A Comissão de Energia da Nigéria (ECN) assina um protocolo de entendimento com a UNIDACO Limited, sediada em Londres, para um investimento de 100 milhões de euros (cerca de US$ 116,2 milhões) na transição energética do país.
Estima-se que o investimento contribuirá para a expansão da produção de energias renováveis, fortalecendo a capacidade industrial do país e promovendo o crescimento sustentável, alinhando a Nigéria aos objetivos globais de transição energética e crescimento verde.
A Nigéria tem um grande potencial em termos de energias renováveis, mas isso permanece subutilizado devido à falta de investimentos, segundo o Climate Parliament.
A Comissão de Energia da Nigéria (ECN) assinou um protocolo de entendimento com a UNIDACO Limited, uma empresa sediada em Londres, para um investimento de 100 milhões de euros (cerca de US$ 116,2 milhões) destinado à transição energética do país. Este acordo foi assinado durante o "Renewed Hope Global Dialogue – UK Edition", um fórum internacional dedicado à promoção de parcerias globais e oportunidades de investimento na Nigéria.
De acordo com o comunicado da presidência nigeriana divulgado na quarta-feira, 29 de outubro de 2025, espera-se que este investimento ajude a expandir a produção de energias renováveis, fortalecer a capacidade industrial do país e promover o crescimento sustentável como parte do programa "Renewed Hope", uma política transformadora que pretende reposicionar a Nigéria como um destino preferido de investimento global.
"Esta parceria destaca a determinação da Nigéria em explorar energias limpas como motor de crescimento industrial, criação de empregos, e em termos mais amplos atingir um PIB de 1 trilhão de dólares até 2030", afirma o comunicado.
Segundo o Climate Parliament, uma rede global de parlamentares comprometidos com o clima, a Nigéria tem um potencial considerável em termos de energias renováveis (solar, eólica, hidroelétrica e biomassa), que continua subutilizado. De fato, o setor enfrenta várias barreiras, como falta de investimentos, infraestrutura de rede nacional deficiente e a complexidade dos processos de aprovação regulatória.
Para superar este déficit, a organização acredita que investimentos financeiros, desenvolvimento de infraestrutura e forte apoio legislativo são necessários. Acrescenta que estas reformas permitirão não só ao país mais populoso da África sustentar seu crescimento econômico através da criação de empregos e desenvolvimento da indústria manufatureira local, mas também alinhar a Nigéria aos objetivos globais de transição energética e crescimento verde.
Vale salientar que o país tem como objetivo alcançar a neutralidade de carbono até 2060. Para atingir este objetivo, o governo implementou o Plano de Transição Energética (ETP) para estabelecer um cronograma e um quadro para alcançar a redução de emissões em cinco setores-chave, incluindo energia, culinária, petróleo e gás, transportes e indústria.
Lydie Mobio
A empresa petrolífera russa Lukoil anuncia a venda de todos os seus ativos fora da Rússia, em resposta às medidas restritivas de diversos países ocidentais.
O anúncio inclui a venda de um portfólio de projetos de energia em diversos continentes, com várias propriedades petrolíferas na África.
Até o momento, a Lukoil vinha conduzindo suas operações na África dentro do regime de sanções ocidentais impostas às empresas russas desde 2022, especialmente no Congo, onde o grupo expressou seu desejo de ampliar sua presença na indústria de petróleo e gás.
Na segunda-feira, 27 de outubro, a companhia de petróleo russa Lukoil anunciou o início de um processo de venda de todos os seus ativos fora da Rússia. A empresa citou as "medidas restritivas" impostas por vários países ocidentais que estão impactando a gestão de suas operações no exterior.
Essa decisão envolve um portfólio de projetos de energia em vários continentes, incluindo vários ativos de petróleo na África. A Lukoil possui participações em vários blocos de exploração e produção. Na Nigéria, a empresa russa controla 20% do bloco OPL 245, em parceria com a grande petrolífera italiana ENI e a empresa estatal de petróleo da Nigéria (NNPC Ltd).
Em Gana, o grupo detém 38% de participação no bloco Deepwater Cape Three Points, operado pela Aker Energy. A empresa também detém cerca de 25% do bloco Marine XII no Congo-Brazzaville, que é operado pela ENI. Além disso, a empresa está envolvida em várias concessões onshore e offshore no deserto ocidental e no Golfo de Suez no Egito.
Essas participações, adquiridas entre 2005 e 2021, representam uma parte significativa de seus investimentos internacionais, que além da África, abrangem o Oriente Médio, Europa, Ásia Central e América Latina. Este portfólio total representava cerca de 15 a 20% da produção mundial do grupo em 2024, de acordo com a empresa.
A decisão ocorre em um contexto de sanções econômicas internacionais contra empresas russas desde fevereiro, após a invasão da Ucrânia. Essas restrições limitam o acesso da Lukoil ao financiamento, serviços técnicos e tecnologias necessárias para a exploração de petróleo.
Diante dessas restrições, a empresa começou um processo de venda de seus ativos internacionais sob a licença americana, chamada de "wind-down", fornecida pelo Office of Foreign Assets Control (OFAC), que regula a venda gradual de ativos submetidos a sanções.
Segundo a empresa, este movimento visa manter a estabilidade de suas operações e focar nos mercados onde suas atividades permanecem totalmente operacionais, nesse caso, na Rússia.
A venda das participações da Lukoil abre caminho para novos investidores, públicos ou privados, interessados em blocos já em desenvolvimento. Os parceiros envolvidos, incluindo ENI, GNPC, NNPC Ltd e SNPC, precisarão especificar os termos de transferência e garantir a continuidade das operações. Lukoil não divulgou nem o cronograma nem a estimativa do valor das vendas.
Abdel-Latif Boureima
Coalizão global Carbon Measures, incluindo empresas como Exxon Mobil e ADNOC, cria comitê independente para estabelecer quadro de contabilidade de carbono.
África poderia gerar até 1,5 gigatoneladas de CO₂ por ano até 2050 através de seus projetos de sequestro e compensação de carbono.
O mercado de carbono ainda precisa provar sua confiabilidade ambiental. A prioridade é garantir que cada crédito represente uma redução de emissão real, mensurável e durável. Para isso, mecanismos de verificação independentes são essenciais.
Carbon Measures, uma coalizão global de 19 empresas, incluindo várias do setor de energia como Exxon Mobil e ADNOC, anunciou a criação de um painel de especialistas independentes para desenvolver um quadro global de contabilidade de carbono. Essa iniciativa reúne, além do setor energético, atores da indústria e dos serviços financeiros.
Segundo informações divulgadas na segunda-feira, 27 de outubro, pela imprensa internacional, o grupo pretende construir um sistema unificado de medição e divulgação das emissões de gases de efeito estufa (GEE) para "alinhar as práticas de relatório de carbono" e evitar a duplicidade na contabilização das reduções de emissões. Esse dispositivo, inspirado nas normas contábeis internacionais, visa permitir, segundo a Carbon Measures, que empresas e estados tenham um registro comum para registrar e comparar seu desempenho climático.
O painel será co-presidido por Amy Brachio, ex-vice-presidente de desenvolvimento sustentável da consultoria internacional Ernst & Young (EY), e Karthik Ramanna, professor da Universidade de Oxford. Vai reunir especialistas do mundo acadêmico, da sociedade civil e do setor industrial para definir os métodos de cálculo, auditoria e publicação das emissões, conforme detalhes divulgados pela coalizão.
África no centro das questões do mercado de carbono
Este desenvolvimento ocorre enquanto a África consolidada a sua presença nos mercados voluntários de carbono. De acordo com dados da Africa Carbon Markets Initiative (ACMI) publicados em 2023, o continente poderia gerar 300 milhões de toneladas equivalentes de CO₂ por ano até 2030 e 1,5 gigatoneladas até 2050 através de seus projetos de sequestro e compensação de carbono.
O Fórum Econômico Mundial (WEF) estima que os ecossistemas naturais africanos possam absorver até 600 milhões de toneladas de CO₂ por ano. No entanto, o continente representa apenas 11% dos créditos de carbono emitidos entre 2016 e 2021, dos quais apenas 3% estão relacionados aos seus sumidouros naturais.
Para o PNUD e a Climate Policy Initiative, o acesso da África aos financiamentos climáticos depende da credibilidade e rastreabilidade das reduções de emissões declaradas. Nesse sentido, a implementação de uma contabilidade de carbono padronizada mundialmente é vista como uma alavanca para fortalecer a confiança dos doadores e a integração dos projetos africanos nos mecanismos internacionais de financiamento climático.
Abdel-Latif Boureima
De 4 a 7 de novembro de 2025, Brazzaville sediará a 4ª Conferência e Exposição sobre Conteúdo Local, uma reunião significativa para os principais players do desenvolvimento econômico africano.
O evento é co-organizado pelo Ministério dos Hidrocarbonetos do Congo, a Associação dos Países Africanos Produtores de Petróleo (APPO), a empresa estatal de petróleos do Congo (SNPC) e o Nigerian Content Development and Monitoring Board (NCDMB).
De 4 a 7 de novembro de 2025, Brazzaville sediará a 4ª Conferência e Exposição sobre Conteúdo Local. Trata-se de um evento de grande importância para os participantes do desenvolvimento econômico africano, co-organizado pelo Ministério dos Hidrocarbonetos do Congo, a Associação dos Países Africanos Produtores de Petróleo (APPO), a Companhia Nacional de Petróleos do Congo (SNPC) e o Nigerian Content Development and Monitoring Board (NCDMB). Consequentemente, o evento torna-se um importante palco para a expertise e o know-how africanos.
Sob o tema "Melhoria da qualidade de bens e serviços locais: uma alavanca estratégica para maximizar a participação africana na indústria", a conferência destacará a importância do conteúdo local como motor de crescimento, criação de empregos e transferência de habilidades no continente. Será também uma plataforma de trocas e oportunidades para os atores da indústria.
Ao longo de quatro dias, tomadores de decisão públicos, investidores, empresas locais e instituições financeiras reunir-se-ão no Grand Hôtel de Kintélé para pensar, compartilhar e construir soluções concretas. Painéis de alto nível, exposições de produtos e serviços locais, bem como encontros B2B, ajudarão a valorizar os talentos africanos e a incentivar parcerias estratégicas entre operadores locais e internacionais, posicionando o Congo como uma vitrine principal da excelência africana.
A escolha de Brazzaville para sediar esta 4ª edição mostra a vontade do Congo de promover um conteúdo local forte e competitivo, não só no setor petrolífero, mas também em outras áreas chave da economia. O objetivo é claro: encorajar empresas e trabalhadores nacionais a se posicionar como atores fundamentais nas cadeias de valor industriais africanas. Um passo decisivo para uma industrialização inclusiva.
Ao colocar a qualidade e competência local no centro do debate, a edição de 2025 tem como objetivo transformar o conteúdo local em uma verdadeira alavanca de soberania econômica. A África não quer apenas consumir, mas produzir, transformar e exportar com seus próprios recursos, conhecimentos e talentos.
Usina solar de Damlaagte, com capacidade de 97,5 MW, inaugurada na província do Free State na África do Sul.
Projeto provê eletricidade renovável para as instalações da Sasol e Air Liquide em Secunda, marcando a primeira etapa do programa conjunto de 900 MW das duas entidades para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.
A África do Sul continua a descarbonização de sua indústria, historicamente dependente do carvão. A inauguração da usina solar de Damlaagte, dedicada ao carro-chefe industrial do país, ilustra essa transição para um modelo energético mais limpo e resiliente.
A usina solar de Damlaagte, com capacidade de 97,5 MW, foi oficialmente inaugurada na segunda-feira, 27 de outubro, na província de Free State na África do Sul. Desenvolvida pela Mainstream Renewable Power e Thembelihle Trust, a infraestrutura fornecerá energia renovável para as instalações da Sasol e Air Liquide em Secunda, onde está localizado um dos maiores sites de produção de oxigênio do mundo.
O projeto marca a entrada em operação do primeiro site do programa conjunto de 900 MW lançado pelas duas entidades para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. Deve produzir cerca de 270 milhões de kWh de eletricidade limpa por ano, diretamente injetada na rede pública da Eskom. Essa capacidade apoia sua trajetória de descarbonização, com a Air Liquide visando uma redução de 30 a 40% nas emissões de suas operações em Secunda até 2031, enquanto a Sasol planeja garantir até 2 GW de energias renováveis até 2030.
"Nos sentimos privilegiados em fornecer à Sasol e Air Liquide uma solução que apoia diretamente seus objetivos de descarbonização", declarou Titania Stefanus Zincke, diretora de operações do Mainstream Renewable Power na África do Sul, acrescentando que o projeto "estabelece um novo padrão em termos de colaboração e qualidade".
Construído entre novembro de 2023 e agosto de 2025, Damlaagte mobilizou cerca de 2000 trabalhadores, a maioria dos quais das comunidades vizinhas ao site. Mais de 150 pessoas também receberam treinamento técnico como parte de um programa de desenvolvimento de habilidades, projetado para promover sua inclusão em outros projetos de energia solar na região.
Este projeto faz parte da estratégia nacional destinada a reforçar a segurança energética, enquanto apoia a sustentabilidade do setor industrial. A África do Sul está de fato buscando diversificar sua matriz elétrica, ainda dominada em mais de 80% pelo carvão, e atrair mais investimento privado em energia limpa.
Abdoullah Diop
A hidroeletricidade é negligenciada, embora seja a terceira maior fonte de produção elétrica mundialmente, após carvão e gás natural
Apenas 10% do potencial hidroelétrico da África é explorado, gerando cerca de 20% da produção elétrica do continente
No contexto da transição para energias limpas, o diretor da Agência Internacional de Energia acredita que o setor hidroelétrico ainda é marginalizado, mesmo sendo estratégico.
Em uma intervenção realizada em outubro, Fatih Birol, Diretor Executivo da Agência Internacional de Energia, retomou a questão do papel da hidroeletricidade na transição energética global. Ele afirma que esse tipo de energia muitas vezes fica à margem das discussões, embora represente a terceira maior fonte de produção elétrica do mundo, depois do carvão e do gás natural.
Em 2024, as usinas hidrelétricas produziram aproximadamente 4500 TWh, ou seja, 14% da eletricidade mundial, o mesmo que solar e eólica juntas. Para Birol, isso faz dela um pilar fundamental para a segurança energética e da flexibilidade dos sistemas elétricos. O diretor destaca que a produção é rapidamente ajustável, pode facilitar a integração de energias intermitentes e é o principal meio de armazenamento de eletricidade em larga escala.
No continente africano, essa reflexão tem uma ressonância especial. De acordo com o relatório "2025 World Hydropower Outlook", publicado no final de junho pela Associação Internacional de Hidroeletricidade (AIH), em 2025, apenas 10% do potencial hidroelétrico da África é explorado. No entanto, isso é o suficiente para fornecer quase 20% da produção elétrica do continente, com capacidade instalada de 43,5 GW.
Novos projetos estão surgindo em vários países. Em 2024, a Tanzânia colocou em operação 6 das 9 turbinas da barragem Julius Nyerere, enquanto Uganda e Camarões concluíram importantes construções, juntamente com a Etiópia em 2025 com a inauguração da barragem GERD. Mas essa dinâmica é travada por restrições estruturais. Mais de 18,5 GW de projetos aprovados ainda não chegaram à decisão final de investimento, enquanto 16 GW estão em construção.
Os obstáculos recorrentes incluem o risco de baixas vendas de eletricidade, o alto custo de hedging cambial e a prudência dos financiadores diante da inviabilidade de muitos dos projetos. Sem reformas direcionadas, a AIH lembra que essas restrições podem continuar a atrasar a implementação do potencial africano em hidroeletricidade.
O continente tem consideráveis vantagens, como a República Democrática do Congo, cujo potencial é estimado em cerca de 100 GW. Mas menos de 3% desse potencial é explorado, mesmo abaixo da média continental. Daí a necessidade, como sugerido por Fatih Birol, de colocar esta fonte de energia limpa no centro das discussões e estratégias energéticas, visando num futuro próximo, em particular para a África, um acesso universal à eletricidade de forma sustentável e confiável.
Abdoullah Diop
O primeiro-ministro senegalês, Ousmane Sonko, promete reduções nas tarifas de eletricidade, gás e produtos petrolíferos para aliviar as famílias senegalesas.
Após o anúncio, os títulos senegaleses caíram imediatamente.
O anúncio de Ousmane Sonko de reduzir os preços da eletricidade, do gás e dos combustíveis visa aliviar as famílias senegalesas. No entanto, esta decisão, saudada do ponto de vista social, provocou um recuo imediato dos títulos do país.
Na segunda-feira, 27 de outubro, o Primeiro Ministro senegalês, Ousmane Sonko (foto), detalhou sua vontade de reorientar os gastos públicos para responder às preocupações sociais. Ele prometeu reduções "nos próximos dias" nas tarifas de eletricidade, gás e produtos petrolíferos.
Este anúncio ocorre após várias semanas de tensão em torno do custo da energia. Em 17 de outubro, consumidores e representantes de pequenas e médias empresas protestaram contra os aumentos de tarifas e a falta de transparência no sistema de precificação.
As famílias, das quais 72% utilizam medidores pré-pagos, afirmam que seus créditos de eletricidade se esgotam mais rapidamente, aumentando a pressão sobre a renda familiar. Para as pequenas empresas, o aumento do preço da energia repercute diretamente no custo dos bens de primeira necessidade.
Além disso, Dakar também conta com a entrada em produção do gás natural para reduzir os custos estruturais de energia e aumentar a competitividade das empresas locais.
No entanto, o timing do anúncio surpreendeu os investidores. Ele ocorre quando uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) está em Dakar para negociar um novo programa de empréstimos, após a suspensão de um acordo anterior de 1,8 bilhão de dólares, ligado à descoberta de "dívidas não declaradas".
O FMI vê os subsídios à energia como um fator de desequilíbrio fiscal, pois aumentam a dívida pública, especialmente em um contexto em que a urgência é conter uma proporção dívida/PIB acima de 100%. Ao prometer reduções de preços, o governo está, portanto, indo na contramão desta exigência.
Os mercados reagiram rapidamente. O eurobond 2028 depreciou 2 centavos e ficou em 82,88 centavos por euro, enquanto o título em dólares com vencimento 2033 recuou para 69,32 centavos. Os investidores temem que esta política resulte em um retorno dos gastos de subsídio e comprometa o reequilíbrio fiscal.
O governo terá agora que provar que esta medida não contraria seus compromissos macroeconômicos. Se conseguir financiar a redução das tarifas por meio de uma melhor alocação orçamentária e não por meio de gastos adicionais, a credibilidade financeira do país poderá ser preservada.
No entanto, a mensagem enviada permanece ambígua, pois responder a uma emergência social é politicamente necessário, mas tranquilizar os mercados também o é. O Senegal agora se equilibra entre justiça social e rigor fiscal.
Olivier de Souza
O custo do projeto de gás de TotalEnergies em Moçambique aumentou em 4,5 bilhões de dólares.
A empresa solicita uma extensão de dez anos de sua concessão, desafiando a legislação e a economia do estado moçambicano.
Ao anunciar um aumento de 4,5 bilhões de dólares no custo de seu projeto de gás em Moçambique, a TotalEnergies também solicita uma extensão de dez anos de sua concessão. Um ajuste que representa grandes desafios econômicos e regulatórios para o estado moçambicano.
Quatro anos após a abrupta paralisação das obras devido aos ataques jihadistas em Cabo Delgado, a TotalEnergies está se preparando para retomar o Mozambique LNG, um projeto agora estimado em 24,5 bilhões de dólares, contra os 20 bilhões iniciais. Em uma carta enviada em 24 de outubro ao presidente moçambicano Daniel Chapo, o CEO da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, detalha o impacto de quatro anos de suspensão sob a cláusula de força maior e solicita a aprovação de um novo orçamento, bem como a extensão de dez anos da duração de exploração do campo de gás Golfinho-Atum.
A argumentação da TotalEnergies baseia-se nos atrasos acumulados e no aumento dos custos relacionados à segurança e logística. A major francesa não vinculou explicitamente o acréscimo de 4,5 bilhões de dólares aos novos direitos aduaneiros americanos sobre aço, mas o grupo já havia emitido um alerta sobre o impacto destas tarifas que podem encarecer o custo dos materiais necessários para a construção das infraestruturas.
Para a empresa, estender a duração da exploração é uma forma de amortizar os novos investimentos, espalhar a rentabilidade ao longo de um período mais longo e manter a viabilidade financeira de um projeto que agora é mais pesado.
No entanto, este pedido implica em retomar todo o processo regulatório. Três instituições-chave são diretamente envolvidas: o Ministério dos Recursos Minerais e Energia, o regulador do setor de petróleo, encarregado de avaliar os custos adicionais, e finalmente o Conselho de Ministros, que deve aprovar qualquer alteração nos termos de produção. O sinal verde dessas entidades é essencial antes de qualquer retomada dos trabalhos.
O regulador moçambicano do setor petrolífero prepara sua própria avaliação dos custos adicionais relacionados ao projeto, mas não especificou quando essa estimativa será concluída. Essa etapa constitui uma condição prévia para a aprovação, pelo governo, do orçamento revisado e para a retomada efetiva das obras. O cronograma de produção, por sua vez, já foi adiado. O primeiro gás natural liquefeito, inicialmente previsto para julho de 2024, agora só é esperado para o primeiro semestre de 2029.
Desafios financeiros e arbitragens políticas para Maputo
No terreno, o projeto continua frágil. A TotalEnergies decidiu retomar as obras em “modo de confinamento”, com acessos limitados por mar ou por ar e medidas de segurança reforçadas. Embora a situação tenha se estabilizado graças, em particular, ao apoio militar do Ruanda, a província de Cabo Delgado continua exposta a riscos de ataques esporádicos. O governo moçambicano e seus parceiros sabem que a confiança dos investidores dependerá da capacidade de garantir uma segurança duradoura na região.
A questão do financiamento também permanece central. O projeto Mozambique LNG baseia-se em uma combinação de recursos próprios, empréstimos comerciais e financiamentos de agências públicas, incluindo o US Exim Bank, que prometeu um empréstimo de 4,7 bilhões de dólares. No entanto, esse apoio está atualmente sendo contestado na Justiça por ONGs americanas e moçambicanas, que alegam irregularidades processuais e falhas no cumprimento das normas ambientais. Caso o processo resulte em uma suspensão, todo o plano de financiamento ficaria comprometido.
O Reino Unido, por sua vez, também reavalia sua participação financeira. Londres solicitou um parecer jurídico para examinar a legalidade de seu compromisso de 1,15 bilhão de dólares, assumido em 2020 por meio de sua agência UK Export Finance (UKEF), em apoio ao projeto Mozambique LNG. Oficialmente, essa reavaliação tem como objetivo verificar a conformidade do acordo, mas ocorre em um contexto de fortes pressões ambientais. Desde 2020, ONGs como Friends of the Earth contestam esse financiamento, argumentando que ele contradiz os compromissos climáticos do Reino Unido. Embora a Justiça tenha validado a atuação da UKEF, a posição britânica permanece fragilizada pela promessa feita durante a COP26 de não mais apoiar projetos petrolíferos e gasíferos no exterior.
Nesse contexto, o aumento do custo global representa um desafio adicional. A TotalEnergies e seus parceiros precisarão decidir como será repartido o encargo financeiro extra. Tanto os parceiros públicos quanto os privados devem garantir que os financiadores aceitem as novas condições econômicas do projeto.
Para Maputo, o pedido de prorrogação de dez anos coloca uma equação política delicada. O projeto é estratégico para o país, que aposta no gás para transformar sua economia e gerar receitas públicas. O governo moçambicano terá de analisar cuidadosamente essa extensão, equilibrando a necessidade de manter a atratividade do projeto para a TotalEnergies e seus parceiros com a defesa do interesse nacional, de modo a assegurar que os benefícios econômicos de longo prazo revertam efetivamente em favor do país.
O governo, portanto, precisará arbitrar entre dois imperativos: preservar a atratividade do ambiente de investimento para a TotalEnergies e seus parceiros, e garantir que os benefícios de longo prazo sejam realmente aproveitados pelo país.
A TotalEnergies considera o Mozambique LNG um projeto estratégico, com cerca de 90% do gás destinado à venda já coberto por contratos de longo prazo na Ásia e na Europa. A concretização do projeto reforçaria a presença do grupo no mercado global de gás natural liquefeito e posicionaria Moçambique entre os principais exportadores mundiais de GNL.
Mas, antes de chegar a esse ponto, será necessário ultrapassar várias etapas — entre elas, a aprovação regulatória do orçamento revisado, a consolidação do financiamento e a estabilização duradoura da situação de segurança em Cabo Delgado. São essas condições que determinarão se a retomada anunciada pela TotalEnergies se materializará ou se será apenas mais um capítulo de espera na já movimentada história do Mozambique LNG.
Olivier de Souza
A COP30 será inaugurada no Brasil em 10 de novembro. À medida que a data se aproxima, tornam-se mais frequentes os apelos para intensificar a ação climática.
A boa notícia é que os Estados estão se mobilizando novamente em torno da questão climática; a notícia não tão boa é que este impulso pode não ser suficiente para atingir os objetivos estabelecidos. Em suma, esta é a principal conclusão do último relatório do secretariado das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas (UNFCCC).
O documento publicado nesta terça-feira, 28 de outubro, compila as Contribuições Determinadas a Nível Nacional (NDCs), submetidas entre 1º de janeiro de 2024 e 30 de setembro de 2025 por 64 países signatários do Acordo de Paris de 2015, representando cerca de 30% das emissões globais de 2019.
Embora os autores admitam que "não é possível tirar conclusões ou inferências de amplitude global a partir deste conjunto limitado de dados", eles acreditam que uma redução nas emissões globais de gases de efeito estufa até 2035 é viável.
No cenário em que os planos anunciados seriam plenamente implementados, as emissões deveriam diminuir cerca de 10% até o final da próxima década em relação aos níveis de 1990.
Esta é a primeira vez que a UNFCCC prevê uma queda nas emissões globais de gases de efeito estufa, cujas concentrações na atmosfera têm aumentado constantemente desde 1990. Adicionalmente, a agência das Nações Unidas indica que as NDCs estão se tornando mais qualitativas e críveis.
"Cada vez mais os países estão adotando uma abordagem global para a economia e a sociedade, com 89% deles estabelecendo objetivos em escala econômica. A adaptação e a resiliência estão ganhando cada vez mais importância. Quase três quartos (73%) das novas NDCs incluem elementos de adaptação", aponta o relatório.
Apesar desses resultados encorajadores, o relatório destaca que os esforços ainda são insuficientes para colocar o mundo em um caminho compatível com a limitação do aquecimento a 2 °C — ou até 1,5 °C — em relação aos níveis pré-industriais, de acordo com os objetivos do Acordo de Paris.
"Para se alinhar às trajetórias globais modeladas para limitar o aquecimento a 1,5 °C (com uma probabilidade superior a 50% até 2100) sem ou com um excesso limitado, bem como aquelas destinadas a limitar o aquecimento a 2 °C (com uma probabilidade superior a 67%), as emissões de gases de efeito estufa (GEE) deverão ser reduzidas por 60% (entre 49% e 77%) até 2035 em relação ao nível de 2019, e por 35% (entre 22% e 55%) para o objetivo de 2 °C", explicam os autores.
Duas semanas antes do lançamento da COP30 sobre o aquecimento global, que será realizada em Belém (Brasil) de 10 a 21 de novembro, este relatório aumenta ainda mais a pressão sobre os 196 países que deverão se reunir lá.
Ao longo dos últimos meses, tanto o governo brasileiro quanto as organizações da sociedade civil têm intensificado os apelos por avanços concretos ao final desta cúpula que ocorrerá em um contexto no qual os Estados Unidos, o segundo maior poluidor do mundo com quase 12% das emissões globais após a China, deixaram o Acordo de Paris.
Esperança Olodo
Mali fecha escolas e universidades até 9 de novembro devido à crise de combustível, exacerbando a insegurança educacional causada por ataques a escolas
Grupo jihadista JNIM, ligado à Al Qaeda, está por trás de ataques que causam falta grave de combustível e prejudicam o deslocamento de estudantes e de pessoal educacional
O Mali fechou escolas e universidades até 9 de novembro. A crise do combustível agravou a insegurança na educação em um país já fragilizado por ataques às escolas, baixo engajamento dos professores e o risco de recrutamento de menores.
No domingo, 26 de outubro, a junta militar do Mali anunciou a suspensão das escolas e universidades por duas semanas devido às dificuldades de deslocamento do pessoal e dos estudantes. Essa decisão afeta centenas de milhares de alunos, provocando atrasos nos programas e possíveis reagendamentos de exames. As cantinas, transportes e serviços escolares também estão perturbados, complicando a rotina das instituições.
O Ministro da Educação, Amadou Sy Savané, afirmou que as autoridades estão "fazendo tudo o possível" para resolver a crise, a fim de que as aulas possam ser retomadas em 10 de novembro.
O fechamento é resultado de uma grave escassez de combustível, causada por ataques repetidos do grupo jihadista JNIM, afiliado à Al Qaeda. Os insurgentes têm como alvo regular caminhões-tanque provenientes do Senegal e da Costa do Marfim. Esses ataques levaram ao fechamento de muitos postos de gasolina e a uma desaceleração notável da atividade econômica em Bamako e em várias outras cidades, incluindo Mopti, Ségou e San.
A eletricidade, predominantemente térmica, agora está disponível apenas seis horas por dia em algumas áreas, enquanto o gás butano enfrenta escassez e aumento de preços.
Esta crise ocorre em um contexto educacional já ameaçado. De acordo com o Banco Mundial (2024), cerca de 40% das crianças em idade escolar não estão matriculadas no Sahel central, e mais de 11 mil escolas foram fechadas devido aos conflitos. Human Rights Watch e UNICEF relatam ataques, saques e ameaças direcionados a professores e estudantes, com escolas sendo requisitadas por grupos armados. Em algumas áreas controladas por jihadistas, o ensino em francês e a coeducação são proibidos, assim como o uso de uniformes. A falta de acesso à educação aumenta a vulnerabilidade das crianças, que correm o risco de serem recrutadas ou forçadas a se casar.
Para mitigar a crise energética, o Mali irá contar com um acordo com a Rússia para o fornecimento de 160.000 a 200.000 toneladas de produtos petrolíferos. No entanto, sem a segurança duradoura das estradas e a diversificação das fontes de energia, o país permanece exposto a novas crises.
Olivier de Souza