O conflito de sucessão enfrentado pelo grupo francês Castel, especializado em bebidas, vinhos e espirituosos, continua, apesar da realização, em Singapura, de uma assembleia-geral ordinária da holding. O diretor-geral Grégory Clerc, cuja aprovação da saída estava na ordem de trabalhos, manteve o seu cargo apesar da oposição da família fundadora. Em África, onde o grupo detém ativos estratégicos, esta luta pelo poder, que ameaça paralisar o gigante das bebidas, é seguida de perto.
Algumas horas depois da realização, a 8 de janeiro, de um conselho de administração extraordinário da IBBM, a holding sediada em Singapura que funciona como torre de controlo do império Castel, a crise de governação mantém-se. Grégory Clerc, diretor-geral desde 2023, cuja demissão estava na ordem de trabalhos, conservou as suas funções, apesar de uma forte contestação por parte do acionista familiar. Numa declaração contundente, a família Castel sublinha, no entanto, que quase 97% dos acionistas se pronunciaram a favor da sua demissão, denunciando “manobras dilatórias” destinadas a bloquear o processo.
Na imprensa francesa, a filha do fundador Pierre Castel acusa agora abertamente a atual direção de querer marginalizar a família. Mas, para além destas disputas mediáticas na Europa, o caso é acompanhado de muito perto em várias capitais africanas. Castel não é apenas uma holding financeira: é um grupo industrial cujas operações no continente se contam em milhares de milhões de euros.
Um mercado muito competitivo
A presença do grupo em África é ao mesmo tempo tentacular e estratégica. A Castel não se limita a vender bebidas; estrutura economias inteiras através de subsidiárias históricas como a Boissons du Cameroun, com sede em Douala, a cidade económica mais importante da CEMAC, a Solibra na Costa do Marfim, ou a Société de Fabrication des Boissons na Tunísia. O grupo conseguiu manter a sua posição de liderança em ambientes complexos, incluindo no Burquina Faso. Neste país do Sahel, a Castel continua a operar através da Brakina, demonstrando uma resiliência económica notável mesmo enquanto as relações diplomáticas entre Ouagadougou e Paris atravessam um período de grande tensão. Esta capacidade de navegar acima das tensões políticas poderá, contudo, ser posta à prova se a crise se prolongar.
Enquanto o conflito se mantiver confinado às estruturas de topo, a atividade operacional parece resistir. Mas a dependência das subsidiárias africanas das decisões de Singapura é real. Investimentos em capacidade, modernização de ferramentas de produção ou aquisições de concorrentes: estas decisões estratégicas correm o risco de ficar congeladas devido à paralisia da governação. Em mercados africanos extremamente competitivos, onde os rivais internacionais estão sempre atentos, a inação pode sair cara.
Já surgem sinais fracos, mas preocupantes. Em Douala, no Camarões, um recente conselho de administração realizou-se sem Michel Palu, figura histórica e presidente da subsidiária. Esta ausência inexplicável já alimentava rumores de uma ruptura na governação. Ao mesmo tempo, Grégory Clerc multiplicou as visitas ao terreno para tranquilizar, numa estratégia de visibilidade que a família interpreta como uma tentativa de consolidar o poder.
Concentração de poderes
Perante esta pressão, o diretor-geral do grupo Castel optou por destacar o seu balanço. Referiu, nomeadamente, o ano de 2025, marcado por várias aquisições em África e na Europa, a inauguração da primeira destilaria no Congo, a forte criatividade das subsidiárias e a continuação das transformações iniciadas nas atividades de vinho.
Segundo ele, estas orientações traduziram-se num crescimento superior a 6,5% nas vendas da Castel África, consolidando a posição do grupo entre os principais produtores mundiais de cerveja. Um desempenho que atribui ao empenho das equipas e do ecossistema do grupo, ao mesmo tempo que apresenta, para 2026, uma ambição centrada no crescimento, inovação e continuidade industrial.
No entanto, o papel relevante deste dirigente não é apreciado da mesma forma por todos. A família acusa-o da forte concentração de poderes (31 no total) num grupo muito diversificado, da sua inclinação para a performance financeira ou fiscal em detrimento de uma filosofia de investimento responsável, e sobretudo das decisões unilaterais que levaram à demissão de membros importantes da família, como Alain Castel. Este descontentamento familiar é partilhado por um ex-dirigente da subsidiária camaronense, Emmanuel De Tailly.
Este último, que tinha recuperado a empresa que lhe foi confiada, mesmo enfrentando crises graves como a COVID-19 ou a insegurança nas regiões de expressão anglófona (20% do mercado potencial), foi substituído em circunstâncias nem sempre claras para o público em geral. Num comentário no LinkedIn, expressa claramente a sua preferência pelas decisões dos herdeiros Castel.
“A família permanece e deve permanecer o coração e a alma do Grupo Castel. Não pode ser de outra forma. Ninguém, fora dos seus herdeiros de sangue e dos seus companheiros de luta, pode reivindicar sozinho a herança de Pierre Castel…”, declarou.
Está anunciada uma nova assembleia-geral extraordinária, mas ainda não foi fixada uma data precisa. A família decidiu a saída de Grégory Clerc e de um dos seus principais apoiantes, Pierre Baer, mas alguns observadores mais neutros demonstram simpatia pelo trabalho realizado por este último.
Para os Estados africanos, assim como para os sindicatos e parceiros, locais e internacionais, a questão vai além da simples performance financeira. A Castel é um parceiro fiscal e social de longo prazo (primeiro empregador privado e contribuinte de peso em vários países). Uma guerra de desgaste ao mais alto nível pode, a longo prazo, corroer a confiança e fragilizar a imagem deste campeão industrial, numa altura em que a soberania económica se tornou prioridade absoluta para vários governos africanos.
Idriss Linge
Quénia: distribuidor local contesta venda da EABL pela Diageo a grupo japonês
Em África, a britânica Diageo é um dos principais atores estrangeiros no mercado de bebidas e, nos últimos anos, tem vindo a reavaliar as suas operações no continente.
No Quénia, a Bio Tosha, um dos distribuidores da Diageo, apresentou um recurso junto do Tribunal Superior para bloquear a venda, por parte do gigante dos espirituosos, das suas participações em duas filiais locais à sociedade japonesa Asahi Group Holdings.
A operação, anunciada em dezembro último, com um valor total de 2,3 mil milhões de dólares, incluía a venda da totalidade da participação da Diageo na Diageo Kenya Limited, entidade que detém 65 % do capital da EABL e 53,68 % das ações da United Distillers Vintners Kenya (UDVK).
Segundo informações da Bloomberg, a Bio Tosha solicita a suspensão da transação, alegando que está desde 2016 envolvida num processo judicial contra a Diageo, EABL e UDVK por um litígio relacionado com práticas de concorrência desleal.
A empresa sustenta que, caso a venda se concretize, não será capaz de obter um julgamento efetivo contra a Diageo no âmbito deste processo.
De acordo com Kenneth Kiplagat, advogado da Bio Tosha, citado pela Reuters, o Tribunal Superior do Quénia classificou o processo como urgente e marcou uma audiência para sexta-feira, durante a qual deverá tomar as primeiras decisões.
Até ao momento, a Diageo ainda não se pronunciou oficialmente sobre o recurso apresentado pela Bio Tosha. Observadores do setor indicam que esta ação judicial poderá atrasar a finalização da operação, que o grupo britânico inicialmente planeava concluir no segundo semestre de 2026.
Estratégia de reconfiguração das operações africanas
Esta transação insere-se na reconfiguração progressiva das atividades cervejeiras da Diageo em África. Nos últimos anos, o grupo britânico tem realizado uma série de desinvestimentos seletivos para racionalizar o seu portfólio e adotar um modelo mais centrado em licenças e parcerias locais.
Espoir Olodo
O Camarões está entre os principais países florestais do continente africano. A luta contra a exploração ilegal dos recursos florestais continua a ser um desafio importante para as autoridades.
No Orçamento do Estado de 2026, o governo camarones introduziu uma medida fiscal apresentada como incentivo, destinada a combater a exploração florestal ilegal e “selvagem”. A partir de 1 de janeiro de 2026, indica o ministro das Finanças, Louis Paul Motazé, numa circular relativa à execução do orçamento do Estado, será aplicado um abatimento de 25% a 35% sobre a taxa devida ao Estado pelos operadores florestais.
O documento especifica as condições de elegibilidade: “As empresas detentoras de uma licença de exploração beneficiam de um abatimento de 25% sobre o montante da taxa florestal anual (RFA). Esta taxa sobe para 35% para as empresas que comprovem possuir certificação de gestão sustentável”, lê-se no documento publicado na quarta-feira, 31 de dezembro de 2025. Segundo o ministro, a redução da RFA visa “incentivar a gestão sustentável dos recursos florestais”.
A medida surge num contexto em que, segundo vários relatórios oficiais, a exploração clandestina e certas práticas de operadores legais que não cumprem as regras de preservação ambiental causam danos económicos e ambientais. A Agência Nacional de Investigações Financeiras (ANIF) recordava, num relatório publicado em 2021, que uma correspondência do Ministro da Administração Territorial em março de 2019 solicitava a abertura de processos disciplinares e/ou criminais contra os envolvidos na exploração florestal e da vida selvagem ilegal, atividade que “gera uma perda anual de cerca de 33 mil milhões de FCFA para o Estado do Camarões”.
Mais de 302 milhões USD em perdas
A exploração ilegal não é, no entanto, apresentada como a principal fonte de perda de receitas fiscais no setor. Segundo ONG de defesa do ambiente, outras práticas teriam maior impacto sobre o Tesouro Público, nomeadamente as declarações falsas das quantidades de madeira produzidas. Ao subdeclararem, alguns operadores ocultam parte do seu volume de negócios e reduzem mecanicamente as obrigações fiscais associadas.
Num relatório publicado em 2020, a Environmental Investigation Agency (EIA) e o Centro para o Ambiente e Desenvolvimento (CED) estimam que, entre 2014 e 2017, estas declarações subavaliadas tenham feito perder mais de 170 mil milhões de FCFA (302 milhões USD) ao Camarões, apenas nas exportações de madeira para o Vietname. A quantificação baseia-se na diferença entre os valores declarados pelos exportadores e pelos importadores.
O relatório “Madeira roubada, templos profanados: as consequências nefastas do comércio de madeira entre o Camarões e o Vietname para as populações e florestas cameronesas”, publicado no final de 2020 pela EIA e pelo CED, descreve um comércio considerado pouco contributivo para as receitas públicas, devido a transações financeiras muitas vezes clandestinas.
“O comércio de madeira entre o Camarões e o Vietname contribui muito pouco para aumentar as receitas do Estado camarones, uma vez que as transações financeiras são frequentemente clandestinas, realizadas em numerário e baseadas em declarações falsas. Entre 2014 e 2017, os exportadores do Camarões declararam 308 milhões de dólares (mais de 170 mil milhões de FCFA) a menos do que os importadores vietnamitas”, indica o documento.
Além das diferenças de declaração, o mesmo relatório atribui aos operadores florestais vietnamitas atuando no Camarões outras práticas ilícitas: “O crescimento exponencial do comércio de madeira entre o Camarões e o Vietname baseia-se em estratagemas chocantes e atividades ilegais”, incluindo “violação generalizada das leis de exportação; evasão fiscal, exploração ilegal e desrespeito por áreas protegidas; operações de branqueamento camufladas por papelada”.
Os autores destacam ainda uma mudança rápida nos fluxos comerciais: “Em apenas alguns anos, o Vietname tornou-se o segundo maior mercado para a madeira cameronesa (depois da China), enquanto o Camarões se tornou o principal fornecedor de toros tropicais para o Vietname (representando 25% do total de toros importados entre 2016 e 2019). No Vietname, os toros cameroneses substituíram as espécies do Sudeste Asiático que abasteciam o mercado anteriormente”.
Brice R. Mbodiam, Investir no Camarões
Em Marrocos, a sardinha representa 85% dos pequenos pelágicos. No país, esse recurso vem sofrendo pressão nos últimos anos, entre o esgotamento dos estoques, a sobrepesca e o aumento das necessidades de consumo.
Marrocos proibirá a exportação de sardinhas congeladas a partir de 1º de fevereiro próximo. O anúncio foi feito na segunda-feira, 5 de janeiro, por Zakia Driouich, secretária de Estado responsável pela pesca marítima, que, no entanto, não especificou a duração da medida. Segundo ela, essa restrição comercial tem como objetivo melhorar o abastecimento do mercado interno e limitar a alta dos preços para os consumidores locais, especialmente durante o período do Ramadã, quando esse produto é particularmente apreciado.
1 peixe
No Reino Cherifiano, os desembarques de sardinha caíram 46% entre 2022 e 2024, passando de 965 mil para 525 mil toneladas, de acordo com dados do Office National des Pêches (ONP). Essa situação provocou uma forte concorrência pelo recurso e levou a vários episódios de aumento de preços em 2025, em diversas regiões do país.
Segundo vários observadores, a proibição anunciada ilustra a delicada equação enfrentada pelas autoridades marroquinas, divididas entre a necessidade de satisfazer a demanda interna e a de responder às exigências de um segmento voltado para a exportação. O Reino continua, de facto, a ser o maior produtor e exportador mundial de conservas de sardinha, com cerca de 15 mil toneladas enviadas para mercados da Europa, da Ásia e do Médio Oriente.
Diante da escassez dos recursos haliêuticos, a União Nacional das Indústrias de Conservas de Peixe (UNICOP) havia, por sua vez, apelado em junho de 2025 ao reforço dos controlos portuários e do combate à pesca ilegal, à proibição da captura de juvenis e ao respeito por períodos de defeso biológico, a fim de garantir a sustentabilidade dos estoques.
Espoir Olodo
Desde 2015, a Costa do Marfim é o maior produtor mundial de castanha de caju. O país, cuja colheita já ultrapassou a marca de 1,5 milhões de toneladas, tem também vindo a ganhar força no setor da transformação.
Para 2025, as receitas das exportações marfinenses de castanha de caju transformada deverão atingir um novo patamar. Segundo declarações de Mamadou Berte, diretor do Conselho do Algodão e do Caju (CCA), citadas pela Reuters, o valor das vendas de amêndoas de caju deverá alcançar 350 mil milhões de francos CFA (cerca de 623 milhões de dólares americanos) nesse ano, o que representa um aumento de 67% em relação ao resultado anterior (209 mil milhões de francos CFA).
Este crescimento anunciado explica-se principalmente pela forte dinâmica do segmento da transformação. Com efeito, o volume de castanha de caju processado pela indústria deverá passar de 344 028 toneladas em 2024 para 659 579 toneladas em 2025, o que corresponde a um aumento de 91,7%. Na principal economia da UEMOA, estão atualmente em funcionamento 37 unidades de transformação, com uma capacidade total instalada de 830 000 toneladas, contra menos de 10 em 2015, impulsionadas por investimentos crescentes de operadores locais e estrangeiros, incentivados por medidas fiscais e não fiscais.
Enquanto as autoridades ambicionam transformar localmente 50% da produção até 2030, o Sr. Berté afirma que cerca de uma dezena de novos projetos deverá, em breve, acrescentar 200 000 toneladas adicionais de capacidade à indústria.
Atualmente o segundo maior exportador de amêndoas de caju, atrás do Vietname, a Costa do Marfim produziu cerca de 1,5 milhões de toneladas de castanha de caju em bruto em 2025, contra 944 673 toneladas em 2024 e 1,2 milhões de toneladas em 2023, segundo dados do CCA.
Espoir Olodo
No Marrocos, a indústria têxtil é uma das mais desenvolvidas de África, a par das do Egito e da Tunísia. O setor continua a fortalecer-se com novos projetos industriais iniciados por operadores estrangeiros.
No Marrocos, o grupo chinês Sunrise, através da sua nova filial Euwen Textiles, deu início, na quarta-feira, 24 de dezembro, às obras de construção de uma fábrica têxtil situada na zona industrial de Bensouda, em Fez. Segundo informações divulgadas pelo diário local Média 24, a construção da fábrica mobiliza um investimento de 1,4 mil milhões de dirhams (≈154 milhões de dólares) e deverá entrar em funcionamento no terceiro trimestre de 2026.
A unidade industrial da Euwen Textiles foi concebida para integrar toda a cadeia de valor do têxtil e do vestuário, desde a produção de fios e tecidos até à tecelagem, tingimento, impressão têxtil e confeção de vestuário.
Com uma área prevista de 20 hectares, a infraestrutura terá uma capacidade anual de produção de 248 000 fusos para a fiação, 21 600 toneladas de tecido de malha e 54 milhões de metros de tecido tecido, necessários para a confeção de entre 41 e 50 milhões de peças de vestuário por ano.
Um plano de investimento de 252 milhões de dólares
A fábrica de Fez faz parte de um projeto global de 2,3 mil milhões de dirhams (252,2 milhões de dólares) que o grupo chinês Sunrise pretende realizar na indústria têxtil marroquina. Neste âmbito, está prevista uma nova fábrica têxtil na cidade de Skhirat. Por enquanto, os detalhes relativos a esta segunda unidade ainda não são conhecidos.
Segundo os responsáveis do projeto, a escolha dos locais de Fez e Skhirat responde a critérios logísticos e industriais específicos, baseando-se num saber-fazer local reconhecido e em infraestruturas modernas adaptadas às necessidades do grupo chinês. De forma mais ampla, o investimento previsto pela Sunrise permitirá estimular e reforçar a capacidade de produção da indústria têxtil marroquina, sobretudo orientada para a exportação.
De acordo com o Ministério da Indústria e do Comércio, 67,5% do volume de negócios realizado pela indústria têxtil e do couro no Marrocos em 2024 proveio das exportações. Os dados compilados na edição de 2025 do Barómetro da Indústria Marroquina, uma das principais fontes estatísticas sobre a dinâmica industrial do país, indicam que o volume de negócios do setor têxtil e do couro atingiu 67,8 mil milhões de dirhams em 2024.
Além disso, a indústria têxtil e do couro afirmou-se nesse ano como o segundo maior empregador industrial no Marrocos, atrás do setor automóvel, concentrando 23,7% do total dos postos de trabalho do setor. A entrada em funcionamento das novas fábricas deverá reforçar este peso, tanto mais que o grupo Sunrise prevê a criação de 7 000 empregos diretos com as suas duas unidades.
Stéphanas Assocle
Os EUA representam cerca de 20% das importações mundiais de amêndoas de caju. Nos últimos meses, os operadores africanos e asiáticos que atuam neste mercado foram impactados pelas várias notícias sobre tarifas alfandegárias.
O anúncio, em 14 de novembro último, pelo presidente americano Donald Trump, da eliminação dos direitos aduaneiros sobre o caju tranquilizou a indústria mundial, mas, no continente africano, os operadores da cadeia de produção apenas beneficiarão de forma limitada. Pelo menos é isso que considera Jim Fitzpatrick, especialista do mercado.
Segundo o analista, os países africanos forneceram apenas 7% das amêndoas de caju importadas pelos EUA em 2024, contra quase 89% para o Vietname, que deverá, de facto, ser o principal beneficiário desta medida, reforçando a sua dominância no mercado.
Embora, em termos globais, os industriais africanos possam beneficiar dos efeitos positivos com o regresso dos compradores americanos ao mercado internacional, as suas perspetivas de crescimento continuam limitadas neste destino.
De facto, sublinha o especialista, ao contrário dos europeus, que dão maior importância a aspetos como a sustentabilidade e a qualidade no processo de abastecimento, os importadores norte-americanos são muito mais sensíveis ao preço, que podem obter a níveis mais baixos no Vietname.
Esta situação leva muitos exportadores africanos a privilegiar o mercado europeu, que oferece preços mais elevados e custos de envio mais baixos. Em 2024, estes países forneceram cerca de 21% das necessidades de caju da União Europeia.
«O fim das tarifas aduaneiras norte-americanas sobre o caju terá um impacto limitado em África, enquanto terá um efeito muito mais significativo no Vietname. O que poderemos observar é que, com o regresso progressivo dos compradores americanos ao mercado, estes poderão procurar diversificar as suas fontes de abastecimento. O desafio seria, portanto, ver os transformadores africanos aumentar a sua quota de mercado nos EUA. No entanto, este objetivo é difícil de alcançar, pois é muito complexo competir com o Vietname em termos de preços. Além disso, nos últimos três ou quatro anos, o interesse dos compradores americanos pelas amêndoas de caju africanas diminuiu de facto», explica.
De forma mais ampla, considera também que a eliminação ou suspensão dos projetos de desenvolvimento da USAID teve repercussões no setor do caju na África Ocidental, uma vez que muitos projetos anteriormente em curso foram interrompidos.
«Isto significa que os produtores e, em certa medida, os transformadores, deixaram de beneficiar do apoio de marketing no mercado americano de que dispunham anteriormente. Convém também notar que, embora os direitos aduaneiros à importação tenham sido eliminados, a situação continua bastante volátil», acrescenta Fitzpatrick.
Espoir Olodo
Em África, os sistemas de sementes enfrentam numerosos desafios, nomeadamente a fraca adoção de material vegetal certificado, a escassez de laboratórios de garantia de qualidade e quadros regulamentares ainda frágeis. Perante essas limitações, muitos países intensificam os seus esforços para reforçar a cadeia de valor das sementes, a fim de melhor apoiar o desenvolvimento do setor agroalimentar. Na Nigéria, chegou a hora da reforma, impulsionada por um novo roteiro para a indústria de sementes. Numa entrevista concedida à Agence Ecofin, Francis Mwatuni, responsável do Centro de Excelência para os Sistemas de Sementes em África (CESSA) da AGRA, fala sobre o papel desta unidade na elaboração da estratégia, a sua articulação com as iniciativas regionais e a dinâmica mais ampla de reforço dos sistemas de sementes à escala do continente.
Francis Mwatuni
Agence Ecofin (AE): O Centro de Excelência para os Sistemas de Sementes em África (CESSA) é uma das entidades da AGRA dedicada aos sistemas de sementes no continente. Pode falar-nos mais sobre o seu papel e atividades?
Francis Mwatuni (FM): Estamos sediados na sede da AGRA, em Nairobi. No seio da AGRA, dirijo uma das unidades ligadas ao ramo dos “sistemas de sementes”, acolhida no CESSA. O nosso trabalho consiste em apoiar os países na realização de análises aprofundadas dos seus sistemas nacionais de sementes.
Para isso, utilizamos uma ferramenta de diagnóstico chamada Seed Systems Assessment Tool (SeedSAT). Esta ferramenta permite identificar as principais limitações que afetam o funcionamento dos sistemas de sementes. Com base nos resultados obtidos, formulamos recomendações destinadas a corrigir as fragilidades identificadas.
No entanto, a implementação dessas recomendações à escala nacional pode revelar-se complexa, nomeadamente devido à necessidade de coordenar numerosos intervenientes. É por isso que apoiamos os países na elaboração de um Plano Nacional de Investimento para o Setor de Sementes. Este documento define as prioridades, as ações concretas e as modalidades de implementação, com o objetivo global de reforçar a eficácia do sistema de sementes.
Acaba de mencionar a ferramenta SeedSAT, que foi utilizada na elaboração do Plano Nacional Estratégico e de Investimento para o Setor de Sementes (NSSSIP) e que mostra que o sistema de sementes da Nigéria funciona a cerca de 45% do seu potencial. Como foi realizado esse diagnóstico?
Obrigado pela pergunta. Em primeiro lugar, começamos por analisar a melhoria varietal, a homologação e a manutenção das variedades. Trata-se de avaliar se o país dispõe de programas de melhoramento sólidos e suficientemente apoiados, de melhoristas qualificados, bem como das infraestruturas necessárias para manter e melhorar as variedades ao longo do tempo.
Em seguida, examinamos a produção de sementes de primeira geração (Early Generation Seed – EGS), geralmente assegurada pelos institutos nacionais de investigação ou, em alguns casos, pelo setor privado. Essas sementes são cruciais, pois constituem a base da produção de sementes certificadas. Avaliamos, portanto, as capacidades do país, os dispositivos institucionais existentes e os mecanismos de certificação necessários para a produção e a gestão de EGS de qualidade.
“As sementes de primeira geração são cruciais, pois constituem a base da produção de sementes certificadas.”
A terceira etapa diz respeito à produção comercial de sementes. Analisamos se as empresas de sementes estão bem estabelecidas, funcionam de forma eficiente e são capazes de responder às necessidades dos agricultores. Avaliamos também o nível de sensibilização e de participação dos produtores, nomeadamente o papel do sistema de extensão agrícola: o seu dinamismo, os seus recursos e a sua capacidade de apoiar a adoção de sementes melhoradas.
Outro eixo diz respeito à distribuição e comercialização das sementes. Estudamos os circuitos de escoamento das sementes, desde a produção até aos agricultores, a eficácia das redes de distribuição, bem como a existência de instituições capazes de enquadrar ou regular esse processo. A garantia de qualidade constitui igualmente um elemento central da análise. Inclui o exame do quadro político, jurídico e regulamentar — leis, políticas e regulamentos que regem o setor de sementes — bem como dos mecanismos nacionais de planeamento e coordenação.
Foi com base nessa metodologia que avaliámos o desempenho do sistema de sementes nigeriano ao nível que mencionou. Convém, contudo, precisar que essa avaliação foi realizada por volta de 2019, há cinco ou seis anos. Desde então, o sistema de sementes da Nigéria evoluiu consideravelmente, e uma nova avaliação apresentaria provavelmente uma pontuação mais elevada.
Como é que a Nigéria se compara a outros países da África Ocidental e a países de outras regiões do continente onde a AGRA realizou avaliações semelhantes?
Na África Ocidental, a Nigéria apresenta desempenhos relativamente sólidos em matéria de políticas e regulamentação. O país dispõe dos quadros jurídicos necessários e de um ambiente regulamentar relativamente avançado para apoiar o funcionamento do sistema de sementes.
Obtém igualmente bons resultados na produção de sementes de primeira geração e na produção comercial de sementes. As empresas de sementes estão bem estabelecidas, operam de forma eficaz e beneficiam de um sistema ativo de garantia de qualidade, assegurando que as sementes colocadas no mercado são certificadas e estão em conformidade com as normas nacionais e internacionais.
Comparativamente, o Gana apresenta um desempenho ainda melhor. O seu quadro político e regulamentar obtém uma pontuação ligeiramente superior, em torno de 68%, contra 65% para a Nigéria, o que continua a ser uma diferença relativamente limitada.
Em contrapartida, a Nigéria apresenta um atraso ao nível dos mercados e da distribuição de sementes. O país obtém uma pontuação de cerca de 28% nesse domínio, contra quase 52% para o Gana. Isso reflete redes de distribuição mais sólidas no Gana, bem como uma defesa de interesses mais eficaz e um melhor envolvimento com as autoridades públicas para melhorar o acesso dos agricultores às sementes.
A comparação com a África Oriental, nomeadamente com o Quénia, evidencia outro contraste. O Quénia dispõe de um sistema de garantia de qualidade mais robusto, com inspeções realizadas dentro dos prazos, procedimentos de certificação claros e uma aplicação mais rigorosa da regulamentação.
No conjunto, cada país apresenta pontos fortes e fragilidades. O desempenho da Nigéria pode ser qualificado como médio, o que explica precisamente a importância da nova estratégia para o setor de sementes e do plano de investimento. Se as recomendações do Plano de Investimento para o Setor de Sementes forem implementadas de forma eficaz, o sistema de sementes nigeriano poderá registar uma melhoria significativa do seu desempenho nos próximos cinco anos.
Para além da pontuação global, quais são as principais fragilidades estruturais do sistema de sementes da Nigéria, identificadas pelo SeedSAT?
Quando analisámos a situação da Nigéria, um dos pontos mais críticos diz respeito ao planeamento e à coordenação a nível nacional. Várias instituições ligadas ao Ministério Federal da Agricultura e da Segurança Alimentar são responsáveis por diferentes intervenções relacionadas com sementes, mas as suas ações permanecem fragmentadas e insuficientemente coordenadas. Essas intervenções ganhariam em ser melhor organizadas e estruturadas.
Uma segunda grande fragilidade está relacionada com a garantia de qualidade. Como referi anteriormente, este componente apresenta uma pontuação de cerca de 38%, o que é baixo. Uma autoridade reguladora forte é indispensável, pois uma regulamentação frágil abre espaço para sementes contrafeitas e operadores pouco escrupulosos. Quando sementes falsas circulam no mercado, é, em última instância, a produtividade dos agricultores que é prejudicada.
“Quando sementes falsas circulam no mercado, é, em última instância, a produtividade dos agricultores que é prejudicada.”
Essas fragilidades ficaram claramente evidentes na avaliação e foram tidas em conta no Plano de Investimento para o Setor de Sementes. Para além dessas prioridades, outros componentes também requerem atenção especial, nomeadamente a melhoria varietal, a produção de sementes de primeira geração, os mercados e a distribuição de sementes, bem como a sensibilização e a participação dos agricultores.
Todos esses segmentos necessitam de apoios direcionados para alcançar um nível ótimo de desempenho. Só assim o sistema de sementes da Nigéria poderá desempenhar plenamente o seu papel no reforço do sistema alimentar nacional.
Concretamente, como é que o SeedTracker e o SeedCodex podem reduzir a exposição dos agricultores a sementes contrafeitas ou de má qualidade e contribuir para restaurar a confiança no sistema formal de sementes?
Na sequência da avaliação, foram envidados esforços significativos para reforçar a garantia de qualidade no setor de sementes da Nigéria. Foi nesse contexto que ferramentas como o SeedTracker e o SeedCodex foram introduzidas. Esses sistemas permitem uma rastreabilidade completa das sementes, desde as explorações onde são produzidas, passando pelas fases de inspeção e certificação, até à sua colocação no mercado.
A rastreabilidade constitui um pilar central da nossa colaboração com o governo nigeriano. Idealmente, cada país deveria dispor de um sistema digital de certificação que permita verificar se uma semente foi inspecionada e certificada, identificar a autoridade competente e garantir que não se trata de um produto contrafeito.
O SeedTracker e o SeedCodex são duas ferramentas digitais fundamentais para alcançar esse objetivo. A AGRA desempenhou um papel ativo na sua implementação, ilustrando assim o seu compromisso com o reforço do controlo de qualidade e da integridade do sistema nacional de sementes na Nigéria.
« Idéalmente, cada país deveria dispor de um sistema digital de certificação que permitisse verificar se uma semente foi inspecionada e certificada […] e assegurar que não se trata de um produto contrafeito. »
Como é que essas ferramentas serão implementadas nas zonas rurais?
É importante sublinhar que essas ferramentas são utilizadas principalmente pelo National Agricultural Seeds Council (NASC). Elas apoiam o processo de certificação, garantindo que apenas sementes certificadas cheguem ao mercado e que possam ser rastreadas. A nossa atenção está particularmente voltada para os pequenos agricultores, que constituem a maioria dos produtores em muitos países africanos e representam a espinha dorsal do setor agrícola.
Através dos serviços de extensão rural, asseguramos que esses agricultores tenham acesso a sementes certificadas e de alta qualidade. Além disso, em caso de dúvidas quanto à qualidade das sementes disponíveis no mercado, o SeedTracker permite rastrear lotes individuais. Cada embalagem de sementes possui uma etiqueta única, que possibilita verificar se o produto seguiu efetivamente o processo oficial de certificação.
Cerca de 65% do investimento total da Estratégia é destinado à seleção varietal e à garantia de qualidade. Do ponto de vista técnico e operacional, por que razão esses dois componentes oferecem os retornos mais elevados?
E que ganhos de produtividade podem ser razoavelmente esperados nos próximos anos, caso sejam plenamente implementados?
Como referido anteriormente, o plano de investimento identifica várias áreas prioritárias para financiamento. Isso não significa, contudo, que os outros componentes do sistema de sementes devam ser negligenciados. Ainda que os níveis de investimento variem entre os eixos, são necessárias ações de reforço em todos os oito pilares temáticos.
A seleção varietal é particularmente estratégica, pois constitui o ponto de partida de qualquer sistema de sementes. Quando um país dispõe de programas de melhoramento fracos, não consegue desenvolver variedades de qualidade que respondam às necessidades dos agricultores. Uma capacidade limitada de seleção aumenta igualmente a dependência de sementes importadas, o que, na ausência de uma regulação eficaz, pode favorecer a entrada de sementes contrafeitas no mercado.
“Uma capacidade insuficiente de melhoramento aumenta igualmente a dependência de sementes importadas, o que […] pode favorecer a entrada de sementes contrafeitas no mercado.”
Investir em programas de melhoramento é, portanto, essencial. A garantia de qualidade constitui a outra grande prioridade. O Estado desempenha um papel central ao assegurar que sementes certificadas e de elevada qualidade cheguem aos agricultores e ao impedir a circulação de produtos fraudulentos. Na Nigéria, essa missão cabe ao NASC, que tem registado avanços significativos no reforço das infraestruturas e no desenvolvimento das competências humanas. Embora a seleção varietal e a garantia de qualidade recebam uma atenção particular nas dotações orçamentais, os demais componentes do sistema de sementes não são, ainda assim, descurados.
Enquanto principal produtor agrícola da África Ocidental, como pretende a Nigéria alinhar a sua nova estratégia de sementes com os regulamentos harmonizados da CEDEAO em matéria de homologação varietal e certificação?
A estratégia fornece um roteiro claro para fazer evoluir o setor de sementes da Nigéria do seu estado atual para um nível mais avançado nos próximos cinco anos, enquanto o plano de implementação foi concebido para acompanhar essa transição. Como membro da CEDEAO, a Nigéria beneficia de quadros e regulamentos regionais que facilitam não apenas a circulação de sementes, mas também os procedimentos de homologação varietal à escala da África Ocidental. A estratégia não entrava nem complica esses esforços regionais.
Pelo contrário, complementa-os ao reforçar o sistema nacional de sementes, ao mesmo tempo que promove a harmonização regional. Os sistemas de sementes não podem funcionar de forma isolada, e a coordenação regional é indispensável.
“Os sistemas de sementes não podem funcionar de forma isolada, e a coordenação regional é indispensável.”
A facilitação do comércio transfronteiriço de sementes assenta na harmonização das leis e dos regulamentos. Por exemplo, uma variedade homologada no Gana pode ser reconhecida na Nigéria sem que seja necessário repetir todos os ensaios. A autoridade nacional pode limitar-se a avaliações de desempenho específicas, o que permite reduzir tanto os prazos como os custos associados à homologação. Assim, a estratégia e o respetivo plano de implementação apoiam o alinhamento a nível nacional e regional, com o objetivo global de promover um comércio de sementes eficiente e transparente, ao mesmo tempo que se impede a entrada de sementes contrafeitas ou de qualidade inferior nos mercados da região.
Para além da Nigéria e da África Ocidental, o que faz a AGRA à escala continental para reforçar os sistemas de sementes, nomeadamente em matéria de garantia de qualidade, resiliência climática e outros desafios relacionados com as sementes?
A AGRA está atualmente empenhada em liderar ações destinadas a reforçar os sistemas de sementes em vários países do continente. A nossa abordagem não se baseia em entrevistas pontuais com um número limitado de atores, nem em consultas restritas com as autoridades públicas. Pelo contrário, assenta em avaliações aprofundadas, baseadas em dados concretos, a partir das quais formulamos recomendações claras e operacionais.
Na Nigéria, por exemplo, essas recomendações foram partilhadas com todas as partes interessadas do setor de sementes, e cada uma delas foi atribuída a um parceiro de implementação claramente identificado, responsável pela sua execução. Esta organização favorece a responsabilização e a eficácia da implementação, estando todo o processo integrado no Plano de Investimento do Setor de Sementes do país.
Um dos principais alavancadores da intervenção da AGRA reside na utilização de financiamentos catalíticos, destinados a ajudar os países a desencadear rapidamente processos prioritários. Na Nigéria, esses fundos permitiram, nomeadamente, acelerar a homologação de variedades de elevado valor nutricional em várias cadeias estratégicas.
A AGRA apoia os investigadores e melhoradores para reduzir os prazos de colocação dessas variedades no mercado e promover a sua adoção pelos agricultores. A ação da AGRA não se limita ao aumento dos volumes de produção. A nutrição constitui um pilar central da nossa abordagem, com o objetivo de garantir sistemas alimentares que forneçam não apenas quantidades suficientes, mas também alimentos de qualidade nutricional.
A resiliência é outro eixo fundamental. Apoiamos o desenvolvimento e a homologação de variedades climaticamente inteligentes, tolerantes ao calor, à seca e à salinidade. Ao identificar essas variedades e apoiar os processos regulamentares, ajudamos os países a acelerar a sua difusão e a incentivar a sua adoção em larga escala.
Entrevista recolhida por Espoir Olodo
A indústria têxtil de Bangladesh é uma das mais competitivas do mundo, beneficiando de uma mão de obra qualificada e de um baixo custo do trabalho. O crescimento das suas exportações de vestuário impulsiona a procura por algodão importado.
Em 2024/2025, o Bangladesh comprou 41% do seu algodão à África, o que corresponde a cerca de 3,3 milhões de fardos. É o que revela o mais recente relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) sobre o mercado mundial da fibra. No total, o país do Sul da Ásia terá importado 8,05 milhões de fardos (1 fardo ≈ 220 kg) de algodão no final dessa campanha (agosto de 2024/julho de 2025), um aumento de 6,2% em termos anuais.
Esse volume faz do Bangladesh o maior importador mundial da fibra branca, ligeiramente à frente do Vietname, que comprou menos 100 mil fardos, e muito à frente da China (5,19 milhões de fardos). Esse crescimento das compras confirma a retoma da indústria têxtil após a desaceleração ligada à crise da Covid-19. O país, que figura entre os maiores exportadores mundiais de vestuário, depende em cerca de 98% do mercado internacional para satisfazer as suas necessidades de algodão, devido a uma produção local ainda incipiente (cerca de 155 mil fardos).
Segundo o USDA, o Benim, os Camarões, o Burkina Faso e o Mali foram os principais fornecedores africanos de matérias-primas ao Bangladesh, que também se abasteceu do Brasil (25%) e da Índia (15%). Para a campanha 2025/2026, o organismo norte-americano estima que o Vietname poderá tornar-se o maior importador mundial de algodão, com 8,1 milhões de fardos, contra 8 milhões de fardos para o Bangladesh até julho.
Fornecedores
Enquanto se aguardam eventuais revisões das previsões nos próximos meses, o USDA considera que o Bangladesh deverá beneficiar da sua forte dependência do mercado da União Europeia (50% do total das vendas de vestuário pronto-a-usar), onde goza de acesso isento de direitos aduaneiros pelo menos até 2029, num contexto em que enfrenta tarifas impostas pelos Estados Unidos (20%).
Embora esse cenário possa continuar a estimular o consumo de algodão, a vontade de vários países da África Ocidental de aumentar o valor acrescentado localmente, por meio de investimentos nos setores têxtil e de confeção, poderá limitar progressivamente as perspetivas de exportação desses fornecedores. No Benim, por exemplo, as autoridades planeiam transformar quase a totalidade da produção de fibras de algodão até 2032, com cerca de 28 unidades têxteis integradas adicionais na Zona Industrial de Glo-Djigbé (GDIZ), situada a cerca de quarenta quilómetros de Cotonou.
Ainda assim, os observadores estimam que a indústria têxtil bangladeshiana continuará a ser atrativa para o conjunto dos exportadores mundiais. De acordo com o USDA, o país, que atualmente utiliza cerca de 8,5 milhões de fardos de algodão, poderá consumir até 15 milhões de fardos, apoiado por uma rede de cerca de 4.500 fábricas que empregam quase 4 milhões de pessoas. O Bangladesh exportou 39,3 mil milhões de dólares em vestuário pronto-a-usar em 2024/2025, incluindo calças, T-shirts, camisas de malha, camisolas, blusas e roupa interior.
Espoir Olodo
Em África, a introdução de organismos geneticamente modificados (OGM) na agricultura continua ainda limitada. Um dos poucos países do continente a ter aprovado esta tecnologia, o Ruanda tem vindo a multiplicar os investimentos para reforçar as suas capacidades.
No Ruanda, o Ministério da Agricultura deu, na segunda-feira, 15 de dezembro, o arranque ao projeto denominado Rwanda Biotech Capacity Building (BioCap). Este projeto será implementado nos próximos cinco anos pelo Escritório Nacional de Desenvolvimento da Agricultura e Recursos Animais (RAB) e pelo Centro Internacional da Bata
ta (CIP), com o objetivo de reforçar as competências dos cientistas do país para desenvolver variedades melhoradas de culturas agrícolas.
Num comunicado publicado no seu site, o Ministério da Agricultura indica que o projeto se concentrará inicialmente em três culturas estratégicas: mandioca, batata e banana.
Centro de biotecnologia de 14 milhões de dólares anunciado em Rubona
Uma das principais iniciativas previstas no âmbito do projeto BioCap é a construção de um centro de excelência em biotecnologia de culturas num terreno do RAB em Rubona. Segundo informações divulgadas pelo jornal local The News Times, a criação deste centro de excelência é apoiada por um financiamento de 14 milhões de dólares da Fundação Bill & Melinda Gates.
Esta infraestrutura de investigação, uma vez operacional, destina-se a formar cientistas ruandeses em técnicas avançadas de transformação genética, edição do genoma, diagnósticos moleculares e biossegurança. De acordo com Florence Uwamahoro, diretora-geral interina do RAB, estas tecnologias permitirão desenvolver variedades de batata resistentes ao míldio, uma doença fúngica que pode provocar perdas estimadas entre 60 e 100% das colheitas do tubérculo na África Oriental.
Está também previsto integrar a resistência ao vírus do estriado da mandioca (uma doença fúngica capaz de destruir até 80% das colheitas) através da melhoria genética, e tornar algumas variedades de banana mais resistentes à murcha bacteriana e ao Fusarium (fungo responsável pela fusariose).
“O projeto BioCap também reforçará a capacidade do Ruanda de gerar dados regulatórios, ambientais e de segurança alimentar, bem como de integrar culturas biotecnológicas em ensaios de desempenho, sistemas de sementes e serviços de extensão agrícola”, declarou Solange Uwituze, Ministra da Agricultura e Recursos Animais.
Rumo à aceleração da integração dos OGM na agricultura?
No Ruanda, o reforço das capacidades dos investigadores em biotecnologia é particularmente estratégico, uma vez que o governo pretende fazer dos OGM um vetor para desenvolver a produção agrícola.
Neste contexto, o Programa Nacional de Biotecnologia foi lançado em outubro de 2024, com um custo total de 9,9 milhões de dólares. Este plano quinquenal visa melhorar a produtividade de culturas estratégicas como a mandioca, o milho e a batata, através da introdução de variedades geneticamente modificadas, resistentes a doenças, pragas e à seca.
É importante notar que, desde 13 de julho de 2023, o governo ruandês aprovou uma nova lei que autoriza a utilização, processamento, comercialização, importação e exportação de OGM. Contudo, até ao momento, nenhum produto agrícola OGM é cultivado em larga escala no país.
Quanto aos últimos desenvolvimentos do setor, o RAB iniciou, em setembro de 2024, testes com variedades de batata OGM resistentes ao míldio.
Stéphanas Assocle