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A maioria dos países africanos é importadora líquida de produtos alimentares. Ao mesmo tempo, as exportações do continente continuam a crescer, sustentando o dinamismo das trocas agrícolas com parceiros internacionais, nomeadamente os Estados Unidos.

Em 2025, o valor dos fluxos de comércio agroalimentar entre os Estados Unidos e os países africanos atingiu cerca de 11,57 mil milhões de dólares, segundo o mais recente relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) sobre as perspetivas do comércio agrícola americano.

Para comparação, estes fluxos ascendiam a 7,47 mil milhões de dólares em 2024, o que representa um aumento de cerca de 55% em termos anuais e o nível mais elevado dos últimos cinco anos. Um desempenho que reflete o dinamismo das trocas, tanto no sentido das exportações como das importações.

Exportações agroalimentares africanas em alta para os EUA

De acordo com o USDA, os Estados Unidos importaram cerca de 5,85 mil milhões de dólares em produtos agrícolas e alimentares provenientes de países africanos em 2025. Este valor representa um aumento de 48% em relação ao ano anterior (3,96 mil milhões de dólares). Embora o relatório não detalhe as razões desta evolução, ela pode ser explicada pelo aumento dos volumes adquiridos ou dos preços de certas matérias-primas no mercado internacional.

Importa destacar que os principais produtos importados de África são matérias-primas com preços voláteis, como o cacau, o café, a castanha de caju e as especiarias. A estrutura das exportações permanece inalterada, dominada pela África Subsaariana, sendo a maioria dos produtos expedida a partir da Costa do Marfim, África do Sul, Gana, Madagáscar e Quénia.

A razão para isso é que a maioria dos países desta região beneficia de acesso preferencial ao mercado americano, principalmente sob a forma de isenções de direitos aduaneiros no âmbito da AGOA (African Growth and Opportunity Act), um acordo comercial adotado pelos Estados Unidos em maio de 2000. No total, 80% das importações americanas, ou seja, 4,66 mil milhões de dólares, tiveram origem na África Subsaariana em 2025.

Importações também em crescimento

No sentido inverso, as exportações agroalimentares dos Estados Unidos para África cresceram 61% em termos anuais, atingindo 5,71 mil milhões de dólares em 2025, face a 3,5 mil milhões em 2024.

O Norte de África, impulsionado pelo Egito, continua a ser o principal destino das exportações americanas, concentrando 61% do valor das compras, enquanto a África Subsaariana, liderada pela Nigéria, absorveu 39% durante o período em análise. Entre os principais produtos americanos importados pelo continente destacam-se a soja, o trigo, os alimentos para animais e os produtos da pesca.

De forma mais ampla, a crescente presença de produtos americanos em África sugere um aumento da sua quota de mercado, num contexto em que Washington tem multiplicado as missões comerciais no continente. Em abril de 2025, por exemplo, a U.S. Meat Export Federation (USMEF) organizou em Acra, no Gana, a sua primeira missão comercial agrícola regional em África, com o apoio do USDA. O evento reuniu cerca de 90 participantes, incluindo 51 empresas africanas compradoras de 12 países e 13 exportadores americanos.

«Esta missão comercial destacou a versatilidade e a disponibilidade dos produtos de carne americanos para exportação. Segundo a análise pós-evento, estima-se que novas vendas de carne bovina, suína e miudezas americanas, no valor de 6 a 8 milhões de dólares, venham a ser realizadas nos próximos 6 a 12 meses», indicava uma nota informativa publicada pelo USDA.

Em julho de 2025, o Conselho de Exportadores de Soja dos Estados Unidos (USSEC) organizou em Lagos uma conferência reunindo diversos intervenientes públicos e privados do setor agrícola nigeriano, com o objetivo de promover a soja americana no país mais populoso de África. Anteriormente, em dezembro de 2024, o USDA também realizou a sua primeira missão comercial agrícola em Marrocos, com vista à abertura de novos mercados no país.

Apesar do aumento das importações de produtos agroalimentares americanos, a balança comercial é ligeiramente excedentária a favor de África, com um saldo de 141 milhões de dólares. Assim, 2025 marca a primeira vez em cinco anos que o continente africano exporta mais produtos agroalimentares para os Estados Unidos do que importa do país do Tio Sam.

Stéphanas Assocle

 

 

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O presidente cessante de Djibouti, Ismaïl Omar Guelleh, surge amplamente à frente da eleição presidencial com mais de 97% dos votos, segundo resultados provisórios. Este escrutínio ocorre num contexto económico em que o país é chamado a acelerar a sua diversificação.

Em Djibouti, o presidente cessante, Ismaïl Omar Guelleh (foto), obteve 97,81% dos votos expressos, contra 2,19% do seu único adversário, Mohamed Farah Samatar, presidente do Centro Democrático Unido (CDU), nas eleições presidenciais de sexta-feira, 10 de abril, segundo os dados publicados no domingo pelo Ministério do Interior.

Com uma taxa de participação estimada em 80,4%, estes resultados, ainda provisórios, deverão ser validados pelas autoridades competentes. A sua confirmação abriria caminho para um sexto mandato consecutivo do chefe de Estado, no poder desde 1999.

Na sequência da divulgação dos resultados, Mohamed Farah Samatar reconheceu “o veredito claro das urnas”, ao mesmo tempo que felicitou o presidente cessante. Ele também elogiou o empenho dos seus apoiantes, referindo uma mobilização que considerou determinante na sua campanha.

Por seu lado, Guelleh destacou o bom desenrolar do escrutínio, saudando a participação do povo djibutiano numa eleição que descreveu como “transparente e pacífica”. O chefe de Estado considerou que estas eleições marcam “um novo impulso” para o desenvolvimento do país, segundo declarações divulgadas por meios de comunicação públicos.

Uma economia sob pressão

No plano económico, Djibouti continua a enfrentar uma forte dependência das suas atividades portuárias e logísticas, ligadas à sua posição estratégica no Mar Vermelho. Isto expõe o país às flutuações do comércio mundial.

Segundo o Banco Mundial, o tráfego portuário caiu 10,5% no primeiro semestre de 2025, afetado pela redução dos volumes de transbordo. Esta situação pesa na criação de emprego e evidencia a necessidade de diversificar as fontes de crescimento.

Entre os desafios estruturais estão também o elevado desemprego, sobretudo entre os jovens, e o acesso ainda limitado a certos serviços essenciais nas zonas rurais.

No âmbito do seu Plano Nacional de Desenvolvimento 2025-2030, o país pretende acelerar a transformação da sua economia, nomeadamente através dos setores da energia e do digital, identificados como alavancas estratégicas.

Foi assim aprovado um financiamento de 25,75 milhões de dólares em março de 2026 para apoiar um programa baseado em resultados (PforR), destinado a incentivar a diversificação económica, o desenvolvimento do setor privado e a criação de empregos sustentáveis.

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento económico deverá atingir 6,5% em 2025, impulsionado pela atividade portuária, mas também pelo dinamismo dos setores da construção, transportes, telecomunicações e comércio.

A médio prazo, as perspetivas permanecem favoráveis, com um crescimento projetado em torno de 6% a partir de 2027, sustentado nomeadamente por projetos de infraestruturas na Etiópia, suscetíveis de estimular a procura pelos serviços portuários de Djibouti.

Charlène N’dimon

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O governo congolês endurece o tom face ao recurso excessivo à mão de obra estrangeira. Uma operação nacional de controlo foi anunciada, com um ultimato de 30 dias para a regularização das empresas.

Na República Democrática do Congo (RDC), o governo anunciou o lançamento de uma ação imediata destinada a pôr fim às práticas ilegais relacionadas com o emprego de trabalhadores estrangeiros. O Ministério do Emprego e do Trabalho indicou-o num comunicado publicado no sábado, 11 de abril.

As autoridades denunciam a persistência de incumprimentos da legislação nacional por parte de algumas empresas, nomeadamente a contratação de expatriados sem autorização prévia ou a sua colocação em cargos reservados a cidadãos nacionais.

O ministério recorda que estas práticas constituem infrações graves, passíveis de sanções. Em resposta, será conduzida uma operação nacional de controlo reforçado sem aviso prévio em todo o território. As empresas em infração enfrentam medidas imediatas, incluindo a expulsão dos trabalhadores em causa, a suspensão parcial ou total das atividades e a responsabilização dos dirigentes.

É concedido um prazo estrito de 30 dias aos empregadores para regularizarem a situação administrativa do seu pessoal expatriado. Após esse período, poderão ser aplicadas sanções mais pesadas, incluindo processos judiciais.

«A partir de agora, não será tolerada qualquer forma de fraude, substituição abusiva de mão de obra nem marginalização das competências nacionais», sublinhou o ministério.

Um mercado de trabalho sob pressão

Esta decisão surge num contexto de forte pressão sobre o mercado de trabalho na RDC. Segundo um estudo publicado em 2022 pelo Ministério do Plano, os jovens dos 15 aos 29 anos representam mais de metade da população em idade ativa. A sua taxa de desemprego (2,5%) é superior à dos adultos (1,4%), enquanto o desemprego de longa duração afeta mais de 60% deles. O país terá de criar cerca de 9,6 milhões de empregos até 2030, e quase 35 milhões até 2050 para estabilizar o mercado de trabalho.

Para responder a estes desafios, o governo congolês aposta em reformas estruturais, nomeadamente no desenvolvimento da formação profissional, no apoio ao empreendedorismo jovem e na melhoria do clima de negócios. Em fevereiro passado, o governo concluiu em Kinshasa a primeira fase de um programa nacional de formação digital destinado a 250 000 jovens.

Em simultâneo, a Agência Nacional para a Promoção de Investimentos (ANAPI) indica ter aprovado 96 projetos em 2025, representando um volume de investimento de 5,13 mil milhões de dólares. Estes projetos deverão gerar mais de 8 000 empregos diretos, contribuindo para os esforços de redução do desemprego.

Charlène N’dimon

 

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Estes acordos abrem efetivamente caminho para um aprofundamento da cooperação bilateral, estabelecendo as bases de uma parceria mais estruturada e mais ambiciosa em setores estratégicos.

A Etiópia e o Burundi assinaram, na quinta-feira, 9 de abril, vários memorandos de entendimento (MoU) com vista a reforçar a sua cooperação bilateral, na sequência de um encontro entre o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, e o presidente burundês, Évariste Ndayishimiye.

Estes acordos abrangem setores como defesa, saúde, educação, água e energia, bem como turismo, e “lançam as bases de uma prosperidade partilhada, valorizando o potencial das nossas duas nações”, declarou Abiy Ahmed.

As relações entre Bujumbura e Addis-Abeba reforçaram-se a partir de 2021, nomeadamente com a visita oficial de Sahle-Work Zewde, então presidente etíope, ao Burundi. Esta relançamento diplomático abriu caminho a uma intensificação do diálogo político e à criação progressiva de quadros de cooperação.

Desde então, os intercâmbios têm-se multiplicado, embora os resultados económicos concretos ainda sejam limitados. Os novos acordos deverão agora servir de alavanca para acelerar a transformação dos compromissos políticos em projetos operacionais entre os dois países.

Ingrid Haffiny

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Há muito marcadas por tensões relacionadas com o Saara Ocidental, as relações entre o Marrocos e o Quénia conheceram uma viragem em 2022, com uma aproximação entre Nairobi e Rabat destinada a reforçar a cooperação, nomeadamente no comércio e na agricultura.

À margem da comissão ministerial conjunta, o Quénia e o Marrocos assinaram, na quinta-feira, 9 de abril, 11 memorandos de entendimento (MoU) com vista a reforçar a sua cooperação bilateral.

Estes abrangem setores como a agricultura, a saúde, o ensino superior, a economia azul e a gestão da vida selvagem. Integram igualmente dimensões sociais, através da promoção da igualdade de género, do empoderamento das mulheres, bem como de programas de bolsas de estudo e estágios destinados a reforçar o intercâmbio de competências.

Entre os dispositivos-chave figura um acordo de cooperação sanitária destinado a consolidar os sistemas de saúde dos dois países. Este prevê o reforço das capacidades através da troca de conhecimentos, de parcerias técnicas e de iniciativas conjuntas.

O foco é colocado na deteção precoce de doenças, na preparação e resposta a emergências sanitárias, bem como no combate às doenças transmissíveis, incluindo o VIH/SIDA. O texto prevê ainda a melhoria do acesso a medicamentos essenciais e o desenvolvimento da sua produção local, integrando igualmente a saúde materna e comunitária, assim como a formação do pessoal médico.

«Também acordámos acelerar a colaboração em matéria de comércio, investimento, desenvolvimento industrial e conectividade aérea, abrindo assim novas perspetivas de crescimento e de prosperidade partilhada», declarou o primeiro-ministro queniano, Musalia Mudavadi.

Esta aproximação insere-se num contexto diplomático há muito marcado por divergências ligadas à questão do Saara Ocidental. O Quénia, que anteriormente tinha reconhecido a República Árabe Sarauí Democrática e mantido relações com a Frente Polisário, alterou a sua posição a partir de 2022, sob a presidência de William Ruto. Esta evolução abriu caminho a um reatamento das relações com Rabat, concretizado no mesmo ano por uma vontade comum de intensificar a cooperação no comércio, agricultura, turismo, saúde e energia.

No plano económico, as trocas comerciais entre os dois países continuam modestas, estimadas em 40,6 milhões de dólares em 2024, segundo o International Trade Centre. Os fluxos incidem principalmente sobre fertilizantes, fibras têxteis vegetais, fios e tecidos à base de papel, bem como produtos agrícolas como café e chá.

Ingrid Haffiny

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Há muito marcadas por tensões relacionadas com o Saara Ocidental, as relações entre o Marrocos e o Quénia conheceram uma viragem em 2022, com uma aproximação entre Nairobi e Rabat destinada a reforçar a cooperação, nomeadamente no comércio e na agricultura.

À margem da comissão ministerial conjunta, o Quénia e o Marrocos assinaram, na quinta-feira, 9 de abril, 11 memorandos de entendimento (MoU) com vista a reforçar a sua cooperação bilateral.

Estes abrangem setores como a agricultura, a saúde, o ensino superior, a economia azul e a gestão da vida selvagem. Integram igualmente dimensões sociais, através da promoção da igualdade de género, do empoderamento das mulheres, bem como de programas de bolsas de estudo e estágios destinados a reforçar o intercâmbio de competências.

Entre os dispositivos-chave figura um acordo de cooperação sanitária destinado a consolidar os sistemas de saúde dos dois países. Este prevê o reforço das capacidades através da troca de conhecimentos, de parcerias técnicas e de iniciativas conjuntas.

O foco é colocado na deteção precoce de doenças, na preparação e resposta a emergências sanitárias, bem como no combate às doenças transmissíveis, incluindo o VIH/SIDA. O texto prevê ainda a melhoria do acesso a medicamentos essenciais e o desenvolvimento da sua produção local, integrando igualmente a saúde materna e comunitária, assim como a formação do pessoal médico.

«Também acordámos acelerar a colaboração em matéria de comércio, investimento, desenvolvimento industrial e conectividade aérea, abrindo assim novas perspetivas de crescimento e de prosperidade partilhada», declarou o primeiro-ministro queniano, Musalia Mudavadi.

Esta aproximação insere-se num contexto diplomático há muito marcado por divergências ligadas à questão do Saara Ocidental. O Quénia, que anteriormente tinha reconhecido a República Árabe Sarauí Democrática e mantido relações com a Frente Polisário, alterou a sua posição a partir de 2022, sob a presidência de William Ruto. Esta evolução abriu caminho a um reatamento das relações com Rabat, concretizado no mesmo ano por uma vontade comum de intensificar a cooperação no comércio, agricultura, turismo, saúde e energia.

No plano económico, as trocas comerciais entre os dois países continuam modestas, estimadas em 40,6 milhões de dólares em 2024, segundo o International Trade Centre. Os fluxos incidem principalmente sobre fertilizantes, fibras têxteis vegetais, fios e tecidos à base de papel, bem como produtos agrícolas como café e chá.

Ingrid Haffiny

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Reunidos a 9 de abril em Abidjan, dirigentes africanos e atores financeiros iniciaram um diálogo inédito com o objetivo de repensar profundamente os mecanismos de financiamento do desenvolvimento, face a um défice estimado em mais de 400 mil milhões de dólares por ano.

O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) lançou oficialmente, nesta quinta-feira, 9 de abril, em Abidjan, o diálogo consultivo sobre a Nova Arquitetura Financeira Africana (NAFA), uma iniciativa que pretende transformar profundamente a forma como o continente mobiliza e utiliza os seus recursos financeiros. Sob o alto patrocínio do Presidente ivoiriense Alassane Ouattara, o encontro marca um ponto de viragem, com o objetivo declarado de passar do diagnóstico à implementação.

Logo na abertura, o presidente do Grupo BAD, Sidi Ould Tah, fez um diagnóstico direto: «o paradigma atual do financiamento do desenvolvimento em África mostrou limites objetivos». O continente enfrenta um défice de financiamento superior a 400 mil milhões de dólares por ano, apesar de dispor de cerca de 4 biliões de dólares em poupança a médio e longo prazo. Este desfasamento, sublinhou, resulta menos da falta de capital e mais de constrangimentos estruturais: fragmentação institucional, má alocação do risco e fraca coordenação entre os setores público e privado.

Neste contexto, a NAFA apresenta-se como uma resposta sistémica. Assenta em quatro princípios operacionais — subsidiariedade, complementaridade, coordenação e transformação do risco — com o objetivo de reorganizar o ecossistema financeiro africano, tornando-o mais eficiente e integrado. O dispositivo apoia-se em nove “Labs” temáticos estruturados em torno de três pilares: arquitetura do sistema, mobilização de capital e implementação do capital, cada um destinado a produzir instrumentos concretos.

Um sistema a reorganizar mais do que a financiar

No centro das discussões, destaca-se uma ideia-chave: o problema do financiamento em África é, прежде de mais, organizacional. No seu discurso de abertura, o economista Carlos Lopes destacou o paradoxo de um continente com forte crescimento, mas confrontado com um elevado custo do capital, muitas vezes mais ligado a perceções do que a fundamentos económicos.

Sublinhou ainda que África, longe de carecer de recursos, é na realidade «um exportador líquido de capital», nomeadamente através de fluxos financeiros ilícitos ou da alocação de ativos para mercados externos. Neste contexto, o desafio não é tanto mobilizar novos financiamentos, mas organizar melhor os já existentes, reforçando a coordenação e atingindo uma massa crítica.

Esta reflexão ocorre num ambiente internacional cada vez mais restritivo. Como salientou o Primeiro-Ministro ivoiriense, Robert Beugré Mambé, as crises sucessivas — pandemia, tensões geopolíticas, inflação e alterações climáticas — evidenciaram as limitações da atual arquitetura financeira internacional, ao mesmo tempo que aumentaram a pressão sobre as finanças públicas africanas.

Rumo a instrumentos concretos e maior coordenação

Para além do diagnóstico, o encontro de Abidjan pretende alcançar avanços operacionais. Os participantes deverão acordar uma primeira geração de instrumentos, incluindo mecanismos de garantia, dispositivos de cofinanciamento e ferramentas para reforçar os capitais próprios das instituições financeiras africanas.

A ambição passa também pela adoção de um «Consenso de Abidjan», considerado o ato fundador da implementação da NAFA em larga escala. A médio prazo, deverá ser criada uma estrutura permanente de coordenação para assegurar a coerência e continuidade das ações.

Para as autoridades ivoirienses, este diálogo insere-se numa dinâmica mais ampla de transformação económica. O Primeiro-Ministro recordou a ambição do país de mobilizar cerca de 115 biliões de francos CFA (aproximadamente 204,9 milhões de dólares) no âmbito do Plano Nacional de Desenvolvimento 2026-2030, com uma contribuição esperada de 70% do setor privado.

Para além dos aspetos técnicos, as discussões abertas em Abidjan colocam uma questão mais ampla: a soberania financeira do continente. «O que estamos a discutir não é apenas finanças, é a capacidade de ação», resumiu Carlos Lopes, apelando a uma mudança de postura de África no sistema financeiro global.

Moutiou Adjibi Nourou

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Este financiamento visa, em particular, atenuar a pressão demográfica sobre a capital Kampala, desenvolvendo oportunidades económicas nas cidades secundárias e promovendo o ordenamento do território.

O Banco Mundial aprovou um financiamento de 540 milhões de dólares destinado a apoiar a segunda fase do programa de desenvolvimento das infraestruturas das cidades e municípios do Uganda (Uganda Cities and Municipalities Infrastructure Development – UCMID), anunciou o governo ugandês.

O anúncio foi feito por Judith Nabakooba, ministra ugandesa das Terras, Habitação e Desenvolvimento Urbano. Deste montante, 80 milhões de dólares serão concedidos sob a forma de subvenção, enquanto o restante será disponibilizado como empréstimo.

O programa será implementado ao longo de seis anos, abrangendo os exercícios financeiros de 2026/2027 a 2030/2031, segundo o comunicado do Ministério das Terras, e estará estruturado em torno de cinco eixos prioritários: desenvolvimento de estradas urbanas e mobilidade, gestão da drenagem e das inundações, infraestruturas verdes e resiliência climática, gestão de resíduos sólidos, bem como desenvolvimento económico local e criação de emprego.

Ao todo, 10 cidades regionais, 26 municípios e 13 distritos que acolhem refugiados serão abrangidos, com cerca de 5,6 milhões de beneficiários diretos, incluindo 600.000 refugiados. O lançamento operacional é esperado após a finalização dos acordos e dos procedimentos de implementação.

Pressão urbana e desafios estruturais

Segundo a ministra Nabakooba, a iniciativa visa reduzir a pressão demográfica sobre Kampala, incentivando a criação de oportunidades económicas nas cidades secundárias. «O UCMID irá gerar empregos imediatos durante as fases de construção e também criará empregos sustentáveis nos serviços e nas operações urbanas», declarou. De facto, espera-se a criação de pelo menos 40.000 empregos diretos, incluindo 20.000 postos permanentes nos setores dos serviços e da gestão urbana, bem como um número equivalente de empregos temporários ligados às obras de infraestruturas.

Estes objetivos inserem-se num contexto de forte pressão urbana no Uganda. O rápido crescimento de Kampala e de outras cidades levou à expansão de bairros informais, colocando uma forte pressão sobre as infraestruturas existentes. Segundo o censo de 2024, a população total do país era de 45,9 milhões de pessoas, com uma taxa média de crescimento anual de 2,9%.

A estes desafios somam-se os riscos climáticos, nomeadamente as inundações agravadas por sistemas de drenagem insuficientes e pelo aumento do custo de vida. Entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, os preços das categorias habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis aumentaram 3,9%, enquanto os custos dos transportes subiram 1,5%, segundo o Gabinete de Estatística do Uganda (UBOS).

Além disso, o Uganda é um dos principais países de acolhimento de refugiados em África. No final de 2024, o país acolhia mais de 1,8 milhões de refugiados, provenientes principalmente do Sudão do Sul, da República Democrática do Congo, do Burundi e da Somália, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Recorde-se que o UCMID sucede ao programa de apoio ao desenvolvimento de infraestruturas municipais “Uganda Support to Municipal Infrastructure Development” (USMID), que terminou em 2024. Segundo a ministra, mais de 208 quilómetros de estradas urbanas foram asfaltados, enquanto 6.312 quilómetros de passeios, 6.342 quilómetros de ciclovias e 127 quilómetros de áreas de estacionamento foram construídos em várias cidades do país.

Charlène N’dimon

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O programa de assistência à habitação e de reparações da Comissão de Verdade e Reconciliação (CVR) marca uma etapa-chave no percurso da África do Sul rumo à justiça, afirmou o chefe de Estado, Cyril Ramaphosa.

O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, lançou oficialmente, na terça-feira, 7 de abril, o programa de reparações e de apoio à habitação da Comissão de Verdade e Reconciliação (CVR), destinado a apoiar as vítimas do apartheid.

Estas reparações constituem uma «obrigação moral», sublinhou o Sr. Ramaphosa, e representam uma etapa fundamental para a reconciliação nacional. «A verdade, por si só, não é suficiente para reparar o mal que foi feito. A reconciliação não pode ser duradoura sem reparações concretas», destacou.

220 beneficiários de Ndwedwe, no KwaZulu-Natal, receberam cheques simbólicos no valor total de 40 milhões de rands (2,45 milhões de dólares), destinados à construção ou renovação de habitações, em conformidade com o regulamento publicado em janeiro de 2026. Cada agregado familiar pode receber um subsídio até 183.257 rands. No total, 476 beneficiários da região poderão vir a partilhar 87,2 milhões de rands.

Ndwedwe, uma das localidades mais afetadas pela violência política no final da década de 1980 e início da década de 1990, sofreu danos significativos: casas incendiadas, bens destruídos, famílias deslocadas e perda de meios de subsistência. O programa insere-se num quadro mais amplo de iniciativas de reparação implementadas desde 2003, incluindo apoios financeiros para a educação, acesso aos cuidados de saúde e projetos de reabilitação comunitária.

Na África do Sul, o acesso à habitação continua a ser um desafio, apesar dos programas públicos lançados desde o fim do apartheid. Segundo o governo, o país enfrenta um défice de mais de 2 milhões de habitações, enquanto mais de 3 milhões de agregados familiares aguardam assistência oficial. Uma grande parte da população ainda vive em habitações informais ou bairros de lata, frequentemente sem acesso a infraestruturas básicas.

A situação é agravada pelo mercado intermédio, conhecido como “gap market”. Este segmento inclui agregados familiares com rendimentos demasiado elevados para aceder à habitação social, mas insuficientes para obter financiamento bancário tradicional. A isto somam-se os elevados preços dos imóveis e das rendas, particularmente nas grandes cidades, que excluem muitas famílias do acesso à habitação formal.

Note-se que o programa é financiado pelo Fundo do Presidente. Dotado de um montante total de 650 milhões de rands, cobre os custos das reparações habitacionais destinadas às vítimas reconhecidas pela CVR.

Ingrid Haffiny

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Impulsionada por um crescimento superior à média regional e por um peso demográfico em forte expansão, a África francófona surge como um dos motores económicos do continente. No entanto, apesar de uma língua comum e de quadros jurídicos partilhados, a integração económica entre estes países permanece limitada, revelando um potencial ainda largamente subexplorado.

A África subsaariana francófona tem-se afirmado, há vários anos, como um dos principais motores do crescimento africano. Segundo um relatório do Centre d’étude et de réflexion sur le monde francophone (CERMF), baseado em dados do Banco Mundial, este conjunto de 22 países registou em 2025 um crescimento médio de 4,9%, contra 3,4% no restante da África subsaariana. A região foi assim o motor do crescimento continental pelo décimo segundo ano consecutivo e pela décima terceira vez em catorze anos.

Este desempenho económico insere-se num contexto demográfico e linguístico favorável. Segundo estimativas da Organização Internacional da Francofonia (OIF), o mundo conta atualmente com 396 milhões de francófonos, dos quais cerca de 65% vivem em África, confirmando o papel central do continente no futuro da língua francesa.

Para além do seu papel cultural, o francês constitui também uma ferramenta económica. É atualmente considerado a terceira língua dos negócios e estaria associado a cerca de 20% do comércio mundial, um trunfo teórico para facilitar as trocas entre países que partilham este espaço linguístico.

Uma integração económica ainda limitada

Apesar destas vantagens, a francofonia africana ainda não se traduz numa verdadeira integração económica. Segundo um relatório do Observatório da Francofonia Económica (OFE), publicado em setembro de 2019, as trocas entre países africanos francófonos representavam apenas 10,6% do seu comércio total, num contexto em que o comércio intra-africano continua globalmente baixo, representando menos de 20% das trocas do continente.

O exemplo contrastante das organizações regionais

Algumas organizações regionais demonstram, no entanto, que uma integração económica mais profunda é possível.

No seio da União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA), as trocas intra-comunitárias são relativamente dinâmicas, representando 16% das trocas globais no quarto trimestre de 2025. A Costa do Marfim e o Senegal representam, por si só, 55,3% da oferta intra-comunitária, enquanto o Burkina Faso e o Mali concentram 44,8% da procura.

Este desempenho continua bastante superior ao observado na Comunidade Económica e Monetária da África Central (CEMAC), onde as trocas intra-comunitárias registaram um crescimento de 2,2% no período 2023-2024. Nesta zona, os Camarões continuam a ser o principal exportador, enquanto o Chade e a República Centro-Africana figuram entre os principais importadores.

Estas disparidades ilustram as diferenças na estruturação económica entre as sub-regiões francófonas do continente.

«Vários agentes económicos da mesma região não se conhecem», declarou Louise Mushikiwabo, secretária-geral da OIF, citada pelo meio DW. Perante este défice de integração, apresenta as missões económicas da Francofonia como «momentos de introdução e de intercâmbio entre países por vezes vizinhos, mas economicamente distantes».

Desde o seu lançamento, estas missões económicas favoreceram encontros que geraram vários milhões de dólares em contratos comerciais, nomeadamente nos setores agroindustrial, digital e das energias renováveis. Durante a 6.ª edição em Cotonou, em junho de 2025, foi assinado um acordo de cerca de 30 milhões de euros entre uma empresa belga e uma empresa beninense.

Três pilares potenciais da francofonia económica

Neste espaço francófono, alguns países concentram importantes vantagens económicas suscetíveis de estruturar uma dinâmica regional mais integrada.

A República Democrática do Congo (RDC), gigante demográfico e mineiro, conta com mais de 100 milhões de habitantes, dos quais cerca de 57 milhões são francófonos. O país possui vastos recursos naturais, incluindo cerca de 70% das reservas mundiais de cobalto, além de cobre, coltan e ouro. Este potencial confere-lhe um papel estratégico nas cadeias de valor da transição energética.

A Costa do Marfim, por sua vez, afirma-se como uma locomotiva económica na África Ocidental, com um crescimento robusto e uma estratégia de industrialização ambiciosa. Abidjan acolhe também a Bolsa Regional de Valores Mobiliários (BRVM), reforçando o seu papel como hub financeiro.

Os Camarões ocupam uma posição estratégica na África Central, com uma economia relativamente diversificada e uma localização geográfica que os coloca no cruzamento de vários corredores comerciais regionais.

A ZLECAf como oportunidade estratégica

A implementação progressiva da Zona de Livre Comércio Continental Africana (ZLECAf) poderá reforçar o papel económico da francofonia.

«A criação de novas zonas de integração económica como a ZLECAf contribui certamente para o reforço do panafricanismo económico», sublinha o OFE.

Neste contexto, a língua francesa pode constituir uma vantagem comparativa, desde que acompanhada por políticas concretas: facilitação do comércio, desenvolvimento de redes empresariais francófonas, financiamento das PME e maior mobilidade de competências.

De espaço cultural a plataforma económica

As economias francófonas africanas apresentam um crescimento sólido e um peso demográfico significativo, representando já um mercado de centenas de milhões de consumidores. No entanto, na ausência de uma cooperação económica estruturada, ainda não tiram pleno partido da sua língua comum.

O desafio para as próximas décadas será transformar a francofonia de um espaço essencialmente cultural numa verdadeira plataforma económica, capaz de estimular o comércio, atrair investimento e apoiar a transformação estrutural das economias africanas.

A questão permanece: conseguirá a francofonia responder a este desafio?

Charlène N’dimon, Ingrid Haffiny

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A Agência Ecofin é uma agência de informação econômica setorial, criada em dezembro de 2010. Sua plataforma digital foi lançada em junho de 2011.

 
 
 
 

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