Facebook Agence Ecofin Twitter Agence Ecofin LinkedIn Agence Ecofin
Instagram Agence Ecofin Youtube Agence Ecofin Tik Tok Agence Ecofin WhatsApp Agence Ecofin

×

Message

Failed loading XML... XML declaration allowed only at the start of the document

A ascensão do “falso chocolate”, uma ameaça para a fileira do cacau

A ascensão do “falso chocolate”, uma ameaça para a fileira do cacau
Quinta-feira, 4 de Junho de 2026

Considerado um ingrediente indispensável na indústria chocolateira, o cacau vê agora emergir uma nova geração de alternativas capazes de reproduzir o seu sabor sem utilizar uma única fava. Impulsionada por start-ups tecnológicas, esta nova vaga de inovação está a ganhar terreno.

No passado dia 14 de maio, o grupo agroalimentar suíço Barry Callebaut, principal fabricante mundial de chocolate, anunciou a integração de um novo produto denominado ChoViva no seu portefólio de soluções comercializadas em grande escala. Trata-se de uma inovação apresentada como uma «alternativa ao chocolate sem cacau», capaz de imitar o sabor e a textura do chocolate tradicional.

Este anúncio surge como um sinal para a fileira do cacau, ao confirmar que a fava deixou de ser a única base do sabor a chocolate no mercado mundial.

Uma ascensão fulgurante desde 2020

Desenvolvido pela start-up alemã Planet A Foods, o ChoViva nasceu de um projeto de investigação destinado a reproduzir a experiência sensorial do chocolate sem utilizar cacau. A empresa desenvolveu um processo baseado na fermentação e torrefação de sementes de girassol e de grainhas de uva para reproduzir aromas próximos do cacau, aos quais são adicionados açúcar, leite e matérias gordas.

Inicialmente testado em pequena escala em aplicações industriais na Europa, no início dos anos 2020, o produto foi gradualmente ganhando maturidade tecnológica e comercial. Já comercializado em supermercados europeus desde 2024, a sua expansão industrial é agora reforçada com a entrada da Barry Callebaut no projeto, passando esta inovação do estatuto de nicho para o de solução industrial destinada ao mercado global.

O grupo suíço celebrou um acordo comercial com a Planet A Foods para distribuir o ChoViva em exclusivo. «Estamos muito entusiasmados por alargar as nossas capacidades e o nosso portefólio, de forma a oferecer soluções relevantes que respondam às necessidades em mudança dos nossos clientes e do setor», afirma Laura Bergan, diretora de marketing de marca e cliente da empresa.

Ondas de inovação a nível mundial

O ChoViva é atualmente uma das poucas alternativas já comercializadas em grande escala. No entanto, insere-se num movimento mais amplo de inovação que vê emergir, em todo o mundo, várias tecnologias destinadas a reduzir a dependência do cacau tradicional.

Em abril passado, a Celleste Bio, uma start-up israelita fundada em 2022, anunciou ter criado as primeiras tabletes de chocolate de leite feitas com manteiga de cacau cultivada em laboratório. Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, esta tecnologia está a ser desenvolvida com o apoio da norte-americana Mondelēz International, outro gigante da indústria chocolateira mundial. Os responsáveis do projeto afirmam que esta inovação permite reproduzir uma manteiga «bio idêntica», testada e validada industrialmente.

Na Suíça, a start-up Food Brewer também iniciou, desde 2022, experiências para cultivar cacau em laboratório a partir de células vegetais. Segundo os responsáveis do projeto, a comercialização de chocolate baseado em produção celular está prevista para o final de 2026. A start-up prevê ainda «produzir até 2035 dezenas de milhares de toneladas de cacau por ano», segundo a Swissinfo.

No Reino Unido, a start-up Nukoko desenvolveu igualmente uma tecnologia de fermentação patenteada que transforma favas de fava numa alternativa ao chocolate, reproduzindo os sabores típicos do cacau. Fundada em 2022, levantou 1,5 milhões de euros em 2024 e associou-se à empresa alemã de ingredientes naturais Döhler para preparar a industrialização e comercialização em larga escala da sua inovação.

Vários destes projetos ainda se encontram em fase piloto ou pré-comercial. Ainda assim, refletem um interesse crescente da indústria em alternativas capazes de diversificar as fontes de abastecimento e garantir maior estabilidade no acesso à matéria-prima.

Um contexto mundial do cacau sob forte pressão estrutural

A expansão destas alternativas ocorre num contexto particularmente tenso para a fileira global do cacau. A produção, concentrada em África — que fornece mais de 70% da oferta anual — enfrenta várias restrições simultâneas: envelhecimento das plantações, baixa produtividade, choques climáticos crescentes e doenças que afetam os cacaueiros.

Estas dificuldades contribuíram para uma subida acentuada dos preços, que atingiram 12.906 dólares por tonelada em Nova Iorque em dezembro de 2024. Embora os preços tenham recuado entretanto para cerca de 3.000 dólares por tonelada no início de 2026, esta correção não significa um regresso à normalidade.

Segundo analistas de mercado, podem ser necessários até 10 meses para que as variações do preço do cacau se reflitam no preço do chocolate no retalho, uma vez que os industriais cobrem as suas compras com antecedência e dispõem de stocks elevados. Esta volatilidade evidencia a dificuldade do mercado em regressar a um equilíbrio sustentável.

O analista Edward George, entrevistado pela Agência Ecofin em março passado, sublinha que o mercado do cacau entrou num novo ciclo caracterizado também por uma redução da procura nas principais regiões consumidoras. «Observa-se uma queda clara da moagem e do uso do cacau na Europa, na América do Norte e na Ásia. […] Os industriais utilizam menos cacau e procuram formulações alternativas, enquanto a crise do custo de vida leva os consumidores a reduzir as compras de doces e a ir menos vezes a restaurantes», explica.

Neste contexto, o surgimento do chocolate sem cacau levanta uma questão estratégica: estas inovações irão afetar de forma duradoura a procura mundial de cacau ou apenas transformar a sua estrutura?

Entre ameaça de substituição e oportunidade de transformação

A médio prazo, o principal risco reside na substituição progressiva do cacau em alguns usos industriais, nomeadamente em bolachas, gelados, cereais, confeitaria e outros produtos onde o sabor a chocolate pode ser reproduzido sem recurso à fava de cacau.

Se estas alternativas se tornarem mais acessíveis e garantirem maior estabilidade de abastecimento, poderão conquistar parte dos consumidores e industriais. Segundo uma investigação do média RMC, a chocolateria francesa Abtey comercializava em 2024 produtos à base de ChoViva a cerca de 28 euros por quilograma, contra cerca de 48 euros para o chocolate de leite tradicional, ilustrando o potencial económico destas novas soluções.

Para os países produtores, sobretudo na África Ocidental, esta evolução poderá traduzir-se numa pressão acrescida sobre os volumes exportados e sobre os mercados de certos tipos de cacau. Mas estas inovações podem também produzir o efeito oposto.

Ao tornar o cacau opcional em alguns usos, podem incentivar a indústria a valorizar melhor o cacau de qualidade superior, certificado, rastreável e produzido de forma sustentável.

Segundo as normas do Codex Alimentarius (conjunto internacional de normas alimentares criado em 1963 pela FAO e pela OMS para proteger a saúde dos consumidores e garantir o comércio justo de alimentos), um produto só pode ser comercializado como «chocolate» se contiver uma proporção mínima de cacau e manteiga de cacau. As alternativas como o ChoViva têm, por isso, de ser vendidas sob outras denominações, o que limita, para já, a sua capacidade de substituir totalmente o chocolate tradicional.

A concorrência gerada por estas alternativas poderá também acelerar, nos países produtores, os esforços de rastreabilidade, sustentabilidade e segmentação do mercado entre cacau premium e cacau de massa.

A curto prazo, o cacau continua dificilmente substituível na sua totalidade, sobretudo nos produtos de gama alta, onde o seu perfil aromático permanece uma referência. No entanto, a entrada de grandes grupos como Barry Callebaut ou Mondelēz no desenvolvimento destas alternativas marca uma mudança significativa.

Para países africanos que dominam atualmente a oferta mundial, como a Côte d’Ivoire e o Gana, o desafio poderá deixar de ser apenas aumentar a produção de favas. Poderá passar também a ser o de preservar e valorizar a singularidade do cacau face ao aparecimento de soluções industriais capazes de reproduzir algumas das suas características a menor custo.

Stéphanas Assocle

 

Sobre o mesmo tema

Na África Ocidental, a maioria dos países continua a ser importadora líquida de produtos alimentares. O reforço das capacidades locais de transformação...

Há mais de uma década que a procura de arroz regista um forte aumento nos países do espaço CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental)....

Considerado um ingrediente indispensável na indústria chocolateira, o cacau vê agora emergir uma nova geração de alternativas capazes de reproduzir o seu...

O arroz é o segundo cereal mais importado pelo Gana, depois do trigo. Este produto é uma das principais prioridades das políticas públicas do país. No...

MAIS LIDOS
01

Face ao novo limiar de capital fixado pela COBAC na CEMAC, a BGFI Holding coordena um reforço dos se…

BGFI: de Douala a Abidjan, a estratégia de um grupo que reforça os seus fundos próprios em todos os níveis
02

O Moçambique é atualmente o país mais afetado pela epidemia de cólera que atinge principalmente a Áf…

Saúde pública: perante o recrudescimento da cólera, Moçambique prepara uma resposta de 500 milhões de dólares
03

As tensões entre Washington e Pretória intensificam-se, num contexto marcado por divergências diplom…

Estados Unidos: Trump amplia o acolhimento de refugiados afrikaners e aumenta a pressão sobre Pretória
04

O Libéria é o terceiro maior produtor africano de borracha natural, depois da Costa do Marfim e do G…

Libéria: projeto de investimento de 36 milhões de dólares em preparação no setor da seringueira (hévea)

A Agência Ecofin cobre diariamente as atualidades de 9 setores africanos: gestão pública, finanças, telecomunicações, agro, energia, mineração, transportes, comunicação e formação. Também concebe e opera mídias especializadas, digitais e impressas, em parceria com instituições ou empresas ativas em África.

DEPARTAMENTO COMERCIAL
regie@agenceecofin.com 
Tel: +41 22 301 96 11
Cel: +41 78 699 13 72

Mídia kit : Link para download
REDAÇÃO
redaction@agenceecofin.com


Mais informações :
Equipe
Editora
AGÊNCIA ECOFIN

Mediamania Sarl
Rue du Léman, 6
1201 Genebra – Suíça
Tel: +41 22 301 96 11

 

A Agência Ecofin é uma agência de informação econômica setorial, criada em dezembro de 2010. Sua plataforma digital foi lançada em junho de 2011.

 
 
 
 

Please publish modules in offcanvas position.