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Equipe Publication

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Namíbia bloque aquisição da TotalEnergies e Petrobras em licença offshore devido a incumprimento de aprovação regulatória

O anúncio da TotalEnergies e da Petrobras sobre a aquisição de participações numa nova licença offshore na Namíbia confrontou-se com a recusa das autoridades, que lembram que qualquer transação petrolífera deve seguir um processo de aprovação rigoroso, num contexto de reforma do quadro legal do setor.

A Namíbia suspendeu o reconhecimento da aquisição pela TotalEnergies de uma participação na licença de exploração offshore PEL104, por falta de submissão formal do dossiê e validação prévia pelas autoridades competentes.

TotalEnergies e Petrobras anunciaram ter adquirido cada uma 42,5% da licença PEL104, localizada no bloco de Lüderitz, na costa sudoeste do país, junto à Maravilla Oil and Gas e à Eight Offshore Investments Holdings. O perímetro cobre cerca de 11.000 km² e a TotalEnergies deveria tornar-se operadora. A finalização da transação estava condicionada às aprovações regulatórias e ao acordo dos parceiros. Após a operação, o consórcio seria composto por TotalEnergies (42,5%), Petrobras (42,5%), a companhia nacional Namcor (10%) e Eight Offshore Investments Holdings (5%).

Primazia do processo de aprovação

As autoridades namibianas indicaram, num comunicado de domingo, 8 de fevereiro, que não tinham sido informadas da operação conforme as exigências legais. O Ministério da Indústria, Minas e Energia afirmou ter tomado conhecimento do anúncio apenas minutos antes da sua divulgação. A presidência enfatizou que nenhuma transação pode ser considerada válida sem submissão e análise oficial segundo o procedimento estatutário. O governo recordou que qualquer transferência ou aquisição de participação numa licença petrolífera requer autorização prévia do ministro competente.

Esta posição surge enquanto a Namíbia avança com uma reforma profunda do setor energético, visando a primeira produção comercial de petróleo e reforçando o seu sistema de regulação. O Ministro da Energia, Modestus Amutse, apresentou um projeto de lei que altera a legislação sobre exploração e produção petrolíferas, criando uma unidade de regulação upstream sob a autoridade da presidência. A reforma pretende modernizar o quadro jurídico, reforçar a transparência fiscal, ampliar regras sobre conflitos de interesse e impor novas obrigações de conteúdo local.

O bloqueio da operação PEL104 reflete a determinação das autoridades em garantir o cumprimento estrito da lei vigente. A continuação do projeto dependerá agora do respeito pelos procedimentos previstos na nova legislação, tornando-se um teste para a aplicação do futuro quadro regulatório do setor petrolífero namibiano.

Esta operação integra a estratégia mais ampla da TotalEnergies na Namíbia. Em dezembro de 2025, o grupo tornou-se operadora da licença offshore PEL83 no bloco do Orange, após acordo com o grupo português Galp, prevendo um reequilíbrio de participações em várias licenças marítimas. No final de janeiro, dirigentes da TotalEnergies e da Galp foram recebidos em Windhoek pela presidente Netumbo Nandi-Ndaitwah, apresentando o andamento dos projetos sem anunciar novos investimentos.

Segundo a consultora Wood Mackenzie, a produção do país poderá ultrapassar 500.000 barris por dia nos próximos dez anos graças às descobertas do bloco do Orange, exigindo cerca de 4 mil milhões de dólares de investimento anual no início da próxima década.

Olivier de Souza

 

O novo quadro de cooperação entre o FMI e o Zimbabué não implica o desembolso imediato de ajuda financeira. Pode, no entanto, abrir caminho a um acordo de financiamento ou a uma utilização repetida da ajuda de emergência do Fundo, numa fase posterior.

O Fundo Monetário Internacional anunciou, na sexta-feira, 6 de fevereiro, ter alcançado um acordo com o Zimbabué sobre um Programa Monitorizado pelos Serviços (Staff-Monitored Program – SMP), ao abrigo do qual o país deverá implementar reformas económicas sob a supervisão dos serviços da instituição, com o objetivo de consolidar os progressos recentes em matéria de estabilização económica.

Temos o prazer de anunciar que as autoridades zimbabueanas e a equipa do FMI chegaram a um acordo sobre as principais políticas económicas e reformas que poderão servir de base a um programa de referência”, declarou Wojciech Maliszewski, chefe da missão do FMI que conduziu as negociações com as autoridades em Harare entre 28 de janeiro e 6 de fevereiro, citado num comunicado.

Um programa de referência é um acordo informal entre um país membro e os serviços do FMI, através do qual o Fundo acompanha a implementação de um programa nacional de reformas económicas. Por se tratar de acordos informais, estes não requerem, em regra, a aprovação do Conselho de Administração da instituição e não implicam assistência financeira. Um programa de referência pode ser estabelecido quando um país membro ainda não está em condições de implementar um programa financiado pelo FMI, devido a limitações de capacidade institucional, instabilidade interna ou falta de garantias de financiamento.

Nestes contextos, os programas de referência podem ajudar um país a construir um histórico de execução de políticas económicas. Quando bem-sucedidos, podem lançar as bases para a celebração de um acordo financeiro ou para a retoma de um programa financeiro anteriormente interrompido. Em alguns casos, podem também abrir caminho a uma utilização repetida da ajuda de emergência do Fundo.

Abalado por uma grave crise económica desde o final da década de 1990, o Zimbabué já celebrou vários acordos de programas de referência com o FMI. O mais recente foi lançado em maio de 2019, mas acabou por ser abandonado depois de o país não ter respeitado as recomendações da instituição financeira. O novo programa proposto, cuja implementação deverá decorrer ao longo de dez meses, visa consolidar os progressos recentes na estabilização da economia, reforçar os quadros das políticas orçamental e monetária, melhorar o funcionamento do mercado cambial e avançar nas reformas de governação, de modo a apoiar um crescimento mais forte e inclusivo.

O programa coloca a tónica numa execução orçamental prudente, na melhoria dos controlos de tesouraria e das despesas, na manutenção da disciplina monetária e em reformas de governação destinadas a reforçar a transparência e a gerir os riscos orçamentais. Apoia igualmente os esforços das autoridades em matéria de proteção social”, sublinhou o FMI, acrescentando que as reformas previstas contribuirão para o reengajamento do Zimbabué junto da comunidade internacional, no que respeita à regularização dos atrasos e à reestruturação da dívida.

Progressos notáveis na gestão macroeconómica

Como referido, o Zimbabué atravessa uma grave crise económica desde a reforma agrária lançada no final dos anos 1990 pelo ex-presidente Robert Mugabe. Essa reforma, que levou à expulsão de cerca de 4 500 grandes proprietários brancos das suas terras em benefício de agricultores negros, provocou um colapso abrupto da produção agrícola e do comércio. Harare suspendeu então o reembolso de cerca de 13 mil milhões de dólares à Banco Mundial, ao Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), ao Banco Europeu de Investimento (BEI) e aos países membros do Clube de Paris.

A expropriação dos agricultores brancos também afastou o investimento estrangeiro e provocou uma queda drástica das exportações, levando Mugabe a recorrer massivamente à emissão de moeda, o que desencadeou um longo período de hiperinflação. Em 2009, o país acabou por abandonar a moeda nacional, o dólar zimbabueano, em favor do dólar norte-americano. Continuando privado do apoio dos doadores internacionais, o país da África Austral teve grandes dificuldades em obter novas linhas de crédito e em atrair os investimentos estrangeiros necessários à retoma económica.

Em fevereiro de 2025, o FMI condicionou o seu apoio financeiro a “uma reestruturação completa da dívida externa, incluindo a liquidação dos atrasos e um plano de reformas compatível”, indicando, no entanto, que continuaria a prestar aconselhamento em matéria de políticas e assistência técnica ao governo, nomeadamente nos domínios da mobilização de receitas, do controlo das despesas, da supervisão financeira e da governação económica.

No final de janeiro de 2026, o Ministério das Finanças do Zimbabué anunciou progressos na gestão macroeconómica, incluindo a descida da inflação para abaixo de 10% pela primeira vez desde 1997, bem como o aumento das reservas cambiais que sustentam a nova moeda lastreada em ouro, o Zimbabwe Gold (ZiG), para mais de 1,2 mil milhões de dólares. O ministério atribuiu estes resultados positivos “a uma disciplina orçamental rigorosa e a uma política monetária coordenada com o Banco Central do Zimbabué”.

O FMI destacou igualmente os progressos alcançados pelo país no seu comunicado que anuncia o acordo sobre o novo programa de referência. “O crescimento reforçou-se em 2025, superando as previsões iniciais de 6,6%, graças ao bom desempenho dos setores agrícola e mineiro (…). A inflação caiu para 4,1% em janeiro de 2026, apoiada pela estabilidade da taxa de câmbio e por condições monetárias restritivas. As receitas fiscais também se fortaleceram em 2025, impulsionadas por uma melhor administração fiscal e por novas medidas”, sublinhou a instituição.

O Fundo acrescentou que a continuação dos esforços ajudará a consolidar a estabilidade, a reforçar a confiança no ZiG, a melhorar o funcionamento do mercado cambial, a apoiar a reconstituição das reservas de divisas e a fortalecer os fundamentos políticos e institucionais de um crescimento sustentável e inclusivo.

Walid Kéfi

 

Segundo o FMI, todos os critérios de desempenho e referenciais estruturais definidos no âmbito dos programas da FEC para Cabo Verde foram alcançados.

Cabo Verde poderá receber 10,48 milhões de dólares do Fundo Monetário Internacional (FMI), no quadro dos programas de reformas em curso, indicou Bo Li, diretor-geral adjunto e presidente interino da instituição.

Num comunicado publicado no sábado, 7 de fevereiro de 2026, o Fundo anunciou que foi alcançado um acordo com as autoridades cabo-verdianas, na sequência de uma revisão dos programas apoiados pela Facilidade Alargada de Crédito (FEC) e pela Facilidade para a Resiliência e a Sustentabilidade (FRD). Os desembolsos previstos ascendem a 3,25 milhões de dólares no âmbito da FEC e a 7,23 milhões de dólares no âmbito da FRD.

Os resultados obtidos no quadro do programa da FEC foram considerados satisfatórios. “Todos os critérios de desempenho quantitativos (PC), os PC contínuos e os objetivos indicativos (OI) de final de junho de 2025 foram cumpridos, com exceção do referencial estrutural de setembro de 2025 relativo às despesas sociais.” No que diz respeito à FRD, as reformas estão a avançar. Duas das três medidas previstas no âmbito da revisão foram concluídas e uma reforma importante da governação foi adotada.

A economia continua a apresentar um bom desempenho, sustentada pelo dinamismo do turismo, por sólidos resultados das exportações e pelo crescimento do consumo privado. Apesar deste contexto favorável, persistem riscos associados a choques externos, a pressões orçamentais ligadas às empresas públicas e ao ciclo eleitoral.

O FMI instou as autoridades a prosseguirem políticas macroeconómicas prudentes. A implementação de reformas destinadas a estimular a produtividade, promover um crescimento inclusivo e reforçar a resiliência da economia constitui uma alavanca essencial para preservar a estabilidade e apoiar a trajetória de desenvolvimento do país.

As perspetivas económicas a médio prazo permanecem favoráveis, com um crescimento estimado em 5,2% em 2025, devendo convergir para o seu potencial, enquanto a inflação deverá manter-se contida em torno de 2%.

Ingrid Haffiny (estagiária)

 

Durante uma visita de Estado a Abu Dhabi, o presidente gabonês iniciou conversações com as autoridades e investidores dos Emirados Árabes Unidos com vista à celebração de parcerias estratégicas destinadas a apoiar os grandes projetos estruturantes do país. Este encontro ocorre num momento em que o Gabão enfrenta dificuldades para mobilizar financiamentos sólidos.

Por ocasião da visita do presidente gabonês Brice Clotaire Oligui Nguema a Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), o Gabão assinou três memorandos de entendimento nos setores mineiro, digital e logístico.

Estes acordos visam “acelerar a transformação económica do país, criar valor a nível local e reforçar a atratividade do Gabão no cenário internacional”, precisou a Presidência da República Gabonesa num comunicado publicado na sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026. O documento acrescenta que o acordo no setor mineiro incide sobre a exploração, o desenvolvimento e a comercialização da atividade aurífera nas zonas mineralizadas do Gabão.

No domínio do digital, o país renovou a sua parceria com a Presight, filial do grupo G42. O objetivo é apoiar a transformação digital da administração pública e dos serviços estratégicos do Estado, através de soluções de inteligência artificial, analítica avançada e big data.

O último memorando de entendimento tem como objetivo estabelecer uma cooperação estratégica para desenvolver e modernizar os portos, melhorar o seu desempenho e otimizar as cadeias logísticas.

Esta parceria entre Libreville e Abu Dhabi surge num contexto em que o país da África Central enfrenta dificuldades para mobilizar financiamentos sólidos, implementar mecanismos bancários eficazes e acelerar a execução dos projetos.

Com efeito, o Gabão continua fragilizado pela gestão das suas finanças públicas e da sua dívida. O país acumulou atrasos no pagamento, tanto junto de credores oficiais como privados. Esta situação deteriorou a confiança dos investidores e reduziu o acesso a novos financiamentos, em particular junto dos financiadores institucionais.

Lydie Mobio

 

Pilar do crescimento económico, a saúde continua a ser um desafio estratégico para uma África que aspira ao desenvolvimento. Num contexto geopolítico mundial incerto, garantir a prosperidade futura do continente exige investir na saúde dos cidadãos, motores essenciais da criação de riqueza.

A África necessita de mais 6,1 milhões de profissionais de saúde para alcançar a cobertura universal de saúde e responder às necessidades essenciais até 2030, segundo o Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC). No seu relatório « African Health Workforce Compact | Investment Case Analysis Report », publicado em 29 de janeiro de 2026, a instituição indica que o continente enfrenta atualmente uma realidade orçamental implacável: apenas o Ruanda, o Botsuana e Cabo Verde atingiram ou ultrapassaram o objetivo definido pela Declaração de Abuja de 2001, que recomendava a afetação de 15% do orçamento nacional à saúde.

O continente navega entre a escassez de pessoal, o subfinanciamento crónico e a fuga de competências, alimentando uma outra hemorragia: o turismo médico. Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), os africanos perderam 2 400 mil milhões de dólares americanos em cuidados de saúde procurados fora do continente, um montante que ilustra a dimensão do défice de confiança e de capacidade dos sistemas de saúde locais.

É precisamente sobre esta tensão entre urgência sanitária e restrições financeiras que o Africa CDC propõe mudar o enquadramento da análise. Em vez de tratar a saúde como uma despesa, a instituição apresenta-a como um argumento de investimento continental. Em termos simples, trata-se de quantificar não apenas o custo, mas sobretudo o retorno do reforço massivo dos efetivos de saúde. Em vez de 2030, o horizonte é alargado para 2063, em consonância com o quadro estratégico da União Africana (UA) « A África que Queremos », destinado à transformação socioeconómica do continente ao longo de 50 anos (2013–2063), com o objetivo de uma África integrada, próspera e pacífica.

O relatório identifica alvos concretos de investimento no sistema de saúde africano, expressos em densidade de pessoal por 10 000 habitantes. Uma forma de lembrar que a cobertura universal não é um slogan, mas uma capacidade operacional.

Tabela: Densidade modelizada de pessoal necessária para alcançar a cobertura universal de saúde

Categoria

Densidade por 10 000 pessoas para atingir 70% de cobertura

Densidade por 10 000 pessoas para atingir 100% de cobertura

Médicos

7,77

11,10

Médicos generalistas

4,33

6,19

Especialistas

3,44

4,91

Enfermeiros e parteiras

58,64

83,77

Farmacêuticos

14,72

21,03

Técnicos de laboratório

14,0

20,00

Agentes comunitários de saúde

25,34

36,20

Epidemiologistas de campo

0,05

0,07

Informáticos de saúde

0,05

0,07

Outros

13,88

19,83

Fonte: Africa CDC

À luz deste quadro, o estudo do Africa CDC mostra que a intensidade do esforço exigido em África é superior às médias globais, tendo em conta as necessidades, os perfis epidemiológicos e os atrasos acumulados. Mas quanto custa realmente formar, recrutar, mobilizar e manter estes efetivos, integrando a formação, as remunerações, as despesas recorrentes e os investimentos materiais?

A África face à dimensão das suas ambições

O Africa CDC modelizou três cenários de investimento à escala continental até 2063. O primeiro, de statu quo, prolonga as tendências atuais e exigiria um custo total acumulado de 5 000 mil milhões de dólares para a formação e mobilização de profissionais de saúde. O segundo cenário, considerado “moderado”, permitiria atingir 70% de cobertura universal de saúde, com despesas estimadas em 14 900 mil milhões de dólares. O terceiro cenário, “ambicioso”, projeta uma cobertura total de 100% até 2063, exigindo um investimento de 20 000 mil milhões de dólares.

O relatório entra depois num nível de detalhe que apresenta o custo da formação superior, categoria por categoria, até 2063, abstraindo-se da emigração para isolar o esforço de produção de competências. As ordens de grandeza variam significativamente consoante os cenários.

Tabela: Custo da formação superior (em USD)

Categoria

Statu quo

Moderado

Ambicioso

Médicos generalistas

1,6 mil milhões

41 mil milhões

64,4 mil milhões

Especialistas

467 milhões

39,8 mil milhões

59,9 mil milhões

Enfermeiros e parteiras

8,9 mil milhões

408,3 mil milhões

610,7 mil milhões

Técnicos de laboratório

1,4 mil milhões

121,6 mil milhões

178,3 mil milhões

Agentes comunitários de saúde

4,5 mil milhões

46,5 mil milhões

69,6 mil milhões

Epidemiologistas de campo

69 milhões

170 milhões

Informáticos de saúde

276 milhões

296 milhões

Engenheiros biomédicos

69 milhões

6,6 mil milhões

9,7 mil milhões

Fonte: Africa CDC

Por detrás destes montantes, uma escolha metodológica faz toda a diferença: o relatório não assume uma taxa de sucesso perfeita nos percursos de formação. Integra taxas de conclusão inferiores a 100%, variando entre 74,7% para médicos generalistas, 64,5% para cientistas e técnicos de laboratório e 82,6% para enfermeiros e parteiras. A consequência direta, frequentemente subestimada nos planos de formação, é que para obter um determinado número de diplomados é necessário aumentar as admissões, de modo a compensar desistências, reprovações e saídas precoces, sob pena de nunca se atingirem as densidades-alvo.

Reter talentos para impulsionar a economia

Formar mais só gera um ganho coletivo se os diplomados permanecerem, ou se os sistemas nacionais conseguirem reter uma massa crítica. O relatório identifica o êxodo dos profissionais de saúde como um dos principais problemas a conter em África. Na ausência de dados robustos, o modelo do Africa CDC assume uma taxa de emigração de 3% aplicada a todas as categorias e regiões, alertando, no entanto, que esta hipótese pode subestimar a realidade.

Com este parâmetro, a perda monetizada acumulada associada à emigração atingiria 1 400 mil milhões de dólares em 2063 no cenário de statu quo, contra 432 mil milhões no cenário ambicioso — um resultado paradoxal explicado pelo facto de efetivos mais elevados “amortecerem” melhor a perda relativa. O relatório cita, contudo, dados de referência que evidenciam a volatilidade do fenómeno: taxas médias anuais de emigração estimadas em 2022 em 0,5% para médicos e 0,4% para enfermeiros, bem como inquéritos realizados entre 2021 e 2023 em que a intenção de migrar atingiria, em média, 42,2% em seis países — Essuatíni, Gana, Quénia, Moçambique, Zâmbia e Zimbabué. Entre comportamentos observados e intenções declaradas, a capacidade de projeção fica fragilizada, assim como a credibilidade das estratégias de longo prazo.

Aumentar o número de profissionais e retê-los não representa apenas um ganho em qualidade de saúde, mas também um importante vetor económico. O Africa CDC estima que, acumulados até 2063, os benefícios diretos monetizados atingiriam 45 200 mil milhões de dólares no statu quo, 266 400 mil milhões no cenário moderado e 410 000 mil milhões no cenário ambicioso. Estes benefícios baseiam-se na valorização das mortes e incapacidades evitáveis. Segundo o relatório, cada dólar investido poderia gerar 8,1 dólares de benefícios monetizados no cenário de statu quo, 16,9 no cenário moderado e 19,4 no cenário ambicioso, desde que os sistemas consigam efetivamente absorver os profissionais formados.

Um teste de soberania

No final, o relatório demonstra que a África ganha ao investir no seu setor da saúde. Contudo, lembra que sem políticas credíveis de retenção — salários, condições de trabalho, progressão na carreira e reconhecimento profissional — o esforço de formação corre o risco de se transformar num contributo involuntário para os sistemas de saúde dos países ricos. Sem dados fiáveis sobre migração, densidades e necessidades, o planeamento continuará aproximado. E sem financiamento interno robusto, a cobertura universal permanecerá uma ambição dependente dos ciclos de ajuda externa e das incertezas políticas.

Em vários países africanos, a contribuição pública para a saúde permanece inferior a 10% do orçamento total da saúde. O Africa CDC cita, nomeadamente, a República Centro-Africana (8,2%), o Chade (8,3%) e a República Democrática do Congo (9,4%). A sustentabilidade política e orçamental é indispensável e depende de escolhas nacionais, da mobilização de receitas internas e da capacidade de proteger as despesas sociais ao longo do tempo.

A equação africana da saúde não é, portanto, apenas um desafio de recursos humanos: é um teste de soberania orçamental, de governação e de capacidade de reter, no continente, aqueles que cuidam.

Muriel EDJO

 

A África do Sul é o principal parceiro comercial da China em África, com trocas bilaterais que atingiram 34 mil milhões de dólares em 2024.

O ministro sul-africano do Comércio, Parks Tau, e o seu homólogo chinês, Wang Wentao, assinaram um acordo de parceria económica à margem dos trabalhos da Comissão Mista sobre Comércio e Economia (JETC), realizados esta semana. Este quadro de cooperação visa conceder às exportações da nação arco-íris acesso isento de direitos aduaneiros ao mercado do gigante asiático, ao mesmo tempo que incentiva os fluxos de investimento chineses para a África do Sul.

As discussões centraram-se no reforço da parceria económica bilateral, na otimização das trocas comerciais e na promoção de exportações sul-africanas com maior valor acrescentado. Os debates abrangeram igualmente setores estratégicos como a industrialização, as infraestruturas, o comércio agrícola, as energias renováveis e a cooperação tecnológica.

Esta iniciativa surge num momento em que a África do Sul enfrenta um grande diferendo tarifário com os Estados Unidos, o seu segundo maior parceiro comercial, marcado pela aplicação de direitos aduaneiros de 30%. Neste contexto, as autoridades estão a intensificar a sua reorientação para os mercados asiáticos, com o objetivo de obter condições comerciais mais favoráveis para setores-chave como a mineração, a agricultura e a indústria de transformação.

Nos últimos anos, as trocas comerciais entre Pretória e Pequim registaram um crescimento contínuo, afirmando-se a capital chinesa como um importante mercado de destino para minerais, produtos agrícolas e bens manufaturados sul-africanos. Em paralelo, Pretória importa da China uma vasta gama de máquinas, equipamentos eletrónicos e bens de consumo.

Ingrid Haffiny (estagiária)

 

Essaouira é uma cidade costeira de Marrocos situada no oceano Atlântico, na região de Marrakech-Safi, a cerca de duas horas e meia de carro de Marrakech. Ela se destaca pelo clima ameno e muito ventilado, que influencia o ritmo da vida local e a experiência dos visitantes. Seu tamanho moderado e sua atmosfera marítima fazem dela um destino diferente das grandes cidades turísticas do país.

1 Essaouira

A medina de Essaouira, inscrita no Patrimônio Mundial da UNESCO, constitui o coração histórico da cidade. Ela é organizada segundo um traçado relativamente regular, ligado ao seu planejamento no século XVIII, quando Essaouira foi concebida como um porto estratégico. As muralhas, os bastiões e os canhões voltados para o mar formam uma paisagem urbana muito reconhecível, onde se misturam influências marroquinas e europeias.

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O porto continua sendo um espaço econômico central, com uma atividade diária de pesca e um comércio local dinâmico. Ele estrutura profissões ligadas à venda, à reparação das embarcações e à transformação dos produtos do mar. Para os visitantes, oferece uma leitura concreta da cidade, para além dos espaços patrimoniais e dos locais dedicados ao turismo.

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O artesanato ocupa um lugar importante, especialmente através do trabalho com a madeira de tuia, usada para fabricar objetos decorativos e móveis. A medina também abriga oficinas de joalheria, têxteis, couro e pintura. Essa atividade artesanal contribui para a economia local e para a identidade visual de Essaouira, embora a oferta varie entre produção tradicional, objetos contemporâneos e produtos destinados ao mercado turístico.

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A história de Essaouira é marcada por trocas comerciais e culturais, ligadas à sua posição marítima. A cidade acolheu diferentes comunidades, entre elas uma importante população judaica, por muito tempo ativa no comércio. Hoje, Essaouira conserva a reputação de cidade cultural, reforçada pela presença de eventos, galerias e pelo festival dedicado às músicas gnawa, que contribui para a visibilidade nacional e internacional da cidade.

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O litoral de Essaouira favorece passeios e atividades ligadas ao vento, como o windsurf e o kitesurf. A praia principal é ampla e de fácil acesso, mas o banho depende das condições climáticas e das correntes. A oferta turística baseia-se numa combinação de riads, hotéis e casas de hóspedes, atraindo tanto visitantes de passagem quanto pessoas em estadias mais longas, vindas pelo patrimônio, pelo mar e pela atmosfera urbana.

O Banco Mundial, envolvido em várias iniciativas de transformação digital no Burkina Faso, empreendeu um balanço sobre o andamento desses diferentes projetos.

Aminata Zerbo/Sabane, ministra burquinense responsável pelas TIC, recebeu na quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026, uma delegação do Banco Mundial liderada por Jana Kunicova, diretora setorial responsável pelo desenvolvimento digital na África Ocidental e Central.

As discussões abordaram o progresso do Projeto de Aceleração da Transformação Digital (PACTDIGITAL) e do WURI (West Africa Unique Identification for Regional Integration and Inclusion).

No meio do percurso, o Banco Mundial congratulou-se com os avanços alcançados. « A diretora setorial expressou sua satisfação com os progressos realizados, notadamente a cobertura em andamento de 750 zonas brancas, um sinal forte para a inclusão digital do país. Para manter essa dinâmica, foram identificadas soluções para acelerar o desdobramento do PACTDIGITAL até junho de 2026 », indicou o ministério.

Para 2026, o plano de ação mencionado foca em quatro alavancas: a expansão da rede, a construção de centros de hospedagem de dados, a criação de pontos de acesso aos serviços públicos digitais e o reforço da fibra óptica.

Através dessas prioridades, o Banco Mundial confirma seu papel como parceiro financeiro e técnico fundamental na estratégia digital do Burkina Faso, em um contexto onde as infraestruturas digitais são cada vez mais vistas como motores de modernização do Estado e de desenvolvimento econômico.

Adoni Conrad Quenum

A IHS Towers afirma possuir mais de 37.000 torres de telecomunicações na América Latina e na África. No continente, a empresa está presente na África do Sul, Zâmbia, Camarões, Nigéria e Costa do Marfim.

O grupo sul-africano MTN informou, na quinta-feira, 5 de fevereiro, estar em discussões avançadas para adquirir a empresa de torres IHS Towers, da qual já detém 25% do capital. Embora o desfecho da transação ainda seja incerto, a operação indica uma possível entrada mais profunda no mercado de torres de telecomunicações, alinhada à estratégia de diversificação do grupo com sede em Joanesburgo.

Em comunicado à Bolsa de Valores de Joanesburgo, a MTN destacou que o preço potencial da oferta poderia alinhar-se ao último valor de negociação da IHS na Bolsa de Nova York (NYSE) em 4 de fevereiro de 2026, de US$ 8,23. Com 333,4 milhões de ações em circulação, a capitalização de mercado da empresa atinge US$ 2,74 bilhões. O valor correspondente para os 75% das ações visadas poderia, portanto, chegar a cerca de US$ 2,06 bilhões.

Essa tentativa de aquisição ocorre num momento em que a MTN observa que as ações da IHS Towers na NYSE tiveram “um aumento significativo recentemente”. A empresa ressalta que, caso a transação não se concretize, continuará a “explorar opções para gerar valor sobre seu investimento na IHS”.

Diversificação das atividades

A iniciativa ocorre enquanto a MTN, como muitas operadoras africanas, está passando de operadora de telecomunicações a empresa tecnológica. A companhia busca atender à demanda por soluções, serviços e infraestruturas digitais na África, mesmo com a redução da receita em segmentos tradicionais, como voz.

Ralph Mupita, CEO da MTN, revelou recentemente à Semafor que o grupo procura startups fintech que possam ser adquiridas e integradas diretamente à sua plataforma, incluindo empresas nos setores de pagamentos, empréstimos e transferências de fundos, reforçando a crescente atividade fintech da MTN.

“Trata-se de fortalecer a plataforma. Se uma aquisição nos ajudar a crescer mais rápido, melhorar a experiência do cliente ou agregar novas capacidades ao grupo, é isso que nos interessa”, afirmou Mupita.

Essa exploração vem alguns meses depois de a MTN ter firmado uma parceria com o fornecedor britânico de software de vídeo Synamedia para desenvolver uma nova plataforma de streaming em abril de 2025. Em março, a empresa lançou o MTN Ads, uma plataforma de publicidade digital criada em parceria com a Aleph, e em julho de 2024 anunciou a construção de um data center Tier 4 neutro em relação às operadoras em Lagos, Nigéria. Em setembro de 2025, a empresa revelou que buscava parceiros internacionais para desenvolver data centers dedicados a IA no continente.

Paralelamente, a operadora tornou independente sua filial de infraestrutura Bayobab (anteriormente MTN GlobalConnect), com o objetivo de criar uma plataforma de infraestrutura digital aberta de classe mundial, acessível tanto à MTN quanto a terceiros.

O mercado africano de torres de telecomunicações

A MTN havia inicialmente vendido parte de seu portfólio de torres à IHS Towers, seguindo uma tendência do setor de liberar valor. Em 2022, a empresa finalizou a venda de 5.701 torres por US$ 412 milhões. Desde 2013, a IHS já havia adquirido torres da MTN na Costa do Marfim, Camarões, Zâmbia, Ruanda e Nigéria, além de ter comprado torres de outros fornecedores em diversos mercados.

O interesse renovado no mercado de torres ocorre num contexto de crescimento contínuo do setor africano. Segundo estudo de 2025 da Mordor Intelligence, o rápido avanço da 4G e 5G levou os operadores pan-africanos a multiplicar os sites, especialmente em grandes cidades como Lagos, Nairóbi e Joanesburgo, gerando alta demanda por colocation e novas infraestruturas.

Dados da União Internacional de Telecomunicações (UIT) indicam que a penetração da 4G e 5G é de 75,2% e 11,8%, respectivamente, enquanto a 2G e 3G alcançam 94,1% e 88,8%.

O aumento no consumo de dados e a penetração crescente de smartphones, impulsionados pelo streaming, redes sociais e pagamentos móveis, aumentam o volume de dados por assinante, exigindo sites mais robustos para múltiplos operadores. Além disso, mandatos governamentais e fundos de serviço universal financiam a construção de torres em áreas rurais e de difícil acesso, garantindo receitas mínimas e reduzindo riscos para as TowerCos.

No momento, o mercado conta com outros grandes players, como American Tower Corporation, Helios Towers Plc, SBA Communications Corporation e Pan African Towers. Outras operadoras estão presentes, como a Axian Telecom com sua TowerCo of Africa (TOA), ativa em Madagascar, RDC, Uganda e Tanzânia. A Indus Towers, majoritariamente detida pela Bharti Airtel (controladora da Airtel Africa), anunciou em setembro de 2025 sua expansão no continente, começando pela Nigéria, Uganda e Zâmbia.

Segundo a Mordor Intelligence, o tamanho do mercado africano de torres de telecomunicações deve atingir US$ 4,03 bilhões em 2026, com crescimento anual médio de 3,35%, chegando a US$ 4,75 bilhões nos anos seguintes.

O MTN Group registrou receita de 188 bilhões de rands em 2024, queda de 15% em relação a 2023, e prejuízo após impostos de 11,2 bilhões de rands, contra lucro de 4 bilhões de rands no ano anterior.

Isaac K. Kassouwi

Sendo um país sem litoral, o Chade não tem acesso direto ao mar nem aos cabos submarinos que transportam quase todo o tráfego global de internet. O país depende, portanto, de interconexões com vizinhos costeiros, como Camarões, para garantir sua conectividade internacional.

O governo chadiano tem exercido pressão sobre as operadoras SOTEL e Airtel para acelerar a reabilitação da rota de fibra óptica N’Djamena–Mberé, um eixo estratégico para a conectividade nacional. Para que os trabalhos comecem efetivamente, as duas empresas precisam revisar o protocolo de acordo assinado em abril de 2025, suspenso posteriormente devido a algumas cláusulas consideradas contrárias aos princípios de soberania digital.

Durante uma reunião na quinta-feira, 5 de abril, Boukar Michel, ministro das Telecomunicações, Economia Digital e Digitalização do Estado, fez observações precisas. Ele convidou a SOTEL a iniciar negociações com a Airtel para corrigir as cláusulas problemáticas, adotar adendos que estejam de acordo com os interesses estratégicos do Estado e proceder à assinatura dos mesmos.

Segundo as autoridades, essas ações refletem uma “vontade constante de reforçar a qualidade da rede nacional de telecomunicações, melhorar a continuidade e o desempenho dos serviços, garantindo o respeito aos imperativos de soberania digital, segurança e interesse público”.

O eixo N’Djamena–Mberé é estratégico, pois conecta a capital chadiana à fronteira com Camarões, atualmente o único ponto de entrada para as capacidades internacionais provenientes dos cabos submarinos. No âmbito de um acordo assinado em maio de 2025, Camarões comprometeu-se a colocar rapidamente em operação o trecho Nana–Mberé, entre outros.

Ao se conectar a essa rota, o Chade diversifica suas entradas de conectividade, hoje limitadas a Kousseri. As autoridades temem que incidentes técnicos nessa rota deixem o país isolado digitalmente, como ocorreu em outubro de 2024, quando o Chade ficou sem internet por mais de 24 horas. Outras interrupções, de menor escala, também ocorreram desde então.

Além de Camarões, o Chade explora outras opções para seu desenvestimento digital, incluindo o projeto da Espinha Dorsal Transaariana de fibra óptica (DTS), que oferece acesso aos cabos submarinos no Mediterrâneo e no Atlântico via Níger, Nigéria, Mali, Burkina Faso, Mauritânia, Argélia e Tunísia. O país também se aproximou da Líbia e do Egito, sendo este último o país africano mais conectado aos cabos submarinos.

Isaac K. Kassouwi

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