O arranque do campo South N’dola pela Chevron marca um ponto de viragem na estratégia energética angolana: otimizar os campos maduros e, em simultâneo, desenvolver o gás, incluindo o gás não associado, para reduzir a dependência do petróleo e apoiar a implementação do National Gas Master Plan.
Num contexto em que a produção petrolífera de Angola continua a diminuir, a Chevron anunciou, na segunda-feira, 29 de dezembro, o início da produção do campo South N’dola, localizado no bloco 0, ao largo da costa angolana, e operado pela sua filial local Cabinda Gulf Oil Company (CABGOC). A multinacional não divulgou volumes oficiais, mas o Africa Oil & Gas Report estima que o campo possa produzir cerca de 25 000 barris de petróleo por dia, aos quais se juntariam aproximadamente 50 milhões de pés cúbicos de gás por dia, perfazendo uma produção combinada total de cerca de 33 000 barris equivalentes de petróleo por dia.
O projeto assenta na otimização das infraestruturas existentes, o que permite limitar os investimentos adicionais e reduzir os prazos de entrada em produção. «Impulsionada pelo potencial do bloco 0, a entrada em produção segura de South N’dola constitui mais um exemplo dos esforços da Chevron para maximizar a produção a partir dos nossos ativos offshore existentes em Angola», declarou Brent Gros, presidente da Chevron Offshore Business.
Para além do arranque de um novo campo, esta produção insere-se na estratégia nacional de valorização do gás associado, que será encaminhado para o complexo Angola LNG, a principal infraestrutura de monetização de gás do país. A integração de novos projetos nesta instalação contribui igualmente para reduzir a queima de gás e prolongar a rentabilidade dos campos maduros, num contexto em que a produção nacional passou de cerca de 2 milhões de barris por dia no início da década de 2010 para aproximadamente 1,1 milhão atualmente.
Para reduzir a sua dependência do petróleo, Angola aposta no desenvolvimento do gás, incluindo o gás não associado, como demonstra a entrada em funcionamento do seu primeiro campo dedicado em novembro de 2025. Este primeiro grande projeto, denominado New Gas Consortium (NGC), iniciou a produção de gás em novembro de 2025 através de uma unidade de processamento em Soyo, representando uma etapa fundamental na valorização dos recursos gasíferos de forma independente do petróleo, com uma capacidade de cerca de 400 milhões de pés cúbicos de gás por dia e até 20 000 barris de condensados.
Esta dinâmica apoia-se no National Gas Master Plan (NGMP), formalmente adotado em abril de 2025, que visa estruturar a indústria nacional do gás e elevar a quota do gás no cabaz energético para 25 % a curto prazo, face aos cerca de 7 a 10 % atuais.
Abdel-Latif Boureima
Poucos dias depois de concluir um financiamento estratégico para suas atividades de upstream, a holding de Tony Elumelu concretiza uma aquisição estruturante ao ingressar no capital da Seplat Energy.
A Heirs Energies, subsidiária de energia da Heirs Holdings, firmou em 30 de dezembro último um acordo definitivo com o grupo francês Maurel & Prom para a aquisição da totalidade de sua participação no produtor nigeriano Seplat Energy.
A operação envolve 120,4 milhões de ações, correspondentes a 20,07% do capital, por um valor de 496 milhões de dólares. Um primeiro pagamento de 248 milhões de dólares está previsto de imediato, devendo o saldo ser quitado no prazo de 30 dias, garantido por uma carta de crédito irrevogável. Também está previsto um complemento de preço contingente que pode chegar a 10 milhões de dólares, em função da evolução do preço das ações da Seplat nos próximos seis meses.
Essa participação eleva a Heirs Energies à posição de principal acionista da Seplat, à frente de vários investidores institucionais históricos. A transação ocorre poucos dias após o anúncio, em 22 de dezembro, de uma linha de financiamento de 750 milhões de dólares obtida pela empresa junto ao Afreximbank, destinada a refinanciar parte de sua dívida e a apoiar a expansão de sua produção de hidrocarbonetos.
“Essa aquisição reflete nossa profunda convicção de que a África é capaz de possuir, desenvolver e gerir de forma responsável seus recursos estratégicos. Trata-se de um investimento de longo prazo no futuro energético da Nigéria e do continente africano”, comentou Tony Elumelu (foto).
No plano industrial, a operação permite à Heirs Energies, que ingressou no upstream petrolífero em 2021 ao adquirir uma participação no OML 17 anteriormente detido pela Shell, Total e Eni, associar-se a um produtor estabelecido, com um portfólio diversificado em petróleo e gás. A Seplat apresenta reservas 2P superiores a um bilhão de barris equivalentes de petróleo e uma produção em interesses diretos de 135.600 barris equivalentes de petróleo por dia no final de outubro de 2025.
Por sua vez, a Heirs Energies produz atualmente mais de 50.000 barris por dia e cerca de 120 milhões de pés cúbicos de gás, com ambições de crescimento no médio prazo.
Para além da trajetória do grupo, a transação insere-se em um movimento mais amplo de retirada progressiva das majors internacionais dos ativos onshore nigerianos, em um contexto de desafios de segurança e regulatórios, mas também da vontade declarada das autoridades de reforçar o papel dos operadores locais. Após a aquisição, pela Seplat, dos ativos terrestres e de gás da ExxonMobil, a entrada da Heirs Energies em seu capital consolida essa dinâmica de controle doméstico dos recursos energéticos.
Olivier de Souza
Face às perdas geradas pelo contrabando de ouro, o Estado ganês criou este ano o GoldBod, entidade que passa a deter o monopólio da compra e da exportação do ouro artesanal e de pequena escala. Uma iniciativa que já parece dar frutos, à luz dos números oficiais.
No Gana, o GoldBod superou o seu objetivo de exportar 100 toneladas de ouro proveniente da mineração artesanal e de pequena escala (ASM, na sigla em inglês) em 2025, gerando 10 mil milhões de dólares norte-americanos em receitas ao longo do período. A informação foi revelada recentemente por Sammy Gyamfi (foto), diretor-geral desta entidade criada este ano para assumir o papel de comprador e exportador único do ouro artesanal no país da África Ocidental.
O GoldBod atua como regulador do comércio de ouro no mercado interno ganês, adquirindo a produção dos pequenos mineradores para posterior reexportação. Neste âmbito, a instituição fixou como objetivo a aquisição de pelo menos 3 toneladas de ouro por semana. Uma estratégia que já lhe tinha permitido gerar 6 mil milhões de dólares em receitas de exportação entre janeiro e agosto de 2025. O patamar de 10 mil milhões de dólares alcançado no final do ano vem assim encerrar este exercício inaugural, assinalando um resultado significativo para o país.
A título de comparação, as exportações totais de ouro do Gana atingiram 11,6 mil milhões de dólares em 2024, valor que inclui tanto o ouro proveniente da mineração artesanal como o das minas industriais. Até ao momento, as receitas de exportação do ouro industrial referentes a 2025 ainda não foram publicadas, um dado essencial para medir a evolução real das receitas geradas este ano pelo setor aurífero ganês, num contexto em que os preços aumentaram mais de 70% desde janeiro.
Entretanto, o GoldBod já antecipa uma melhoria do seu desempenho operacional em 2026. Nas suas projeções anteriores, a instituição apontava para 12 mil milhões de dólares em exportações de ouro artesanal no próximo ano.
Aurel Sèdjro Houenou
O Senegal pretende alcançar o acesso universal à eletricidade até 2030. Embora a taxa nacional de acesso tenha progredido nos últimos anos, ainda existem disparidades entre áreas urbanas e rurais, que constituem um dos principais desafios a superar para atingir este objetivo.
No Senegal, organizações da sociedade civil destacam o desenvolvimento de soluções de eletrificação descentralizadas para complementar a transição energética em curso, segundo informações divulgadas pela Agência de Imprensa Senegalense (APS), na terça-feira, 16 de dezembro.
De acordo com Fatimata Diallo, coordenadora nacional da plataforma de atores da sociedade civil, que se pronunciou durante um workshop público, os projetos apoiados neste âmbito visam essencialmente reforçar a oferta de energia injetada na rede elétrica nacional. Esta abordagem privilegia infraestruturas de produção ligadas à rede existente.
Para ilustrar a situação, ela cita a central solar de Bokhol, com capacidade de 20 megawatts, em operação desde 2016. Segundo as suas declarações, várias localidades próximas do local ainda não têm acesso à eletricidade, apesar da presença desta infraestrutura.
Dados governamentais compilados em 2025 indicam que a taxa de acesso nacional à eletricidade era de cerca de 84%. Este nível, no entanto, oculta diferenças significativas entre áreas urbanas e rurais, com mais de 30% das comunidades rurais ainda não conectadas.
A Agência Internacional de Energia (AIE) indica que cerca de 30% das novas ligações elétricas necessárias até 2030 deverão ser asseguradas por mini-redes e sistemas off-grid, como complemento à expansão das redes existentes.
Neste contexto, as organizações da sociedade civil salientam a importância das mini-redes solares e dos sistemas off-grid como complemento à eletrificação através da rede nacional.
Em janeiro de 2025, o Banco Mundial confirmou o lançamento do Senegal Energy Access Scale-Up Project, apoiado pela Associação Internacional de Desenvolvimento. A iniciativa prevê a eletrificação de cerca de 200 000 lares, assim como 600 centros de saúde e 200 escolas, bem como a construção ou reabilitação de aproximadamente 4 000 quilómetros de linhas elétricas.
Na sequência destes esforços, as autoridades senegalesas apresentaram, em janeiro de 2025, durante a cimeira energética Mission 300, o seu Pacto Nacional para a Energia, que estabelece, entre outros objetivos, fornecer eletricidade a mais 6,6 milhões de pessoas até 2030.
Abdel-Latif Boureima
Na Mauritânia, a exploração e a manutenção das infraestruturas elétricas assentam em parte em parcerias de longo prazo com atores especializados, chamados a intervir tanto em ativos públicos como em instalações industriais privadas.
O grupo finlandês Wärtsilä, especializado em tecnologias energéticas e serviços de operação de centrais elétricas, continua as suas atividades na Mauritânia através de contratos de longo prazo. Na quinta-feira, 18 de dezembro, a empresa anunciou a renovação por três anos do seu acordo de exploração e manutenção com a Tasiast Mauritanie Limited S.A., subsidiária do grupo canadiano Kinross Gold Corporation.
O acordo refere-se a uma central elétrica de 60 MW que abastece o sítio mineiro de Tasiast, localizado a cerca de 300 quilómetros a norte de Nouakchott. Colocada em operação em 2013, a central tem sido explorada e mantida pelo grupo finlandês desde a sua construção. O contrato renovado integra um mecanismo de desempenho baseado em resultados, introduzido durante a expansão do sítio em 2022, destinado a alinhar a performance energética com os objetivos operacionais e comerciais da mina.
A instalação opera num sistema híbrido isolado, combinando energia solar, baterias e produção térmica, garantindo tanto a carga base como a reserva giratória necessárias à estabilidade do fornecimento elétrico do sítio.
Esta renovação ocorre algumas semanas após outro acordo celebrado na Mauritânia. No final de novembro, a companhia nacional de eletricidade do país (SOMELEC) assinou também com a Wärtsilä um contrato de performance garantida de três anos para a central térmica de 34 MW de Nouadhibou. Este acordo expandiu uma parceria existente, incorporando compromissos formais sobre o desempenho do ativo, um dispositivo de manutenção reforçado e apoio operacional permanente.
Estes dois contratos dizem respeito a infraestruturas energéticas estratégicas, destinadas tanto ao abastecimento da capital económica como ao funcionamento de um importante sítio mineiro industrial. Inserem-se num contexto em que a segurança do fornecimento elétrico continua a ser um desafio central para a continuidade das atividades económicas.
Segundo o relatório 2024 da ITIE Mauritânia, o setor mineiro representa cerca de 25% das receitas orçamentais do Estado e quase 80% das exportações do país. O mesmo relatório indica que, em 2024, a Tasiast figurava entre as duas principais empresas extractivas em termos de receitas pagas ao Estado. Neste contexto, a fiabilidade das infraestruturas elétricas surge como um elemento-chave para o funcionamento dos sítios mineiros, ao mesmo nível da estabilidade da rede nos principais centros urbanos.
Abdoullah Diop
Morocco’s Agency for Sustainable Energy (Masen) has approved a renewable energy development program that includes the launch of new projects totaling 1.7 GW of installed capacity from 2026, the agency said following a board meeting held on Tuesday, December 16.
The decision was taken during a meeting attended by Minister of Energy Transition and Sustainable Development Leila Benali, Minister of Economy and Finance Nadia Fettah, and senior officials from public institutions involved in the energy sector.
The program aligns with Masen’s objective to raise renewable capacity developed under its supervision to nearly 5 GW by 2030. The board also reviewed the agency’s strategic guidelines for 2026–2028, as well as the performance of renewable power plants currently in operation for the 2025 financial year.
Board members were also briefed on recent developments related to the country’s hydrogen offering and the progress of related projects, although no new volumes or timelines were disclosed.
Morocco adopted a national energy strategy in 2009 focused on renewable energy development, energy efficiency, and regional integration. The strategy aims to reduce dependence on imported fossil fuels and capitalize on the country’s renewable energy potential.
According to key indicators for 2024, Morocco has 2,433 MW of installed wind capacity across 23 projects authorized under Law No. 13-09, and 885.2 MW of installed solar capacity from 13 projects approved under the same framework. The national energy strategy targets renewables accounting for more than 52% of total installed electricity capacity by 2030.
Abdoullah Diop
Para tirar melhor partido da subida dos preços do ouro, o Zimbabué anunciou, há algumas semanas, uma reforma fiscal destinada a integrar uma nova taxa de royalty de 10%, aplicável a partir de 2 501 USD por onça. Uma iniciativa que não deixou de provocar inquietação no seio do setor.
Numa atualização do seu orçamento financeiro para 2026, divulgada na quarta-feira, 17 de dezembro, o Zimbabué ajustou a reforma fiscal em curso sobre as royalties do ouro. Inicialmente prevista para entrar em vigor a partir de um preço do ouro de 2 501 USD por onça, a taxa de 10% passará agora a aplicar-se apenas acima de um novo limiar, elevado para mais de 5 000 USD. Uma alteração que poderá, ainda assim, revelar-se favorável para Harare, tendo em conta as previsões dos analistas sobre a evolução dos preços do metal amarelo no próximo ano.
Uma reviravolta num contexto de oposição
No final de novembro passado, o governo zimbabueano anunciou um novo sistema de royalties sobre o ouro, destinado a beneficiar melhor da subida contínua dos preços do metal, que atualmente rondam os 4 330 USD por onça. Esta reforma baseava-se numa tabela progressiva, com uma taxa de 3% quando o preço do ouro é inferior a 1 200 USD por onça, aumentada para 5% numa faixa entre 1 201 e 2 500 USD, e depois elevada para 10% acima desse limiar.
Esta evolução suscitou reações entre os produtores de ouro do país, até então sujeitos a uma royalty de 5% para preços do ouro superiores a 1 200 USD por onça. A Caledonia Mining alertou, nomeadamente, para as potenciais consequências na rentabilidade da sua mina Blanket, enquanto a Zimbabwe Miners Federation (ZMF) considerou que a introdução de uma taxa de 10% poderia travar os investimentos.
É neste contexto que o governo procedeu ao presente reajustamento, mantendo a taxa de 5% aplicável para uma faixa de preços entre 1 201 e 5 000 USD por onça, e reservando a taxa de 10% apenas para níveis superiores a esse limiar. Embora esta atualização pareça responder às preocupações dos atores do setor, a possibilidade de o Zimbabué beneficiar da taxa máxima continua, ainda assim, bem real.
Uma média de 5 055 USD por onça até ao final de 2026, segundo a JP Morgan
É pelo menos isso que sugerem as previsões dos analistas do banco norte-americano JP Morgan. Segundo estes, o movimento de alta do ouro poderá prolongar-se em 2026, com preços a atingirem uma média de 5 055 USD por onça até ao final do exercício. Expectativas partilhadas pelo Bank of America e pela consultora Metals Focus, que também apostam na ultrapassagem do patamar dos 5 000 USD por onça no próximo ano.
« Embora a subida do preço do ouro não tenha sido, nem venha a ser, linear, acreditamos que as tendências que sustentam este reajustamento em alta dos preços do ouro não estão esgotadas. A tendência de longo prazo para a diversificação das reservas oficiais e dos investimentos em ouro tem ainda um futuro promissor. Prevemos que a procura de ouro empurre os preços para os 5 000 USD/onça até ao final de 2026 », explica Natasha Kaneva, responsável da JP Morgan.
A concretização destas previsões poderá, assim, reforçar o Zimbabué na implementação da sua reforma, abrindo-lhe a possibilidade de captar até 10% do valor de mercado das vendas de ouro dos produtores industriais presentes no seu território. Resta agora observar a evolução das dinâmicas nos primeiros meses de 2026 e, sobretudo, as reações dos intervenientes do setor face ao novo sistema de royalties adotado.Entretanto, note-se que a subida dos preços do ouro acima dos 5 000 USD por onça não deverá beneficiar apenas o Zimbabué. Poderá também favorecer vários outros países africanos, entre os quais o Burkina Faso, que aplic a desde abril passado uma taxa adicionalde 1% por cada aumento suplementar de 500 USD por onça.
Aurel Sèdjro Houenou
A produção de ouro no Burkina Faso diminuiu durante três anos consecutivos. Se se conhece em que proporções o volume extraído das minas industriais recuou, a produção artesanal tem sido historicamente mal avaliada. As estimativas para esta última situam-se entre 9,5 e 30 toneladas de ouro por ano, segundo a ONG SWISSAID.
No Burkina Faso, a produção de ouro aumentou 58% em termos anuais, atingindo 70,43 toneladas até setembro de 2025, contra cerca de 61 toneladas em todo o ano de 2024. Segundo detalhes divulgados esta semana pela imprensa local, citando o ministro das Minas, Yacouba Zabré Gouba, este aumento deve-se principalmente aos números do setor artesanal, onde a produção coletada chegou a 29,56 toneladas nos primeiros nove meses de 2025, contra 5,57 t no período correspondente de 2024.
Longe de ser uma surpresa, o crescimento do setor artesanal ocorreu progressivamente nos últimos anos, graças à criação da Société Nationale des Substances Précieuses (SONASP). Responsável pela compra da produção artesanal e semi-mecanizada de ouro, esta estrutura instalou postos de compra em todo o país para controlar melhor fluxos que ainda escapam amplamente às autoridades. Ouagadougou também contribuiu para a formalização de cooperativas de mineiros artesanais, integrando-as assim nos circuitos oficiais de comercialização do metal.
A formalização do setor artesanal permite sobretudo compensar o abrandamento da produção industrial, que se manteve estável em 40,87 toneladas até setembro de 2025, contra 39,24 toneladas no ano anterior. Entre o encerramento de algumas minas devido à insegurança e a venda de ativos de grandes companhias mineradoras em plena reorganização estratégica (Fortuna Mining, Endeavour Mining), o Burkina Faso registou três anos consecutivos de queda na produção de ouro. Para além das ações da SONASP, o governo retomou o controlo de algumas minas e encontrou investidores para novos projetos.
Mineiros industriais em dificuldade?
Se estas medidas estão a dar frutos gradualmente, num contexto de subida de 65% do preço do ouro, a contribuição das minas industriais ainda detidas por companhias estrangeiras continua a ser dominante. A canadiana Orezone concluiu, em meados de dezembro de 2025, um investimento de 80 milhões de USD que lhe permite aumentar em 45% a produção na mina de ouro Bomboré. O nacionalismo de recursos promovido pelo capitão Ibrahim Traoré, que se tornou presidente do Burkina Faso após um golpe de Estado em 2022, coloca, no entanto, um risco sobre a continuidade das atividades destas companhias.
O governo burquinense enviou este ano um pedido para deter até 50% da mina de ouro Kiaka, uma das maiores do país, com uma produção média anual esperada de mais de 7 toneladas durante 20 anos. O proprietário australiano, West African Resources, indicou estar a estudar várias opções para evitar este aumento da participação do Estado na mina (o Burkina Faso detém atualmente 15%), mas o desfecho permanece incerto. Outros projetos auríferos não estão a salvo de tais pedidos, previstos pelo novo código mineiro adotado em 2024, que permite a Ouagadougou adquirir, mediante pagamento, participações significativas nas minas.
Emiliano Tossou
Apesar do seu peso significativo nas emissões de gases com efeito de estufa, o carvão continua a ser um pilar da produção mundial de eletricidade, influenciando persistentemente as escolhas energéticas dos Estados.
A procura mundial de carvão, a principal fonte de emissões de dióxido de carbono ligadas à produção de energia a nível global, voltou a aumentar. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o consumo mundial de carvão deverá situar-se este ano em cerca de 8,85 mil milhões de toneladas. A procura global mantém-se, assim, em níveis historicamente elevados pelo terceiro ano consecutivo.
Informações divulgadas na quarta-feira, 17 de dezembro, pela imprensa internacional, citando as últimas projeções da Agência, indicam que o carvão ainda representa cerca de um terço da produção elétrica mundial, à frente do gás natural e da energia hidroelétrica, apesar do crescimento das energias renováveis e dos compromissos de vários Estados para reduzir o uso de combustíveis fósseis.
Este aumento deve-se a uma procura elétrica ainda elevada e à manutenção em funcionamento das capacidades existentes. Em várias grandes economias, as centrais a carvão continuam a ser mobilizadas para satisfazer as necessidades básicas do sistema elétrico. A Agência sublinha também que a procura continua a ser impulsionada por usos industriais.
O carvão permanece um pilar do sistema elétrico em muitos países, sobretudo na Ásia, mas esta dinâmica esconde situações contrastantes, consoante as grandes economias consumidoras. Na China, maior consumidor mundial, a procura é descrita como globalmente estável em 2025, mas em níveis historicamente elevados.
Na Índia, o consumo diminuiu pontualmente este ano devido a uma produção hidroelétrica mais abundante ligada a uma monção favorável, mantendo-se, contudo, estruturalmente elevado. Nos Estados Unidos, a procura aumentou devido aos elevados preços do gás natural, tornando o carvão mais competitivo para a produção de eletricidade, segundo dados da Agência.
O carvão beneficia, além disso, de infraestruturas existentes, cadeias de abastecimento consolidadas e, em muitos grandes consumidores, de recursos domésticos abundantes.
Além disso, o crescimento da procura mundial de eletricidade, impulsionado pela industrialização, urbanização e aumento dos usos digitais, continua a superar o ritmo de expansão das capacidades de baixa emissão de carbono e das redes elétricas associadas.
A AIE antecipa, no entanto, uma estabilização da procura mundial de carvão nos próximos anos, antes de um declínio gradual a partir de 2030. Esta projeção baseia-se na expansão esperada das energias renováveis, da energia nuclear e na melhoria da eficiência energética, no âmbito das políticas energéticas atualmente anunciadas.
Abdel-Latif Boureima
Para tirar melhor proveito do aumento dos preços do ouro, o Zimbábue anunciou, há algumas semanas, uma reforma fiscal que previa a introdução de uma nova taxa de royalties de 10%, aplicável a partir de 2.501 USD por onça. Uma iniciativa que provocou reação na cadeia do setor.
Numa atualização do seu orçamento financeiro para 2026 divulgada na quarta-feira, 17 de dezembro, o Zimbábue ajustou a reforma fiscal relativa aos royalties do ouro. Inicialmente prevista a partir de um preço do ouro de 2.501 USD por onça, a taxa de 10% passará agora a ser aplicada apenas acima de um limite elevado para mais de 5.000 USD. Uma alteração que pode, no entanto, ser favorável a Harare, tendo em conta as previsões dos analistas sobre a evolução dos preços do metal precioso no próximo ano.
Uma inversão em meio à oposição
No final de novembro, o governo do Zimbábue tinha anunciado um novo sistema de royalties do ouro, destinado a aproveitar melhor a contínua subida dos preços do ouro, atualmente em torno de 4.330 USD por onça. Esta reforma baseava-se numa tabela progressiva, com uma taxa de 3% quando o preço do metal é inferior a 1.200 USD por onça, elevada para 5% numa faixa entre 1.201 e 2.500 USD, e para 10% acima deste limite.
Esta evolução suscitou reações entre os produtores de ouro do país, até então sujeitos a um royalty de 5% para um preço do ouro superior a 1.200 USD por onça. A Caledonia Mining alertou sobre as potenciais consequências para a rentabilidade da sua mina Blanket, enquanto a Zimbabwe Miners Federation (ZMF) considerou que a introdução de uma taxa de 10% poderia travar os investimentos.
Foi neste contexto que o governo procedeu ao presente reajuste, com a taxa de 5% aplicada para uma faixa de preços entre 1.201 e 5.000 USD por onça, reservando a taxa de 10% para níveis superiores a este limite. Embora esta atualização pareça responder às preocupações dos intervenientes do setor, a possibilidade de o Zimbábue beneficiar da taxa máxima permanece real.
Uma média de 5.055 USD por onça até final de 2026, segundo JP Morgan
É pelo menos o que sugerem as previsões dos analistas do banco norte-americano JP Morgan. Segundo estes, a tendência de subida do ouro poderá continuar em 2026, com preços a atingir em média 5.055 USD por onça até ao final do exercício. Previsões partilhadas pelo Bank of America e pela consultora Metals Focus, que também apontam para a ultrapassagem do limite de 5.000 USD por onça no próximo ano.
“Embora a subida do preço do ouro não tenha sido, e não será, linear, acreditamos que as tendências que justificam este reajuste face ao aumento dos preços do ouro ainda não se esgotaram. A tendência de longo prazo para a diversificação das reservas oficiais e dos investimentos em ouro tem ainda muito futuro. Prevemos que a procura de ouro empurre os preços para 5.000 USD/oz até ao final de 2026”, explica Natasha Kaneva, responsável da JP Morgan.
A concretização destas previsões poderá assim reforçar o Zimbábue na implementação da sua reforma, abrindo-lhe a possibilidade de captar até 10% do valor de mercado das vendas de ouro dos produtores industriais presentes no seu território. Resta agora observar a evolução das dinâmicas nos primeiros meses de 2026, e sobretudo as reações dos intervenientes do setor face ao novo sistema de royalties adotado.
Entretanto, note-se que a subida dos preços do ouro acima de 5.000 USD por onça não deverá beneficiar apenas o Zimbábue. Poderá também favorecer vários outros países africanos, incluindo o Burkina Faso, que aplica desde abril passado uma taxa adicional de 1% para cada aumento adicional de 500 USD por onça.
Aurel Sèdjro Houenou
Na África Austral, a integração da energia solar nas trocas de eletricidade avança de forma gradual. A Solarcentury Africa participa nesta evolução através de projetos ligados diretamente ao mercado regional.
A empresa britânica Solarcentury Africa, especializada no desenvolvimento de projetos solares integrados, anunciou, na quarta-feira, 17 de dezembro, a entrada em exploração comercial da sua central solar fotovoltaica de Gerus, com uma capacidade de 19,3 MWp, na Namíbia.
O projeto torna-se a primeira central solar comercial do país a vender eletricidade diretamente no Southern African Power Pool (SAPP), o mercado regional de eletricidade da África Austral.
Desenvolvida em parceria com a Sino Energy (Pty) Limited) e concluída após doze meses de obras, a central de Gerus, que mobilizou um investimento de 20 milhões de dólares, deverá produzir cerca de 50,8 GWh de eletricidade por ano, o equivalente ao consumo de mais de 14 000 lares namibianos, permitindo evitar aproximadamente 17 000 toneladas de CO₂ por ano.
“Estamos extremamente orgulhosos de ver Gerus alcançar a exploração comercial”, declarou Jason de Carteret, diretor-geral da Solarcentury Africa. “Este projeto demonstra o que é possível alcançar graças a parcerias locais sólidas, à excelência técnica e a um compromisso comum para acelerar o acesso a uma energia limpa, fiável e acessível na África Austral.”
A Solarcentury Africa assina assim o seu segundo projeto solar comercial ligado ao SAPP, depois da central de Mailo, com 25 MWp, na Zâmbia, que entrou em exploração comercial em julho de 2025. Uma extensão de 34 MWp deste projeto zambiano encontra-se atualmente em construção, com entrada em funcionamento prevista para o segundo trimestre de 2026.
Estes projetos inserem-se na dinâmica de integração progressiva das energias renováveis no seio do SAPP, que reúne doze países da África Austral.
Durante muito tempo dominado pela hidroeletricidade e pelas centrais térmicas, o mercado regional começa assim a assistir ao surgimento, ainda que em escala limitada, de capacidades solares comerciais capazes de operar sem garantias soberanas e sem contratos de compra de energia de longo prazo.
Abdoullah Diop
A Asante Gold pretende elevar a produção combinada das suas minas de ouro Bibiani e Chirano, no Gana, para 500 000 onças de ouro até 2028, face a pouco mais de 200 000 onças em 2024. Só este ano, a empresa já mobilizou mais de 500 milhões de dólares, nomeadamente para financiar este plano de crescimento.
A Asante Gold anunciou, na terça-feira, 16 de dezembro, uma colocação de ações com o objetivo de angariar pelo menos 156 milhões de dólares canadianos (113 milhões de dólares americanos) para as suas minas de ouro Bibiani e Chirano, no Gana. Este recurso aos investidores da bolsa TSX-V, em Toronto, constitui a mais recente de várias iniciativas de financiamento anunciadas nos últimos meses pela empresa mineira canadiana, envolvida num plano de crescimento que visa alcançar uma produção anual de 500 000 onças de ouro até 2028.
Para esta nova operação de financiamento, a Asante associou-se à BMO Capital Markets, que atua como líder e único coordenador do livro de ordens. Poderão ser subscritas 97,5 milhões de ações ordinárias a um preço de 1,60 dólar canadiano por ação. A empresa concedeu igualmente aos subscritores uma opção para adquirir até 14 625 000 ações ordinárias adicionais ao mesmo preço, o que poderá gerar um produto bruto adicional de até 23,4 milhões de dólares canadianos.
Antes destas novas captações de fundos, a Asante concluiu, em agosto, uma estrutura de financiamento destinada a mobilizar até 470 milhões de dólares americanos para o seu plano de crescimento. A empresa obteve igualmente 236 milhões de dólares canadianos em julho de 2025 junto de investidores do mercado bolsista canadiano (CSE), através de uma colocação de ações. Estes recursos deverão permitir otimizar o desempenho das duas minas ganesas, nomeadamente através da construção de uma unidade de tratamento de sulfuretos em Bibiani (já em funcionamento) e do desenvolvimento subterrâneo de determinados jazigos em Chirano.
A empresa prevê ainda uma cotação na bolsa australiana ASX em 2026, com o objetivo de apoiar este plano de crescimento. O montante exato afetado ao plano não foi divulgado, mas os resultados dos trabalhos de otimização já são visíveis. Já em 2026, a Asante prevê produzir entre 215 000 e 245 000 onças de ouro na mina de Bibiani e entre 150 000 e 175 000 onças na mina de Chirano. A título de comparação, as minas Bibiani e Chirano produziram, respetivamente, 37 220 onças e 80 239 onças nos nove meses terminados em 31 de outubro de 2025.
Emiliano Tossou
Durante muito tempo marginal na matriz elétrica tunisina, representando menos de 3% das capacidades instaladas em 2023, a energia solar está agora a progredir a um ritmo mais acelerado, graças a projetos apoiados por investimentos privados e à crescente participação de produtores independentes.
O produtor independente de energia renovável AMEA Power anunciou, na terça-feira, 16 de dezembro, a entrada em operação comercial de uma central solar fotovoltaica de 120 MWp no governo de Kairouan, na Tunísia. O projeto torna-se o maior parque solar do país e a primeira instalação renovável a ultrapassar o limiar de 100 MWp. Trata-se também do primeiro projeto desenvolvido sob o regime de concessões a alcançar simultaneamente o financiamento completo e a entrada em exploração.
A central está ligada diretamente à rede de transporte da Société Tunisienne de l’Électricité et du Gaz (STEG) através de uma linha de alta tensão de 225 kV. Inclui ainda uma subestação. Com esta capacidade inédita, a central deverá produzir cerca de 222 GWh de eletricidade por ano, o equivalente ao consumo anual de aproximadamente 43.000 lares.
Segundo o promotor, o projeto permitirá ainda evitar quase 117.000 toneladas de emissões de CO₂ por ano, destacando que o financiamento foi assegurado pela International Finance Corporation (IFC), membro do Grupo do Banco Mundial, em parceria com o Banco Africano de Desenvolvimento.
« A entrada em operação desta central solar marca um passo importante na transição energética da Tunísia. Esta realização reflete o compromisso contínuo da AMEA Power em apoiar o desenvolvimento a longo prazo das energias renováveis na Tunísia e contribuir para um futuro mais sustentável para as gerações vindouras », declarou Hussain Al Nowais, presidente da AMEA Power.
Este projeto surge num contexto de elevada dependência energética. Segundo a Agência Internacional de Energia, o gás natural representava cerca de 95% da produção total de eletricidade na Tunísia em 2023, mesmo com as importações líquidas desta fonte a cobrir 64,3% do abastecimento total do país.
Para reduzir esta dependência, a Tunísia pretende aumentar a participação da energia solar e eólica para 35% da matriz elétrica até 2030. O governo aposta sobretudo no investimento privado para acelerar o desenvolvimento das capacidades renováveis.
Abdoullah Diop
Aliko Dangote está envolvido num braço de ferro com o regulador do setor de refinação de petróleo, que acusa de favorecer as importações de combustíveis. Segundo ele, esta política penaliza a produção local e contribui para manter a dependência da Nigéria em relação aos produtos refinados importados.
Na Nigéria, a Câmara dos Representantes decidiu intervir na disputa entre Aliko Dangote, proprietário da refinaria de Lekki, e o regulador do setor petrolífero downstream.
De acordo com informações divulgadas na terça-feira, 16 de dezembro, pela imprensa internacional, os parlamentares deram mandato às suas comissões competentes para analisar o conflito relativo às importações de combustível e às questões de preços, que estão no centro de uma controvérsia pública. A iniciativa marca a entrada oficial do Parlamento num processo até agora restrito ao debate regulatório e mediático.
A disputa opõe, de facto, a Dangote Refinery à Nigerian Midstream and Downstream Petroleum Regulatory Authority (NMDPRA), a autoridade responsável por regular as atividades petrolíferas no setor downstream. Aliko Dangote acusa o regulador de emitir licenças de importação de combustíveis que, segundo ele, favorecem a entrada de produtos importados a preços baixos no mercado nigeriano.
O bilionário considera que esta política penaliza as refinarias locais, incluindo a sua, mesmo quando esta instalação deveria reduzir a dependência do país face às importações de produtos petrolíferos. Segundo a Reuters, o regulador considera estar a agir no âmbito do seu mandato para assegurar um abastecimento suficiente do mercado.
Os deputados justificam a sua intervenção pela importância estratégica do dossier para a economia nigeriana. A refinaria Dangote, com capacidade de processamento de 650.000 barris por dia, é considerada pelas autoridades como um pilar da segurança energética nacional, num país que continua fortemente dependente das importações de combustível.
Apesar de ser o maior produtor africano de petróleo bruto, a Nigéria importou cerca de 69% da gasolina consumida entre agosto de 2024 e outubro de 2025, segundo dados da NMDPRA citados pela imprensa nigeriana.
A investigação iniciada pela Câmara dos Representantes visa analisar, concretamente, as decisões do regulador relativas às importações de combustível e à fixação de preços, no centro da disputa com a Dangote Refinery. Nesta fase, ainda não foi divulgada qualquer data para audição das partes envolvidas.
Abdel-Latif Boureima
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