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Costa do Marfim: a fileira do caju aposta no biochar para criar mais valor acrescentado.

Costa do Marfim: a fileira do caju aposta no biochar para criar mais valor acrescentado.
Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

A Costa do Marfim é o maior produtor mundial de castanha de caju e o terceiro maior transformador, depois do Vietname e da Índia. Esta industrialização gera um volume significativo de cascas que durante muito tempo foram consideradas resíduos, mas que atualmente são valorizadas para fins industriais.

Na Costa do Marfim, Ibrahim Konaté, ministro do Comércio, da Indústria e do Artesanato, inaugurou no passado dia 18 de junho, na zona industrial PK 31 de Attinguié, aquela que é apresentada como a primeira unidade comercial de produção em grande escala de biochar a partir de cascas de castanha de caju em África.

Promovida pelo grupo singapurense Valency International e pela sua compatriota Revata Carbon, especializada na valorização industrial de resíduos agrícolas, esta fábrica representa uma etapa importante no desenvolvimento de uma economia baseada na valorização da biomassa agrícola, onde os resíduos deixam de ser vistos como desperdícios e passam a ser considerados recursos exploráveis.

Um novo elo na cadeia de valor do caju

O biochar é um produto obtido através da pirólise (aquecimento a alta temperatura sem oxigénio) de matérias orgânicas, como resíduos de madeira ou subprodutos agrícolas. É utilizado como corretivo do solo para melhorar a sua estrutura e capacidade de retenção de água e nutrientes, mas também como alternativa sustentável aos combustíveis fósseis, como o carvão vegetal ou o carvão mineral.

Com uma capacidade anunciada de processamento de 20.000 toneladas de cascas por ano para cerca de 6.000 toneladas de biochar, a fábrica de Attinguié, cujo custo de investimento não foi divulgado, abre uma nova fase de valorização que deixa de estar centrada apenas na castanha de caju e passa a explorar um dos seus subprodutos.

Segundo informações divulgadas pelos meios de comunicação locais, os responsáveis pela fábrica já preveem aumentar a capacidade de processamento para atingir uma produção de 100.000 toneladas de biochar por ano até 2029.

De qualquer forma, este novo investimento permite criar maior valor acrescentado na fileira do caju marfinense, que até agora dependia sobretudo da produção de castanha bruta e amêndoas de caju destinadas à exportação.

Em 2025, a Costa do Marfim exportou cerca de 728,11 mil milhões de francos CFA (1,27 mil milhões de dólares) em castanha e amêndoas de caju, segundo dados da Direção-Geral das Alfândegas, podendo aumentar estas receitas nos próximos anos com o desenvolvimento da indústria do biochar.

Um mercado em forte crescimento

Embora ainda esteja longe de ser um produto de consumo em massa, o biochar está a registar uma procura internacional crescente, impulsionada por desafios agrícolas e ambientais, uma dinâmica da qual a Valency International poderá beneficiar através das suas atividades na Costa do Marfim.

Segundo o mais recente relatório da empresa norte-americana de consultoria e estudos de mercado Global Market Insights Inc., o mercado mundial do biochar deverá crescer de 109,3 milhões de dólares em 2026 para 320,8 milhões de dólares até 2035, registando uma taxa média anual de crescimento de 12,7% no período considerado.

Esta evolução deverá ser impulsionada pela adoção crescente de práticas agrícolas sustentáveis pelos agricultores. «Os agricultores começaram a utilizar o biochar como método permanente de melhoria dos solos, pois precisam de combater a erosão, a redução da fertilidade e o problema crescente da utilização excessiva de produtos químicos», destaca o relatório.

Por outro lado, o desenvolvimento do mercado voluntário de carbono cria vários fatores que influenciam a dimensão global do mercado do biochar. «O valor material do biochar enquanto método eficaz de remoção de carbono incentiva as empresas a utilizá-lo nas suas práticas de remoção de dióxido de carbono para obter créditos de carbono certificados. O modelo económico gera receitas através de dois canais, nomeadamente a venda de produtos e a venda de créditos de carbono, conduzindo ao crescimento do mercado graças ao aumento do financiamento e ao reforço da capacidade produtiva para responder à procura futura», explica a Global Market Insights.

Uma dinâmica de transformação que ultrapassa a fileira do caju

O surgimento do biochar na cadeia do caju na Costa do Marfim insere-se num movimento mais amplo que conduz à estruturação de uma verdadeira economia da biomassa agrícola. Antes da fábrica de Attinguié, vários projetos recentes já ilustravam esta dinâmica.

No setor energético, uma central de 76 MW em desenvolvimento em Divo desde junho de 2025 pretende valorizar até 600.000 toneladas de subprodutos agrícolas provenientes do cacau e da borracha para produzir eletricidade injetada na rede nacional.

Ao mesmo tempo, uma parceria industrial com o grupo petrolífero italiano Eni, iniciada em 2024, está a estruturar uma fileira emergente de biocombustíveis baseada nas sementes de seringueira, anteriormente consideradas resíduos e atualmente transformadas em óleo vegetal destinado à produção de biocombustíveis.

Assim, o crescimento do biochar na Costa do Marfim através da fábrica da Valency International não representa apenas um desenvolvimento industrial na fileira do caju. Revela uma transformação mais profunda: a emergência de uma economia da biomassa onde os subprodutos agrícolas se tornam ativos energéticos, industriais e climáticos de pleno direito.

Stéphanas Assocle

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