A Indonésia implementa desde 2008 o seu programa de mistura de biocombustível à base de óleo de palma com o gasóleo. Esta política visa reduzir as importações de combustíveis fósseis.
Em 2026, o país aplicará uma nova fase do programa, que prevê a utilização de um combustível composto por 50% de biodiesel de óleo de palma (B50), contra 40% atualmente (B40). Segundo a Reuters, a informação foi anunciada pelo presidente Prabowo Subianto a 30 de março, à margem de uma visita oficial ao Japão.
Esta hipótese, já mencionada no início do mês pelo vice-ministro da Energia, acaba assim por se concretizar. O projeto tinha sido abandonado em janeiro por razões técnicas e financeiras. Embora Prabowo Subianto não tenha detalhado os motivos desta mudança, a decisão está relacionada com a subida dos preços do petróleo.
Após os primeiros ataques israelo-americanos contra o Irão a 28 de fevereiro e o encerramento do Estreito de Ormuz — responsável por cerca de um quarto do transporte marítimo de petróleo —, os preços do barril ultrapassaram os 100 dólares, colocando desafios aos países importadores.
Para a Indonésia, um maior recurso ao óleo de palma — do qual é o maior produtor e exportador mundial — permitiria прежде de tudo reduzir a fatura associada à importação de produtos petrolíferos.
Segundo os dados mais recentes do organismo nacional de estatística (BPS), o país importou 37,75 milhões de toneladas de produtos petrolíferos em 2025, num valor de 23,46 mil milhões de dólares, o que representa cerca de 10% das suas importações totais de mercadorias.
Que implicações para o mercado?
Até ao momento, as autoridades não forneceram detalhes sobre o calendário de implementação do programa. No entanto, a associação indonésia de produtores de biocombustíveis (APROBI) indicou que os testes rodoviários do biodiesel B50 não deverão estar concluídos antes de junho ou julho, prazo inicialmente definido pelo Ministério da Energia.
Ainda assim, esta decisão poderá reforçar o peso da indústria do biodiesel. De acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o setor absorveu 13,5 milhões de toneladas de óleo de palma em 2023/2024, tornando-se, na prática, o segundo maior consumidor mundial deste produto.
Nos mercados, a evolução será acompanhada de perto. O aumento do consumo interno através do biodiesel poderá reduzir a oferta para exportação e sustentar os preços do óleo de palma — o mais consumido no mundo — negociado no Bursa Malaysia Derivatives Exchange. Esta tendência poderá também reduzir a diferença de preços face ao óleo de soja, com o qual compete por quotas no mercado global de óleos vegetais.
Espoir Olodo
No Senegal, a pesca representa menos de 5% do PIB, mas emprega mais de 600.000 pessoas. Tal como na maioria dos países costeiros de África, a pesca ilícita, não declarada e não regulamentada constitui um desafio importante que ameaça os recursos pesqueiros, bem como o comércio internacional.
O governo senegalês acaba de assinar um protocolo de acordo com Espanha sobre cooperação na pesca marítima e combate à pesca ilícita, não declarada e não regulamentada (INN). O anúncio foi feito durante a visita oficial de três dias que o presidente Bassirou Diomaye Faye iniciou em 24 de março em Madrid.
Segundo a imprensa internacional, esta parceria será focada na sustentabilidade dos recursos, formação, investigação e boa governação do setor da pesca. Prevê também o apoio de Espanha para reforçar as capacidades do Senegal em termos de controlo, inspeção, rastreabilidade e aplicação da regulamentação relativa à pesca INN.
O problema da pesca INN está bem documentado e deve-se a fragilidades estruturais na vigilância marítima e a uma governação opaca. Manifesta-se concretamente através de transbordos no mar, incursões de navios estrangeiros na zona económica exclusiva sem autorização, atividades de navios estrangeiros e nacionais em zonas proibidas, bem como capturas de peixe não registadas. Todas estas práticas aumentam a pressão sobre os recursos pesqueiros e comprometem a sustentabilidade do setor.
Segundo uma nota estratégica publicada em 2024, África concentra quase metade dos navios industriais e semi-industriais identificados como envolvidos na pesca INN. Para além da pressão sobre os recursos, este fenómeno gera perdas económicas consideráveis para as pescarias.
No Senegal, por exemplo, a pesca INN provoca perdas económicas estimadas em cerca de 300 milhões de dólares por ano, segundo um estudo publicado em 2016 conjuntamente pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e parceiros no âmbito do projeto COMFISH. Embora seja difícil ter uma ideia precisa do prejuízo atual, alguns acontecimentos recentes confirmam a persistência do fenómeno nas águas senegalesas a um ritmo crescente.
Ruptura do acordo de pesca com a UE em 2024
O reforço da cooperação entre Senegal e Espanha na pesca INN ocorre num contexto em que a União Europeia (UE) se recusou a renovar o seu acordo de pesca com Dakar, que expirou a 17 de novembro de 2024. Esta decisão seguiu à pré-identificação do Senegal, em maio de 2024, pela Comissão Europeia como país não cooperante no combate à pesca INN, devido a falhas nos mecanismos de controlo e rastreabilidade do setor.
Na ausência de progressos concretos, as negociações foram suspensas, resultando na retirada dos navios europeus das águas senegalesas e na perda de apoio financeiro estimado em 8,5 milhões de euros (9,77 milhões de dólares) no período 2019-2024, sem contar com as taxas pagas pelos armadores. Bruxelas condiciona qualquer renovação do acordo a progressos considerados suficientes.
Embora as capturas da frota europeia representassem menos de 1% das capturas totais declaradas nas águas senegalesas, o acordo constituía um instrumento importante para financiar a vigilância, investigação e gestão sustentável dos recursos pesqueiros.
Neste contexto, a parceria com Espanha poderá permitir ao Senegal reforçar as suas capacidades na gestão da pesca INN, com a necessidade subjacente de restaurar a credibilidade junto dos parceiros internacionais e assegurar os seus mercados de exportação.
Recorde-se que o Senegal é o segundo maior produtor de peixe na África Ocidental, depois da Nigéria, com capturas anuais superiores a 500.000 toneladas desde 2022, de acordo com dados compilados pela FAO.
Stéphanas Assocle
A Guiné é um importador líquido de produtos alimentares, como a maioria dos países de África. A vontade de reduzir a dependência dessas importações abre perspectivas de investimento para o setor privado, principalmente nos setores mais vulneráveis, como a avicultura.
O conglomerado guineense, Société Nouvelle de Commerce (Sonoco), acabou de negociar a obtenção de um empréstimo de 20 milhões de dólares junto à Sociedade Financeira Internacional (IFC) para investir na avicultura. Num comunicado publicado em 26 de março, a instituição financeira indica que este montante será destinado à FERMAV Industries, filial recentemente criada pelo Grupo Sonoco para a implementação de um projeto avícola integrado.
No âmbito deste projeto, prevê-se que a empresa realize atividades que cubram toda a cadeia de valor, nomeadamente a produção de ração para aves, a criação de galinhas, a transformação e a distribuição. Para já, os detalhes relativos ao local e à data de início das obras ainda não são conhecidos.
«Este projeto permitirá criar cerca de 400 empregos diretos e quase 3.500 empregos indiretos nos setores da criação, transformação, logística e distribuição», destaca o comunicado.
Com este projeto, o Grupo Sonoco terá a oportunidade de diversificar ainda mais a sua atuação na indústria agroalimentar na Guiné. No país, já se distingue há vários anos com atividades nos segmentos de aditivos alimentares, bebidas e moagem, através de outras duas filiais, Agro Food Industrie e Les Moulins d’Afrique (LMA).
Mais amplamente, este novo investimento, caso se concretize, permitirá reforçar as capacidades da indústria avícola local, ainda incipiente. Segundo dados oficiais, a avicultura na Guiné é dominada por sistemas de criação tradicionais e tem dificuldades em suprir as necessidades do mercado doméstico em carne de frango e seus derivados.
No país da África Ocidental, as importações de carne de frango aumentaram 63,25 % em cinco anos, passando de 49.735 toneladas em 2020 para 81.193 toneladas em 2024, segundo dados compilados pela FAO. Paralelamente, a fatura associada a essas compras mais que duplicou, atingindo 105,2 milhões de dólares no mesmo período. Isto deve-se, em grande parte, ao facto de a produção local ter dificuldades em expandir-se.
Segundo a organização das Nações Unidas, a Guiné produziu em média 13.806 toneladas entre 2020 e 2024, nunca conseguindo ultrapassar a marca de 15.000 toneladas nesse período. Neste contexto, a perspetiva de substituir as importações representa uma oportunidade para os atores privados interessados em investir na indústria avícola, desde que o governo estabeleça um quadro favorável que permita aumentar a competitividade face aos produtos importados, geralmente mais baratos.
Stéphanas Assocle
A Tanzânia, terceiro maior importador de fertilizantes na África Oriental após Etiópia e Quénia, está em negociações com o grupo industrial japonês Toyo Engineering Corporation para a instalação de uma fábrica local de fertilizantes.
A informação foi divulgada após uma reunião entre uma delegação da Toyo, liderada pelo diretor do departamento internacional Taisuke Nonaka, e Athumani Kilundumya, secretário permanente adjunto do Ministério da Agricultura da Tanzânia.
O projeto visa produzir fertilizantes essenciais, como amónio e ureia, com o objetivo de fortalecer a indústria local e aumentar a produtividade agrícola, reduzindo a dependência das importações. O secretário destacou que o governo continuará a colaborar com investidores privados para garantir o fornecimento suficiente e acelerar a adoção de fertilizantes pelos agricultores.
Contexto de mercado e oportunidade estratégica
O anúncio chega em um momento de tensões no mercado global de fertilizantes, agravadas por interrupções nas cadeias de abastecimento. Desde fevereiro de 2026, o aumento da tensão militar entre EUA, Israel e Irã afeta o tráfego no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do transporte marítimo mundial de fertilizantes (aproximadamente 16 milhões de toneladas).
Segundo a CNUCED, a Tanzânia importou cerca de 31 % dos fertilizantes do Golfo Pérsico em 2024, tornando-se o segundo país africano mais dependente da região, atrás do Sudão.
O país possui 54,57 trilhões de pés cúbicos padrão de gás natural, matéria-prima chave para fertilizantes nitrogenados, mas menos de 2 % desse potencial era explorado em 2024, segundo a TPDC.
Projetos estrangeiros no setor
Além da Toyo, outras iniciativas estrangeiras estão em curso. Em agosto de 2024, a empresa indonésia PT ESSA Industries assinou um protocolo com a TPDC e o TIC para instalar uma fábrica de ureia na região de Mtwara até 2029, com um investimento de 3 500 bilhões de xelins tanzanianos (1,35 bilhões de dólares).
Entre 2019 e 2023, a Tanzânia importou em média 568 217 toneladas de fertilizantes por ano, enquanto a produção local foi de apenas 37 510 toneladas, segundo o IFDC.
Este novo projeto japonês confirma o crescente interesse de investidores estrangeiros em desenvolver a indústria de fertilizantes na Tanzânia, explorando o potencial ainda subutilizado do país.
Stéphanas Assocle
No Nigéria, a pecuária representa cerca de 7% do PIB e desempenha um papel chave no fornecimento de proteínas animais. Entre os seus segmentos mais dinâmicos encontra-se a avicultura, que procura atrair novos investimentos para aumentar a sua capacidade de produção.
O Nigéria prepara, em parceria com a China, um projeto de investimento avaliado em 900 milhões de USD destinado a desenvolver uma cadeia avícola integrada. A informação foi divulgada por Joseph Tegbe, responsável pelas relações internacionais do Parceria Estratégica Nigéria–China, ao média local BusinessDay, em 25 de março.
A iniciativa tem como objetivo reforçar a produção nacional de ovos e carne de aves, reduzir o défice de proteínas animais no país e melhorar a segurança alimentar. O plano prevê a criação de seis quintas avícolas integradas, uma em cada zona geopolítica do território. Cada unidade deverá produzir cerca de 1 milhão de ovos por dia, totalizando um objetivo global de 6 milhões de ovos diários.
«Quando atingirmos os 6 milhões de ovos por dia, cada quinta deverá ter 1 milhão de galinhas poedeiras e 300 000 frangos de engorda. Cada uma destas quintas avícolas terá a sua própria central elétrica, matadouro e incubatório. Cada quinta integrará uma estratégia de produção vertical, pois não queremos instalar uma quinta e depois ter de importar os insumos para alimentação», explicou o responsável.
Está também previsto que cada quinta seja apoiada por uma exploração agrícola de 10 000 hectares dedicada à produção de milho e soja, duas matérias-primas indispensáveis na alimentação das aves.
Um modelo financeiro híbrido com investidores chineses
Cada quinta está avaliada em cerca de 150 milhões de USD e o financiamento assenta num modelo misto. Segundo os dados divulgados, as duas primeiras quintas serão totalmente financiadas pelo governo nigeriano, enquanto as quatro restantes serão cofinanciadas a 85% por investidores chineses, sendo os restantes 15% suportados pelo governo.
«Numa primeira fase, asseguramos o financiamento integral… Na fase seguinte, o financiamento será conjunto, com a contribuição dos parceiros chineses. Este financiamento será distribuído ao longo de dez anos, com um período de carência de três anos», explicou M. Tegbe, acrescentando que, a longo prazo, o governo prevê transferir a gestão das instalações para operadores privados nigerianos.
A data de início das obras ainda não foi definida, mas, se o projeto se concretizar, deverá contribuir para reforçar a capacidade de produção da indústria local. Segundo estimativas do Serviço Nacional de Extensão Agrícola e Ligação para a Investigação (NAERLS), a indústria avícola nigeriana, que combina explorações tradicionais de quintas pequenas e empresas comerciais modernas, apresenta uma produção anual de cerca de 700 000 toneladas de carne e 650 000 toneladas de ovos.
Embora a importação de carne de frango seja proibida desde 2003, o contrabando continua a abastecer o mercado, sugerindo que a capacidade de produção local ainda é insuficiente para satisfazer a procura. Numa análise do mercado nigeriano, a empresa agroalimentar singapurense Olam Agri, que atua na indústria de alimentos para animais no país, estima que entre 150 e 200 milhões de USD em carne de aves são importados ilegalmente anualmente.
O setor local enfrenta desafios de longa data que limitam o seu crescimento. Por exemplo, o custo e a disponibilidade de alimentos para aves, fortemente dependentes de milho e soja, constituem um obstáculo importante à rentabilidade das explorações. Questões de biossegurança, doenças animais e acesso ao financiamento continuam também a pesar sobre os pequenos produtores.
No Nigéria, o rebanho total de frangos foi estimado em cerca de 809,8 milhões de cabeças em 2024, o que representa, segundo o NAERLS, o maior efetivo do setor pecuário do país.
Stéphanas Assocle
O açúcar bruto atingiu seu valor mais alto em cinco meses, chegando a 15,94 cêntimos por libra (0,45 kg), impulsionado pela alta dos preços do petróleo e pelas tensões geopolíticas entre Estados Unidos, Israel e Irã.
O açúcar e o óleo de palma estão entre as commodities agrícolas mais sensíveis às tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã, com os preços apresentando volatilidade desde o início da semana.
No dia 26 de março, a libra de açúcar bruto (0,45 kg) atingiu 15,94 cêntimos, seu valor mais alto em cinco meses, após um recorde anterior de 15,91 cêntimos registado na terça-feira. Essa valorização está ligada à alta dos preços do petróleo provocada pelas tensões geopolíticas.
No caso do açúcar, assim como do óleo de palma, o aumento do preço do petróleo incentiva os produtores brasileiros — o Brasil é o maior produtor mundial — a converter mais cana-de-açúcar em etanol. Além disso, a interrupção do comércio global causada pelo fechamento do estreito de Ormuz reduziu cerca de 6% do comércio mundial de açúcar bruto, segundo a Covrig Analytics, limitando a produção de açúcar refinado.
Essa valorização quase faz esquecer a queda histórica registrada anteriormente neste mês, quando os preços atingiram o nível mais baixo em cinco anos e meio, devido a perspectivas de superávit global.
Segundo previsões do corretor e analista StoneX de janeiro, o excedente do mercado de açúcar para a safra 2025/26, iniciada em outubro, deve alcançar 2,86 milhões de toneladas. A produção mundial está projetada em 196,7 milhões de toneladas, enquanto a demanda deve atingir 193,8 milhões de toneladas.
Analistas alertam que a evolução dos preços será acompanhada de perto, não apenas pela situação geopolítica que impacta os preços de energia, mas também pelas operações de especulação. Dados do gabinete londrino AP Commodities indicam que muitos fundos apostam atualmente na queda dos preços. Caso essas apostas se revelem erradas, recompras massivas podem provocar fortes rebotes, já que o mercado continua muito sensível a fatores climáticos e à economia do etanol.
Espoir Olodo
Brasil é o 3º maior exportador mundial de produtos agrícolas, atrás da União Europeia e dos Estados Unidos, sendo também líder no mercado de soja.
Segundo as últimas previsões da empresa Global Energy CERA, publicadas em 25 de março, a maior economia da América do Sul deverá colher 182 milhões de toneladas de soja em uma área cultivada de quase 50 milhões de hectares.
Esse volume permitirá ao Brasil controlar mais de 42% da produção mundial, contra 30,3% há uma década. As exportações devem atingir cerca de 112 milhões de toneladas, representando 59,2% do comércio global.
Durante muitos anos, o Brasil desempenhou papel secundário no mercado de soja, atrás dos Estados Unidos. As primeiras sementes foram introduzidas no fim do século XIX para fins de pesquisa, e a exploração comercial consolidou-se entre as décadas de 1960 e 1970, período em que os EUA dominavam com mais de 60% da oferta mundial em 1980, segundo dados do Agricultural Policy Analysis Center.
A produção brasileira ganhou dimensão industrial e geopolítica no início dos anos 2000, impulsionada pela demanda chinesa por farelo de soja para a indústria suína. O país aumentou gradualmente a produção, convertendo vastas áreas de pastagens em lavouras de soja e aplicando avanços tecnológicos nas sementes.
Marcela Marini, analista sênior da Rabobank Brasil, destacou em 2021 que “o Brasil percorreu um longo caminho. Há dez anos, o país não podia competir em produtividade com os EUA, mas o uso de tecnologia nas sementes permitiu alcançar e até superar os Estados Unidos”.
Desde 2012/2013, o Brasil domina o comércio mundial de soja e superou os EUA como maior produtor mundial na safra 2017/2018. Para 2025/2026, prevê-se que os EUA continuem a perder participação: a produção americana deve atingir 116 milhões de toneladas, ou 26,9% da produção mundial, contra 33,8% em 2015/2016. As exportações dos EUA devem totalizar 42,9 milhões de toneladas, 22,6% do total global, contra 39,8% há dez anos.
Espoir Olodo
Editado por Wilfried ASSOGBA
África Ocidental: o Gana é um dos principais importadores de tomates e produtos derivados. O governo, que procura reduzir o défice de produção para limitar a sua exposição às flutuações do mercado sub-regional deste legume, pretende aumentar a produtividade.
O Gana acaba de lançar um projeto de investigação agrícola para desenvolver novas variedades de tomates capazes de atingir rendimentos de 20 toneladas por hectare, ou seja, três vezes superiores ao rendimento atual de 8 toneladas por hectare no país. Foi o que revelou Eric Opoku, Ministro da Agricultura, na quarta-feira, 25 de março, perante o Parlamento, especificando que já foram mobilizados recursos para garantir o sucesso do projeto.
Segundo informações veiculadas pelos meios de comunicação locais, este projeto está a ser conduzido em parceria com uma empresa nigeriana chamada WAKI Farms, assim como com vários institutos de investigação. O objetivo desta iniciativa é reduzir um défice de produção estimado em 300.000 toneladas, que o país cobre anualmente através de importações.
É importante notar que a produção de tomates no Gana tem estagnado nos últimos anos. De acordo com estimativas da FAO, a colheita de tomates situou-se, em média, nas 380.510 toneladas entre 2020 e 2024, nunca ultrapassando as 400.000 toneladas.
«Enquanto os nossos homólogos do Burkina Faso produzem 18 toneladas por hectare, o Gana atinge em média apenas oito toneladas […] O problema reside principalmente nas variedades de sementes utilizadas para a produção de tomates», declarou Opoku.
A escolha de parceiros nigerianos para desenvolver uma nova variedade mais produtiva não é fortuita, sabendo-se que a Nigéria se destaca como o segundo maior produtor africano de tomates, depois do Egito, com uma colheita anual superior a 3 milhões de toneladas.
Além disso, o rendimento nas principais zonas de produção do país, nomeadamente nos estados de Gombe, Borno e Yobe, situou-se entre 14 e 20 toneladas por hectare em 2024, de acordo com o Serviço Nigeriano de Extensão Agrícola e Ligação à Investigação (NAERLS).
Um contexto oportuno
Esta decisão de Acra surge num momento em que o mercado sub-regional se encontra sob tensão. A 16 de março, o Burkina Faso, principal fornecedor de tomates importadas para o Gana, anunciou a suspensão das suas exportações numa lógica de desenvolvimento industrial.
Embora a quota exata das importações provenientes do Burkina Faso seja desconhecida devido ao carácter informal do comércio intrarregional, que escapa às estatísticas oficiais, a situação gera grande preocupação na indústria ganesa.
Num comunicado publicado a 24 de março, a Associação de Pequenos Agricultores do Gana (PFAG) alertou que uma interrupção prolongada das importações provenientes do Burkina Faso, sem uma resposta interna adequada, poderia provocar uma escassez de tomates, alimentar a inflação e aumentar os riscos para a segurança alimentar.
É neste contexto de preocupação que o Banco Mundial anunciou, a 25 de março, ter obtido um financiamento de 20 milhões de dólares do Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos para implementar um programa de apoio ao Gana na gestão de potenciais perturbações do seu abastecimento de tomates. Segundo informações dos meios de comunicação locais, as intervenções centrar-se-ão no reforço dos sistemas de abastecimento, melhoria do armazenamento e apoio à produção local.
Para além do baixo nível de produtividade identificado pelo Ministério da Agricultura como o principal obstáculo ao desenvolvimento da cultura de tomates no Gana, os agricultores destacam outros desafios estruturais a considerar para reforçar a competitividade do setor. De acordo com a PFAG, a produção de tomates no Gana caracteriza-se por uma forte dependência da agricultura de sequeiro e elevados custos dos insumos. Permanece também vulnerável a perdas pós-colheita devido à insuficiência de infraestruturas de armazenamento e transformação.
Este financiamento insere-se no âmbito do projeto «Agrinvest», que visa reforçar a competitividade agrícola do país e transformar o corredor de Lobito num polo de desenvolvimento económico.
Angola e a União Europeia assinaram em Luanda um acordo de financiamento de 50 milhões de euros (cerca de 58 milhões de dólares) destinado à implementação do Agrinvest, um projeto de desenvolvimento das cadeias de valor agroalimentares ao longo do corredor de Lobito.
Num comunicado publicado na terça-feira, 24 de março, a delegação europeia em Angola indica que este financiamento não reembolsável tem como objetivo melhorar a competitividade de várias cadeias agrícolas estratégicas, nomeadamente cereais, culturas hortícolas e frutas tropicais. O projeto será implementado ao longo de seis anos em várias províncias-chave do corredor, incluindo Benguela, Huambo e Bié, com o apoio de diversos ministérios angolanos e parceiros internacionais.
Um motor de diversificação económica e segurança alimentar
Para além da sua função logística, o corredor de Lobito pretende tornar-se um motor de desenvolvimento económico. O «Agrinvest» prevê apoiar a criação de emprego, em particular para jovens e mulheres, através do apoio técnico a organizações agrícolas, promoção de cooperativas e melhoria do acesso aos mercados para os pequenos produtores.
O projeto integra também um componente dedicado ao reforço das infraestruturas logísticas e de transformação, nomeadamente no armazenamento, transporte e distribuição, bem como à facilitação do acesso ao financiamento para os atores do setor, de forma a aumentar a produção e a sustentabilidade das cadeias de valor.
Esta iniciativa enquadra-se nas prioridades do Plano Nacional de Desenvolvimento 2023-2027, centrado na segurança alimentar e no desenvolvimento do capital humano, num contexto em que o setor agrícola continua central mas subexplorado. Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), a área cultivada passou de 10% das terras aráveis em 2018 para 17% em 2023, em Angola. O país continua dependente das importações alimentares, especialmente de cereais, e figura entre os principais importadores na África Austral.
Face a estes desafios, o governo angolano multiplica reformas e investimentos para tornar a agricultura um motor de diversificação económica. O Programa de Reforma do Setor Agrícola (PRSA), lançado em 2023 com o apoio do BAD, visa modernizar a produção e reforçar a competitividade das cadeias de valor. Uma estratégia nacional de transformação dos sistemas agroalimentares para 2026-2035 está também em preparação, com foco na segurança alimentar, inclusão social e sustentabilidade.
Como infraestrutura estratégica, o corredor de Lobito liga o porto homónimo às zonas mineiras da República Democrática do Congo e da Zâmbia. Desempenhará um papel-chave na exportação de recursos como cobre e cobalto para os mercados internacionais.
Charlène N’dimon
País sem saída para o mar na África Austral, o Zimbabué depende principalmente da pesca continental para o abastecimento local de peixe. O governo procura reduzir a dependência das importações apostando no desenvolvimento da aquicultura para diminuir o défice de produção.
No Zimbabué, o governo lançou recentemente a primeira estratégia de comercialização da cadeia de valor do tilápia de criação, elaborada com o apoio da FAO. Este plano, que será implementado entre 2026 e 2030, estabelece um quadro para reforçar a produção local desta espécie, estruturar os mercados e melhorar a sua valorização.
Segundo um comunicado do Ministério da Agricultura publicado a 24 de março, o projeto dispõe de um orçamento de 5 milhões de dólares, financiado pela União Europeia e pelo Ministério Federal Alemão da Cooperação Económica (BMZ). As intervenções irão concentrar-se na melhoria do acesso dos produtores a alevins de qualidade, rações para peixes, boas práticas de aquicultura, bem como no desenvolvimento da cadeia de frio e do setor da transformação.
«A estratégia prevê uma implementação gradual focada nas infraestruturas, nomeadamente a criação de centros de agregação e o desenvolvimento da cadeia de frio, incluindo a unidade frigorífica de Mutare. Destaca igualmente a padronização das embalagens, a rastreabilidade para garantir a segurança alimentar e a valorização através da transformação», refere o comunicado.
Esta iniciativa está alinhada com as ambições do país, que pretende aumentar a produção local de tilápia para 14 000 toneladas até 2032. Em comparação, a produção de aquicultura no Zimbabué atingiu apenas 4 942 toneladas em 2024, segundo dados da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), das quais 90% correspondiam a tilápia.
De acordo com Milton Tinashe Makumbe, diretor do Departamento de Produção Animal e Pesca do Ministério da Agricultura, a estratégia de comercialização da cadeia de valor do tilápia permitirá também posicionar a aquicultura no sentido de conquistar o mercado interno. Por enquanto, as necessidades de peixe no país são satisfeitas principalmente pela pesca continental e pelas importações.
No Zimbabué, a procura anual de peixe é estimada em 60 000 toneladas, segundo dados do Ministério da Agricultura, enquanto a oferta local (pesca e aquicultura) ronda as 35 000 toneladas, revelando um défice de produção de 41% a ser colmatado.
Stéphanas Assocle