A África do Sul é o maior consumidor africano de carne de frango. O país possui também a indústria avícola mais competitiva do continente.
Como pode uma indústria capaz de superar quase todos os grandes produtores mundiais ser, ao mesmo tempo, incapaz de enfrentar a concorrência internacional sem uma proteção excecional?
Esta é, em resumo, a questão levantada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) num relatório publicado em maio passado, em resposta a um estudo sobre a eficiência da avicultura sul-africana divulgado em fevereiro pelo Bureau for Food and Agricultural Policy (BFAP), uma organização independente de investigação do país.
Intitulado «Competitividade da indústria sul-africana de frango de corte», o documento, elaborado com o apoio da Universidade de Wageningen, nos Países Baixos, afirma que a África do Sul é atualmente o segundo produtor de aves mais competitivo do mundo, tendo ultrapassado os Estados Unidos em 2025 e ficando apenas atrás do Brasil.
Segundo os autores, os indicadores técnicos e económicos são claros: o índice de conversão alimentar (a quantidade de ração necessária para produzir 1 kg de carne) é o mais baixo entre todas as grandes potências avícolas.
E embora o custo de produção por quilograma continue superior ao do Brasil, já é inferior ao dos Estados Unidos e muito abaixo dos níveis registados nos países europeus analisados (Alemanha, Países Baixos e Polónia), que beneficiam de apoios públicos.
«As condições comerciais estão a mudar»
Partindo deste diagnóstico, que não contesta, o USDA prefere questionar as «incoerências» de uma proteção considerada excessiva à indústria avícola sul-africana.
O organismo norte-americano recorda que o país mantém uma tarifa aduaneira de 62% sobre as importações de carne de frango americana com osso e de 82% sobre frangos inteiros, além de direitos antidumping aplicados aos Estados Unidos.
Estas medidas respondem às reivindicações da Associação Avícola Sul-Africana (SAPA), que afirmou repetidamente na última década que não conseguia competir com o frango importado — exceto a carne mecanicamente desossada — e que precisava de barreiras tarifárias para se proteger contra práticas de dumping de outros concorrentes, incluindo os Estados Unidos, o Brasil e alguns produtores europeus.
Com os novos dados do BFAP, este argumento torna-se cada vez mais difícil de sustentar, segundo o organismo norte-americano.
«Há muito tempo que a África do Sul aplica direitos e tarifas elevadas aos seus parceiros comerciais para proteger a indústria avícola contra aquilo que descreve como carne de frango “vendida a preços muito baixos”, mas este relatório sugere que as condições comerciais estão a mudar», indica o USDA.
Além disso, segundo o departamento norte-americano, o relatório sobre a eficiência da indústria demonstra que esta não está à beira do colapso, apesar do grave surto de gripe aviária altamente patogénica registado em 2023, como mostram os resultados financeiros recentes de várias empresas líderes do setor.
«Após um plano de recuperação de 30 meses iniciado em setembro de 2023, a empresa Rainbow Chicken registou uma melhoria financeira significativa. A empresa indicou que os seus lucros mais do que duplicaram no semestre terminado em 28 de dezembro de 2025, atingindo 669,5 milhões de rands (41 milhões de dólares). Ao mesmo tempo, a Astral Foods apresentou uma forte recuperação financeira no exercício terminado em 30 de setembro de 2025, com um volume de negócios a crescer 10,4%, para 22,6 mil milhões de rands (1,38 mil milhões de dólares), e um aumento de 16% no lucro líquido. O resultado operacional subiu 10,9%, para 1,25 mil milhões de rands (76 milhões de dólares)», explica o USDA.
O organismo acrescenta: «O relatório não aborda o possível papel das políticas restritivas de importação nos preços relativamente elevados da carne de frango pagos pelos consumidores. Conclui que o desenvolvimento da capacidade de exportação constitui o próximo passo lógico para os produtores sul-africanos, enfraquecendo ainda mais a justificação para a proteção contra importações».
Queixas justificadas?
Nas entrelinhas, a mensagem do USDA é clara: uma indústria tão eficiente, rentável e que afirma estar preparada para exportar já não pode continuar a beneficiar do estatuto de setor frágil protegido permanentemente por fortes barreiras comerciais.
Contudo, segundo alguns observadores, esta posição insere-se sobretudo numa estratégia norte-americana mais ampla destinada a abrir mercados para escoar os seus produtos, recorrendo também a instrumentos comerciais como o AGOA.
No setor avícola, já em 2016, sob pressão das autoridades americanas e após uma ameaça formal do então Presidente Barack Obama, a África do Sul acabou por abrir o seu mercado ao frango americano em troca da manutenção das suas vantagens nesse acordo comercial.
Mais recentemente, em 1 de junho, a Federação dos Exportadores de Carne dos Estados Unidos (USMEF) pediu ao Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) que utilizasse o AGOA — expirado em setembro passado e prolongado de fevereiro a dezembro — como instrumento para obter maior acesso a vários mercados africanos estratégicos, como a África do Sul, a Nigéria, Angola, o Quénia e a Namíbia.
No entanto, outros analistas consideram que, no fundo, um elevado desempenho técnico não significa necessariamente uma abertura total do mercado sem mecanismos de proteção. Ou seja, uma fileira pode ser eficiente do ponto de vista produtivo e, ainda assim, continuar vulnerável a choques externos ou desequilíbrios estruturais.
Na África do Sul, os constrangimentos energéticos, logísticos e industriais pesam fortemente sobre a produção e sobre os preços das matérias-primas, nomeadamente a soja e o milho.
Neste contexto, proteger o setor constitui uma forma de estabilizar uma indústria essencial para a economia, que representa 15% da produção agrícola total, com um valor bruto de 65,77 mil milhões de rands (cerca de 4 mil milhões de dólares).
No país, a produção de carne de frango atingiu 1,8 milhões de toneladas em 2024, dez vezes menos do que nos Estados Unidos. No mercado interno, o frango representa quase 60% do consumo total de carne e o défice anual varia entre 300 mil e 350 mil toneladas, segundo o USDA.
Este défice é compensado por importações, sobretudo provenientes do Brasil, que controlava 86% do mercado entre janeiro e junho de 2025, muito à frente dos Estados Unidos, que ocupavam o quarto lugar atrás da Argentina e dos países da União Europeia.
Espoir Olodo













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