Perante o aumento das necessidades elétricas das indústrias sul-africanas, os contratos privados de eletricidade renovável envolvendo comercializadores estão a ganhar terreno. A Discovery Green continua assim a alargar o seu portefólio de clientes com este modelo de fornecimento privado.
O mercado privado sul-africano de eletricidade renovável continua a estruturar-se em torno de contratos de wheeling celebrados entre produtores, comercializadores e industriais. Neste contexto, o grupo Afrox, especializado em gases industriais, anunciou na quarta-feira, 6 de maio, a assinatura de um acordo de fornecimento com a Discovery Green para receber 28 GWh de eletricidade renovável por ano a partir de 2028.
Segundo o comunicado divulgado pela Afrox, o contrato tem a duração de 10 anos e basear-se-á num portefólio diversificado de ativos solares e eólicos localizados nas províncias do Cabo Ocidental, Mpumalanga e Estado Livre.
A empresa estima que este fornecimento de energia limpa permitirá reduzir as suas emissões em cerca de 25 000 toneladas de CO₂ por ano. A este propósito, Ferdinand Kuehner, diretor-geral da empresa, declarou: «Este acordo sublinha o compromisso da Afrox em aumentar o seu abastecimento em energias renováveis e reduzir as suas emissões de Scope 2».
Rumo à normalização do wheeling de energia
Este anúncio insere-se numa dinâmica mais ampla de desenvolvimento do wheeling na África do Sul. Este modelo permite transportar a eletricidade produzida por centrais privadas até aos locais dos clientes através da rede do operador público Eskom. Está a atrair cada vez mais empresas industriais que procuram garantir o seu abastecimento elétrico e reduzir a dependência do carvão.
A Discovery Green está assim a multiplicar contratos com grandes consumidores. Em outubro de 2025, a empresa tinha assinado um acordo de 20 anos com a Glencore para fornecer cerca de 290 GWh de eletricidade renovável por ano a vários locais mineiros. Poucos dias antes, tinha fechado uma parceria com a Red Rocket em torno do projeto solar Tournee de 331 MWp.
Segundo uma nota recente da Power Futures Lab publicada na segunda-feira, 4 de maio, cerca de 80% das capacidades privadas renováveis asseguradas na África do Sul em 2026 envolvem atualmente comercializadores de eletricidade, que se tornaram atores centrais do mercado de contratos de compra de energia em regime de negociação direta (corporate PPAs).
Abdoullah Diop
Fortemente dependente das importações regionais para o seu abastecimento elétrico, a Eswatini continua a desenvolver a sua produção interna, com um novo projeto solar apoiado por financiamentos locais e regionais.
Na quinta-feira, 7 de maio, a empresa sul-africana Anthem anunciou o fecho financeiro da central solar de Tsamela, um projeto fotovoltaico de 20 MW localizado na região de Hhohho, perto de Ngwenya. Segundo o comunicado publicado no LinkedIn, trata-se da primeira iniciativa do programa regional «ESERA Solar PV» a atingir esta fase, ilustrando assim o reforço da produção solar doméstica na Eswatini.
Uma parceria estratégica com o Standard Bank e o PSPF
Atribuído no âmbito de um concurso público destinado ao fornecimento de eletricidade à Eswatini Electricity Company (EEC), o projeto deverá ser construído num terreno de 44,8 hectares, com mais de 37 000 painéis bifaciais. A Anthem indica que as obras já começaram sob a coordenação da Alensy Energy Solutions, com entrada em operação comercial prevista para dentro de 15 meses. A produção estimada para o primeiro ano é de 47 788 MWh.
O financiamento é assegurado pelo Standard Bank Eswatini e pelo Standard Bank South Africa enquanto credores seniores, enquanto o Public Service Pension Fund (PSPF) participa tanto em dívida como em capital próprio. O custo do projeto, no entanto, não foi divulgado.
A soberania energética como imperativo nacional
O projeto surge num contexto em que a Eswatini procura reforçar a produção local de eletricidade e reduzir a dependência regional.
«Uma vez operacional, a central de Tsamela dará uma contribuição significativa para a capacidade de produção nacional da Eswatini, o que permitirá reduzir a dependência das importações e apoiar objetivos mais amplos em matéria de segurança energética e transição energética», indicou a Anthem no seu comunicado.
Segundo o Eswatini Financial Times, as importações de eletricidade representavam mais de 80% do consumo final do país em 2025. No mesmo período, um relatório publicado pela IRENA indica que a energia solar representava 14% do seu mix elétrico em 2024. A bioenergia dominava então a produção com 54%, seguida pela hidroeletricidade com 32%.
A IRENA indica ainda que 86% da população tinha acesso à eletricidade em 2024, um dos níveis mais elevados da África Subsaariana. Este dado confirma que o principal desafio da Eswatini é a soberania energética e não o acesso à eletricidade.
Abdoullah Diop
Argélia e Egito reforçam a sua cooperação energética com a assinatura de um protocolo de acordo entre a empresa pública argelina de hidrocarbonetos Sonatrach e a sua homóloga egípcia EGPC.
No dia 5 de maio de 2026, os dois países iniciaram um reforço da cooperação no setor energético, abrindo caminho para exportações de petróleo bruto e produtos petrolíferos argelinos para o mercado egípcio.
Este acordo não constitui ainda um contrato comercial definitivo. Trata-se de um enquadramento de negociação que permitirá definir volumes, condições de entrega e duração dos futuros contratos. O objetivo é estabelecer, a médio prazo, fluxos regulares de exportação de hidrocarbonetos entre os dois países.
As discussões abrangem tanto o petróleo bruto, em particular o tipo Sahara Blend, como produtos refinados como gasóleo e gasolina. O crude argelino apresenta características adequadas às refinarias egípcias, nomeadamente baixo teor de enxofre, enquanto a proximidade geográfica entre os dois países representa uma vantagem logística importante.
“Este acordo insere-se no reforço das relações de cooperação fraterna privilegiadas entre a Argélia e o Egito, concretizando as orientações dos chefes de Estado dos dois países”, afirmou o ministro argelino da Energia, Mohamed Arkab.
Uma reorganização dos equilíbrios energéticos no Norte de África
Esta iniciativa surge num contexto de transformação do setor energético egípcio. O Egito, outrora exportador líquido de petróleo, tornou-se progressivamente importador devido à diminuição de alguns campos maduros e ao aumento do consumo interno. Para responder a esta evolução, as autoridades procuram diversificar as fontes de abastecimento.
Do lado argelino, o acordo faz parte de uma estratégia para reforçar os mercados de exportação e consolidar a posição do país no mercado energético regional. A Sonatrach procura valorizar os seus recursos através de parcerias comerciais estruturadas, sobretudo em África.
Esta dinâmica insere-se numa tendência mais ampla de reforço dos intercâmbios energéticos intra-africanos. O acordo reflete assim a convergência de interesses entre os dois países na segurança do abastecimento energético e na integração regional.
Se as negociações forem concluídas com sucesso, este eixo energético poderá tornar-se estruturante no Norte de África, permitindo à Argélia garantir novos mercados e ao Egito assegurar parte das suas necessidades num contexto energético internacional instável.
Olivier de Souza
Em África, a companhia petrolífera Woodside Energy está ativa apenas no Senegal, onde opera o campo petrolífero offshore de Sangomar. A empresa procura expandir a sua presença operacional no continente.
A Woodside Energy procura alargar a sua presença africana até Angola. O grupo australiano, que em 2025 desistiu de entrar no bloco PEL 87 na Namíbia, assinou na quarta-feira, 6 de maio, um memorando de entendimento com a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG).
Segundo as informações divulgadas pelo organismo estatal, o acordo incide especificamente sobre a avaliação do potencial de hidrocarbonetos de três áreas, nomeadamente os blocos 25, 26 e 43, localizados na bacia do Namibe, no sul de Angola, em águas profundas e ultraprofundas.
O memorando estabelece um período inicial de estudo durante o qual as duas partes irão trabalhar em conjunto na análise de dados geológicos e geofísicos das áreas em causa. Estas atividades incluem sísmica 2D e 3D, o estudo de dados de poços já perfurados e a obtenção de outras informações técnicas.
O objetivo é determinar se as estruturas geológicas destas áreas apresentam potencial comercial suficiente para justificar investimentos em trabalhos de exploração. Assim, o acordo não constitui, nesta fase, um contrato de exploração vinculativo entre a ANPG e a Woodside, que não forneceu qualquer calendário nem valores relativos a este projeto.
«A assinatura deste protocolo de entendimento enquadra-se nos esforços desenvolvidos pela ANPG para promover o investimento e dinamizar as atividades de exploração e desenvolvimento dos recursos petrolíferos e gasíferos», pode ler-se no comunicado publicado pela empresa estatal.
Uma expansão africana seletiva
O acordo angolano insere-se numa estratégia africana que a Woodside vem desenvolvendo desde 2024. O grupo está, até agora, presente num único ativo em África, o campo petrolífero de Sangomar, ao largo do Senegal, cuja Fase 1 arrancou em junho de 2024, tornando o Senegal numa nova nação produtora de petróleo.
Em dezembro de 2025, a empresa australiana atingiu a marca de 50 milhões de barris produzidos neste campo, ou cerca de 8% dos recursos recuperáveis totais, segundo declarou Clive Jones, vice-presidente da Woodside para o Senegal, na última conferência MSGBC Oil, Gas & Power, em Dakar.
Em março de 2023, o grupo tinha celebrado um acordo com a Pancontinental para financiar uma campanha sísmica 3D de 35 milhões de dólares no bloco PEL 87, na bacia de Orange, na Namíbia, em troca de uma opção de aquisição de 56% do mesmo, segundo a Agência Ecofin.
Após análise dos dados, a Woodside notificou a Pancontinental, a 17 de março de 2025, da sua decisão de não exercer essa opção, sem divulgar os motivos, segundo a Offshore Magazine. O grupo abandonou assim um bloco considerado de elevado potencial, adjacente à descoberta de classe mundial Mopane, então operada pelo grupo português Galp.
O protocolo com a ANPG enquadra-se nesta ambição de expansão subsaariana da empresa australiana para além do Senegal. Surge num contexto em que Angola procura inverter uma queda de produção que a levou a descer abaixo do limiar simbólico de um milhão de barris por dia em julho de 2025, o nível mais baixo desde março de 2023. Para tal, as autoridades apostam na exploração de bacias ainda pouco valorizadas, como a bacia do Namibe, nomeadamente por empresas estrangeiras.
Abdel-Latif Boureima
No Marrocos, a indústria têxtil é uma das mais desenvolvidas em África, juntamente com o Egito e a Tunísia. O setor, que desempenha um papel socioeconómico importante, procura aumentar ainda mais a sua contribuição para as receitas de exportação industrial do país.
No Marrocos, a indústria têxtil quer reforçar a sua posição no mercado norte-americano. É com este objetivo que a agência de desenvolvimento de negócios B2B Tactical Tactics e o Centro Técnico da Indústria Têxtil e do Vestuário (CTTH) assinaram, a 5 de maio, em Casablanca, um acordo de parceria estratégica.
Segundo informações divulgadas pelos meios de comunicação locais, o acordo visa acelerar a transição da indústria têxtil marroquina do modelo de subcontratação CMT (Cut, Make, Trim) para uma oferta mais integrada de produtos acabados destinados aos países da América do Norte, nomeadamente os Estados Unidos e o Canadá.
Concretamente, a parceria prevê um apoio técnico às empresas têxteis, com base na experiência do CTTH em investigação e desenvolvimento, controlo de qualidade, certificação e formação. O objetivo é ajudar os operadores a cumprir as normas internacionais, ao mesmo tempo que melhoram a sua competitividade nas exportações.
Por seu lado, a Tactical Tactics utilizará a sua experiência para facilitar ligações comerciais com compradores na América do Norte. Fundada em 2023, a agência opera segundo o modelo DDP (Delivered Duty Paid), com uma carteira de fabricantes industriais marroquinos e uma rede de intermediários na América do Norte.
A aliança entre as duas estruturas reflete a vontade de captar mais valor acrescentado nas exportações têxteis e reforçar a competitividade do setor. “O Marrocos já não é apenas um país de tecido. O Marrocos é um país de produto acabado – desenhado, abastecido, produzido, certificado e pronto a exportar”, afirmou Dikra Aït Nacere, diretora-geral da Tactical Tactics.
Mercados estratégicos a conquistar
Os Estados Unidos destacam-se como o principal importador mundial de vestuário e acessórios têxteis, tendo importado cerca de 83,7 mil milhões de dólares em 2024. O Canadá, por sua vez, importou cerca de 11 mil milhões de dólares no mesmo período.
A indústria marroquina, que procura posicionar-se melhor nestes mercados, enfrenta contudo a concorrência de grandes fornecedores como a China, o Vietname, o Bangladesh, a Índia ou a Indonésia, num contexto de exigências crescentes em matéria de qualidade, rastreabilidade e conformidade ambiental.
Segundo a Trade Map, o Marrocos obteve cerca de 3,9 mil milhões de dólares em receitas com exportações de vestuário em 2024. O setor têxtil e do couro é também o segundo maior empregador industrial do país.
De acordo com o último relatório do Ministério da Indústria e Comércio, o setor têxtil e do couro foi o único a registar uma queda do valor acrescentado industrial em 2024, o que reforça a necessidade de uma estratégia de modernização e de subida na cadeia de valor para aumentar a competitividade.
Stéphanas Assocle
Desde o início da guerra no Irão, os preços do barril já ultrapassaram várias vezes a barreira dos 100 dólares. Esta situação, que penaliza todos os importadores de petróleo bruto, aumentou paralelamente a atratividade da utilização de óleos vegetais para a produção de biocombustíveis.
Até meados de julho, os preços médios da tonelada de óleo de palma poderão subir 12%, aproximando-se dos 5 200 ringgits (1 329 dólares). É o que relata a Reuters, citando previsões de Dorab Mistry, analista global e diretor da empresa indiana de bens de consumo Godrej International.
Este aumento esperado no mercado do óleo mais consumido no mundo explica-se sobretudo pelo renovado interesse nos programas de biodiesel, em contexto de guerra no Irão.
Com o preço do petróleo bruto elevado devido ao conflito, a utilização do óleo vegetal como matéria-prima torna-se relativamente mais vantajosa para os produtores de biodiesel, em comparação com o uso de combustível tradicional derivado do petróleo.
Na Indonésia, o governo anunciou no final de março a intenção de aumentar, já em julho, a proporção de biodiesel de óleo de palma no gasóleo de 40% (B40) para 50% (B50). Ao mesmo tempo, a Malásia prevê lançar em junho a produção de um biodiesel com 15% de óleo de palma, denominado B15, com o objetivo de contribuir para a redução do preço do gasóleo.
Segundo M. Mistry, até junho os preços deverão subir já para 5 000 ringgits. Desde o início da guerra, no final de fevereiro, os preços já aumentaram cerca de 15%. Para além destes dois países asiáticos, os observadores sublinham que a revisão em alta dos mandatos de incorporação de biocombustíveis nos Estados Unidos também é um fator favorável.
De facto, segundo os objetivos definidos pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), os transformadores de soja em biodiesel deverão aumentar a produção em mais de 60% este ano, o que poderá reduzir a oferta exportável e sustentar os preços do óleo de palma, o seu principal concorrente no mercado das oleaginosas.
Espoir Olodo
A empresa-mãe do Access Bank, o maior banco da Nigéria em termos de ativos, está obrigada a cumprir os novos requisitos do Banco Central no que diz respeito à limitação dos investimentos das holdings financeiras no estrangeiro. Esta conformidade, no entanto, poderá contrariar as ambições de expansão do grupo em África.
O grupo nigeriano de serviços financeiros Access Holdings anunciou, na terça-feira, 5 de maio, que irá reduzir as suas participações em subsidiárias bancárias no estrangeiro no prazo de 12 meses, para cumprir as novas regras impostas pelo Banco Central da Nigéria (CBN), que limitam os investimentos de capital no exterior a 10% dos fundos próprios dos acionistas.
O diretor executivo do grupo, Innocent Ike, fez este anúncio durante uma conferência telefónica com investidores.
“A questão do investimento no estrangeiro consta da secção 19 das novas diretrizes do Banco Central da Nigéria para holdings financeiras, que limita esses investimentos a 10% dos fundos próprios. Foi-nos dado um prazo de 12 meses para corrigir totalmente esta situação”, afirmou.
As novas regras impostas pelo regulador do sistema bancário nigeriano deverão limitar significativamente as ambições de expansão internacional do grupo. A Access Holdings possui subsidiárias em 24 países e três continentes, resultado de várias aquisições realizadas nos últimos anos, num contexto marcado pela retirada de bancos europeus dos mercados da África subsaariana.
Durante o ano de 2025, a holding fundada por Aigboje Aig-Imoukhuede e pelo falecido Herbert Wigwe concluiu três aquisições importantes: uma participação de 74,9% na filial da Standard Chartered Bank na Gâmbia, a divisão de banca de retalho do Standard Chartered na Tanzânia e uma participação de 76% no AfrAsia Bank.
Impacto negativo esperado nos lucros do grupo
De acordo com as demonstrações financeiras da Access Holdings para o último exercício, os fundos próprios dos acionistas totalizavam 4 253 mil milhões de nairas (3,09 mil milhões de dólares) em 31 de dezembro de 2025. O limite de 10% nos investimentos estrangeiros restringe o montante total que o grupo pode deter em filiais no exterior a cerca de 425,3 mil milhões de nairas. Isto obriga o grupo a reduzir participações em algumas filiais para posições minoritárias e a vender ativos menos rentáveis.
Estas operações de alienação poderão, contudo, afetar o desempenho da Access Holdings. Os últimos resultados financeiros mostram que o lucro antes de impostos das operações na Nigéria caiu, enquanto as atividades no resto de África se tornaram o principal motor de crescimento do grupo. O lucro antes de impostos das operações nigerianas caiu para 584 mil milhões de nairas, contra 723 mil milhões no ano anterior. Já o lucro proveniente do resto de África subiu para 284 mil milhões de nairas, enquanto as operações internacionais contribuíram com 289 mil milhões.
Segundo analistas, esta limitação visa mobilizar mais recursos para o financiamento da economia local. Ao restringir a parte do capital investido no estrangeiro, o Banco Central da Nigéria deixa claro que o mercado interno deve continuar a ser a prioridade dos bancos comerciais do país.
Walid Kéfi
Esta operação eleva para sete o número de sociedades cotadas no compartimento de ações da Bolsa do mercado financeiro dos países da Comunidade Económica e Monetária da África Central (Camarões, Congo, Gabão, Guiné Equatorial, Chade e República Centro-Africana).
BGFI Holding Corporation (BHC), empresa-mãe do BGFIBank e o principal grupo financeiro da África Central, entrou oficialmente na cotação da Bolsa de Valores Mobiliários da África Central (BVMAC), na quinta-feira, 7 de maio, durante uma cerimónia realizada na sede da instituição em Douala.
No total, 566 561 ações da BHC foram admitidas no compartimento Premium.
Segundo a BVMAC, esta introdução levou a um aumento da capitalização bolsista do segmento, que passou de 479,4 mil milhões para 1 710 mil milhões de francos CFA (857 milhões para 3 mil milhões de dólares), representando um aumento de 256,7%.
BHC torna-se a maior capitalização do mercado regional
A BHC torna-se assim a maior capitalização da praça financeira sub-regional. Com uma ponderação de 38% no índice bolsista, o grupo ultrapassa os títulos da Socapalm, que até então eram a maior capitalização do mercado.
“O futuro registará que, a partir deste 7 de maio de 2026, a empresa BHC se torna a maior capitalização bolsista da praça financeira regional”, declarou Louis Banga Ntolo.
Em paralelo, a capitalização em free float aumentou cerca de 61%, passando de 70 mil milhões para 115 mil milhões de francos CFA no final da sessão de cotação do dia.
Para além do impacto imediato nos indicadores bolsistas, a BVMAC considera que esta operação poderá reforçar o papel do mercado financeiro no financiamento das economias da zona CEMAC, podendo a sua contribuição passar de 2,4% do Produto Interno Bruto regional para mais de 5%.
Uma operação apoiada por 7601 investidores
Para Henri-Claude Oyima, esta operação insere-se na continuidade do plano estratégico do grupo, que prevê, entre outros objetivos, uma presença em quinze países até 2027, bem como o reforço da governação e da eficiência operacional.
A BGFI Holding Corporation entra na BVMAC alguns meses após a conclusão da sua operação de angariação de fundos, que mobilizou 45,3 mil milhões de francos CFA junto de 7601 investidores de 24 países, dos quais mais de 71% são particulares.
A operação, conduzida pela BGFIBourse, consistiu na abertura de 10% do capital do grupo através da emissão de 1 573 536 novas ações. As subscrições atraíram investidores da CEMAC, da UEMOA, mas também da Europa, América e Ásia.
Sandrine Gaingne
O Senegal acolheu um encontro estratégico dos bancos centrais africanos. Reunidas em sessão de trabalho, as instâncias dirigentes da Associação dos Bancos Centrais Africanos (ABCA) analisaram os principais dossiês monetários e financeiros do continente, num contexto de turbulências económicas mundiais e de crescente procura por soberania financeira.
Reunido em Dakar na quinta-feira, 7 de maio de 2026, para a sua primeira reunião do ano, o gabinete da ABCA examinou a implementação das decisões adotadas pelo Conselho de Governadores em 28 de novembro de 2025, em Yaoundé. No centro das discussões realizadas na sede do Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO) estiveram a convergência macroeconómica, a integração dos pagamentos, a estabilidade financeira e os projetos institucionais estruturantes.
Os governadores analisaram o relatório de progresso de 2025 do Programa de Cooperação Monetária em África (PCMA), criado para promover a adoção de medidas comuns e sistemas monetários harmonizados à escala continental. O objetivo foi identificar os fatores de incumprimento de determinados critérios e reforçar a supervisão multilateral. A agenda incluiu ainda a análise dos termos de referência relativos à criação do Grupo de Projeto sobre Política Monetária e Integração.
Os governadores examinaram também as propostas estruturais, organizacionais e orçamentais relacionadas com a criação do Instituto Monetário Africano (IMA), órgão transitório encarregado de preparar a criação do Banco Central Africano. O Instituto, cujos estatutos foram adotados durante a 39.ª sessão ordinária da Assembleia da União Africana, em fevereiro de 2026, e cuja operacionalização está prevista para setembro de 2026, na Nigéria, é apresentado como “a nossa alavanca para harmonizar as políticas monetárias e absorver os choques globais” por Francisca Tatchouop Belobe, comissária para o desenvolvimento económico, comércio, turismo, indústria e recursos minerais da União Africana.
Ela insistiu na necessidade de concluir este projeto, apelando à ABCA para acelerar o processo de constituição do Conselho e finalizar a nomeação dos seus membros. “O IMA é a etapa indispensável rumo ao Banco Central Africano. Deve ser dotado de recursos à altura das nossas ambições para alcançar o objetivo final de convergência macroeconómica à escala continental”, afirmou.
No plano prudencial, o gabinete analisou várias questões, entre as quais as atividades da Comunidade dos Supervisores Bancários Africanos (CSBA), realizadas no âmbito do seu programa de trabalho 2026-2028, e as do Comité Africano de Estabilidade Financeira (CASF), com o objetivo de reforçar a resiliência dos sistemas financeiros face aos riscos transfronteiriços.
A integração dos pagamentos também mereceu atenção do gabinete da ABCA através da análise do relatório sobre sistemas de pagamento, dos progressos do Sistema Pan-Africano de Pagamento e Liquidação (PAPSS), em parceria com o Afreximbank, e das ações destinadas a eliminar obstáculos e reduzir os custos das transferências financeiras, em ligação com a Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZLECAf).
Yvon Sana Bangui, governador do Banco dos Estados da África Central (BEAC) e presidente da ABCA, sublinhou que a reunião do gabinete constitui uma etapa-chave de coordenação num contexto internacional marcado por incertezas ligadas à persistência de tensões geopolíticas, comerciais e de segurança, bem como por vulnerabilidades acrescidas das economias africanas perante uma conjuntura recorrente e invulgar de choques exógenos de grande amplitude.
As tensões no mercado mundial do gás estão a levar a Itália a reforçar as suas parcerias energéticas mediterrânicas, com o objetivo de garantir maior segurança no abastecimento energético.
A Itália e a Líbia pretendem acelerar os seus projetos conjuntos no setor do gás, a fim de reforçar a segurança dos abastecimentos energéticos no Mediterrâneo, num contexto marcado por tensões geopolíticas internacionais e perturbações no mercado global do gás. Reunidos em Roma, na quinta-feira, 7 de maio, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o chefe do governo líbio, Abdulhamid Dbeibah, manifestaram a vontade de reforçar a cooperação e os investimentos no setor energético.
Este encontro ocorre numa altura em que Roma procura reduzir a sua exposição aos choques que afetam os fluxos globais de energia. As recentes perturbações nas exportações catarianas de GNL, após ataques iranianos que afetaram parte das capacidades do país, reacenderam as preocupações em torno da dependência europeia dos abastecimentos transportados por via marítima. Muito dependente das importações, a Itália procura garantir maiores volumes junto de fornecedores próximos e ligados por gasodutos.
Nesta estratégia, a Líbia ocupa uma posição-chave. O país norte-africano continua a ser o principal fornecedor de petróleo bruto da Itália, representando cerca de um quinto das importações italianas. Os dois países estão igualmente ligados pelo gasoduto GreenStream, que conecta o complexo gasífero de Mellitah, na costa líbia, à Sicília.
Exportações líbias limitadas por constrangimentos estruturais
Contudo, as exportações líbias de gás para a Itália diminuíram nos últimos anos. Passaram de cerca de 1,4 mil milhões de metros cúbicos em 2024 para aproximadamente 1 mil milhão de metros cúbicos em 2025. Esta queda reflete vários constrangimentos estruturais, incluindo o aumento do consumo interno na Líbia, infraestruturas envelhecidas, interrupções frequentes nos processos de produção e a persistente instabilidade política. Estas dificuldades mantêm o gasoduto GreenStream amplamente subutilizado.
Perante esta situação, Roma e Tripoli procuram acelerar os investimentos destinados a relançar a produção e modernizar as infraestruturas. Membros da Comissão Parlamentar italiana responsável pela segurança já tinham sublinhado, no final de abril, a necessidade de aumentar os investimentos para reforçar as exportações líbias para a Itália.
O grupo italiano Eni está no centro desta estratégia. Presente na Líbia desde 1959, continua a ser o principal operador internacional no país, com uma produção de cerca de 162 mil barris equivalentes de petróleo por dia em 2025. Três projetos de desenvolvimento estão atualmente em curso, dois dos quais deverão entrar em produção já em 2026.
O programa de investimento, estimado em cerca de 10 mil milhões de dólares, inclui nomeadamente o projeto offshore de compressão de Sabratha, o “Bouri Gas Utilization Project”, destinado à recuperação de gás associado, bem como o desenvolvimento offshore A&E, apresentado como o maior investimento energético realizado na Líbia em mais de vinte anos.
O Mediterrâneo no centro da estratégia energética italiana
Para além dos projetos líbios, esta ofensiva traduz uma evolução mais ampla da política energética italiana. Desde a reconfiguração dos mercados europeus da energia nos últimos anos, Roma procura fazer do Mediterrâneo um eixo prioritário para garantir os seus abastecimentos.
A Itália reforça simultaneamente as suas negociações com a Argélia, o seu principal fornecedor de gás por gasoduto através do Transmed, explorando também alternativas com os Estados Unidos e o Azerbaijão. Contudo, num ambiente marcado por tensões nas rotas marítimas e pela volatilidade do GNL, os abastecimentos regionais por gasoduto ganham importância estratégica.
Para Tripoli, esta cooperação representa uma oportunidade de estabilizar a sua produção, modernizar um setor fragilizado e atrair mais capitais estrangeiros. No entanto, a capacidade da Líbia de transformar estes compromissos num aumento sustentável da produção continuará dependente da evolução dos seus constrangimentos internos e do contexto regional.
Olivier de Souza