apoia a expansão do Sedgeley Solar Group (SSG), uma plataforma regional voltada para energia solar descentralizada para os setores comercial e industrial. O anúncio foi feito na segunda-feira, 10 de novembro.
A operação, estruturada em patrimônio líquido, inclui 30 milhões de dólares trazidos pela Inspired Evolution, 20,35 milhões de dólares pela FMO e uma contribuição adicional da Swedfund. Ela marca uma nova etapa no desenvolvimento de soluções descentralizadas de energia limpa para o setor privado na África Austral.
Resultado da fusão da SolarSaver e Sedgeley, o SSG reúne um portfólio de mais de 700 instalações de energia solar e armazenamento, totalizando 140 MW, e uma reconhecida expertise em engenharia, construção e operação. Já presente na África do Sul, Namíbia, Botswana e Zâmbia, a SSG pretende reforçar suas operações nestes mercados, aumentando a capacidade de suas instalações solares e de armazenamento. A empresa visa clientes que enfrentam falta de energia e aumento de custos energéticos, garantindo-lhes um fornecimento de energia mais estável e competitivo.
Para a FMO, a operação está inserida numa estratégia de investimento "100% verde" que visa reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Swedfund reiterou que o acesso a energia estável é essencial para a competitividade e resiliência climática das empresas locais. Ambas as instituições, já muito ativas no continente, reforçam assim o seu apoio à produção de energia limpa.
Criado em 2022, o fundo Evolution III finalizou em março de 2025 o seu fechamento com 238 milhões de dólares levantados de 19 investidores. O fundo tem como alvo as infraestruturas de energia sustentável, projetos solares conectados ou fora da rede e empresas de tecnologia ativas na eficiência energética.
É neste contexto que a transação vem consolidar o papel crescente do capital no processo de modernização do sistema energético africano, onde as necessidades do setor produtivo ainda ultrapassam as capacidades existentes, ainda marcadas por limites de confiabilidade.
Abdoullah Diop
BERD investe mais 40 milhões de dólares na Infinity Power para apoiar o desenvolvimento de novas capacidades solares e eólicas.
Atração de fundos eleva o compromisso total do BERD para 141,5 milhões de dólares, contra 101,5 milhões anteriormente.
Perante o déficit energético de vários países africanos, que estão apostando na exploração de seu potencial em energia renovável, o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) reforça seu apoio à Infinity para fomentar o desenvolvimento de novas capacidades solares e eólicas no continente.
O BERD anunciou em 10 de novembro um novo investimento de 40 milhões de dólares em capital próprio no desenvolvedor Infinity, um ator importante no setor de energia renovável no Egito.
Este financiamento eleva o compromisso total do BERD para 141,5 milhões de dólares, contra 101,5 milhões anteriormente. O objetivo é apoiar a Infinity Power, uma joint venture entre a Infinity e o grupo emirati Masdar, no desdobramento de novas capacidades solares e eólicas em vários mercados africanos.
"Este apoio renovado do BERD enfatiza a nossa visão comum de um futuro sustentável e de alto crescimento para o Egito e a África", declarou Mohamed Ismail Mansour, presidente da Infinity Power.
Por sua vez, Harry Boyd-Carpenter, diretor-geral do grupo Infra-estruturas Sustentáveis do BERD, disse que além do Egito, "este novo investimento marca um passo emocionante na expansão da presença da Infinity na África, onde eles veem um enorme potencial para o desenvolvimento da produção de energia solar e eólica".
No início de novembro de 2025, a Infinity assinou com a Hassan Allam Utilities acordos com o governo egípcio para desenvolver 1200 MW de projetos solares com armazenamento, menos de três meses após ter atingido o fechamento financeiro de seu projeto eólico de 200 MW em Ras Ghareb. A empresa também ganhou em dezembro de 2024 1280 MW de projetos solares dentro do Programa de Aquisição de Produtores Independentes de Energia Renovável da África do Sul, depois de ter assinado no mesmo ano um protocolo de entendimento com o governo de Serra Leoa para desenvolver 1 GW de projetos de energia renovável até 2033.
Esta trajetória dinâmica reforça a posição da empresa, que dispõe de mais de 1,3 GW de projetos solares e eólicos em operação no continente e de um portfólio de desenvolvimento de cerca de 3 GW. Este dinamismo é apoiado pela BERD, que desde 2012 investiu mais de 13,5 bilhões de euros (15,6 bilhões de dólares) em 207 projetos no Egito.
Abdoullah Diop
A Nigéria tem um enorme potencial em energias renováveis, ainda largamente inexplorado. O país tem multiplicado iniciativas e parcerias, com o objetivo de atingir a neutralidade carbono até 2060.
A Alemanha concedeu um financiamento de 21 milhões de euros ($24,28 milhões) à Nigéria para apoiar a transição energética e fortalecer suas capacidades no setor de energias limpas, de acordo com um comunicado da presidência nigeriana publicado no sábado, 8 de novembro de 2025.
Este financiamento inclui 9 milhões de euros destinados ao Programa de Apoio à Energia na Nigéria (NESP) e 12 milhões para o recém-criado Fundo de Transição Energética (ETCF). O valor será usado para desenvolver energias renováveis, melhorar a eficiência energética e promover a transição para um modelo de baixa emissão de carbono.
O ministro da Energia nigeriano, Adebayo Adelabu, elogiou o acordo, destacando que ele marca "a mudança do diálogo para uma assistência técnica concreta", estabelecendo assim as bases para um ecossistema que favoreça o crescimento energético sustentável.
Segundo o Parlamento Climático, a Nigéria tem um enorme potencial em energias renováveis - solar, eólica, hidrelétrica e biomassa - que ainda está amplamente inexplorado. O desenvolvimento do setor é prejudicado por falta de investimentos, infraestruturas elétricas insuficientes e procedimentos regulatórios particularmente complexos.
Para aproveitar seu potencial energético, a Comissão de Energia da Nigéria (ECN) assinou em outubro de 2025 um memorando de entendimento com a empresa londrina UNIDACO Limited para um investimento de 100 milhões de euros destinado à transição energética. Paralelamente, uma subvenção de 20 milhões de euros financiada pelo Banco de Desenvolvimento KfW e o Fundo para Desafio Empresarial Africano apoia o desenvolvimento de energias renováveis e competências locais.
Vale ressaltar que a Nigéria tem como meta atingir a neutralidade carbono até 2060. Para isso, o governo implementou o "Plano de Transição Energética" (ETP), que estabelece um cronograma e um quadro para reduzir as emissões em cinco setores chave: energia, culinária, petróleo e gás, transporte e indústria.
Ingrid Haffiny (estagiária)|
Etiópia acelera transição para biocombustíveis nos transportes, determinando mandatos obrigatórios de mistura até 2035
Vários centenas de milhões de dólares serão necessários para o desenvolvimento de capacidades industriais locais
A Etiópia está acelerando sua transição energética. Em outubro de 2025, o país iniciou a construção de sua primeira refinaria e ampliou a proibição de importação de veículos a diesel e gasolina para caminhões.
O Ministério da Água e Energia da Etiópia (MoWE) anunciou a instauração de mandatos obrigatórios de mistura de biocombustíveis que abrangem os combustíveis rodoviários (etanol/gasolina, biodiesel/diesel) e de aviação (SAF) até 2035.
A medida, divulgada na segunda-feira, 3 de novembro de 2025, baseia-se na estratégia nacional revisada de biocombustíveis formulada em junho de 2025 com o apoio da Roundtable on Sustainable Biomaterials (RSB), sob os auspícios do Ministério da Água e Energia. Ela visa reduzir a dependência do país das importações de hidrocarbonetos, estabelecer uma produção local e estipular metas diferenciadas por setor (etanol, biodiesel, SAF).
Essa orientação envolve a mobilização de várias centenas de milhões de dólares em investimentos para desenvolver capacidades industriais locais. Segundo o estudo "Fueling Africa's Flight", publicado em junho de 2025 pelo Banco Mundial, a implementação da estratégia exigirá a criação de unidades industriais capazes de converter melaço e outros resíduos agrícolas em combustíveis líquidos. Uma instalação de conversão de álcool em querosene (ATJ) de 2.000 b/d representaria um investimento de $376 milhões de dólares, cobrindo aproximadamente 6% da demanda nacional de querosene.
O mesmo relatório identifica ainda setores de valorização dos resíduos municipais em combustíveis líquidos pelo processo Fischer-Tropsch (MSW-FT), exigindo cerca de $547 milhões de dólares em investimentos para uma capacidade comparável.
Paralelamente, o plano do ministério etíope prevê a reabilitação das destilarias de etanol associadas às usinas de açúcar públicas e a criação de novas instalações. O objetivo é aumentar a produção nacional de etanol como combustível e permitir taxas de mistura de 10 a 20% na gasolina usada para o transporte rodoviário.
Essas necessidades de investimento coincidem com um desafio externo tangível. Segundo o relatório anual 2022/2023 do Banco Nacional da Etiópia (NBE), a fatura das importações de combustíveis aumentou 14,6%, atingindo $4 bilhões de dólares, representando 23,1% do total de importações de mercadorias ($17,15 bilhões de dólares). Esse custo em moeda estrangeira afeta diretamente o saldo da balança de pagamentos e evidencia a dependência energética do país.
O futuro da estratégia de biocombustíveis da Etiópia depende da capacidade do país de mobilizar seus parceiros financeiros. Segundo a RSB, o governo está considerando a criação de um fundo nacional para biocombustíveis com o objetivo de atrair capital privado.
Abdel-Latif Boureima
A Tunísia e o Marrocos são os países africanos mais competitivos nas cadeias de valor verde, de acordo com um ranking publicado pelo think tank The Growth Lab, vinculado à Harvard Kennedy School.
O "Greenplexity Index" avalia a competitividade de 145 países no setor da energia verde, com base na diversidade e sofisticação de suas entradas e tecnologias essenciais para a transição energética mundial.
Os países africanos mais competitivos nas cadeias de valor verde são a Tunísia e o Marrocos, de acordo com um ranking publicado na quarta-feira, 5 de novembro, pelo The Growth Lab, um think tank vinculado à Harvard Kennedy School (Universidade de Harvard).
O "Greenplexity Index" mede a extensão e a complexidade da participação de 145 países do mundo nas cadeias de valor verde, ou seja, nas tecnologias, minerais e insumos que estão no centro da transição energética mundial, com base em dados de 2023. A metodologia usada é baseada nos mesmos princípios do Índice de Complexidade Econômica do Growth Lab, que avalia a diversidade e a sofisticação das capacidades de produção dos países examinando suas cestas de exportações. Esses princípios são aplicados especificamente às indústrias cruciais para a transição energética, tais como aquelas relacionadas à extração e processamento de minerais críticos e à produção de tecnologias e insumos essenciais para a transição energética mundial.
Assim, o Greenplexity Index mede a presença competitiva de um país nas cadeias de valor verde, avaliando tanto a extensão (número e diversidade de produtos verdes nos quais um país é competitivo) quanto a profundidade (complexidade desses produtos verdes, sugerindo um grau mais alto de sofisticação tecnológica e know-how). E é por isso que os países que produzem minerais críticos brutos sem ter capacidades de transformação e fabricação de produtos semi-acabados e acabados estão no final da lista.
Em geral, os países podem melhorar sua pontuação fabricando produtos mais numerosos, mais variados e mais complexos que têm a particularidade de alimentar a corrida mundial para a descarbonização.
"Os países que têm uma presença complexa e diversificada nas cadeias de valor verde têm a capacidade de crescer em um mundo em processo de descarbonização. O índice Greenplexity mostra quem está pronto para tomar a frente e quem precisa agir rapidamente para recuperar o atraso se quiser aproveitar essa oportunidade de crescimento", explicou Ricardo Hausmann, diretor do Growth Lab e professor na Harvard Kennedy School.
A Tunísia ocupa o 33º lugar no ranking mundial, graças à competitividade de seus clusters industriais especializados nas áreas de equipamentos elétricos e sistemas de controle (cabos elétricos isolados, transformadores, fibra de vidro, conversores de potência), motores industriais, polímeros técnicos, fibras sintéticas e metais semi-acabados como placas de alumínio e barras de níquel.
O Marrocos (58º no ranking mundial) ocupa a segunda posição na escala africana, à frente do Egito (64º), Mauritânia (67º), África do Sul (69º), Eswatini (76º), Togo (78º), Benin (79º) e Burkina Faso (87º). O Chade (89º no ranking mundial) fecha o top 10 africano.
Em escala global, o Japão é o país com a participação mais extensa e complexa nas cadeias de valor verde. Seguido pela Alemanha, República Checa, França e China.
Walid Kéfi
Ranking dos países africanos mais competitivos nas cadeias de valor verde:
1-Tunísia (33º lugar a nível mundial)
2-Marrocos (58º)
3-Egito (64º)
4-Maurícia (67º)
5-África do Sul (69º)
6-Eswatini (76º)
7-Togo (78º)
8-Benin (79º)
9-Burkina Faso (87º)
10-Chade (89º)
11-Níger (91º)
12-Guiné Equatorial (92º)
13-Malawi (97º)
14-Angola (101º)
15-Mauritânia (102º)
16-Argélia (103º)
17-Botswana (105º)
18-Mali (107º)
19-Uganda (108º)
20-Liberia (109º)
21-Gabão (110º)
22-Camarões (111º)
23-Kenya (112º)
24-Etiópia (113º)
25-Sudão (114º)
26-Costa do Marfim (118º)
27-Guiné (119º)
28-Líbia (120º)
29-Gana (123º)
30-Senegal (124º)
31-Ruanda (125º)
32-República do Congo (127º)
33-Zimbábue (130º)
34-Moçambique (135º)
35-Zâmbia (137º)
36-Madagascar (139º)
37-Namíbia (141º)
38-Nigéria (143º)
39-Tanzânia (144º)
40-República Democrática do Congo (145º)
Necessidades energéticas africanas crescem mais rápido que a infraestrutura disponível; abordagens híbridas e temporárias mudam a forma de produzir e distribuir eletricidade.
Diretor da Release by Scatec defende soluções acessíveis e modulares de energia solar, podendo economizar até US$ 10 milhões anuais por projeto, ao reduzir importações de combustível e emissões de gases do efeito estufa.
À medida que as necessidades energéticas africanas crescem mais rápido que as infraestruturas disponíveis, abordagens híbridas e temporárias estão redefinindo a maneira de produzir e distribuir eletricidade.
Em uma entrevista concedida à Sociedade Financeira Internacional (SFI) no final de outubro, Hans Olav Kvalvaag, diretor geral da Release by Scatec, subsidiária do grupo norueguês Scatec, apresentou uma abordagem pragmática para a transição energética na África, baseada em soluções solares modulares e acessíveis. Com o apoio da SFI, da MIGA e dos gestores do Climate Fund, esta abordagem visa superar os principais obstáculos à eletrificação, entre os quais o custo do diesel, a debilidade das redes e as restrições financeiras dos serviços públicos.
De fato, em muitos países africanos, parte da produção elétrica ainda depende de geradores térmicos alimentados por combustíveis importados, e o custo pode ser de três a cinco vezes o preço da eletricidade nos países da OCDE. Estas despesas pesam sobre as moedas e a competitividade das economias locais e, como as tarifas nem sempre cobrem os custos reais, as companhias acumulam perdas que limitam sua capacidade de investimento. Segundo Kvalvaag, a generalização do solar e do armazenamento pode alterar essa dinâmica.
Nas últimas duas décadas, o custo da energia solar caiu 90%, tornando-se hoje mais competitiva que as soluções térmicas na maioria dos países africanos. Os sistemas da Release by Scatec, disponíveis para aluguel em períodos intermediários, permitem aos serviços públicos adicionar rapidamente capacidade de 20 a 30 MW sem recorrer a um financiamento pesado. Cada projeto pode gerar uma economia anual de até dez milhões de dólares, reduzindo as importações de combustível e diminuindo as emissões de gases de efeito estufa.
Já existem usinas operando em Camarões e no Sudão do Sul, e outras estão sendo preparadas na Libéria, em Serra Leoa, no Chade e em São Tomé e Príncipe. Este modelo transicional, apoiado pelas garantias do Grupo Banco Mundial, constitui uma etapa em direção a projetos de IPP sustentáveis.
Integrada ao Missão 300, a iniciativa do Banco Mundial e do BAD para conectar 300 milhões de africanos até 2030, esta abordagem ilustra uma evolução estratégica no financiamento e acesso à energia no continente, baseada na modularidade, rapidez de implantação e acessibilidade em termos de investimento.
Abdoullah Diop
Costa do Marfim assume a presidência da Associação dos Países Produtores de Petróleo Africanos (APPO) em 2026 através de seu Ministro das Minas, Petróleo e Energia, Mamadou Sangafowa-Coulibaly.
Com a produção do campo Baleine e a exploração do bloco CI-707 pela empresa italiana Eni, a nação emerge como um novo polo petrolífero do continente africano.
Centrada por muito tempo na agricultura, a Costa do Marfim estabelece-se agora como um ator emergente no setor petroleiro, demonstrando sua intenção de fortalecer sua posição no cenário energético africano.
Em 2026, a Costa do Marfim assumirá a presidência da Associação dos Países Produtores de Petróleo Africanos (APPO), através de seu Ministro das Minas, Petróleo e Energia, Mamadou Sangafowa-Coulibaly. A indicação foi formalizada no término da 48ª reunião do Conselho de Ministros da organização, realizada nos dias 4 e 5 de novembro em Brazzaville. O país sucede o Congo, que liderou a instituição desde 2024.
Essa nomeação ocorre no momento em que a Costa do Marfim consolida seu lugar entre os novos polos petrolíferos do continente. Após a entrada em produção do campo Baleine, em 2023, a companhia italiana Eni recebeu em outubro os direitos de exploração do bloco CI-707, elevando para onze o número de blocos operados por ela no país. O campo Baleine, que produz mais de 62.000 barris de petróleo bruto e 75 milhões de pés cúbicos de gás por dia, junto com a descoberta do depósito Calao, ilustra o crescimento do campo sedimentar marfinense, classificado pela S&P Global como um dos mais produtivos da África.
Durante seu discurso em Brazzaville, Mamadou Sangafowa-Coulibaly destacou que seu mandato será focado em duas prioridades: a conclusão do Banco Africano de Energia e a implementação efetiva da Declaração de Brazzaville sobre o conteúdo local. O futuro banco, dotado de um capital previsto de 5 bilhões de dólares, deverá fortalecer a capacidade do continente de financiar seus projetos de energia e desenvolver a transformação local. Um encontro de chefes de estado está previsto para o primeiro semestre de 2026 para arrecadar as primeiras contribuições.
O ministro também reafirmou a importância estratégica do conteúdo local na soberania energética africana. A Costa do Marfim, que possui uma lei sobre conteúdo local e uma plataforma que conta com mais de 2.000 empresas nacionais ativas no setor, deseja servir de modelo e incentivar a cooperação regional para a construção de uma indústria petrolífera sustentável e inclusiva.
Abdoullah Diop