Fragilizada pelos ataques repetidos às suas infraestruturas energéticas, a Ucrânia está a redefinir a sua estratégia de gás para se adaptar a um contexto duradouramente constrangido.
Após conversações realizadas segunda-feira, 23 de março, entre o presidente Volodymyr Zelensky e o seu homólogo Daniel Chapo, a Ucrânia estuda a possibilidade de importar gás natural liquefeito (GNL) de Moçambique. O projeto seria baseado numa lógica de benefício mútuo: Kiev procura garantir novos fornecimentos energéticos, enquanto Maputo poderia receber apoio ucraniano nas áreas de segurança e tecnologia.
Esta iniciativa ocorre num contexto em que o norte de Moçambique, que concentra a maior parte dos recursos gasíferos do país, continua afetado por uma insurgência islâmica.
Sistema gasífero ucraniano debilitado
O plano surge também num ambiente de grande degradação do sistema gasífero ucraniano. Segundo a Naftogaz, as infraestruturas da empresa pública sofreram mais de 1.700 ataques russos desde 2022, afetando diretamente a produção nacional, que caiu para cerca de metade da capacidade.
Antes do conflito, a Ucrânia supria a maior parte do consumo com produção interna. A redução destas capacidades obrigou o país a aumentar as importações, sobretudo durante os picos de procura no inverno. Nesse sentido, a Ucrânia já diversificou as fontes, desenvolvendo importações de GNL, principalmente provenientes dos United States.
Diversificação energética com Moçambique
Moçambique surge como uma opção complementar, dispondo de importantes recursos gasíferos explorados pelo projeto Mozambique LNG, com capacidade prevista de 13 milhões de toneladas de GNL por ano, reforçando o papel do país no mercado global de gás.
No entanto, a opção enfrenta riscos de segurança. A província de Cabo Delgado, onde se situa o projeto, permanece frágil apesar da melhoria associada ao envio de forças ruandesas. A retirada destas tropas, devido à falta de financiamento sustentável da European Union, gera incerteza quanto à estabilidade da região.
Obstáculos jurídicos e financeiros também pesam sobre o projeto. A TotalEnergies enfrenta processos em França relacionados com operações de segurança em 2021, o que limita alguns financiamentos. O custo do projeto aumentou para 24,5 bilhões de dólares, frente aos 20 bilhões iniciais, embora a TotalEnergies mantenha a meta de produção para 2029.
Apesar destes desafios, grande parte do financiamento está assegurada e quase todo o volume futuro já está contratualizado, principalmente para a Ásia e a Europa. As discussões entre Kiev e Maputo permanecem preliminares, sem volumes nem calendário definidos, mas refletem um interesse mútuo entre segurança energética para a Ucrânia e valorização dos recursos para Moçambique.
Olivier de Souza
No Ruanda, apesar da taxa de acesso à eletricidade ter atingido 85,4% no final de 2025, segundo o Rwanda Energy Group, o fornecimento continua insuficiente, e várias iniciativas estão em curso para reforçar a distribuição.
O país lançou um programa de reforço da rede elétrica para reduzir os cortes de energia que afetam regularmente a qualidade do abastecimento. A iniciativa prevê a aquisição e instalação de 290 transformadores em todo o território, de acordo com informações divulgadas pela imprensa local em 18 de março.
Estes equipamentos, que ajustam a tensão da eletricidade entre as linhas de transporte e os consumidores finais, serão instalados prioritariamente em zonas urbanas de elevada procura. Segundo o governo, citado pela imprensa, a implementação faz parte de um programa de modernização da rede elétrica previsto para 18 meses.
O projeto inclui trabalhos nas infraestruturas de distribuição: cerca de 357 km de linhas de média tensão serão reabilitados ou construídos, e quase 1.600 km de redes de baixa tensão serão reforçados para melhorar a cobertura local.
Kigali atribui os cortes recorrentes à pressão crescente sobre a rede, devido ao aumento do número de lares ligados e à maior demanda nos centros urbanos, além de infraestruturas envelhecidas.
O projeto integra programas apoiados por parceiros internacionais, como o World Bank e o Asian Infrastructure Investment Bank, sem divulgação do custo total até o momento.
Segundo os responsáveis, estes investimentos visam estabilizar a distribuição elétrica até a entrada em operação de novas capacidades de produção previstas para 2027. «As carências de eletricidade continuam a ser uma preocupação», afirmou Jimmy Gasore.
300 milhões de dólares mobilizados e programa nuclear em preparação
O Ruanda mobiliza vários financiamentos internacionais para desenvolver o setor elétrico e expandir o acesso à energia. Em fevereiro de 2026, a African Development Bank e a Asian Infrastructure Investment Bank comprometeram 300 milhões de dólares em projetos de energia limpa no país.
O financiamento inclui um mecanismo de desembolso condicionado a resultados mensuráveis em eletrificação.
Paralelamente, o Ruanda prossegue a diversificação da sua matriz energética. Segundo uma missão de revisão integrada de infraestrutura nuclear (INIR) conduzida pela International Atomic Energy Agency em meados de março, o país avançou na preparação de um programa nuclear civil. A missão avaliou 19 áreas, incluindo quadro regulatório, segurança nuclear e desenvolvimento de competências, para apoiar países interessados em incluir o nuclear na sua matriz energética.
As autoridades planeiam desenvolver capacidade nuclear, visando a primeira instalação no início da década de 2030.
Abdel-Latif Boureima
O Mali declara anualmente uma produção artesanal de ouro de 6 toneladas, enquanto o setor poderia gerar pelo menos cinco vezes mais. Tal como noutros países da sub-região, Bamako procura soluções para aumentar a contribuição económica de um setor aurífero dominado pelas minas industriais.
Durante o Conselho de Ministros de 18 de março, o governo maliano decidiu criar o Escritório de Substâncias Preciosas. Esta nova estrutura tem como objetivo uma melhor gestão dos fluxos provenientes da exploração artesanal e de pequena escala do ouro (ASM), um segmento que produziria anualmente pelo menos 30 toneladas de ouro não declaradas às autoridades competentes.
Anualmente, o governo estima a produção artesanal em 6 toneladas, mas várias estimativas indicam que a realidade é bem diferente. Segundo a organização suíça SWISSAID, num relatório de 2024, a produção de ouro ASM não declarada entre 2012 e 2022 alcançou 300 toneladas, com um valor de 13,5 mil milhões de dólares. Estas discrepâncias evidenciam a importância de um setor ainda amplamente informal, caracterizado pela multiplicidade de locais de exploração e pela dificuldade do Estado em monitorizar eficazmente os volumes produzidos e comercializados.
Bamako reconhece mesmo “dificuldades no controlo dos fluxos provenientes da mineração artesanal e das pequenas minas, face às disparidades entre as estatísticas oficiais a nível nacional e as quantidades recebidas nos países de destino”. Dados da plataforma da ONU COMTRADE, citados no relatório, confirmam esta situação: entre 2013 e 2022, os Emirados Árabes Unidos declararam a importação de 672 toneladas de ouro, enquanto as exportações declaradas pelo Mali para este país somaram apenas 37,7 toneladas no mesmo período.
A criação do Escritório Maliano de Substâncias Preciosas surge assim como uma tentativa de retomar o controlo de um segmento chave da cadeia de valor aurífera. Embora os detalhes práticos do seu funcionamento ainda não estejam disponíveis, o governo garante que se tratará de um instrumento operativo para regular, centralizar e garantir a segurança da comercialização de substâncias preciosas, incluindo o ouro.
O exemplo do Burkina Faso
O Mali não é o primeiro país da sub-região a tentar controlar o ouro ASM. No Burkina Faso, as autoridades implementaram um mecanismo semelhante através da Société Nationale des Substances Précieuses (SONASP), com resultados visíveis nos volumes oficialmente registados. Em 2025, a produção nacional de ouro ultrapassou 94 toneladas, um aumento de mais de 30 toneladas face ao ano anterior. Este crescimento deve-se, em grande parte, à melhor integração do setor artesanal, que contribuiu com 42 toneladas, contra uma média anual inferior a 10 toneladas no passado.
Para tal, Ouagadougou confiou à SONASP a missão de comprar diretamente o ouro proveniente da exploração artesanal e semi-mecanizada. A estrutura foi expandindo gradualmente com postos de compra que permitiram captar produção que anteriormente escapava aos circuitos oficiais. Paralelamente, as autoridades incentivaram a formalização dos artesãos através da criação de cooperativas, facilitando a sua integração nos circuitos legais de comercialização.
Este mecanismo oferece uma visão da metodologia e dos potenciais ganhos para o Mali, cujo setor aurífero representa 9,2% do PIB e gerou 763 mil milhões de FCFA (1,34 mil milhões USD) em receitas para o orçamento nacional em 2022, segundo dados oficiais.
No entanto, o aumento desta contribuição económica dependerá da capacidade do Estado maliano em exercer controlo efetivo sobre os locais de mineração artesanal e sobre os circuitos de saída do metal. Em várias regiões, a exploração artesanal ocorre em ambientes marcados pela insegurança e pela presença de grupos armados, que por vezes se beneficiam desta atividade.
A intervenção do exército no local de mineração de Intahaka, em outubro de 2025, perto de Gao, para restaurar a autoridade do Estado, ilustra as dificuldades concretas da gestão dessas áreas. O controlo das fronteiras também é determinante para limitar as saídas informais de ouro para países vizinhos. Para além da rastreabilidade dos fluxos, melhorar as condições de trabalho constitui outro desafio num setor frequentemente marcado por acidentes, incluindo desmoronamentos que causam dezenas de mortes todos os anos.
Emiliano Tossou
Em apenas um ano, o projeto aurífero Boundiali da Aurum Resources praticamente duplicou o seu potencial, agora estimado em 3,03 milhões de onças. Um perfil que não deixa de atrair investidores, incluindo companhias mineiras, como foi o caso da Montage Gold em 2025.
A empresa mineira australiana Aurum Resources anunciou, na segunda-feira, 23 de março, a sua intenção de levantar 28,8 milhões de dólares australianos (aproximadamente 20 milhões de USD) através de uma colocação de ações na Bolsa. Esta operação destina-se principalmente a apoiar o desenvolvimento da futura mina de ouro Boundiali, que opera na Costa do Marfim.
A transação conta com o apoio da Perseus Mining, operadora das minas de ouro ivorianas Sissingué e Yaouré. Esta intervirá como principal contribuinte da colocação, com o objetivo de adquirir 9,9% do capital da Aurum. A empresa menciona ainda o apoio de alguns investidores existentes, com a liquidação da operação prevista até 31 de março. Graças a estes fundos, a Aurum prevê elevar a sua tesouraria para 60 milhões de dólares australianos e avançar com os trabalhos em curso no projeto Boundiali.
O início da fase de construção de uma mina está, de facto, previsto para este ano em Boundiali, um projeto que atualmente alberga 3,03 milhões de onças de recursos auríferos. Para tal, a Aurum planeia cumprir várias etapas-chave, incluindo a finalização de um estudo de pré-viabilidade (PFS), previsto para abril, bem como a obtenção das licenças mineiras. A PFS deverá fornecer os primeiros indicadores económicos do projeto antes da realização de um estudo de viabilidade definitivo (DFS).
Paralelamente, os trabalhos de exploração devem continuar no local, com um programa de perfuração de 100.000 metros. Num contexto de subida dos preços do ouro nos últimos meses, o desafio para a Aurum é otimizar de forma sustentável o potencial de Boundiali e acelerar a sua transição para produtor. Uma ambição reforçada pelo apoio de atores já estabelecidos como a Perseus Mining, que foi precedida neste esforço pela Montage Gold (Projeto Koné), já acionista da Aurum desde 2025.
Refira-se que o portefólio da empresa inclui também o projeto Napié, onde parte dos fundos levantados será destinada ao financiamento de um programa de exploração de 30.000 metros de perfuração.
Aurel Sèdjro Houenou
Há cerca de três anos, a empresa australiana Atlantic Lithium tem-se empenhado no Gana para obter a ratificação do contrato mineiro do seu projeto de lítio Ewoyaa. Esta etapa condicionava a passagem à decisão final de investimento, visando a construção da futura mina.
Na sexta-feira, 20 de março, a Atlantic Lithium anunciou que o Parlamento ganês ratificou oficialmente a licença do seu projeto Ewoyaa. Esta aprovação permite à empresa dispor agora de todas as autorizações necessárias para iniciar a construção do que se prevê ser a primeira mina de lítio do Gana.
Estabelecido no âmbito de um acordo celebrado com o Estado ganês em 2023, o contrato mineiro de Ewoyaa aguardava ratificação pelo poder legislativo para entrar em vigor. Esta etapa tinha sido atrasada devido à extensão do processo e a divergências sobre certos termos do contrato mineiro. Agora formalizada, esta licença, válida por um período inicial de 15 anos, abre caminho para a decisão final de investimento (FID) e para o lançamento da fase de construção do projeto.
«A ratificação constitui a aprovação formal pelo Parlamento do Gana do projeto da mina de lítio de Ewoyaa e da sua unidade de processamento, permitindo à empresa prosseguir com as discussões relativas ao financiamento do projeto e continuar a avançar para uma decisão final de investimento», pode ler-se na nota publicada na ocasião.
O plano atual da Atlantic Lithium é tornar Ewoyaa numa mina capaz de produzir, no total, 3,6 milhões de toneladas de concentrado de espoduménio ao longo de 12 anos. Para concretizar esta ambição, a empresa deverá mobilizar, juntamente com o seu parceiro de joint venture Elevra Lithium, um montante de 185 milhões de USD.
Antes disso, aguarda-se a finalização dos trabalhos técnicos relacionados com o projeto. Inicialmente lançados no ano passado, estes estudos visam «definir a orientação do desenvolvimento do projeto e esclarecer as medidas a tomar antes da decisão final de investimento», num contexto marcado pela persistente baixa dos preços do lítio. Contudo, não foi avançada qualquer data para a publicação dos resultados.
Com a ratificação do contrato mineiro, o Estado ganês deverá acompanhar de perto o progresso do projeto Ewoyaa. A sua concretização permitiria ao país juntar-se ao Zimbabué e ao Mali no grupo de produtores africanos de lítio, um metal estratégico para a transição energética. O projeto constituirá também uma nova fonte de receitas mineiras, através dos impostos e royalties previstos, bem como dos dividendos que o Estado receberá pela sua participação de 13% no capital da mina.
Aurel Sèdjro Houenou
Num contexto marcado por tensões cambiais e pela necessidade de relançar a produção energética, o Cairo regulariza a sua situação financeira perante os seus parceiros internacionais do setor petrolífero e gasífero.
O Egito anunciou o pagamento de 1,3 mil milhões de dólares de atrasados devidos às empresas petrolíferas estrangeiras até junho, confirmando uma aceleração do calendário de pagamentos num esforço para cumprir os seus compromissos financeiros. A informação foi divulgada no domingo, 22 de março, pelo site english aawsat.
As autoridades egípcias indicaram que estes pagamentos se inserem num processo mais amplo de redução das dívidas acumuladas junto dos atores internacionais do petróleo e do gás. O total dos atrasados tinha atingido cerca de 6,1 mil milhões de dólares no final de junho de 2024, na sequência de restrições prolongadas ao acesso a divisas estrangeiras. Desde então, o governo realizou vários pagamentos, com o objetivo de reduzir progressivamente o saldo para níveis mais sustentáveis. Segundo as orientações anteriores, um saldo residual de cerca de 1,2 mil milhões de dólares deveria permanecer na data inicial de vencimento.
A aceleração anunciada altera, portanto, este calendário, num contexto em que os pagamentos mensais aos parceiros estrangeiros estão agora melhor integrados na gestão orçamental. Esta evolução assenta numa melhoria relativa da disponibilidade de divisas, facilitada pelo aumento das reservas cambiais e por ajustes macroeconómicos.
As autoridades retomaram progressivamente o controlo do ritmo dos pagamentos, após um período durante o qual os desequilíbrios externos tinham levado ao adiamento de algumas obrigações.
O reembolso das dívidas energéticas responde a um duplo objetivo. Por um lado, trata-se de reforçar a confiança dos investidores estrangeiros, a fim de encorajar a retoma das atividades de exploração e perfuração. Por outro, o objetivo é aumentar a produção doméstica de hidrocarbonetos, que registou um recuo desde o pico alcançado em 2021, limitando a capacidade de fornecimento local e aumentando o recurso às importações, nomeadamente de gás natural liquefeito.
A continuação deste processo dependerá da capacidade do país em manter um nível suficiente de reservas em divisas. A trajetória dos investimentos no setor petrolífero e gasífero constituirá igualmente um indicador-chave, tal como a evolução da procura energética interna.
Olivier de Souza
Em junho de 2025, a Afentra tinha anunciado a assinatura de um acordo para adquirir participações detidas pela Etu Energias nos blocos petrolíferos offshore 3/05 e 3/05A, uma operação então sujeita a condições suspensivas.
A Afentra reviu o seu processo de aquisição de participações nos blocos petrolíferos offshore 3/05 e 3/05A em Angola, após a intervenção da empresa pública Sonangol na transação inicial com a Etu Energias. A empresa britânica anunciou esta evolução num comunicado publicado no site da Bolsa de Londres na quinta-feira, 19 de março.
Em junho de 2025, a Afentra tinha, de facto, assinado um acordo de compra com a Etu Energias referente a participações nesses dois blocos marítimos. Estes blocos em produção são operados pela Sonangol. Durante o processo de venda, a Sonangol decidiu participar na aquisição dos interesses cedidos.
Após esta decisão, a operação foi reestruturada. A Sonangol, a Afentra e a Maurel & Prom passam agora a adquirir conjuntamente as participações detidas pela Etu. Estas participações representam 10% no bloco 3/05 e 13,33% no bloco 3/05A, segundo o comunicado da Afentra.
O novo acordo, que substitui o firmado em junho de 2025, permite à Afentra adquirir 3,33% no bloco 3/05 e 3,66% no bloco 3/05A. A finalização da transação permanece sujeita a várias condições, incluindo a aprovação das autoridades angolanas. Num comunicado separado, a Maurel & Prom confirmou igualmente a sua participação na operação, indicando que adquirirá também uma parte dos interesses cedidos pela Etu Energias nos dois blocos.
Até ao momento, nenhum calendário preciso de encerramento foi comunicado pelas empresas envolvidas na transação. Uma vez finalizada, a Sonangol continuará a ser a operadora dos blocos, em parceria com a Afentra, a Maurel & Prom e a NIS Naftagas.
Em detalhe, a empresa pública petrolífera de Angola deterá 39,34% de participação no bloco 3/05. Os interesses restantes do bloco distribuem-se da seguinte forma: 33,33% para a Afentra, 23,33% para a Maurel & Prom e 4% para a NIS Naftagas.
No que diz respeito ao bloco 3/05A, a Sonangol manterá 39,34%, enquanto a Afentra deterá 24,99%, a Maurel & Prom 30,33% e a NIS Naftagas 5,33%.
Implantação gradual da Afentra no offshore angolano
Este desenvolvimento em torno dos blocos 3/05 e 3/05A é descrito por Paul McDade, CEO da Afentra, como ilustrando «uma estratégia disciplinada para construir um portfólio de ativos geradores de caixa em África». Insere-se numa série de aquisições realizadas pela Afentra em Angola nos últimos anos.
Em julho de 2022, a Agência Ecofin reportou a conclusão, pela empresa, de um acordo com a companhia croata INA para adquirir participações adicionais ainda nos blocos 3/05 e 3/05A. Esta transação permitiu à Afentra, nessa altura, reforçar já a sua posição nestes blocos.
Além disso, em outubro de 2025, a Afentra obteve a aprovação das autoridades angolanas para entrar no bloco offshore 3/24. Este bloco contém recursos estimados em cerca de 130 milhões de barris de petróleo e 400 mil milhões de pés cúbicos de gás. Segundo a Sonangol, o bloco, com uma área de 545 km², está localizado próximo dos blocos 3/05 e 3/05A, numa zona onde já foram identificadas várias descobertas petrolíferas.
Abdel-Latif Boureima
A Rússia apoia-se cada vez mais nos registos de navios africanos para manter a sua frota fantasma e continuar a exportar petróleo apesar das sanções norte-americanas. O que antes parecia ser uma táctica pontual de evasão de sanções transformou-se num mecanismo estruturado destinado a preservar os seus rendimentos energéticos. É o que revela o Robert Lansing Institute num estudo que documenta a amplitude e a sistematização destas práticas.
Segundo esta análise, mais de metade dos casos documentados de falsas matriculações em alto-mar estão ligados a jurisdições africanas. Em detalhe, 83 navios reivindicaram uma matrícula nas Comores, enquanto que nos Camarões, o tonelagem registada no registo marítimo aumentou 126% em um ano, em grande parte devido à chegada de petroleiros associados a esta frota.
Sanções norte-americanas confrontadas com limites operacionais
Para os Estados Unidos, estes registos complicam várias dimensões-chave da aplicação das sanções: o acompanhamento das rotas marítimas, a identificação dos beneficiários finais, a verificação dos seguros e a aplicação de sanções secundárias. Quanto mais estes navios operam sob pavilhões com transparência limitada, mais difícil se torna impor custos financeiros diretos a Moscovo.
Assim, a Rússia não se limita a manter as suas exportações. Evidencia também os limites dos dispositivos de sanções, apoiando-se em falhas nos sistemas de matrícula marítima e na governação do transporte marítimo internacional.
Alguns registos africanos enquadram-se cada vez mais numa lógica comercial. Oferecem ambientes caracterizados por supervisão limitada, estruturas de propriedade pouco transparentes e recurso a pavilhões de conveniência, o que dilui a responsabilidade dos Estados do pavilhão. Para os operadores ligados à Rússia, o objetivo é explorar estas margens do sistema marítimo internacional para manter as suas atividades.
O fenómeno insere-se também no funcionamento de registos frequentemente abertos a armadores estrangeiros e operando como serviços comerciais. Neste contexto, os requisitos de controlo podem variar, facilitando mudanças rápidas de pavilhão e a integração de navios em circuitos mais difíceis de rastrear, especialmente quando mudam frequentemente de identidade ou de operador.
Togo, entre pavilhão de conveniência e hub regional de redistribuição
O Togo aparece igualmente neste ecossistema. Segundo o Robert Lansing Institute, o país dispõe de um registo acessível e está associado a práticas de pavilhões de conveniência. É ainda identificado como uma plataforma de redistribuição de combustíveis a baixo custo em África, um ponto destacado em 2025 por Aliko Dangote, que alertava para os efeitos destes fluxos nos mercados regionais e na concorrência que exercem.
Neste contexto, o recurso a pavilhões africanos constitui uma alavanca operacional para a frota fantasma russa. Uma vez matriculados sob jurisdição estrangeira, os navios tornam-se mais difíceis de atingir, sendo qualquer ação dependente da intervenção do Estado do pavilhão e de uma cooperação administrativa frequentemente demorada.
Olivier de Souza
As políticas de fortalecimento do transporte público no Gana ocorrem num contexto de crescente pressão sobre a mobilidade urbana, marcado pelo declínio das capacidades dos operadores públicos e pela expansão do setor privado.
Cem autocarros montados no Egito estão a ser enviados para o Gana, com o objetivo de reforçar o serviço público de transporte urbano. A informação foi divulgada pelo governo egípcio em comunicado datado de 17 de março de 2026. Esta entrega segue o anúncio feito em fevereiro pela ministra dos Transportes do Gana, Dorcas Affo-Toffey, sobre a chegada de novos autocarros para a Metro Mass Transit, a companhia pública do país.
O envio integra um programa maior, que prevê a aquisição de mais de 300 autocarros até ao final do ano, com o objetivo de apoiar um operador que enfrenta restrições persistentes: redução da frota, dificuldades de manutenção e escassez de peças de reposição.
Segundo declarações da vice-presidência ganesa divulgadas pelos meios locais, a frota operacional da Metro Mass Transit caiu de cerca de 1000 para aproximadamente 400 autocarros nos últimos anos. Esta redução abriu espaço para o crescimento de operadores privados, incluindo miniautocarros “trotros”, táxis convencionais e plataformas de VTC como Bolt, Yango e Uber.
De acordo com as autoridades egípcias, os autocarros foram carregados no navio SUNSHINE ACE, que fez escala no porto turco de Lehman antes de seguir para o porto de Tema, no Gana.
Desde 2023, a Guiné tornou-se o maior exportador mundial de bauxita, matéria-prima essencial para a cadeia de valor do alumínio. Este estatuto coloca o país no centro das dinâmicas globais do mercado, alimentadas nos últimos anos principalmente pelos fluxos provenientes das suas minas.
O governo guineense está a preparar um plano para introduzir restrições às exportações de bauxita até abril de 2026. Confirmada pelo ministro das Minas, Bouna Sylla, esta iniciativa visa reduzir os volumes exportados de modo a sustentar uma recuperação dos preços internacionais, que têm registado tendência de queda nos últimos meses.
Uma resposta do maior exportador mundial
A proposta da Guiné surge num contexto em que o país representa cerca de 40% da oferta global de bauxita. Com um mercado marcado por excesso de oferta, nomeadamente na China, os preços da bauxita caíram cerca de 50% desde janeiro de 2025, segundo dados da Fastmarkets.
A pressão sobre os preços é agravada pelo aumento dos custos logísticos, ligado às tensões no Médio Oriente, o que afeta as margens das empresas mineradoras e reduz as receitas do Estado guineense. Neste contexto, as autoridades solicitaram aos operadores que submetessem planos de produção para os próximos três anos, atualmente em análise, para definir as modalidades das restrições.
“Isso deverá ocorrer antes do final do mês ou no início de abril […]. Todas as empresas serão afetadas […]. Queremos mais receitas, e elas querem operações mais sustentáveis”, declarou Bouna Sylla à Reuters.
Comparações com o modelo congolês do cobalto
O calendário avançado pelas autoridades guineenses já gera comparações com a estratégia adotada pela República Democrática do Congo para o cobalto. O país africano, maior produtor mundial deste metal estratégico, instituiu em fevereiro de 2025 um embargo às exportações antes de passar a um sistema de quotas, com o objetivo de apoiar os preços. Essa medida revelou-se eficaz, com os preços do cobalto a mais que duplicarem nos meses seguintes.
Aurel Sèdjro Houenou
A analogia com a Guiné baseia-se também em semelhanças estruturais entre os dois setores: a Guiné, tal como a RDC, destina a maior parte das suas exportações à China e depende fortemente de operadores chineses para explorar os seus recursos, entre os quais China Hongqiao Group e a Aluminum Corporation of China.
No entanto, o ministro destaca algumas diferenças. “Não se trata realmente de um sistema de quotas, mas vamos reduzir os volumes exportados”, disse Sylla. As modalidades concretas ainda precisam de ser definidas, bem como o impacto no médio prazo sobre os preços.
O analista Andy Farida, da Fastmarkets, considera que a Guiné poderá atingir o seu objetivo se reduzir as exportações para cerca de 150 milhões de toneladas por ano, comparadas com 183 milhões de toneladas em 2025, ano em que o país já registou um aumento de 25%. No entanto, há o risco de outros produtores, como Austrália e Brasil, compensarem a redução, o que poderia limitar o efeito sobre os preços.
Papel da bauxita na economia guineense
A bauxita é um dos principais produtos minerais exportados pela Guiné, ao lado do ouro e do ferro. Em 2022, representava 44% das receitas de exportação do setor extrativo, responsável por cerca de 20% do PIB nacional.
A República Democrática do Congo (RDC) lançou oficialmente na terça-feira, 17 de março, o programa PanAfGeo+ INVEST, com o objetivo de reforçar a governação e o conhecimento do potencial geológico do país.
Segundo um comunicado do Ministério das Minas, a iniciativa visa fortalecer a governança do setor mineiro através de uma melhor produção de dados geocientíficos e de uma gestão mais responsável dos recursos naturais.
O programa é implementado pelo Serviço Geológico Nacional do Congo (SGN-C), em parceria com o Bureau de Recherches Géologiques et Minières (BRGM) e a Team Europe. A ambição é valorizar o potencial geológico do país, consolidar as cadeias de valor de minerais críticos e aumentar a atratividade do setor mineiro para investidores.
Para o Ministro das Minas, Louis Watum Kabamba, os dados geocientíficos são “um alavanca estratégica para orientar os investimentos e garantir uma gestão sustentável dos recursos”. Ele enfatizou também a necessidade de promover uma exploração mineira responsável e transparente, em benefício das populações locais.
A RDC possui um potencial mineral excecional, em particular de cobre e cobalto, essenciais para as tecnologias modernas e a transição energética. No entanto, a valorização destes recursos enfrenta desafios, como uma governança ainda frágil, a predominância da exploração artesanal e dificuldades de rastreabilidade dos minerais.
Para transformar este potencial num motor de desenvolvimento sustentável, o governo implementou reformas para reforçar a transparência dos contratos e receitas, formalizar a mineração artesanal, desenvolver a transformação local dos minerais e melhorar os mecanismos de gestão ambiental e social.
Nesse contexto, o país lançou recentemente a sua primeira refinaria piloto de ouro em Kalemie, na província do Tanganyika, com capacidade de produção estimada entre 500 e 600 quilogramas de ouro por mês, visando alcançar 1,7 mil milhões de euros em receitas de exportação de ouro artesanal em 2026.
O lançamento do PanAfGeo+ INVEST marca também o início de uma série de atividades técnicas. A segunda fase do programa, denominada “Country Window RDC”, está prevista para quinta-feira, 19 de março, e incluirá trabalhos de campo e laboratoriais a nível nacional.
Charlène N’dimon
Dos Estados Unidos à União Europeia, passando pelo Japão, as grandes potências estão a apostar em África para garantir o abastecimento de terras raras fora da China. Entre os projetos alvo desta estratégia está o Songwe Hill, no Malawi, que avança para a fase de construção.
O custo inicial de investimento do projeto Songwe Hill foi revisto para 297,8 milhões USD, contra os 277 milhões USD anteriormente estimados. Esta atualização consta do estudo de viabilidade definitivo publicado em 19 de março pelo operador Mkango Resources, que pretende transformar o ativo numa fonte estratégica de metais essenciais à transição energética.
O estudo prevê um retorno do investimento em 3,4 anos, a contar do início da produção plena. O projeto contempla o desenvolvimento de uma mina com 18 anos de vida útil, com uma produção média anual de 5.954 toneladas de óxidos de terras raras nos primeiros cinco anos completos de operação. Este concentrado inclui neodímio, praséodímio, disprósio e térbio, elementos essenciais para a fabricação de ímanes permanentes usados em veículos elétricos e turbinas eólicas.
Com este plano, a Mkango pretende posicionar Songwe Hill como principal fornecedora de terras raras para a sua fábrica de refinação em Pulawy, Polónia. Os detalhes do financiamento do projeto ainda precisam de ser definidos, mas a empresa conta com o apoio dos Estados Unidos, através de um financiamento recente da U.S. International Development Finance Corporation (DFC), que também estuda a possibilidade de conceder um empréstimo de até 100 milhões USD.
Embora o projeto desperte interesse na União Europeia, a Mkango tem destacado cada vez mais o mercado norte-americano como o principal foco de investimento. A empresa planeia integrar Songwe Hill e a fábrica polaca numa nova entidade resultante da fusão com a Crown PropTech Acquisitions, operação prevista ainda para este ano, acompanhada de uma cotação na Nasdaq, com o objetivo de aumentar a exposição de investidores americanos ao projeto.
Resta acompanhar nos próximos meses a evolução destas iniciativas e a sua capacidade de facilitar o financiamento da mina. Num contexto geopolítico em que as potências ocidentais procuram garantir o abastecimento de terras raras fora da China, Songwe Hill parece bem posicionado para beneficiar destas dinâmicas. Até ao momento, não foi divulgado um calendário de início da produção.
Aurel Sèdjro Houenou
Num contexto de alta dos preços do ouro, a Newcore Gold acelerou o desenvolvimento do seu projeto Enchi, no Gana, aumentando a base de recursos minerais indicados para 1,5 milhão de onças, em comparação com as 743.500 onças anteriormente reportadas.
Este crescimento resulta dos sondagens realizadas entre 2024 e 2025 e abrange os quatro depósitos do projeto: Boin, Sewum, Nyam e Kwakyekrom. Além disso, existem 626.000 onças classificadas como recursos inferidos, com menor nível de confiança, enquanto os recursos indicados oferecem base sólida para planeamento futuro e estudos económicos.
Com esta atualização, a empresa está bem posicionada para avançar com a estudo de pré-viabilidade (PFS), esperado até final de junho, fornecendo os primeiros indicadores de viabilidade econômica para uma potencial exploração industrial do projeto.
Segundo Luke Alexander, presidente da Newcore, «alcançar este marco em Enchi é motivo de orgulho e antevemos um ano intenso, com o estudo de pré-viabilidade e sondagens de exploração, visando maximizar o valor do projeto para todas as partes interessadas».
A conversão dos recursos atuais em reservas exploráveis exigirá estudos adicionais após a PFS, passo crucial para que o projeto atinja o estatuto de mina operacional, com os trabalhos de exploração a prosseguir, apoiados por uma recente captação de 10 milhões de dólares canadenses (7,3 milhões USD).
Aurel Sèdjro Houenou
O rápido progresso no acesso à eletricidade acompanha uma transformação do sistema elétrico queniano, que, dominado pelas energias renováveis, enfrenta novos desafios relacionados com a gestão da rede.
O sistema elétrico do Quénia baseia-se amplamente em energias renováveis, num contexto de forte expansão do acesso à eletricidade. É o que revela o relatório “Integrating Variable Renewable Energy in Kenya”, publicado em março de 2026 pela Agência Internacional de Energia (AIE).
Segundo a análise da organização intergovernamental, o país dispõe de mais de 3,5 GW de capacidade instalada. Em 2025, a geotermia representava 26% desta produção, seguida da hidroeletricidade (24%), solar (12%) e eólica (12%). As centrais térmicas completavam a oferta com 26%.
A predominância das energias verdes é ainda mais evidente na produção elétrica, já que quase 90% da eletricidade disponível provém de fontes renováveis. A AIE indica ainda que a taxa de acesso à eletricidade aumentou de 37% em 2013 para 79% em 2025, com 100% de cobertura urbana. O país pretende atingir acesso universal até 2030, no âmbito da estratégia “Vision 2030”.
Integração ainda limitada
A AIE sublinha, contudo, que, para além da sua contribuição significativa para os objetivos de desenvolvimento energético, o aumento da produção de energias renováveis variáveis, como solar e eólica, levanta desafios de estabilidade, fiabilidade e resiliência da rede. Esta situação reforça a necessidade de sistemas de armazenamento de energia e de serviços auxiliares aprimorados, capazes de assegurar a estabilidade e o bom funcionamento da rede.
«O sistema elétrico do Quénia encontra-se atualmente na fase 3 de integração das energias renováveis variáveis, o que indica que estas têm uma influência crescente no funcionamento da rede, especialmente durante períodos de elevada produção eólica», lê-se no documento.
O relatório divide a integração das energias renováveis variáveis em 6 etapas, sendo as fases 1 a 3 correspondentes a uma integração limitada, gerível através de melhorias operacionais. O Quénia encontra-se, assim, numa fase intermédia, que deverá manter-se até 2030. Neste estágio, as soluções renováveis variáveis já influenciam a operação da rede, por exemplo, durante picos de produção eólica.
Abdoullah Diop
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Marrakech. Maroc