Entre reservas ou recursos minerais identificados e potencial geológico, os rankings auríferos da África Ocidental variam consoante as fontes. O desafio é menos afirmar uma posição do que saber o que é economicamente explorável e o que ainda precisa de ser confirmado através da exploração.
A Guiné é a segunda maior reserva de ouro da África Ocidental. Pelo menos foi isso que afirmou na semana passada o Presidente da República, Mamadi Doumbouya, durante um encontro com os intervenientes locais do setor do ouro. Para além do Gana, que lidera, a classificação dos países da África Ocidental com as maiores reservas de ouro continua difícil de estabelecer.
A primeira dificuldade está na terminologia. No setor mineiro, uma reserva não corresponde simplesmente à quantidade real ou estimada de ouro existente no subsolo. Refere-se geralmente à parte de um jazigo que pode ser explorada de forma economicamente viável, com base em estudos técnicos, custos, teor do minério e preço do ouro. Esta classificação não deve ser confundida com a de recursos, que é mais abrangente e pode incluir ouro identificado, mas ainda não convertido em reservas exploráveis.
A esta diferença de conceitos junta-se um problema relacionado com as fontes. Nem todos os países divulgam as suas reservas ou realizam sequer os trabalhos de exploração necessários para conhecer a sua dimensão. Alguns valores vêm de instituições públicas internacionais, outros baseiam-se em arquivos históricos e outros ainda utilizam dados das empresas mineiras. Os números podem, por isso, variar, sobretudo numa região relativamente pouco explorada e onde o preço do ouro pode tornar economicamente viáveis volumes que antes não eram.
O Gana, líder incontestado
O Gana continua a ser o caso mais claro. Segundo os dados do US Geological Survey, as suas reservas de ouro estão estimadas em 1 000 toneladas, tornando-o o primeiro país da África Ocidental nesta categoria. O país beneficia de uma longa tradição industrial mineira, com grandes minas exploradas por grupos como Newmont, Gold Fields, AngloGold Ashanti, Perseus Mining e Asante Gold.
Esta posição também se reflete na produção. O Gana é o maior produtor africano de ouro, impulsionado tanto pelas minas industriais como pela mineração artesanal, cuja produção é cada vez mais integrada nos canais oficiais. Num ranking regional de reservas, o Gana é, portanto, o único país cuja liderança praticamente não é contestada.
Mali e Guiné: a disputa pelo segundo lugar
Depois do Gana, a classificação torna-se mais complexa. O Mali foi durante muito tempo considerado o segundo maior país aurífero da região. O US Geological Survey indicava ainda 800 toneladas de reservas para o país numa estimativa publicada em 2025. No entanto, dados divulgados em 2024 pelo Ministério das Minas do Mali à Reuters apontavam para uma redução das reservas detidas pelas empresas mineiras, de 881,7 toneladas em 2022 para 731 toneladas em 2024.
Mesmo assim, o Mali continua muito bem posicionado no segundo lugar, sobretudo porque estes números não incluem possíveis reservas ainda não identificadas nem alguns projetos que ainda não chegaram à fase de exploração mineira. Quanto aos dados oficiais da Guiné, estes indicam mais de 700 toneladas de reservas de ouro, principalmente nas zonas de Siguiri, Kouroussa, Mandiana, Dinguiraye e Kankan. Este valor coloca teoricamente o país próximo do Mali, mas exige alguma prudência.
A Guiné dispõe de importantes minas industriais, como Siguiri, da AngloGold Ashanti, e de grandes projetos em desenvolvimento, como Bankan, da Predictive Discovery. O país tem também atraído cada vez mais interesse dos investidores mineiros, cujos trabalhos de exploração poderão ajudar a melhorar a avaliação do potencial aurífero nacional. Enquanto isso, a exploração abrandou nos últimos anos no Mali, devido às tensões entre o Estado e as empresas sobre as regras de partilha das receitas mineiras.
Costa do Marfim em crescimento, Burkina Faso difícil de avaliar
A Costa do Marfim está a subir rapidamente na hierarquia dos produtores de ouro da África Ocidental. Os dados públicos marfinenses estimam as reservas de ouro em 600 toneladas, colocando teoricamente o país atrás dos seus vizinhos maliano e guineense. No entanto, a Costa do Marfim tem registado várias grandes descobertas, com jazigos que possuem recursos minerais superiores a 100 toneladas de ouro, como Koné, Boundiali e Doropo. Além da capacidade destes ativos para aumentar a produção, poderão levar no futuro a uma revisão das reservas nacionais.
O Burkina Faso apresenta outro desafio. É um dos grandes produtores de ouro da região, com uma produção nacional anunciada superior a 94 toneladas em 2025, mas os dados públicos uniformes sobre as reservas nacionais são menos claros. Nos dados do USGS de 2025, a produção do Burkina Faso aparece registada, mas a coluna relativa às reservas está indicada como indisponível.
Isso não significa que o país tenha pouco ouro. Pelo contrário, várias empresas declaram possuir reservas importantes. A West African Resources, por exemplo, indicava em 2025 possuir 7 milhões de onças, cerca de 218 toneladas, nos seus ativos burquinenses Sanbrado, Kiaka e Toega. Mesmo que este cálculo pudesse ser feito para a maioria das minas industriais em atividade no Burkina Faso, o resultado continuaria a apresentar apenas uma visão parcial do potencial aurífero nacional, pois não incluiria locais de mineração artesanal ou novos projetos de exploração.
A afirmação de que a Guiné possui a segunda maior reserva de ouro da África Ocidental mostra sobretudo a falta de clareza que ainda existe em torno das estatísticas mineiras no continente. Quer se trate de potencial geológico ou de produção, os rankings continuam frágeis, os investidores avançam com cautela e os governos negoceiam por vezes sem disporem de todas as informações necessárias para tomar decisões.
Emiliano Tossou













Boipuso Hall, Fairgrounds, Gaborone