Quando dois jovens em cada três procuram emprego sem conseguir encontrar, isto deixa de ser apenas uma estatística e torna-se um reflexo do estado do mercado de trabalho. Em Moçambique, o emprego juvenil tornou-se uma urgência.
Cerca de dois terços dos moçambicanos com idades entre 18 e 35 anos procuravam emprego sem sucesso em 2025. É o que revela um inquérito da Afrobarometer, publicado na terça-feira, 23 de junho, e realizado pelo gabinete estatístico CS Research, com sede em Maputo.
O estudo, realizado junto de uma amostra nacional representativa de 1 200 adultos, com uma margem de erro de mais ou menos 3 pontos percentuais, mostra que esta taxa é dez pontos superior à registada entre os jovens dos 36 aos 45 anos (55%). Além disso, 21% das pessoas sem emprego desistiram de procurar trabalho.
Antes de tirar conclusões precipitadas, é necessária uma ressalva. Estes números não medem o desemprego segundo a definição da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Refletem sobretudo uma perceção declarada pelos inquiridos. Numa economia onde o emprego informal representa a maioria das atividades, esta distinção é fundamental.
Uma grande parte da população jovem trabalha na agricultura de subsistência ou no pequeno comércio. Essas pessoas não se consideram desempregadas e também não correspondem aos critérios de um trabalhador formal. A realidade moçambicana é, por isso, mais complexa do que um simples número, mesmo que seja impressionante.
O que este dado revela sobre o mercado de trabalho moçambicano
O peso deste indicador está no que ele revela sobre as estruturas profundas do país. Três grandes fraturas destacam-se.
A primeira é estrutural: o mercado de trabalho moçambicano não cria empregos formais suficientes. O próprio Governo reconhece essa realidade. O Programa Quinquenal 2025-2029 estima a taxa de desemprego juvenil em 33,4%. Todos os anos, cerca de 500 mil jovens entram no mercado de trabalho, mas os empregos criados continuam muito abaixo desse fluxo.
A segunda fratura é educativa e resulta em grande parte da primeira. Um relatório da Afrobarometer publicado em 2025 revela que 30% dos jovens moçambicanos apontam a falta de formação adequada como o principal obstáculo ao emprego. A falta de experiência exigida pelos empregadores surge em segundo lugar, mencionada por 19% dos entrevistados. A incompatibilidade entre qualificações e necessidades do mercado afeta 14% dos inquiridos. Estes três obstáculos apontam para o mesmo problema: o sistema de formação profissional ainda não prepara suficientemente os jovens para os empregos disponíveis.
A terceira fratura é demográfica, e é aqui que o diagnóstico se torna mais crítico. Mais de 65% da população moçambicana tem menos de 25 anos, segundo o ministro da Juventude e Desportos, Caifadine Manasse. O país entrou em 2025 numa fase decisiva do seu dividendo demográfico. Sem empregos capazes de absorver esta população jovem, o potencial de crescimento pode transformar-se numa pressão social permanente.
As prioridades dos jovens moçambicanos
Este contexto ajuda a explicar um dado aparentemente surpreendente: cerca de 46% dos jovens afirmam que gostariam de criar o seu próprio negócio se tivessem essa possibilidade. Apenas 31% escolheriam o setor público. Esta preferência pelo empreendedorismo revela menos um verdadeiro entusiasmo pela criação de empresas e mais uma resposta prática à falta de empregadores formais. Sem oportunidades, os jovens procuram criar o seu próprio caminho.
No entanto, a resposta institucional ainda parece não acompanhar o ritmo da procura. O programa Emprega, apoiado pelo Banco Mundial, formou 3 850 jovens na elaboração de planos de negócios e abrange as 11 províncias do país. O Programa Quinquenal 2025-2029 prevê a formação de 83 mil jovens em cursos profissionalizantes. Estes números continuam modestos face aos cerca de 500 mil novos trabalhadores que chegam anualmente ao mercado.
A forma como os próprios jovens definem as suas prioridades também é reveladora. Se o Estado aumentasse os seus investimentos a favor da juventude, 51% colocariam a criação de empregos em primeiro lugar. O acesso a crédito profissional surge depois, com 20%. A formação profissional recebe apenas 8% das preferências.
Este resultado mostra um paradoxo persistente: os jovens reconhecem que a falta de formação é um obstáculo ao emprego, mas não a consideram a principal prioridade de investimento. Por detrás desta aparente contradição existe uma realidade mais profunda: o problema não é apenas a falta de formação, mas a falta de garantia de que essa formação conduzirá a uma oportunidade.
Félicien Houindo Lokossou













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