Fora dos setores mais mediáticos, como a energia ou a defesa, a Rússia está a desenvolver em África uma presença agrícola mais discreta. Através da cooperação veterinária, da transferência de tecnologias e das trocas comerciais de produtos de origem animal, Moscovo procura igualmente afirmar-se no setor da pecuária.
A 18 de junho de 2026, a Direção-Geral dos Serviços Veterinários do Burkina Faso (DGSV) recebeu uma delegação russa para discutir a cooperação no domínio da saúde animal. Segundo um comunicado publicado no site da DGSV, as conversações incidiram sobre as possibilidades de colaboração no fornecimento de vacinas veterinárias contra a doença de Newcastle, uma patologia endémica que afeta as aves, bem como contra a raiva.
As discussões abordaram também a possibilidade de apoio técnico à produção local de vacinas e ao reforço das capacidades técnicas nacionais. Longe de ser um caso isolado, esta aproximação ao Burkina Faso insere-se numa estratégia mais ampla de reforço da presença russa nas cadeias de valor da pecuária africana, através da cooperação veterinária.
Em novembro de 2025, Moscovo, através da sua embaixada, iniciou conversações com a Nigéria sobre o fornecimento de vacinas veterinárias, a transferência de tecnologias e o desenvolvimento de capacidades locais no setor da pecuária. Embora nenhum acordo tenha sido assinado até ao momento, as duas partes discutiram igualmente perspetivas de investimento na produção de vacinas e produtos veterinários, bem como na criação de animais e nas infraestruturas da cadeia de frio.
Alguns meses antes, em maio de 2025, Moscovo já tinha conseguido concluir um acordo de cooperação científica e técnica em medicina veterinária com a República Centro-Africana. Através deste acordo, o centro veterinário VNIIZZh, principal instituto veterinário russo, comprometeu-se a reforçar a cooperação em áreas fundamentais como o desenvolvimento de novas vacinas, medicamentos veterinários e métodos de diagnóstico.
O acordo prevê ainda a troca de material biológico e a realização de investigações conjuntas, posicionando a Rússia não apenas como fornecedora de soluções, mas também como parceira científica direta na investigação veterinária na República Centro-Africana.
Um instrumento para reforçar a presença no mercado dos produtos pecuários?
Paralelamente a esta ofensiva de Moscovo no mercado africano de produtos e soluções veterinárias, as trocas entre a Rússia e África revelam um crescimento no segmento das proteínas animais.
Em 2025, as exportações russas de carne de aves para o continente mais do que duplicaram, atingindo cerca de 35.000 toneladas, com destinos em vários países, incluindo o Benim, a RDC e o Gana. Este crescimento traduz um reforço da presença russa no mercado africano de produtos de origem animal.
Segundo dados da Agroexport, o organismo federal russo responsável por estruturar e promover as exportações agrícolas, esta evolução explica-se também pela abertura de novos mercados em África, nomeadamente na República Centro-Africana e no Sudão.
Neste contexto, a aproximação de Moscovo aos países africanos no setor veterinário pode ser interpretada como um instrumento para aceder a novos mercados num setor da carne altamente competitivo, dominado por fornecedores já bem estabelecidos como o Brasil, os Estados Unidos ou a União Europeia.
Importa notar que, em África, as importações de carnes e miudezas de aves aumentaram mais de 20% em cinco anos, passando de 2 milhões de toneladas em 2020 para 2,44 milhões de toneladas em 2024, segundo dados compilados pela FAO. Paralelamente, o valor destas importações aumentou 37% no mesmo período, atingindo 2,63 mil milhões de dólares.
Esta dinâmica sugere que a cooperação veterinária não se limita a uma questão sanitária, mas constitui igualmente um instrumento de integração progressiva da Rússia na cadeia de valor da pecuária em África, tanto a montante como a jusante.
Além disso, o acesso aos mercados de produtos pecuários poderá representar uma extensão comercial desta estratégia, permitindo à Rússia diversificar as suas exportações agrícolas para África para além dos segmentos tradicionais, como os cereais, o trigo e os fertilizantes.
Stéphanas Assocle













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