As acácias que produzem goma-arábica crescem numa estreita faixa do Sahel que atravessa a África subsariana de leste a oeste. Entre os principais produtores da região destacam-se o Sudão e o Chade, líderes mundiais no comércio desta matéria-prima.
Nos primeiros quatro meses de 2026, os importadores franceses de goma-arábica adquiriram mais matéria-prima proveniente do Chade do que do Sudão, historicamente o principal centro de abastecimento. É o que revelam os dados da consultora agrícola N’kalô, publicados a 19 de junho.
Entre janeiro e abril, as compras de goma-arábica chadiana por parte dos operadores franceses atingiram 5.063 toneladas, um aumento de 260% face ao mesmo período do ano anterior, enquanto, no mesmo intervalo, os volumes provenientes do Sudão diminuíram 33%, para 4.241 toneladas.
Uma tendência de fundo
Estes números ilustram uma dinâmica iniciada em 2024 com a guerra civil que opõe, desde abril de 2023, as Forças de Apoio Rápido (RSF) ao exército nacional sudanês.
O conflito no país, responsável por cerca de 80% da produção mundial de goma-arábica e principal exportador da matéria-prima, colocou em evidência a dependência da indústria mundial em relação a este território, que fornece um produto com múltiplas utilizações.
Com efeito, a goma-arábica é utilizada como estabilizante, aglutinante, emulsionante ou agente de viscosidade na produção de bens alimentares (confeitaria, bebidas gaseificadas, vinho, licores ou fibras alimentares) e não alimentares (produtos farmacêuticos, cosméticos, impressão e têxteis).
Perante as perturbações nas cadeias de abastecimento e a necessidade de dispor de cadeias de fornecimento «sem conflitos», respeitadoras dos direitos humanos e livres de matérias-primas provenientes de tráficos ilegais, muitos importadores norte-americanos e indianos passaram a recorrer cada vez mais ao Chade.
Em França, esta mudança foi particularmente notória, uma vez que o país sozinho expede quase dois terços da goma-arábica transformada no mundo, graças aos fabricantes franceses Nexira e Alland & Robert, sediados na Normandia.
Se, em 2024, o Chade viu as suas exportações para França crescerem 40%, atingindo 12.787 toneladas, continuando ainda distante das 43.000 toneladas provenientes do Sudão, a diferença reduziu-se posteriormente: nos primeiros 11 meses de 2025, os dois países exportaram respetivamente 15.549 toneladas e 32.835 toneladas para o mercado francês.
No primeiro trimestre de 2026, a N’kalô já destacava um aumento de 191% das importações francesas de goma-arábica chadiana, para 3.473 toneladas, um nível que permitiu ao país ultrapassar pela primeira vez o Sudão (3.087 toneladas).
Uma mudança em curso?
Embora ainda seja demasiado cedo para falar numa transferência definitiva das atenções dos operadores franceses do Sudão para o Chade, os analistas consideram que esta evolução é uma boa notícia para o país, que volta a estar no centro das atenções da cadeia de valor mundial.
Enquanto a França importa tradicionalmente a sua goma-arábica em bruto, em mais de 95% proveniente de África, o maior país da África Central pode aproveitar esta oportunidade e posicionar-se melhor como uma alternativa de longo prazo para os compradores franceses.
Já valorizada pelos industriais pela sua melhor qualidade e pela sua cor mais clara, a goma-arábica chadiana é vendida a um preço superior ao da goma sudanesa. Segundo um relatório do Banco Mundial publicado em março de 2025, o país pode também aumentar significativamente a sua produção para beneficiar de um mercado cuja procura deverá crescer, em média, 5,9% ao ano durante os próximos 10 anos.
«As exportações do principal fornecedor mundial, o Sudão, eram comparáveis às do Chade há 20 anos. A falta de manutenção e de investimento no parque de árvores explica em grande parte a diferença observada atualmente. Com apenas uma pequena parte das árvores exploradas de forma ativa, o potencial de crescimento da produção do Chade é significativo», indica a organização.
Espoir Olodo













Boipuso Hall, Fairgrounds, Gaborone