Enquanto a desconexão entre universidade e mercado de trabalho afeta muitos países africanos, a Guiné dá um passo institucional importante. O país lançou dois megaprojets para reconstruir o seu sistema universitário com base nas necessidades reais da economia.
O Ministério do Ensino Superior lançou oficialmente, na segunda-feira, 27 de abril, em Conacri, os megaprojets MPS30 e MPS32. Integrados no programa Simandou 2040, estes visam uma reforma profunda do sistema universitário guineense. O encontro reuniu responsáveis de instituições públicas e privadas, bem como quadros ministeriais, todos com o objetivo de alinhar a formação com as realidades económicas do país.
O diagnóstico que sustenta esta reforma é preocupante. A ministra Diaka Sidibé revelou que as 48 instituições do país formam mais de 15 000 diplomados por ano. No entanto, apenas 30,96% conseguem emprego doze meses após a conclusão dos estudos — uma situação que classificou como “inaceitável”. Um relatório de julho de 2025 indicava ainda que o desemprego entre jovens diplomados ultrapassa os 40%, segundo o Observatoire national du travail.
Dois instrumentos complementares
O MPS-32 visa rever os conteúdos pedagógicos, alinhando-os com as necessidades do mercado de trabalho. Já o MPS-30 foca-se na cartografia de competências e necessidades profissionais, com dados integrados num sistema de informação dinâmico. São dois eixos distintos, mas complementares.
Os projetos assentam em bases já existentes. Desde 2022, mais de 90 docentes-investigadores nacionais, com o apoio de 103 especialistas estrangeiros, contribuíram para a criação de cerca de 141 programas académicos padrão. Foram igualmente desenvolvidos 60 programas de mestrado. “Não partimos do zero. Capitalizamos, ampliamos e institucionalizamos”, afirmou Sivory Doumbouya.
Na prática, a iniciativa prevê a revisão dos programas existentes, o seu alinhamento com padrões internacionais e a criação de novos diplomas. Entre os setores prioritários destacam-se o digital, a inteligência artificial, a energia e as minas. Está também prevista a criação de um Observatório nacional da inserção dos diplomados, que permitirá acompanhar o percurso profissional dos estudantes até 18 meses após a graduação.
Uma visão nacional mais ampla
Estes megaprojets inserem-se numa estratégia mais vasta. Mamadou Angelo Diallo sublinhou que o programa não é apenas industrial, mas representa “o contrato social de uma nova Guiné”. A ambição é formar não apenas diplomados, mas verdadeiros “construtores da economia”.
A pressão demográfica reforça a urgência da reforma. Segundo o Banco Mundial, o desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos atingia 7% em 2025, embora este número esconda dificuldades mais profundas na inserção profissional dos diplomados. Em resposta, o governo está a reforçar a aposta em formações técnicas.
Uma reforma num ecossistema em reconstrução
A iniciativa faz parte de um conjunto mais amplo de políticas públicas. Em julho de 2024, o país adotou a sua primeira Política Nacional de Emprego (2024-2030). Em julho de 2025, foi validada uma estratégia nacional de aprendizagem profissional (2026-2030), com apoio da Organização Internacional do Trabalho, prevendo que 80% da formação decorra em contexto profissional.
No terreno, a AGETIPE implementa projetos com elevada intensidade de mão de obra para gerar empregos temporários. Em 2025, o objetivo governamental era criar 100 000 postos de trabalho.
Apesar destes esforços, persistem desafios estruturais. Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento, o setor informal representa 96% do emprego no país, oferecendo geralmente condições precárias. Embora a economia tenha crescido 5,7% em 2024, cerca de 52% da população vive abaixo do limiar internacional de pobreza, de acordo com o Banco Mundial.
Assim, embora os megaprojets MPS30 e MPS32 representem um avanço significativo, o seu impacto dependerá também da transformação do tecido económico, para além do setor extrativo dominante.
Félicien Houindo Lokossou













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