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A transformação digital está a acelerar em África. Os países estão a dar especial atenção ao reforço do capital humano para apoiar a modernização da administração e enfrentar o desafio do desemprego.

O Níger pretende fortalecer a sua cooperação bilateral com a Argélia em vários domínios do digital, nomeadamente no desenvolvimento de competências. Esta aproximação visa consolidar as capacidades locais e apoiar a transformação digital do país da África Ocidental.

Esta ambição foi abordada durante um encontro realizado esta semana entre Sid Ali Zerrouki (foto, à esquerda) e o seu homólogo nigerino Adji Ali Salatou (foto, à direita), à margem da segunda sessão da Grande Comissão Mista Argélia-Níger de Cooperação, realizada em Niamey, com uma delegação argelina liderada pelo Primeiro-Ministro, Sifi Ghrieb. As duas partes planeiam, nomeadamente, colaborar na criação e desenvolvimento de centros de competências digitais (Skill Centers). Foram também discutidos programas de formação de formadores na área das TIC, visando promover a transferência de know-how e reforçar as capacidades locais.

Do lado nigerino, esta aproximação integra a estratégia de transformação digital adotada pelas autoridades, que visa acelerar o desenvolvimento das TIC e utilizá-las para o desenvolvimento socioeconómico. O desenvolvimento das competências digitais e da inovação constitui, aliás, um dos três eixos da Política Nacional de Desenvolvimento do Digital 2026–2035, atualmente em elaboração.

Embora o Níger já não seja membro da CEDEAO, a organização indica no seu site que o país implementa vários programas de formação em TIC para reforçar as competências digitais. No entanto, o acesso a formação de qualidade continua a ser um grande desafio, sobretudo fora das principais áreas urbanas. Estas iniciativas são frequentemente apoiadas por parceiros internacionais e ONGs.

Por seu lado, a Argélia também fez do desenvolvimento do capital humano um pilar da sua estratégia de transformação digital. O governo prevê formar 500.000 especialistas em TIC, ao mesmo tempo que pretende reduzir em 40% a fuga de talentos. Foram implementados Skill Centers para formar jovens em competências-chave como inteligência artificial, cibersegurança, cloud computing e Internet das Coisas, preparando-os para os empregos do futuro e facilitando a sua integração na economia digital, tanto a nível nacional como internacional.

Se concretizada, esta cooperação pode ser uma lufada de esperança para o emprego jovem, enquanto o Banco Mundial estima, por exemplo, que 230 milhões de empregos em África subsaariana irão requerer competências digitais até 2030.

No Níger, a questão do emprego jovem continua a ser preocupante e as autoridades fizeram dela uma prioridade. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INS), 25,5% dos nigerinos ativos entre os 15 e os 35 anos estão desempregados, ou seja, sem trabalho mas disponíveis para trabalhar (segundo trimestre de 2025). A taxa de emprego nesta faixa etária é de 34,5%, com empregos predominantemente informais e vulneráveis. Assim, 55,4% destes jovens estão desempregados, subempregados ou em empregos precários. Além disso, 37,4% dos jovens não estão nem em emprego nem em educação.

Isaac K. Kassouwi

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Face a uma persistente inadequação entre a formação e as necessidades das empresas, os países africanos estão a reforçar os seus laços com o setor privado de forma a melhorar a inserção profissional dos jovens e apoiar a transformação das suas economias.

A Guiné está a iniciar um recentramento da sua política de emprego para aproximar a formação do mundo produtivo. Durante um conselho de ministros realizado na segunda-feira, 23 de março, o ministro da Educação Nacional, Alpha Bacar Barry, apelou a uma «parceria reforçada com o setor privado para a empregabilidade».

Esta estratégia visa colocar a ação pública sob o signo da rigorosidade e da cultura de resultados, segundo o ministério. As autoridades procuram envolver mais as empresas na conceção e no acompanhamento das formações, de modo que as competências adquiridas correspondam às necessidades reais dos empregadores.

O ministério incentiva os diferentes serviços a melhorar a sua eficiência e a valorizar as suas inovações, promovendo o desenvolvimento de formações em regime de alternância, a co-construção dos programas com os empregadores e a valorização das competências técnicas.

Mais do que um simples ajustamento, esta reforma pretende corrigir um desequilíbrio estrutural entre a oferta de formação e a procura do mercado. Insere-se na ambição de construir um sistema educativo eficiente, útil e orientado para o futuro, capaz de formar perfis imediatamente operacionais.

Esta iniciativa surge num contexto em que a taxa de desemprego jovem na Guiné, para indivíduos entre os 15 e os 24 anos, se situava em cerca de 7,08 % em 2024, segundo o Banco Mundial. Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego total era estimada em 5,23 %. Estes números ilustram os desafios enfrentados pelos jovens que entram no mercado de trabalho e sublinham a importância de criar oportunidades em setores capazes de absorver esta força de trabalho.

De acordo com a instituição de Bretton Woods, o crédito concedido ao setor privado representava cerca de 9 % do PIB guineense, refletindo o acesso das empresas ao financiamento e a sua capacidade de investir e criar empregos. Salienta-se também que cerca de 38 % do emprego total no país pertencia ao setor dos serviços em 2025, segmento amplamente dominado por empresas privadas ativas no comércio, transportes, telecomunicações e serviços financeiros.

Félicien Houindo Lokossou

 

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Os sistemas digitais africanos continuam vulneráveis às ameaças cibernéticas, devido à falta de competências locais, num contexto de adoção acelerada de tecnologias digitais por administrações e empresas.

A África está a estruturar a sua resposta face à crescente ameaça cibernética e à escassez crítica de mão-de-obra qualificada. Nesse âmbito, a International Cybersecurity Community for Africa (ICCA), uma plataforma panafricana de cibersegurança, foi lançada na sexta-feira, 20 de março, em Kigali, no Ruanda. Este novo organismo visa reunir os especialistas do continente e reforçar as capacidades operacionais regionais.

O dispositivo posiciona-se como um quadro de cooperação dedicado à partilha de informações sobre riscos digitais, à aprendizagem e ao aperfeiçoamento de talentos. A sua implementação ocorre num momento em que os ataques informáticos se intensificam. Segundo os indicadores apresentados na inauguração, as organizações africanas sofrem, em média, cerca de 1 848 ataques semanais.

Para responder a esta pressão, a ICCA ambiciona formar um milhão de especialistas até 2030, um desafio considerável, dado que o continente conta atualmente com apenas 300 000 profissionais, enquanto a procura continua a crescer.

Para apoiar este objetivo, foram apresentados dois instrumentos tecnológicos. O primeiro, Umurinzi Cyber Threat Intelligence, permite identificar credenciais comprometidas na dark web e alertar as entidades visadas. O segundo é um sistema de formação prática do tipo Capture the Flag (CTF), que oferece simulações de ataques para reforçar a experiência técnica, a custos controlados e num ambiente adaptado às realidades locais.

Apoiada pelas autoridades ruandesas e por parceiros internacionais, esta iniciativa integra-se numa estratégia global de valorização do capital humano e de proteção das infraestruturas críticas. Através deste projeto, os promotores pretendem fomentar a emergência de um ecossistema digital integrado, capaz de enfrentar os desafios da transição digital.

No seu plano de ação, a ICCA prevê expandir as suas atividades para cerca de quinze países até 2027 e implementar programas de certificação. A longo prazo, a instituição pretende lançar um índice africano de resiliência cibernética, de modo a medir o grau de preparação dos Estados face à cibercriminalidade.

Samira Njoya

 

 

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Perante um mercado de trabalho que tem dificuldades em absorver a sua juventude e regiões rurais há muito afastadas dos circuitos universitários, o governo ganês está a implementar uma reforma estrutural do ensino superior, apostando decididamente na descentralização.

No Gana, o Parlamento acaba de aprovar o projeto de lei que cria a Universidade de Ciências de Engenharia e Agronomia. Uma decisão que reflete uma clara vontade política de reorientar a formação superior para os setores estratégicos do país, longe das grandes cidades.

Segundo informações divulgadas na sexta-feira, 20 de março, pela imprensa local, o texto foi apresentado em segunda leitura pelo Ministro da Educação, Haruna Iddrisu (foto, à esquerda). Para ele, esta legislação vai além da simples criação de uma instituição: estabelece um quadro de governança, garante a liberdade académica, reforça a transparência financeira e promove a inclusão no sistema universitário ganês.

Três campi rurais, uma escolha deliberada

A Ghana Broadcasting Corporation (GBC) relata que a lei define Bunsu como campus principal, com locais complementares em Kenyasi e Acherensua — três localidades rurais, longe das metrópoles.

Este modelo multi-campus não é fruto do acaso. Segundo a Comissão Parlamentar de Educação, ele reflete uma política assumida de descentralização do ensino superior, pensada para:

  • Ampliar o acesso a zonas historicamente negligenciadas
  • Estimular o desenvolvimento económico local
  • Reduzir a pressão sobre habitação e serviços sociais nas grandes cidades

Um desequilíbrio bem documentado

Esta escolha visa responder a um desequilíbrio evidente. Acra, Kumasi e Takoradi concentram a maioria das universidades do país, públicas e privadas, deixando as zonas rurais praticamente à margem. Com uma taxa bruta de matrícula no ensino superior de apenas 22,1% em 2023, segundo o Banco Mundial, o Gana ainda está longe dos padrões regionais.

Um mercado de trabalho sobrecarregado

O desemprego juvenil é o cerne do problema. Segundo o Quarterly Labour Force Survey publicado pelo Ghana Statistical Service (GSS) em dezembro de 2025, a taxa de desemprego entre os jovens de 15-24 anos era, em média, 32,5%, chegando a 49,3% na região do Grande Acra no terceiro trimestre. Cerca de 21,5% dos jovens nesta faixa etária não estavam nem empregados, nem em formação, nem a estudar.

Estes números revelam sobretudo um fosso crescente entre a formação disponível e as necessidades reais da economia. O mesmo relatório do GSS indica que mais de 10% dos ativos empregados consideravam as suas qualificações superiores às exigências do seu posto, enquanto 15,7% se sentiam subqualificados — uma proporção particularmente preocupante nas zonas rurais.

Agricultura e desafios estruturais

A agricultura concentra todos estes desafios. Segundo o Banco Mundial, 35,37% dos ativos ganeses trabalhavam neste setor em 2023, mas este continua dominado por práticas tradicionais, devido à falta de técnicos e agrónomos formados para o modernizar. É precisamente este desafio estrutural que a nova universidade pretende enfrentar.

Félicien Houindo Lokossou

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Enquanto muitos países ainda enfrentam dificuldades para destinar à investigação os recursos recomendados pela União Africana, e a valorização dos resultados científicos continua a ser um grande desafio, Abidjan e Ouagadougou dão um passo decisivo ao apostar na formação dos seus investigadores.

A Costa do Marfim e o Burkina Faso pretendem unir esforços para desenvolver a investigação e a inovação científica. Uma ambição que já começa a concretizar-se. Nos dias 17 e 18 de março, o Fundo para a Ciência, Tecnologia e Inovação (FONSTI) da Costa do Marfim organizou um workshop de reforço de capacidades dos investigadores, em parceria com o Fundo Nacional para a Investigação e a Inovação para o Desenvolvimento (FONRID) do Burkina Faso, com o apoio do secretariado-geral do Conselho de Inovação.

Segundo o Ministério do Ensino Superior e da Investigação Científica da Costa do Marfim (MESRS), o encontro reuniu os beneficiários dos projetos conjuntos FONSTI–FONRID em torno de questões relacionadas com a gestão, o acompanhamento e a promoção.

O primeiro dia foi dedicado à apresentação de cinco projetos financiados no âmbito do programa FONSTI-FONRID, bem como à integração das questões de género e inclusão. O segundo, mais técnico, centrou-se no acompanhamento e avaliação e na propriedade intelectual. Uma sessão conduzida pelo Gabinete Ivoirense da Propriedade Intelectual (OIPI) destacou, em particular, os mecanismos de proteção e valorização das inovações. Na abertura, Barima Yao Sabas, representante do secretário-geral do FONSTI, apresentou o workshop como «uma alavanca para melhorar o desempenho e a valorização dos projetos financiados».

Conjugar esforços para melhor inovar

O alcance da parceria vai além do quadro bilateral. O apoio do Reino Unido, do Canadá, da Alemanha e da África do Sul insere o programa FONSTI–FONRID numa dinâmica internacional. Para o diretor-geral do FONRID, Bationo Babou, o objetivo é partilhar recursos para abordar problemáticas comuns e alcançar um impacto mais significativo.

Esta dinâmica ganha particular relevância face aos desafios enfrentados pelos dois países. Na Costa do Marfim, o governo identifica dois obstáculos principais. Durante a 13.ª edição da CGECI Academy, em setembro de 2025, o ministro do Ensino Superior, Adama Diawara, referiu o subfinanciamento e a fraca exploração económica dos resultados científicos. Um cenário preocupante, sobretudo porque, segundo o relatório nacional de 2024 do Banco Africano de Desenvolvimento, a Costa do Marfim dedica apenas 0,1 % do seu PIB à investigação e desenvolvimento, muito abaixo do objetivo continental de 1 %.

No Burkina Faso, o FONRID indica ter transferido, em 2024, um total de 1,13 mil milhões de francos CFA (1,9 milhões de dólares) para estruturas responsáveis por projetos, dos quais 80 % provenientes de subvenções do Estado. Recursos ainda limitados, que tornam necessário recorrer a parcerias externas.

Em ambos os países, os investigadores precisam de reforçar as suas competências em matéria de inovação, colaboração e financiamento autónomo, sublinha o Instituto de Investigação para o Desenvolvimento (IRD) de França. É precisamente esta necessidade que o workshop FONSTI–FONRID procura responder, dotando os cientistas de ferramentas concretas para melhor gerir, proteger e valorizar os seus trabalhos.

Félicien Houindo Lokossou

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Enquanto o ensino secundário público da Costa do Marfim enfrenta uma escassez de professores de matemática e de físico-química, e as áreas científicas têm dificuldade em atrair os finalistas do ensino secundário, Abidjan dá um passo decisivo face a uma urgência educativa que fragiliza milhares de alunos.

No domingo, 22 de março, realizou-se a fase escrita do concurso extraordinário para o recrutamento de 2000 professores contratados para colégios e liceus do ensino secundário geral na Costa do Marfim. Este evento, organizado no Lycée Classique de Abidjan, marca o início de uma resposta concreta à falta de professores de ciências que há vários anos fragiliza o sistema educativo ivoirense.

Dos 43 761 candidatos inscritos, apenas 7668 foram pré-selecionados para concorrer às vagas disponíveis. As provas, oficialmente lançadas pelo ministro da Educação Nacional, da Alfabetização e do Ensino Técnico, Koffi N’Guessan, incidem sobre francês, matemática e física.

No início da cerimónia, o ministro fez questão de saudar a decisão política que tornou possível a operação. «Gostaria de expressar toda a minha gratidão a Sua Excelência o Presidente da República, Alassane Ouattara. O Governo autorizou esta operação», declarou, acrescentando que este recrutamento permitirá «resolver um problema sério».

A escassez não é recente. No terreno, os seus efeitos fazem-se sentir cada vez mais. No liceu moderno de Bocanda, por exemplo, o diretor Doulaye Silué alertava já em setembro de 2025 que 68 turmas corriam o risco de perder 178 horas semanais de aulas devido à falta de professores de ciências. O diretor do colégio moderno de Téhini, Yao Dodo Alexis, lamentava no mesmo período que, dos 23 professores esperados, apenas 15 tinham assumido funções, deixando turmas do 9.º ano sem professor de físico-química e turmas do último ano sem professor de matemática.

Estes casos ilustram um défice que o governo estima em 1453 vagas de professores de matemática apenas para colégios e liceus públicos no ano letivo 2025-2026. A situação ultrapassa as fronteiras da Costa do Marfim. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) estima que 90 % dos países da África subsaariana enfrentam graves escassezes de professores no ensino secundário e que seriam necessários mais 11,1 milhões de docentes na região para atingir os objetivos da Agenda 2030.

Félicien Houindo Lokossou

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Apesar do número crescente de doutorandos formados em África, as suas competências continuam amplamente subutilizadas pelas sociedades e economias locais. Embora milhões de especialistas altamente qualificados sejam formados, as estruturas profissionais, a investigação e a indústria não valorizam esses talentos à escala necessária.

Todos os anos, milhares de africanos dedicam vários anos a investigações aprofundadas para obter um Doutoramento (PhD). Estes percursos exigem a redação de uma tese original, a publicação de artigos científicos e, por vezes, a orientação de estudantes em formação.

Entre 2000 e 2018, mais de 32 000 doutoramentos foram atribuídos na África do Sul, o que faz deste país um dos mais produtivos do continente em termos de formação avançada. No Quénia, cerca de 12 000 doutoramentos foram obtidos até 2019, demonstrando também o progresso dos programas de formação doutoral.

Na África Ocidental, a formação doutoral mudou de escala ao longo da última década, impulsionada pela massificação do ensino superior e pela progressiva estruturação da investigação. No Gana, o número de doutorandos aumentou significativamente, ultrapassando os 4000 estudantes inscritos, enquanto países como o Senegal, a Costa do Marfim ou o Benim formam atualmente centenas de doutores todos os anos, face a volumes marginais no início dos anos 2000.

Na Nigéria, principal potência demográfica do continente, o sistema universitário forma agora vários milhares de doutorados todos os anos, graças a uma rede de mais de 309 universidades, segundo dados oficiais recentes.

À escala regional e continental, os Centros de Excelência Africanos (ACE), apoiados pelo Banco Mundial, formaram mais de 7650 doutorandos entre 2014 e 2025 em setores estratégicos como a agricultura, a saúde, a engenharia e o digital, reforçando assim a capacidade científica e técnica da África subsaariana.

Saídas profissionais limitadas

No entanto, este aumento quantitativo não é acompanhado por uma transformação equivalente das economias, levantando a questão central da absorção destes perfis altamente qualificados. Segundo um estudo publicado em setembro de 2024 pelo Institute of Employability, África representa apenas 2 % da produção científica global. As universidades dispõem de poucos postos permanentes e o financiamento público permanece insuficiente, obrigando muitos doutorandos a depender de financiadores internacionais ou a limitar a dimensão dos seus projetos.

À questão de saber se a qualidade da formação está em causa, um jovem beninense titular de PhD entrevistado pela Agência Ecofin responde: «Não, de todo, pois uma grande parte dos doutores formados aqui segue carreiras brilhantes no estrangeiro.» Para ele, o problema reside sobretudo na falta de oportunidades locais capazes de valorizar competências avançadas. Os mercados de trabalho continuam pouco estruturados e o setor privado participa ainda de forma limitada na investigação científica e tecnológica.

Os dados dos World Bank Enterprise Surveys revelam que apenas 11 % das empresas na África subsaariana investem em investigação e desenvolvimento internos. A maioria concentra-se na adoção de tecnologias existentes, em vez da produção de novos conhecimentos, limitando a procura por doutorados. Esta situação reflete uma economia onde a inovação depende amplamente da importação de soluções, em vez da investigação local.

O fraco envolvimento do setor privado soma-se a um financiamento público limitado. A UNESCO indica que a maioria dos países africanos destina menos de 1 % do seu PIB à investigação e desenvolvimento, um nível muito abaixo da média mundial e distante do das economias industrializadas.

Esta combinação de fatores restringe as oportunidades locais, levando muitos doutorados a procurar carreiras internacionais onde as suas competências são plenamente valorizadas. O Fórum Económico Mundial destaca que esta fuga de talentos priva o continente de conhecimentos essenciais para a inovação e para a resolução de desafios locais.

Quando os investigadores não dispõem de oportunidades para aplicar os seus conhecimentos, o impacto socioeconómico da investigação permanece limitado. Em setores como a saúde pública, a agricultura sustentável, a energia ou as políticas públicas, soluções adaptadas às realidades africanas poderiam emergir de uma investigação local mais bem apoiada.

O contraste com as economias ocidentais

Nas grandes economias ocidentais, possuir um PhD permite frequentemente aceder a um emprego estável e bem remunerado no ensino superior, na investigação ou na indústria. Nos Estados Unidos, estudos da National Science Foundation mostram que cerca de 86,6 % dos doutorados em ciências, engenharia e saúde estão ativos no mercado de trabalho, e mais de metade ocupa um cargo diretamente ligado à sua especialização, refletindo uma elevada integração profissional.

Na Europa, a situação é semelhante. O relatório “Education at a Glance 2022” da OCDE indica que adultos entre os 25 e os 64 anos com doutoramento apresentam uma taxa de emprego média de cerca de 93 %.

Em África, a inserção dos doutorados continua mais difícil. Um estudo recente na África do Sul revela que 18 % dos doutorados inquiridos ocupam empregos que não estão diretamente relacionados com a sua área científica, mesmo após conseguirem colocação. Esta comparação evidencia um contraste claro entre as economias ocidentais e africanas, onde uma parte significativa dos doutorados não encontra empregos que valorizem a sua especialização.

Transformar o paradoxo em oportunidade

Para que o doutoramento contribua efetivamente para o desenvolvimento em África, podem ser consideradas várias medidas concretas. A União Africana, através da sua estratégia decenal STISA 2024-2034, recomenda uma melhor integração da investigação científica e da inovação nas prioridades de desenvolvimento do continente, promovendo colaborações entre universidades, centros de investigação e setor industrial.

O Banco Africano de Desenvolvimento apoia o reforço de parcerias estruturadas entre universidades, centros tecnológicos e empresas, de modo a estimular a inovação aplicada, a adaptação de tecnologias às realidades locais e a criação de oportunidades para os diplomados. Durante a Tokyo International Conference on African Development (TICAD 9), a vice-presidente da instituição, Nnenna Nwabufo, recordou que as universidades são essenciais para o desenvolvimento de África e devem tornar-se centros de inovação capazes de atrair financiamento e investimento.

Por sua vez, a UNESCO sublinha a importância da qualidade dos sistemas de ensino superior e da formação doutoral. Numa análise publicada em dezembro de 2024, a organização considera que o ensino superior em África deve apoiar o dinamismo dos jovens e ajudá-los a enfrentar os desafios do desenvolvimento, reforçando assim o impacto da investigação local.

Se nada for feito, esta situação poderá agravar o fenómeno da fuga de cérebros. Segundo o African Population and Health Research Center, mais de 10 % dos africanos com diplomas de pós-graduação emigram todos os anos para países de rendimento elevado, atraídos por melhores condições de trabalho, financiamento de investigação mais atrativo e oportunidades profissionais mais estruturadas.

De acordo com um relatório da iniciativa HAQAA (Harmonização, Acreditação e Garantia de Qualidade no Ensino Superior Africano) de 2023, cerca de 40 000 doutorados africanos vivem fora do continente. A mesma fonte sublinha que esta situação priva os países africanos de competências essenciais para reforçar universidades, centros de investigação e indústrias, fragilizando a sua capacidade de produzir inovações adaptadas aos desafios locais.

Félicien Houindo Lokossou

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À medida que a inteligência artificial transforma o mercado de trabalho global, a África, onde 70 % da população tem menos de 30 anos, continua a enfrentar dificuldades para colmatar a lacuna em competências digitais. Uma iniciativa privada procura inverter esta tendência.

A DeAfrica, uma organização pan-africana de educação online, está atualmente a formar 1068 jovens de 45 países africanos nas competências-chave de inteligência artificial. Segundo informações divulgadas na terça-feira, 17 de março, pelo média Pan African Visions, a iniciativa visa capacitar os participantes para se manterem relevantes numa economia de IA que evolui a um ritmo acelerado.

Intitulado “Your Journey in the AI Economy, Skills for Work, Learning, and Life”, este programa de 7 semanas começou a 24 de fevereiro de 2026 e prolonga-se até 7 de abril.

Não é a primeira incursão da DeAfrica na formação em IA em África. Em dezembro de 2025, a organização reuniu mais de 1300 participantes de 43 países em torno do curso “ChatGPT: Your New Thinking Partner”.

O programa em curso vai mais longe, direcionando-se diretamente à capacidade dos indivíduos de se adaptarem e de se reconverterem numa economia moldada por sistemas inteligentes. Para ultrapassar os obstáculos técnicos específicos do continente, a DeAfrica aposta numa pedagogia flexível, conteúdos claros e numa conceção acessível a todos.

Colmatar um défice estrutural em competências digitais

Por detrás deste programa, encontra-se um desafio de competitividade a longo prazo. Fundada pelo maliano Sidiki Traoré, a DeAfrica apresenta-se como uma plataforma educativa destinada a ampliar o acesso a formações de qualidade, flexíveis e acessíveis, para promover um impacto duradouro na economia africana. O seu programa em inteligência artificial insere-se numa oferta mais ampla, abrangendo empreendedorismo, inovação, línguas, informática e cibersegurança.

Esta iniciativa surge num momento em que a corrida às competências em IA se acelera no continente. Num comunicado publicado em setembro de 2025, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) anunciou a formação de mais de 15 000 funcionários africanos sobre os desafios da IA. Segundo estimativas da União Africana, o desenvolvimento da IA poderia impulsionar a economia do continente entre 110 a 220 mil milhões de dólares por ano, estimulando a inovação e gerando novos empregos, num contexto em que 70 % da população africana tem menos de 30 anos.

Félicien Houindo Lokossou

 

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Face ao desemprego juvenil e ao peso do setor informal, o artesanato surge como uma alavanca estratégica para a criação de empregos na África Subsaariana. Vários Estados procuram agora formalizar este setor para transformá-lo num vetor de desenvolvimento sustentável.

A República Centro-Africana pretende criar uma câmara de ofícios artesanais, inspirando-se no modelo burquinense. Esta iniciativa visa melhorar a formação dos jovens e apoiar a criação de atividades geradoras de rendimento no país.

O projeto foi discutido entre Hyppolite Jean‑Paul Ngate‑Robard, ministro centro-africano das Pequenas e Médias Empresas, e o Primeiro-Ministro do Burkina Faso, Rimtalba Jean Emmanuel Ouédraogo (foto, ao centro), na segunda-feira, 16 de março, em Ouagadougou.

Na prática, a abordagem adotada por Bangui baseia-se numa transferência de experiência. «Saímos satisfeitos desta audiência», indicou o responsável centro-africano. Por sua vez, o governo burquinense assegurou a sua disponibilidade para acompanhar esta dinâmica, partilhando a sua experiência na estruturação do setor.

Esta decisão não é fruto do acaso. Segundo o ministro Ngate‑Robard, baseia-se em certos indicadores não especificados no comunicado. Estes permitiram-lhe constatar que o Burkina Faso obteve resultados mensuráveis na criação de empregos e empresas, bem como na redução da taxa de desemprego.

O modelo burquinense, construído ao longo de quase duas décadas

Esta escolha explica-se facilmente à luz do que o Burkina Faso construiu. O setor artesanal é hoje o segundo maior fornecedor de empregos no país, com uma contribuição de 30 % para o PIB. Emprega cerca de 2 milhões de pessoas e abrange aproximadamente 230 ofícios, desde o têxtil à construção, passando pela transformação agroalimentar, de acordo com dados da Câmara dos Ofícios Artesanais do Burkina Faso (CMA-BF).

Este resultado é fruto de um trabalho de longa duração. Criada por decreto a 18 de maio de 2007 e emendada em 2009, a CMA-BF só começou a operar efetivamente em 2011. Desde cedo, a instituição empenhou-se em registar todos os artesãos do país, manter um cadastro de ofícios e organizar a formação profissional do setor. Este trabalho, considerado na altura um verdadeiro obstáculo, resultou na emissão do Cartão Profissional de Artesão (CPA) e, segundo fontes oficiais, na identificação de 89 % dos artesãos em 2020. Em setembro de 2021, foi assinado um acordo-quadro de três anos entre o governo e a CMA-BF para facilitar o acesso dos artesãos a encomendas públicas.

Apesar destes avanços, persistem desafios. Em 2024, a presidente da CMA-BF, Germaine Compaoré, reconhecia que o cadastro ainda não refletia a realidade do terreno, estimada em cerca de 3 milhões de artesãos, contra os 2 milhões oficialmente registados. Também apontava a insuficiência de recursos financeiros permanentes como um obstáculo persistente às atividades da câmara.

Na República Centro-Africana, o setor informal pesa sobre o mercado de trabalho

A situação na República Centro-Africana ilustra de forma evidente as limitações de um mercado de trabalho sem enquadramento. Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento, o PIB real da RCA registou uma média de 1,5 % no período 2016–2024, bem abaixo das médias da zona CEMAC (3,7 %) e da África Subsaariana (3,6 %). Este atraso reflete-se também ao nível individual, com o PIB per capita a recuar 0,2 % em 2024, indicando que uma taxa de crescimento demográfico de 3,5 % continua a superar a expansão económica.

Neste contexto, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (CNUCED) sublinha num relatório de setembro de 2025 que «apesar dos abundantes recursos naturais e das vantagens comparativas em vários produtos agrícolas e minerais, a estrutura económica da RCA continua pouco diversificada». O mesmo documento especifica que o artesanato se insere naturalmente nas cadeias a valorizar, mas continua a ser um dos setores menos regulados do país.

Esta constatação coincide com o relatório de avaliação do Projeto de Apoio à Inclusão Socioeconómica através do Empreendedorismo e da Mobilização da Diáspora (PAISEMD), publicado em julho de 2023 pelo BAD, que já documentava os obstáculos à emergência do setor privado centro-africano. A fraqueza do enquadramento regulatório, a insuficiência de instrumentos jurídicos e económicos e as dificuldades persistentes de acesso a financiamento figuravam entre os principais desafios identificados.

Os dados sobre emprego tornam ainda mais urgente a reorganização do setor artesanal. Segundo o Trading Economics, a taxa de desemprego na RCA estava estimada em 6,30 % em 2025, um valor estável face a 2024 que, longe de tranquilizar, evidencia as dificuldades de um mercado de trabalho marcado por forte informalidade e oportunidades formais limitadas. À escala da África Central, a Organização Internacional do Trabalho estimava em 2022 que cerca de 92 % dos empregos pertenciam ao setor não estruturado.

Félicien Houindo Lokossou

 

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Enquanto mais de dois milhões de crianças malianas permanecem fora do sistema escolar e o ensino superior enfrenta dificuldades de modernização, Bamako aposta numa parceria público-privada com a Orange Mali para acelerar a transformação digital das suas universidades.

Durante uma audiência concedida na sexta-feira, 13 de março, ao novo diretor-geral da Orange Mali, Sr. Leyti N’Diaye, o ministro do Ensino Superior e da Investigação Científica, Sr. Bouréma Kansaye, reafirmou a vontade do governo de aprofundar a colaboração com a operadora de telecomunicações. Segundo o comunicado oficial do governo maliano, quatro eixos estruturaram as discussões: conectividade das universidades, digitalização do ensino, desenvolvimento de bibliotecas digitais e criação de uma Universidade Digital. Este último projeto, considerado prioritário, visa “modernizar e ampliar o acesso ao ensino superior no Mali”.

O ministro destacou a importância estratégica da Orange Mali no desenvolvimento digital do país, elogiando a qualidade da parceria existente entre a operadora e o seu ministério. O diretor-geral apresentou a visita como uma iniciativa de contacto destinada a consolidar essa cooperação. Para além do protocolo, a ambição é mais ampla: a conectividade dos campi, os recursos documentais online e o ensino à distância deverão, em conjunto, reduzir a falta de acesso, a obsolescência pedagógica e a persistente desconexão entre formação e emprego.

Um investimento no futuro num contexto educativo sob pressão

Esta iniciativa surge num contexto marcado por profundas fragilidades. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), mais de dois milhões de crianças malianas entre 5 e 17 anos ainda não frequentam a escola, e mais de metade dos jovens entre 15 e 24 anos são analfabetos. A situação agravou-se com a insegurança: de acordo com dados da Célula de Planeamento e Estatística do setor da educação, 2.036 escolas estavam fechadas em junho de 2025, privando de escolarização cerca de 610.800 crianças.

No ensino universitário, a pressão é igualmente forte. Segundo o Boletim Estatístico da Direção-Geral do Ensino Superior e da Investigação Científica (DGESRS), o número de estudantes em instituições públicas passou de 88.379 em 2019-2020 para 147.855 em 2021-2022, uma progressão de quase 39 % em dois anos. Um crescimento rápido, mas ainda pouco inclusivo. A proporção de mulheres no ensino superior, embora em aumento, não ultrapassava 37,98 % em 2021-2022.

A taxa bruta de matrícula no ensino superior no Mali permanece entre as mais baixas do continente. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) estimava em 2019, últimos dados disponíveis, 3 % para mulheres e 6 % para homens. Para comparação, esta taxa atingia 9 % na África Subsaariana e 42 % a nível global em 2024. Este desnível evidencia o tamanho do desafio. Os Estados Gerais da Educação, realizados em janeiro de 2024, já concluíram sobre a necessidade de uma transformação profunda do sistema, incluindo qualidade do ensino, integração tecnológica e formação docente.

A parceria com a Orange Mali, caso se concretize, poderá representar um primeiro passo nesta direção. Apesar do impulso ser real, os detalhes concretos, prazos e orçamentos ainda precisam ser definidos; será a formalização de um quadro operacional que determinará se este acordo de princípio se traduzirá em ações efetivas.

Félicien Houindo Lokossou

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