No Mali, a quase totalidade das necessidades em fertilizantes é importada. Num mercado global marcado por tensões geopolíticas e perturbações persistentes nas cadeias logísticas, Bamako procura reduzir os riscos de rutura de um produto essencial para o setor agrícola.
O Mali está em negociações com a Rússia com vista a garantir o seu abastecimento em fatores de produção agrícola. O anúncio foi feito pelo governo maliano no sábado, 16 de maio, à margem da 17.ª edição do Fórum Económico Internacional “Rússia – Mundo Islâmico”, realizado de 12 a 17 de maio na cidade de Kazan.
Segundo as autoridades, as discussões com a parte russa incidiram sobre mecanismos para assegurar um abastecimento “antecipado e regular” de insumos agrícolas, de forma a respeitar o calendário das campanhas agrícolas e apoiar a produção dos agricultores no Mali.
“Na sequência dos trabalhos, ambas as partes acordaram criar uma agenda operacional e um calendário de entregas, acompanhado dos dispositivos logísticos e financeiros necessários à implementação dos compromissos assumidos”, refere um comunicado do Centro de Informação do Governo maliano.
Para Bamako, o reforço das relações comerciais com Moscovo neste domínio é estratégico, sobretudo num contexto em que o mercado mundial de fertilizantes está sob pressão.
Segundo o relatório “Commodity Markets Outlook” do Banco Mundial, publicado a 28 de abril, os preços globais dos fertilizantes poderão aumentar mais de 30% em 2026 devido a conflitos no Médio Oriente e a perturbações no transporte marítimo no estreito de Ormuz.
A ureia, principal fertilizante azotado utilizado no mundo, é particularmente exposta a estas tensões. O seu preço poderá atingir uma média de 675 dólares por tonelada este ano, cerca de 60% acima de 2025.
Por outro lado, a Rússia continua a ser um dos principais fornecedores de fertilizantes do Mali. Em 2023, o país importou cerca de 310 000 toneladas de fertilizantes azotados, dos quais 27% vieram da Rússia, segundo dados da plataforma Trade Map.
A Rússia, um ator-chave sob postura defensiva
A Rússia, tradicional líder mundial nas exportações de fertilizantes, adotou recentemente uma postura mais defensiva. Moscovo anunciou em abril o plafonamento das exportações a 20 milhões de toneladas entre 1 de junho e 30 de novembro, para priorizar o mercado interno durante a campanha agrícola de primavera.
Esta medida protecionista poderá agravar a volatilidade dos preços internacionais, num contexto em que outros grandes produtores seguem estratégias semelhantes. A China prolongou restrições às exportações de ureia até agosto de 2026, enquanto o Egito introduziu recentemente uma taxa temporária sobre exportações de fertilizantes azotados.
Estas dinâmicas refletem uma recomposição do mercado global de fertilizantes, em que a segurança alimentar nacional se sobrepõe cada vez mais à fluidez do comércio internacional. Países altamente dependentes de importações, como o Mali, tornam-se assim mais vulneráveis à subida dos preços e ao aumento dos custos de produção agrícola.
Segundo o Centro Internacional para o Desenvolvimento de Fertilizantes (IFDC), o consumo anual aparente do Mali situou-se em cerca de 516 000 toneladas em média entre 2019 e 2023.
Stéphanas Assocle













Nairobi. Kenya