Enquanto mais de dois jovens senegaleses em cada dez estão desempregados e o ensino privado escapa a qualquer controlo de qualidade, Dakar lança uma regulação inédita para alinhar a oferta educativa com as necessidades do mercado de trabalho.
No Senegal, o Estado pretende pôr ordem num setor educativo privado há muito deixado à sua própria dinâmica. Esse foi o sinal forte lançado durante um simpósio nacional realizado na segunda-feira, 4 de maio, em Dakar. O ministro da Educação Nacional, Moustapha Mamba Guirassy, abriu os trabalhos lembrando que o setor privado contribui ativamente para alargar o acesso à educação, formar recursos humanos e responder à crescente procura escolar.
Este setor tem um peso significativo: mais de 5000 estabelecimentos e cerca de 40 000 professores, segundo o comunicado oficial do ministério. Um peso que confirma o seu papel já incontornável. No entanto, não existe qualquer mecanismo nacional que garanta de forma coerente a qualidade desta oferta.
Um diálogo nacional para definir regras
O evento constitui, segundo o ministério, «um quadro nacional de diálogo e concertação». Reuniu diferentes atores em torno da contribuição do setor privado para o sistema educativo. Organizados em sessões plenárias e workshops temáticos, os trabalhos visam produzir «recomendações operacionais destinadas a estruturar de forma duradoura» o setor. As conclusões serão submetidas às autoridades para integração no plano de refundação da escola senegalesa, em curso desde 2024.
O ministério pretende construir «uma regulação clara, transparente e orientada para a qualidade», descrita como «uma arquitetura de confiança em benefício dos alunos, das famílias e dos promotores». O objetivo é garantir a cada estudante «uma base fundamental sólida» e «uma coerência curricular» comum, independentemente do estabelecimento. A iniciativa visa ainda instaurar «uma formação cívica comum» para todos os alunos do país.
A qualidade como chave para o emprego
Para além do acesso à escola, é a empregabilidade dos jovens que motiva esta reforma. O desfasamento entre formação e mercado de trabalho é persistente e documentado. Setores em crescimento como o digital, a construção e as energias renováveis enfrentam falta de profissionais qualificados, enquanto milhares de diplomados permanecem desempregados.
Segundo a Agência Nacional de Estatística e Demografia (ANSD), a taxa de desemprego atingiu 23,3% no quarto trimestre de 2025, um aumento de 3,3 pontos em relação ao ano anterior. Entre os jovens dos 18 aos 35 anos, 41% declararam estar desempregados e à procura de trabalho, segundo um estudo da Afrobarometer em junho de 2025.
A reforma integra-se na refundação curricular em curso, que pretende articular «saberes modernos e heranças culturais, inovação e ética, abertura internacional e soberania cognitiva», segundo o comunicado ministerial.
Uma regulação perante fortes desafios
O sistema educativo senegalês continua sob pressão. Na rentrée 2024-2025, o primeiro-ministro Ousmane Sonko indicou uma taxa bruta de escolarização de 63%, colocando o Senegal no 9.º lugar da CEDEAO. A taxa de insucesso no exame nacional atingia 49%. O setor público enfrentava ainda um défice de 4527 professores e 7145 estruturas provisórias.
O RGPH-5 da ANSD (2024) estima 4,5 milhões de estudantes no país, sendo 59% em zonas urbanas. O Estado destinou 1305 mil milhões de francos CFA (≈2,35 mil milhões de dólares), ou 22,7% do orçamento nacional, à educação em 2024. Apesar disso, as desigualdades regionais e setoriais persistem. Com metade da população com menos de 19 anos, a ausência de regulação eficaz do ensino privado pode agravar ainda mais as desigualdades existentes.
Félicien Houindo Lokossou
Perante os elevados custos das infraestruturas, os operadores de telecomunicações no Gabão estão a explorar modelos de partilha para melhorar a cobertura e a qualidade do serviço. Esta abordagem poderá também favorecer uma redução progressiva do preço dos dados móveis.
Os operadores Moov Africa Gabon Télécom e Airtel Gabon assinaram, na quinta-feira, 7 de maio, em Libreville, uma convenção de mutualização das suas infraestruturas digitais, na presença do ministro da Economia Digital, Mark Alexandre Doumba. O acordo visa permitir a partilha de determinadas instalações técnicas, de modo a melhorar a cobertura da rede e a qualidade dos serviços em todo o território.
Concretamente, a convenção prevê a partilha de antenas de telecomunicações e de outras infraestruturas, evitando investimentos duplicados e otimizando a expansão das redes. Para os operadores, esta abordagem deverá permitir reorientar recursos para a extensão da cobertura, sobretudo nas zonas ainda mal servidas, ao mesmo tempo que melhora a qualidade do serviço. O diretor-geral da Airtel Gabon, Thomas Herbert Gutjahr, destacou o elevado custo das infraestruturas, considerando que a sua partilha constitui uma alavanca para reduzir encargos e melhorar o desempenho global do setor.
A cooperação dá continuidade ao memorando de entendimento assinado em setembro de 2025 entre os dois operadores, que estabeleceu as bases para a partilha de infraestruturas digitais, nomeadamente com o objetivo de racionalizar custos e alargar a cobertura nacional. Alinha-se também com a orientação das autoridades gabonesas, que incentivam a mutualização das infraestruturas como meio de otimizar redes e acelerar a transformação digital. Num mercado caracterizado por elevados investimentos, esta abordagem surge como uma resposta às restrições económicas do setor.
No Gabão, onde a taxa de penetração da Internet é estimada em mais de 70% segundo a DataReportal, os desafios centram-se agora na qualidade do serviço e na extensão da cobertura, sobretudo fora dos grandes centros urbanos. O crescimento dos usos digitais aumenta também a pressão sobre as redes existentes, tornando necessária uma otimização das infraestruturas.
As primeiras infraestruturas partilhadas serão instaladas na Cité de la Démocratie, um local estratégico destinado a tornar-se um polo de conectividade. A médio prazo, as autoridades esperam que esta cooperação contribua também para tornar os serviços de dados mais acessíveis, num mercado onde o custo continua a ser um fator determinante de adoção.
Samira Njoya
A Tanzânia quer acelerar o acesso dos jovens a competências técnicas através do digital. Nesta dinâmica, as autoridades voltaram-se para um dos principais operadores de telecomunicações do país.
A operadora Airtel Tanzania e a Vocational Education and Training Authority (VETA), uma agência governamental responsável por regulamentar, coordenar e ministrar formações técnicas e profissionais, assinaram, na terça-feira, 5 de maio, um acordo destinado a reforçar a formação profissional digital através da plataforma Airtel VSOMO.
«Airtel VSOMO é a plataforma nacional oficial dedicada à formação profissional em linha no âmbito do programa VETA. Permite aos tanzanianos adquirir competências práticas em qualquer momento e em qualquer lugar, utilizando os seus dispositivos digitais», indicou Charles Kamoto, diretor-geral da Airtel Tanzania.
A parceria baseia-se numa abordagem de mobile learning, permitindo aos formandos aceder a conteúdos pedagógicos a partir do smartphone. Os cursos propostos abrangem várias áreas técnicas e profissionais, com o objetivo de tornar a formação mais acessível, sobretudo para os jovens afastados dos grandes centros urbanos ou com meios limitados.
Esta iniciativa insere-se numa dinâmica de digitalização da educação na Tanzânia. As autoridades procuram utilizar as tecnologias móveis para reduzir as barreiras de acesso à formação e responder melhor às necessidades do mercado de trabalho. No entanto, segundo dados da Autoridade Reguladora das Comunicações da Tanzânia (TCRA) em 31 de dezembro de 2025, existem 28,5 milhões de smartphones ativos no país, para uma taxa de penetração de 41,82%.
No que diz respeito à Internet móvel, 58,1 milhões de pessoas são subscritoras do serviço junto dos vários operadores do país, com uma taxa de penetração de 85,3%. Os dados do DataReportal, no entanto, apresentam números diferentes, estimando a taxa de penetração da Internet móvel em 29,1%, com 20,6 milhões de utilizadores.
Para além da aprendizagem teórica, o programa prevê também uma ligação aos centros de formação da VETA, de forma a associar ensino online e prática profissional. Esta combinação visa melhorar a empregabilidade dos jovens num contexto em que o desemprego e o défice de competências continuam a ser desafios importantes.
Para a Airtel Tanzania, esta parceria ilustra também a evolução do papel dos operadores de telecomunicações, cada vez mais presentes em serviços digitais para além da conectividade. Depois dos pagamentos móveis e dos serviços digitais, as telecoms estão agora a investir mais no setor da educação.
Em 31 de dezembro de 2025, a Airtel Tanzania contava com 23,3 milhões de assinantes, com uma quota de mercado de 21,8%, segundo a TCRA. O operador indiano ocupa a terceira posição no mercado tanzaniano em número de assinantes, atrás da Vodacom (31,2%) e da Yas (28,9%), mas à frente da Halotel (16,5%) e da TTCL (1,6%).
Adoni Conrad Quenum
Côte d'Ivoire: Em face de uma explosão nos números de estudantes e uma escassez persistente de pessoal qualificado, o país intensifica seus esforços para fornecer educadores capacitados nas escolas
O governo da Côte d'Ivoire continua sua política de reforço da educação nacional. O Ministério da Educação Nacional e da Alfabetização anunciou oficialmente a realização do concurso de ingresso direto para a Escola Normal Superior (ENS) para a sessão de 2026, conforme uma publicação em suas redes sociais no domingo, 3 de maio.
No total, 24.185 candidaturas foram validadas para 3.225 vagas abertas na função pública. A relação é reveladora: sete candidatos disputam a mesma vaga. Esse interesse reflete, ao mesmo tempo, a atratividade do status de servidor público e a pressão crescente de uma juventude qualificada que busca uma inserção estável no mercado de trabalho.
Três perfis, três provas
Segundo o comunicado oficial do Ministério, as provas escritas estão organizadas em três sequências distintas:
O governo destaca que "esse interesse confirma a importância estratégica da profissão de educador e o papel central da escola no desenvolvimento de nosso país". Os resultados das admissões são esperados para o final de junho. As provas orais ocorrerão em julho, com a divulgação dos resultados definitivos prevista para meados de julho de 2026.
Uma iniciativa para suprir uma carência persistente
A questão vai além da seleção acadêmica. Os aprovados no concurso passarão por dois anos de formação na ENS antes de assumirem suas funções. A partir do próximo ano letivo, 2.337 professores e 3.435 estagiários irão reforçar os efetivos nas escolas do país, conforme o Ministério da Educação. Esse reforço de recursos humanos é uma resposta urgente a uma necessidade bem documentada.
Em fevereiro de 2025, a Ministra Mariatou Koné anunciou um recrutamento excepcional de 2.855 professores contratados, com o objetivo de reduzir as carências e as disparidades regionais. O Programa Social do Governo também previa o recrutamento de 23.901 professores para a educação infantil e ensino fundamental entre 2022 e 2024, além de 11.508 vagas para o primeiro ciclo do ensino secundário no mesmo período.
A sessão 2026 do concurso da ENS ocorre sob grande pressão no sistema educacional da Costa do Marfim
A sessão de 2026 do concurso ocorre enquanto o sistema educacional da Costa do Marfim continua sob uma pressão considerável. No ensino secundário geral, o número de alunos aumentou de 1,9 milhões para 3,2 milhões entre 2017-2018 e 2024-2025, um aumento de 67,1%. A demanda supera amplamente as capacidades disponíveis. No mesmo período, o número de escolas secundárias mais que dobrou, passando de 1.778 para 3.901, embora 76,6% dessas escolas sejam privadas e concentradas em áreas urbanas.
A escassez persiste nas zonas rurais
Nas zonas rurais, a escassez de professores ainda persiste. A taxa de conclusão do primeiro ciclo do ensino secundário era de 68,9% em 2022, contra 34,5% em 2012, um progresso real, mas ainda insuficiente diante do crescimento demográfico. As taxas de aprovação nos exames também permanecem preocupantes. Em 2024, a taxa de aprovação no BEPC foi de 40,18% e no bac de 34,17%, revelando uma tensão constante entre a quantidade de alunos e a qualidade do ensino.
Félicien Houindo Lokossou
Enquanto a educação pré-escolar se afirma como o principal alavancador contra as desigualdades educacionais, o Marrocos registra uma década de progresso notável no acesso à educação infantil. No entanto, a qualidade da aprendizagem e a governança do setor permanecem em aberto.
O Marrocos melhorou significativamente sua cobertura na educação pré-escolar, atingindo 70,4% de cobertura em 2025 para crianças de 4 a 5 anos, contra 50,2% dez anos antes. Este é um dos principais resultados apresentados no relatório de avaliação da educação pré-escolar 2024-2025, publicado pela Instância Nacional de Avaliação do Conselho Superior de Educação, Formação e Pesquisa Científica (CSEFRS), em parceria com a UNICEF. A avaliação abrange todas as estruturas do país, desde estabelecimentos públicos até unidades informais, como as escolas corânicas e os centros de acolhimento informais, que há muito tempo eram a única opção em áreas mais remotas.
O Impacto nas Áreas Rurais
O maior avanço foi registrado no meio rural, onde a taxa de cobertura da educação infantil saltou de 36,3% para 75,6% em apenas dez anos, superando agora as áreas urbanas. Esse crescimento expressivo deve-se, em grande parte, ao programa nacional de universalização da educação pré-escolar 2018-2028, desenvolvido para reduzir as disparidades regionais e expandir a oferta pública onde ela era inexistente.
O CSEFRS documenta uma expansão sem precedentes do setor público, com unidades passando de 6.185 em 2018-2019 para 23.182 em 2024-2025. As estruturas informais diminuíram de 18.882 para 4.946, refletindo uma normalização gradual. No mesmo período, o orçamento destinado ao setor mais que dobrou, subindo de 1,13 bilhões de dirhams em 2019 para quase 3 bilhões em 2025, e o número de educadores aumentou de 39.535 para 49.885. A paridade de gênero também segue essa tendência, com o índice de pré-escolarização das meninas subindo de 44,7% para 71,1% entre 2014-2015 e 2024-2025.
Desafios no Sistema Educacional Marroquino
Embora o acesso ao pré-escolar tenha avançado, os números de acesso não refletem o que acontece dentro das salas de aula. O relatório do CSEFRS coloca uma ênfase especial na qualidade do ensino e na necessidade de melhoria no quadro educacional.
A primeira questão levantada é sobre o pessoal docente. O relatório destaca a grande heterogeneidade nas condições de trabalho, principalmente no setor público e nas unidades informais. Essa precariedade afeta a regularidade das práticas pedagógicas, o que compromete o desenvolvimento das crianças. O CSEFRS defende uma valorização da profissão docente, uma melhor formação e maior estabilidade profissional para os educadores.
Outro ponto importante abordado é a inclusão. O atendimento a crianças com deficiência ainda é insuficiente, apesar dos compromissos estabelecidos na Lei-Quadro 51.17. Além disso, o relatório aponta que a falta de continuidade entre a educação pré-escolar e o ensino primário representa um risco real para a aprendizagem. Sem uma transição pedagógica suave entre esses dois ciclos, muitos dos aprendizados adquiridos na educação infantil são perdidos assim que a criança entra no ensino fundamental.
Governança Fragmentada
Por fim, o relatório chama atenção para a fragmentação da governança no setor educacional. Ministérios, autoridades locais, fundações e operadores privados coexistem sem uma coordenação centralizada, o que dificulta a implementação de normas de qualidade uniformes em todo o país. O CSEFRS recomenda que as responsabilidades de cada entidade sejam melhor delimitadas e que mais poderes sejam concedidos às autoridades locais, dentro do contexto da regionalização avançada.
Félicien Houindo Lokossou
Enquanto o desemprego afeta cerca de um em cada três jovens argelinos e a falta de correspondência entre a formação e o mercado de trabalho continua a ser um entrave estrutural, uma infraestrutura de cloud nacional abre um novo espaço de inserção para a geração tecnológica.
Na Argélia, a procura por soberania digital está a abrir novas perspetivas de emprego para os jovens talentos do setor tecnológico. Na quinta-feira, 30 de abril, a aceleradora pública Algeria Venture anunciou o lançamento do AventureCloudz, uma plataforma de cloud destinada a programadores de software. A plataforma está alojada no território nacional e integra inteligência artificial. O anúncio foi divulgado pela Algérie Presse Service (APS).
A iniciativa resulta de uma parceria tripartida entre a Algeria Venture, a operadora de telecomunicações Djezzy e a start-up Taubyte. Esta última fornece a tecnologia que sustenta o sistema, alojado exclusivamente na Djezzy Cloud. Segundo o comunicado da Algeria Venture, a plataforma visa reduzir as barreiras técnicas, permitindo aos programadores “passar rapidamente e com maior flexibilidade da ideia ao produto”. Integra-se nos programas de apoio da Algeria Venture para “democratizar o acesso a infraestruturas cloud modernas”.
A dimensão do projeto vai além da inovação tecnológica. Trata-se de oferecer aos jovens programadores uma alternativa concreta aos gigantes globais do setor. A Algeria Venture fala numa “cooperação estratégica ao serviço da soberania digital e do surgimento de campeões tecnológicos nacionais”.
O impacto social é significativo. Segundo o Gabinete Nacional de Estatísticas (ONS), a taxa de desemprego entre os 16 e os 24 anos atingiu 29,3% em outubro de 2024. Os diplomados do ensino superior representavam 31,4% dos desempregados registados, revelando uma inserção particularmente difícil para perfis qualificados.
Este lançamento insere-se numa rápida estruturação do ecossistema digital argelino. O portal startup.dz regista mais de 7800 entidades, das quais cerca de 2300 estão certificadas. O Algerian Startup Fund, apoiado por seis bancos públicos, financia estas estruturas desde 2021. No mesmo contexto, a operadora AYRADE SPA abrirá 20% do seu capital à Bolsa de Argel em junho de 2026, uma estreia no cloud soberano nacional. Além disso, a estratégia SNTN-2030 prevê mais de 500 projetos digitais entre 2025 e 2026. Neste mercado de trabalho ainda sob pressão, o AventureCloudz surge como uma alternativa relevante, embora o seu impacto real ainda tenha de ser avaliado.
Félicien Houindo Lokossou
Enquanto cerca de 6 em cada 10 jovens estão desempregados e a inadequação entre a formação e o mercado de trabalho continua evidente, Conacri prossegue os seus esforços para uma reforma do sistema educativo baseada em dados e no planeamento territorial.
A Guiné assinala um marco histórico na sua governação educativa. O primeiro-ministro Amadou Oury Bah presidiu, na quarta-feira, 29 de abril, ao lançamento oficial do processo de elaboração do mapa escolar nacional. Estava acompanhado pelo ministro da Educação Alpha Bacar Barry e pelo ministro do Planeamento Ismaël Nabé. O executivo guineense inscreve assim a ação pública numa lógica de antecipação e de gestão orientada por dados.
O mapa escolar não é um simples recenseamento. Visa «organizar de forma racional e equitativa o sistema educativo» e «garantir a cada criança um acesso equitativo à educação em todo o território nacional», segundo o primeiro-ministro. O ministro do Planeamento Ismaël Nabé considera-o um «verdadeiro instrumento de engenharia estratégica». Na prática, permitirá identificar zonas carenciadas, orientar investimentos e antecipar necessidades futuras. O primeiro-ministro abriu também caminho para um futuro mapa sanitário, ilustrando uma ambição de planeamento integrado a nível nacional.
Desigualdades gritantes a corrigir
O diagnóstico do ministro Alpha Bacar Barry é severo. As escolas estão desigualmente distribuídas pelo território. Metade das escolas primárias públicas está concentrada apenas em três regiões — N’Zérékoré, Kankan e Kindia — segundo dados do Ministério do Ensino Pré-Universitário e da Alfabetização. As prefeituras mais isoladas acumulam falta de escolas, de professores qualificados e de materiais didáticos. Em algumas zonas do interior, há turmas com até cem alunos em estruturas improvisadas.
Estas realidades mostram a dimensão dos desequilíbrios que o sistema não consegue medir por falta de dados consolidados. É precisamente isso que o ministro Barry destacou ao referir «uma distribuição desigual das infraestruturas» e «uma insuficiência de dados consolidados» que limita qualquer planeamento eficaz. O mapa escolar altera esta lógica e introduz uma cultura de evidência na decisão pública. Cada investimento poderá agora ser justificado, localizado e avaliado. Trata-se de uma passagem do planeamento intuitivo para um planeamento baseado em dados — uma rutura metodológica e política.
Uma medida essencial face à urgência do emprego
Esta iniciativa surge num contexto de profundas fragilidades educativas e económicas. Cerca de 60% dos jovens entre 15 e 24 anos estão desempregados ou inativos, segundo a AGUIPE. Este dado reflete uma realidade estrutural confirmada pelos indicadores territoriais.
O Anuário Estatístico do Ensino Primário 2022-2023 mostra que a taxa bruta de escolarização no ensino primário atinge 83,9% nas zonas rurais, contra 155,5% nas zonas urbanas. Uma parte significativa das crianças em idade escolar continua fora do sistema, sobretudo nas regiões isoladas. A taxa de conclusão do ensino primário situa-se nos 66%, segundo o Parceria Global para a Educação.
As deficiências qualitativas agravam o cenário. No final do ensino primário, 55% dos alunos não atingem o nível mínimo de leitura e 43% não dominam as bases da matemática, de acordo com dados oficiais. Estas lacunas acumuladas bloqueiam o acesso a qualquer formação qualificada.
É precisamente este conjunto de desequilíbrios que o mapa escolar pretende cartografar e corrigir. Para recordar, Conacri lançou para 2024-2025 o programa Parcours Pro, centrado na adequação entre formação e necessidades do mercado. O país adotou também a sua primeira política nacional de emprego 2024-2030.
Félicien Houindo Lokossou
Os campus da rede 42 estão em plena expansão no continente. Após Madagáscar, Marrocos e Angola, essa expansão prossegue com uma abertura estratégica na África Ocidental, uma região até então não coberta pela rede.
O governo togolês anunciou recentemente a criação, em Lomé, do primeiro campus da rede 42 na África Ocidental, com o objetivo de reforçar a formação de talentos nas áreas do digital.
O projeto é apoiado por vários parceiros, incluindo o Grupo Axian, através da sua filial Yas Togo, bem como por atores europeus, nomeadamente a França e a União Europeia.
Promovida pelo Ministério da Eficiência do Serviço Público e da Transformação Digital, a iniciativa insere-se na ambição de posicionar o país como um hub regional de competências tecnológicas.
O futuro campus oferecerá formação em programação, dados e inteligência artificial, com base num modelo pedagógico centrado na prática.
«Este projeto representa a nossa ambição de fazer do digital um motor de transformação económica e social, oferecendo à juventude togolesa oportunidades concretas para o futuro», afirmou Cina Lawson, ministra da Eficiência do Serviço Público e da Transformação Digital.
Ao contrário dos sistemas académicos tradicionais, a rede 42 assenta num modelo de aprendizagem sem professores nem aulas teóricas. Os estudantes evoluem através de projetos concretos e de um sistema de colaboração entre pares, com acesso aberto e sem exigência de diploma.
Este modelo visa identificar e formar perfis operacionais, em sintonia com as necessidades do mercado. Para além do Togo, os campus da rede 42 estão presentes em Marrocos, Madagáscar e Angola.
O projeto enquadra-se na estratégia «Togo Digital 2025». Com um orçamento entre 0,8 e 1 mil milhões de dólares, cerca de 10% deste montante é destinado ao desenvolvimento de ferramentas digitais, à formação de talentos e ao apoio ao ecossistema — área na qual se insere este campus. Nem o calendário de abertura da escola nem o orçamento específico do projeto foram divulgados.
Adoni Conrad Quenum
Perante um desemprego jovem próximo dos 30% e uma persistente inadequação entre a formação e o mercado de trabalho, a Argélia está a acelerar as suas parcerias internacionais para modernizar profundamente o seu sistema de formação profissional.
A Argélia pretende construir com o Qatar uma parceria sólida no domínio da formação profissional. A ministra Nacima Arhab recebeu, no domingo, 26 de abril, o embaixador do Qatar, Abdulaziz Ali Al Naama, em Argel. O encontro teve como objetivo «reforçar as relações de cooperação bilateral entre os dois países irmãos, nomeadamente no domínio da formação e do ensino profissionais», segundo um comunicado do Ministério da Formação e do Ensino Profissionais.
As discussões centraram-se em mecanismos concretos. A agenda incluiu «a troca de conhecimentos especializados e de experiências bem-sucedidas» para melhorar a formação dos estagiários, com vista à «implementação de programas de formação de qualidade, tanto a nível nacional como no âmbito da cooperação internacional». A vertente tecnológica surge como uma prioridade comum. As duas partes destacaram «a transferência de tecnologia, o desenvolvimento de programas e a criação de um ecossistema de formação moderno alinhado com os padrões internacionais», acrescenta o comunicado.
Os dois responsáveis concluíram reafirmando a vontade de «reforçar as oportunidades de uma formação de qualidade para os jovens, enquanto pilar essencial para alcançar o desenvolvimento sustentável». Os acordos previstos ainda não têm calendário definido para assinatura.
O contexto torna esta iniciativa urgente. A taxa de desemprego entre os jovens dos 16 aos 24 anos atinge 29,3% na Argélia, mais do dobro da média nacional, segundo o Gabinete Nacional de Estatísticas (ONS) em outubro de 2024. As taxas de inserção profissional não ultrapassam os 40% em algumas especialidades, de acordo com dados governamentais, revelando um grande desfasamento entre a oferta formativa e as necessidades dos empregadores.
Esta parceria surge num momento em que a Argélia leva a cabo uma reforma significativa do seu sistema de formação. No início do ano letivo de outubro de 2025, 555.352 formandos integraram as 1.100 estruturas nacionais, dos quais mais de 385.000 são novos inscritos. Em fevereiro passado, foram abertas mais 285.000 vagas, com novas áreas como análise de dados e instalação de painéis solares. O setor baseia-se agora no Referencial Nacional de Formações e Competências, que substitui uma nomenclatura rígida de mais de 400 especialidades distribuídas por 23 ramos profissionais.
Félicien Houindo Lokossou
Na Côte d’Ivoire, quase um adulto em cada dois não sabe ler nem escrever. As mulheres são as mais afetadas por este fenómeno, com uma taxa de analfabetismo de 55,7%, segundo dados oficiais.
O governo marfinense está a intensificar a luta contra a exclusão educativa. Na quarta-feira, 22 de abril, em Abidjan, o diretor de gabinete do ministro da Educação Nacional, Alfabetização e Ensino Técnico (MENAET), Moustapha Sangaré, lançou oficialmente o projeto BRIDGE Côte d’Ivoire (2026–2030).
Financiada pela Coreia do Sul, esta iniciativa visa dois grupos prioritários: crianças fora da escola ou que abandonaram o sistema educativo e adultos analfabetos. Trata-se de um sinal forte, numa altura em que cerca de 13% das crianças do país continuam fora do sistema escolar, segundo estimativas da UNESCO.
De acordo com o comunicado oficial, o projeto assenta em dois eixos complementares. O primeiro prevê a criação de 150 “classes de transição” destinadas a crianças entre os 9 e os 14 anos excluídas do sistema educativo. O segundo envolve a implementação de 45 centros de alfabetização dirigidos a mulheres, jovens e adultos vulneráveis. O programa abrangerá as regiões das Lagunes, dos Lacs e das Savanes. A partir de 2026, a implementação começará nas direções regionais da educação (DRENA) de Abidjan 2 e 4, com 20 classes de transição e 10 centros de alfabetização.
“O projeto BRIDGE permitirá criar centros de alfabetização para adultos, mulheres, raparigas e jovens homens, tanto em meio urbano como rural, que não tiveram oportunidade de frequentar a escola”, afirmou Aboudou Soro N’golo. A Côte d’Ivoire torna-se assim o primeiro país da África Ocidental a beneficiar deste programa, juntando-se ao Burundi e aos Camarões entre os participantes francófonos.
O desafio vai muito além da sala de aula. “Esta parceria insere-se numa ambição comum de reforçar a alfabetização e a educação não formal em benefício das populações mais vulneráveis, contribuindo também para o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável n.º 4, relativo a uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade para todos”, sublinhou Moustapha Sangaré.
O contexto torna esta iniciativa ainda mais urgente. Segundo um inquérito sobre alfabetização realizado em 2025, onze regiões do país apresentam taxas de analfabetismo superiores a 50%, incluindo o Folon (71%) e o Bounkani (68%). Um estudo publicado em 2024 na revista Mu Kara Sani revela ainda que o MENAET dedica menos de 1% do seu orçamento à educação não formal, evidenciando um subfinanciamento estrutural com consequências significativas.
Apesar disso, as classes de transição já demonstraram resultados positivos. Em 2022–2023, 166 dispositivos semelhantes permitiram acompanhar 4 932 crianças, incluindo 2 661 raparigas, segundo dados governamentais. No entanto, a UNESCO alerta que a Côte d’Ivoire está entre os países onde milhões de crianças adicionais correm o risco de abandonar a escola nos próximos anos, devido à redução dos apoios públicos internacionais.
Félicien Houindo Lokossou