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Equipe Publication

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  • Gana busca neutralidade de carbono até 2070 através do Plano Nacional de Transição Energética.
  • Autoridades anunciam a aceleração da implementação do plano, com foco inicial em energia elétrica, transporte, e culinária limpa.

Comprometido em alcançar a neutralidade de carbono em 2070, através do seu Plano Nacional de Transição Energética (2022-2070), o Gana pretende aumentar a proporção de energias renováveis em sua matriz energética. Em 2023, 86% dos ganeses tinham acesso à eletricidade.

O país está avançando na implementação do seu Plano de Investimento e Transição Energética (ETIP), oficialmente lançado em setembro de 2023 pelo ex-presidente Nana Akufo-Addo, paralelamente à Assembleia Geral das Nações Unidas.

Conforme informações divulgadas em 24 de outubro pela Ghana News Agency (GNA), as autoridades anunciaram uma aceleração na implementação do plano. Este último, elaborado pelo Ministério de Energia em parceria com SEforALL, identifica três setores prioritários para essa fase inicial: eletricidade, transporte e culinária limpa.

Sob a coordenação do Ministério da Energia, liderado por Matthew Opoku Prempeh, o governo conduziu consultas regionais com o setor privado, governos locais e a sociedade civil. O plano identifica várias áreas de ação, incluindo eletrificação solar de áreas rurais, uso de gás natural como energia de transição e implantação gradual de veículos elétricos no transporte público.

Segundo a ONG ActionAid Gana, mais de 60% da matriz energética nacional ainda é dominada por fontes fósseis, contra menos de 2% para as renováveis. As autoridades, por sua vez, afirmam querer aumentar significativamente a proporção de energia limpa na rede elétrica nacional. Prempeh disse no lançamento do plano, em setembro de 2023, que este representava “uma oportunidade transformativa de construir uma economia de baixo carbono que cria empregos e crescimento industrial sustentável”.

O Gana quer reduzir as suas emissões de CO₂ em 200 milhões de toneladas até 2060, de acordo com seus compromissos sob o Acordo de Paris. O país tem um potencial solar estimado em cerca de 35.000 MW, de acordo com o National Energy Transition Framework, publicado em 2023 pelo Ministério de Energia e a Energy Commission of Ghana. O plano, que tem um orçamento de 550 bilhões de dólares até 2060, prevê a criação de cerca de 400.000 empregos por meio do desenvolvimento de setores locais em solar, hidrogênio de baixo carbono, culinária limpa e mobilidade elétrica, apoiados pelo Banco Mundial e pelo SEforALL.

As autoridades reconhecem, porém, que o desafio do financiamento permanece considerável. Eles acreditam que a maior parte dos investimentos deverá vir de capital privado e internacional, considerando as limitações orçamentárias do Estado. O plano também aponta a necessidade de modernizar a rede elétrica e garantir uma transição justa para os trabalhadores e comunidades dependentes dos setores de combustíveis fósseis. Em uma análise do GasOutlook de novembro de 2023, especialistas pedem incentivos fiscais mais claros e uma governança mais inclusiva.

Abdel-Latif Boureima

 

  • Dificuldades na redução global das emissões de metano, responsável por cerca de 30% do aquecimento global desde a Revolução Industrial.
  • Apenas 12% das 3.500 advertências emitidas sobre vazamentos no setor de óleo e gás neste ano resultaram em medidas preventivas.

O metano e o dióxido de carbono estão entre os principais gases que contribuem para o aquecimento global. Embora o CO₂ seja emitido em maiores volumes, o metano tem um efeito de aquecimento muito mais potente.


O Observatório Internacional de Emissões de Metano (IMEO) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lamenta que o ritmo global de combate a esse gás, que é responsável por cerca de 30% do aquecimento global desde a Revolução Industrial, continue lento. Esta declaração foi feita em 22 de outubro.

Na 5ª edição de seu relatório "Um olhar sobre o metano", a organização revelou que apenas 12% das 3.500 advertências emitidas sobre vazamentos na indústria de óleo e gás deste ano resultaram em medidas preventivas. Embora esse número represente um aumento em relação ao ano passado (1%), ainda é insuficiente, dada a urgência da situação climática.

O metano, lembram os autores do relatório, é o segundo gás de efeito estufa mais importante após o CO₂ e tem um poder de aquecimento 80 vezes maior do que este último em um período de 20 anos.

As emissões de CH4 provenientes de atividades humanas vêm principalmente dos setores de carvão, petróleo e gás, devido aos vazamentos durante sua extração, exploração ou distribuição, da agricultura (produção de arroz, gado, esterco) e do gerenciamento de resíduos. No final de 2021, mais de 150 países se comprometeram a reduzir as emissões de metano em pelo menos 30% até 2030, em comparação com os níveis de 2020. No entanto, os autores estimam que cerca de 90% das advertências são ignoradas, prejudicando as oportunidades de combate a este GEE.

De fato, enquanto o metano captura calor mais efetivamente do que o CO2, ele desaparece da atmosfera após 10 a 15 anos, enquanto a vida útil do CO2 é de vários milhares de anos. Segundo os cientistas, essas características tornam o metano uma importante ferramenta para limitar o aumento das temperaturas globais.

"Tomar medidas sobre o metano não é apenas um imperativo climático, é também uma oportunidade econômica e operacional. As soluções para reduzir as emissões de metano são comprovadas, geralmente de baixo custo, e em muitos casos geram economias ou rendas adicionais. No setor de combustíveis fósseis em particular, as soluções para limitar as emissões de metano são numerosas e sensatas. Seja para capturar o gás para revenda ou eliminar ineficiências caras, a redução do metano é um dos melhores investimentos que um operador pode fazer", afirma o relatório.

Esperança Olodo

 

  • Taxa de inflação no Togo foi de 0,8% em setembro de 2025, uma queda em relação ao mês anterior.
  •  A queda é principalmente devido ao recuo dos preços dos alimentos, confirmando a eficácia das políticas de estabilização implementadas pelo país.

A taxa de inflação no Togo ficou em 0,8% em setembro de 2025, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos e Demográficos (INSEED), em comparação com 1,1% no mês anterior. Esta queda, impulsionada principalmente pela diminuição dos preços dos alimentos, confirma o controle da inflação abaixo do limiar comunitário de 3% da UEMOA e evidencia a eficácia das políticas de estabilização implementadas pelo país do oeste africano.

No Togo, os preços estão se estabilizando gradualmente mês após mês. De acordo com os dados recentemente publicados pelo INSEED, a taxa de inflação caiu para 0,8% em setembro de 2025, contra 1,1% em agosto. Isso é uma boa notícia para as famílias, num contexto em que a estabilidade dos preços continua sendo uma prioridade para as autoridades econômicas.

Essa queda confirma uma tendência que começou no final de 2024, segundo o Togo First. Nos primeiros nove meses do ano, a taxa de inflação permaneceu abaixo do patamar de 3%, o limiar estabelecido pela União Econômica e Monetária do Oeste Africano (UEMOA) em seus critérios de convergência. Em dezembro de 2024, o país ainda registrava 2,9% de inflação; desde então, a queda foi constante durante todo o período.

Atrás desses números, é principalmente a queda nos preços dos alimentos que explica a tendência geral. Setembro é o período das primeiras colheitas, especialmente nas zonas agrícolas do norte e sul do país. Os mercados viram os preços de vários produtos caírem significativamente: inhame, mandioca, tomate, pimentão, milho e arroz local.

De acordo com o INSEED, algumas variações são impressionantes: o inhame para fufu, por exemplo, caiu mais de 40% em um mês, enquanto os tomates locais caíram quase 20%. Também temos o pimentão (-25,2%), a mandioca (-15,3%) e o milho branco (-9,7%). A mesma tendência para pratos tradicionais como o fufu ou o wokoumé - um prato de massa de milho -, cujos preços caíram de 5 a 7%.

Essa evolução também reflete os esforços do governo togolês para conter os preços ao consumidor. Lomé intensificou as medidas de apoio à produção agrícola, políticas fiscais favoráveis e dispositivos de assistência direcionados às famílias. Objetivo: preservar o poder de compra e evitar um salto nos preços dos produtos básicos, numa época em que vários países vizinhos ainda enfrentam taxas de inflação superiores a 5%.

Com uma inflação média inferior a 3% desde janeiro, Lomé solidifica ainda mais a sua estabilidade econômica, uma vantagem considerável para a credibilidade do país perante os doadores e investidores. A taxa de inflação, que caiu de 2,9% em dezembro de 2024 para 0,8% em setembro de 2025, reflete uma quase constante desinflação nove meses, depois dos picos de 2022 e 2023.

Resta saber se essa tendência poderá ser mantida à medida que o final do ano se aproxima, um período geralmente marcado por um aumento sazonal na demanda e nos preços.

Fiacre E. Kakpo

 

  • Auditores do setor de telecomunicações no Chade anunciaram a conclusão do 15º auditoria nacional, destacando avanços e fragilidades na qualidade do serviço.
  • A qualidade do sinal nos centros urbanos melhorou, embora persistam problemas ligados à energia, infraestruturas antigas e cobertura irregular.

Com o objetivo de avaliar o desempenho técnico dos operadores de telecomunicações em todo o território, as autoridades chadianas iniciaram uma auditoria em escala nacional.

A Autoridade de Regulação de Comunicações Eletrônicas e Correios (ARCEP) do Chade anunciou esta semana que concluiu seu 15º auditório nacional sobre a qualidade dos serviços das redes de telefonia móvel. A operação mediu vários indicadores-chave, como a taxa de sucesso de chamadas, a qualidade da voz, a cobertura 4G e a velocidade de conexão à Internet.

"Os resultados revelam uma melhor estabilidade do sinal em vários centros urbanos, refletindo os esforços de investimento dos operadores. No entanto, áreas de fragilidade ainda persistem, principalmente relacionadas à energia, infraestruturas antigas e cobertura irregular em certas áreas", disse a entidade.

Essa auditoria faz parte das missões recorrentes da ARCEP para garantir a conformidade dos operadores com os padrões estabelecidos. A qualidade do serviço ainda é uma preocupação importante para os assinantes chadianos, que enfrentam cortes frequentes, conectividade desigual e custos que consideram altos. Para o regulador, esses controles ajudam na tomada de decisão, permitindo identificar os segmentos onde os serviços precisam ser aprimorados e, se necessário, aplicar medidas corretivas ou sanções.

Os resultados desta auditoria devem fortalecer a transparência entre os operadores, o regulador e os consumidores. Eles também servirão como base para o planejamento de investimentos em infraestruturas de telecomunicações. Vale lembrar que, no início de 2025, 14,5 milhões de cartões SIM estavam ativos no Chade, de acordo com os dados da DataReportal.

Adoni Conrad Quenum

 

  • A presidente Namibiana, Netumbo Nandi-Ndaitwah, substituiu Natangwe Ithete como Ministra de Indústria, Mineração e Energia.
  • A mudança de administração se deu em um momento em que a Namíbia vem buscando expandir sua produção de hidrocarbonetos e desenvolver sua indústria emergente de hidrogênio verde.

Com um subterrâneo rico em urânio, ouro e diamantes, a Namíbia já é um importante país minerador na África. Para fortalecer ainda mais sua economia, o país planeja se beneficiar de suas recentes descobertas de hidrocarbonetos e de sua nascente indústria de hidrogênio verde.

No domingo, 26 de outubro, a presidência da Namíbia anunciou que Natangwe Ithete foi dispensada de suas funções como Ministra de Indústria, Mineração e Energia. Embora as razões para essa ação não tenham sido especificadas, uma nota publicada na ocasião declarou que a presidente Netumbo Nandi-Ndaitwah agora estará gerenciando este departamento ministerial.

"A presidente Nandi-Ndaitwah alivia o honorável Natangwe Ithete de suas funções como Vice-Primeiro Ministro e Ministro da Indústria, Mineração e Energia. [...]. Para garantir a continuidade e uma coordenação eficiente dentro deste setor chave, a presidente Nandi-Ndaitwah assumirá a responsabilidade do Ministério da Indústria, Mineração e Energia, com efeito imediato", diz o comunicado, sem especificar se outro ministro será possivelmente nomeado para esta posição no futuro.

Este anúncio serve como um novo sinal enviado pela presidência sobre o status estratégico deste ministério. Poucos dias após sua inauguração em março passado, a líder namibiana já havia anunciado que a gestão da nascente indústria de óleo e gás seria da responsabilidade do gabinete presidencial. Uma declaração que já era significativa na época, com o país ambicioso de lançar uma produção nacional de hidrocarbonetos até a próxima década.

Vários depósitos descobertos nos últimos anos ao largo da bacia de Orange estão no centro dos projetos de desenvolvimento na Namíbia, incluindo Vénus da TotalEnergies, Graff da Shell e Mopane da Galp. Além dos hidrocarbonetos, a Namíbia também é um importante país minerador na África. Maior produtora de urânio do continente, ela também produz diamantes e ouro, e o setor de mineração representou cerca de 14,4% do PIB em 2023, de acordo com a Câmara de Minas.

Ainda mais, essa decisão administrativa ocorre em um contexto em que a Namíbia está se posicionando como um dos pontos emergentes de hidrogênio verde no continente, enquanto também aposta no desenvolvimento de um setor local em torno da energia nuclear civil. Resta ver quais serão as prioridades estabelecidas pela presidente Nandi-Ndaitwah e as medidas que resultarão dessa reorganização.

Aurel Sèdjro Houenou

 

  • Luc MISSIDIMBANZI oficializou sua candidatura ao cargo de Secretário Geral da União Africana de Telecomunicações (UAT) em 22 de outubro.
  • A candidatura é apoiada por membros do governo, altos representantes de instituições estatais, líderes de operadoras de telefonia e atores influentes do setor de telecomunicações.

Em um ambiente solene e simbólico, o engenheiro de telecomunicações Luc MISSIDIMBANZI oficializou, em 22 de outubro, sua candidatura ao posto estratégico de Secretário Geral da União Africana de Telecomunicações (UAT), anunciada anteriormente na feira OSIANE e no Conselho de Administração da UAT em Dakar (Senegal).

O grande anúncio ocorreu em um dos jardins mais prestigiosos de Brazzaville, reunindo membros do governo, altos representantes de instituições estatais, líderes de operadoras de telefonia e muitos atores influentes do setor de telecomunicações. O ambiente, ao mesmo tempo solene e amigável, ressaltou a importância desse evento para o futuro digital do continente africano.

Diretamente em seu discurso, Luc MISSIDIMBANZI apresentou uma visão panafricana baseada na gratidão e na ambição coletiva. Ele expressou sua gratidão à audiência: “Em primeiro lugar, quero expressar minha profunda gratidão por sua presença aqui esta noite. Seu apoio é mais do que um gesto de amizade, é um ato de fé em uma visão comum: a de uma África que acredita em si mesma, em seus talentos e na capacidade de escrever sua própria história digital”. Essas palavras, cheias de emoção e determinação, estabeleceram as bases para uma candidatura decididamente coletiva e geradora de esperança para o continente.

MISSIDIMBANZI enfatizou ainda o caráter inclusivo de sua candidatura: “Essa candidatura não é apenas minha. É de todos que acreditam que as telecomunicações, a tecnologia pode ser uma alavanca de unidade, progresso e soberania para o nosso continente”. Essa afirmação expressa claramente a vontade de unir esforços em torno de um projeto comum, que ultrapassa fronteiras nacionais e interesses específicos.

Com uma carreira excepcional de serviço na transformação digital, Luc MISSIDIMBANZI se estabeleceu como promotor do OSIANE desde 2017, um evento que virou um marco no ecossistema digital africano. MISSIDIMBANZI tem uma carreira notável, harmonizando experiência pública e privada, expertise europeia e africana. Desde 2018, ele ocupa o cargo de conselheiro em postos, telecomunicações e digitais para o Primeiro Ministro da República do Congo, uma posição estratégica que lhe confere uma compreensão profunda dos problemas setoriais no mais alto nível do Estado.

Paralelamente a essas responsabilidades governamentais, ele preside o Fundo para o Acesso e o Serviço Universal de Comunicações Eletrônicas (FASUCE), demonstrando assim seu compromisso concreto com a inclusão digital. Sua experiência diversificada, adquirida em instituições internacionais, empresas privadas e organizações de associação, é uma grande vantagem para compreender a complexidade dos desafios que a UAT deve enfrentar em um ambiente tecnológico em constante mudança.

No coração do projeto liderado por Luc MISSIDIMBANZI, há uma ambição muito clara: transformar radicalmente a posição da África no ecossistema digital global. “A África não deve mais ser um mercado, mas sim um ator", afirmou ele com convicção. Este objetivo vai além da simples dimensão econômica e aborda a soberania tecnológica. O que se pretende é permitir que a África fale com uma voz unificada e poderosa nas instâncias internacionais onde são decididas as normas, os padrões e as regras que regem o mundo digital do futuro.

Em suas palavras de conclusão, o candidato revelou o que parece ser o motivo profundo de seu comprometimento: "É com essa fé que caminho, com essa confiança que me apresento, e com essa esperança que me comprometo". Essas palavras, pronunciadas com solenidade, ressoaram como uma profissão de fé que vai além do simples âmbito profissional até atingir os valores fundamentais que norteiam a candidatura.

Depois da cerimônia, os convidados demonstraram seu apoio tangível ao participar de uma campanha de solidariedade para apoiar esta candidatura. A entrega de envelopes com valores demonstrou a adesão concreta dos atores do setor a este projeto de amplitude continental, transformando em atos o compromisso coletivo expressado durante a noite.

Este anúncio marca, sem dúvida, um passo importante na afirmação das ambições digitais africanas e coloca a República do Congo no centro de um projeto que pode redefinir o equilíbrio do setor de telecomunicações em todo o continente.

 

Nos mercados emergentes, o financiamento das micro, pequenas e médias empresas (MPME/PME) continua a ser um dos principais motores do desenvolvimento económico e social. Estas empresas representam cerca de 90% do tecido empresarial mundial e mais de 50% dos empregos a nível global (World Bank, 2023). Nos países de baixo e médio rendimento, o seu papel é ainda mais determinante, gerando até 70% dos empregos formais e contribuindo com cerca de 40% do PIB. Apesar dessa importância sistémica, persiste um défice estrutural de financiamento: a falta de crédito acessível às PME é estimada em cerca de 5,7 biliões USD. Entre 2015 e 2019, esse défice aumentou mais de 6% ao ano, mesmo com a oferta de crédito a crescer 7% no período (IFC, 2025).

Por detrás destes números esconde-se um paradoxo que revela as tensões do sistema financeiro. Embora a revolução digital esteja a transformar a indústria financeira e a multiplicar os canais de acesso ao crédito, muitas PME continuam excluídas dos circuitos formais. Essa exclusão resulta de vários fatores: insuficiência de dados financeiros confiáveis, falta de garantias reais e, frequentemente, uma desconfiança em relação às instituições financeiras e às ferramentas tecnológicas. O desafio já não é apenas tecnológico, mas sim a capacidade de combinar o digital com o elemento humano. Torna-se essencial articular a precisão das ferramentas digitais — cujos mecanismos de análise e decisão integram cada vez mais componentes de inteligência artificial — com a compreensão contextual que nasce da relação construída no terreno.

Os gestores de cliente: um elo essencial

O papel do gestor de cliente ilustra perfeitamente esta dualidade. O acesso ao crédito não depende apenas da disponibilidade de recursos, mas também da natureza da informação utilizada na avaliação do risco. Nas economias emergentes, as PME operam frequentemente em ambientes marcados por forte informalidade, onde as demonstrações financeiras oficiais revelam apenas uma parte da realidade. É aqui que entra a dimensão qualitativa do conhecimento do cliente. A proximidade e a observação contínua permitem ao gestor recolher elementos que nenhum algoritmo consegue captar por completo: o saber-fazer do empreendedor, a fiabilidade de um fornecedor-chave, a estabilidade de uma equipa familiar, a reputação local de uma oficina, o potencial comercial de um novo ponto de venda, entre outros. Estas informações constituem dados qualitativos que, quando documentados e analisados, tornam-se valiosos para a gestão do risco de crédito. As soluções digitais também não conseguem, por si só, construir uma relação de confiança — especialmente junto de clientes que receiam as instituições financeiras e as autoridades fiscais. Cabe ao gestor dissipar essas inquietações para aceder às informações do cliente com total transparência.

As ferramentas digitais como potenciadoras de competências

A oposição entre tecnologia e perícia humana é um falso dilema. No financiamento das PME, a tecnologia não substitui o gestor de cliente — ela reforça a sua eficácia. Os sistemas digitais, em particular os softwares de gestão da relação com o cliente (CRM – Customer Relationship Management), de análise e concessão de crédito (LOS – Loan Origination System) e de gestão de carteira de empréstimos (LMS – Loan Management System), funcionam como multiplicadores de competências.

Um CRM bem concebido centraliza e estrutura todas as interações entre a instituição financeira e os seus clientes: comunicações, visitas, pedidos de crédito, incidentes de pagamento e oportunidades comerciais. Proporciona uma visão integrada e dinâmica do pipeline e da carteira, garantindo coerência e continuidade da relação, mesmo em caso de mudança de interlocutor. Segundo Salesforce e WebFX (2023), o uso sistemático de um CRM resulta, em média, num aumento de 21% da produtividade comercial e de 16% na taxa de fidelização da clientela. O CRM torna-se assim a memória institucional da relação — uma infraestrutura de conhecimento partilhado que transforma a experiência do cliente em vantagem competitiva sustentável.

Ligado a este sistema, o LOS racionaliza todo o processo de concessão de crédito. A recolha de dados é digitalizada, os comprovativos são integrados, e os rácios financeiros — incluindo a capacidade de endividamento — são calculados instantaneamente a partir das informações registadas e armazenadas no sistema. Essa interligação assegura um fluxo fluido entre o gestor de cliente, o middle office e o comité de crédito, reduzindo de forma significativa os prazos de análise. Em algumas instituições, processos que antes demoravam semanas são hoje concluídos em poucos dias.

Depois da concessão do crédito, o LMS assume a gestão e o acompanhamento da carteira ao longo de todo o ciclo de vida do empréstimo. A automatização de tarefas reduz os custos operacionais e melhora a qualidade do acompanhamento. De acordo com um estudo da McKinsey (2022), a implementação de um LMS em ambientes com elevado volume de crédito permite reduzir os custos operacionais entre 25% e 30%, aumentando simultaneamente a rastreabilidade e a conformidade regulatória. Estas ferramentas são frequentemente integradas ao CBS (Core Banking System), que pode incluir diversas interfaces até às plataformas de atendimento ao cliente.

A experiência do IndusInd Bank, na Índia, demonstra de forma concreta os benefícios desta integração tecnológica. Ao conectar um CRM aos seus sistemas LOS e LMS, o banco reduziu os prazos de tratamento em 60%, aumentou em 50% a taxa de conversão comercial e melhorou em 90% a rapidez do seu serviço. Estes ganhos traduziram-se num reforço da relação com os clientes: os gestores passaram a dedicar mais tempo às visitas no terreno, à compreensão das necessidades específicas e à oferta de soluções adequadas (IndusInd Bank, 2021).

Conhecimento do cliente, confiança e proximidade: a base da relação

A qualidade da relação entre PME e banco assenta, antes de mais, na continuidade e na confiança. Quando um gestor acompanha a mesma carteira durante vários anos, adquire uma compreensão profunda dos ciclos de negócio: sazonalidade das vendas, dependência de determinados clientes, pressões concorrenciais ou alterações no aprovisionamento. Essa estabilidade reforça a confiança do empresário e aumenta a capacidade do banco de antecipar riscos em vez de apenas reagir a eles. Pelo contrário, uma rotação excessiva de pessoal fragiliza a relação e gera custos de aprendizagem repetidos.

A proximidade — geográfica e relacional — desempenha um papel complementar. As visitas às empresas, as conversas informais e os contactos frequentes permitem identificar informações que os dados contabilísticos não revelam: um novo contrato, uma oportunidade de exportação ou uma tensão de tesouraria iminente.

Um CRM bem estruturado apoia esta lógica de proximidade e continuidade. Ao centralizar históricos de contacto, notas de visita, lembretes e oportunidades identificadas, permite um acompanhamento regular e coerente de cada cliente. Mais ainda: protege a memória institucional. Se um gestor mudar de função ou se houver rotatividade da equipa, a informação registada garante continuidade no serviço. Assim, é a instituição — e não o indivíduo — que detém o conhecimento do cliente. No entanto, essa vantagem só se concretiza se os dados forem registados de forma rigorosa e se os colaboradores compreenderem o valor estratégico da ferramenta. Um CRM bem alimentado não substitui a relação humana, mas preserva o seu registo e garante a sua durabilidade, transformando a proximidade individual em capital relacional coletivo.

Um modelo híbrido para uma finança inclusiva

No financiamento das PME, a complementaridade entre tecnologia e experiência humana é a chave para um modelo sustentável e inclusivo. O digital traz rapidez, rigor e capacidade analítica; o humano traz compreensão, confiança e interpretação contextual. CRM, LOS e LMS não substituem o discernimento do gestor de cliente — permitem-lhe concentrar-se naquilo que realmente gera valor: o acompanhamento estratégico dos empresários e a construção de relações de longo prazo.

Nas economias emergentes, onde a relação precede inevitavelmente a transação, este equilíbrio entre inteligência artificial e inteligência humana é essencial para expandir o acesso ao financiamento sem comprometer a qualidade e a estabilidade das carteiras de crédito. A tecnologia torna-se, assim, uma extensão da relação — e não o seu substituto.

A formação e o desenvolvimento de competências das equipas nestes domínios são agora um desafio central para as instituições financeiras, permitindo-lhes responder às expectativas das PME e manter carteiras saudáveis, rentáveis e equilibradas.

O Certificat d'Expert en Financement des PME (CESF-FR) da Frankfurt School of Finance & Management é uma formação totalmente online, personalizada e flexível, com duração de 6 meses. Desenvolve competências e conhecimentos essenciais para profissionais que atuam em várias funções relacionadas com o financiamento das PME, com foco na análise de risco de crédito, no processo de decisão de empréstimos, na intermediação adequada da tomada de risco e na gestão da relação com o cliente. Este curso online (ministrado em francês ou em inglês) apresenta-lhe os princípios fundamentais do financiamento das PME.

 

Pouco conhecido do grande público, mas incontornável nos círculos estratégicos do setor energético africano, o bilionário nigeriano Benedict Peters assinou um acordo de grande envergadura com o Estado moçambicano para construir uma refinaria de petróleo bruto com capacidade final de 240 mil barris por dia. Um projeto estruturante numa região carente desse tipo de infraestrutura, conduzido por um homem cujas atividades vão muito além do petróleo.

No dia 13 de julho, Benedict Peters (foto), por meio da sua empresa Aiteo, firmou um contrato de engenharia, fornecimento e construção (EPC) para erguer uma refinaria em Moçambique. Com uma capacidade final anunciada de 240 mil barris por dia, a unidade será construída em duas fases, prevendo-se uma capacidade operacional inicial de 80 mil barris por dia dentro de 24 meses. A execução foi confiada à norte-americana Deerfield Energy Services LLC. O projeto poderá transformar Moçambique num hub regional estratégico para a distribuição de produtos petrolíferos.

A tecnologia escolhida baseia-se em módulos de refinação de baixa complexidade, garantindo implantação rápida e maior estabilidade operacional. Gasolina, diesel, querosene e nafta estão entre os produtos visados, respondendo tanto à procura interna quanto ao objetivo de dinamizar o comércio regional. O presidente moçambicano, Daniel Chapo, presidiu pessoalmente à cerimónia de assinatura, sublinhando o alinhamento do projeto com a estratégia nacional de industrialização e de acesso à energia.

Benedict Peters construiu a sua fortuna no setor petrolífero nigeriano. Depois de iniciar a carreira na Oando e na MRS Oil, nos anos 1990, fundou a Aiteo em 1999. A empresa deu um salto em 2014 com a aquisição do bloco OML 29 e do oleoduto Nembe Creek a um consórcio liderado pela Shell, por 2,56 mil milhões de dólares. A operação fez da Aiteo o principal produtor independente de petróleo da Nigéria.

Quando a ambição encontra as batalhas geopolíticas: o braço-de-ferro com a Shell

Mas, se a ambição de Benedict Peters hoje se projeta à escala continental, ela também se forjou nas arenas jurídicas e políticas mais disputadas do setor energético. Prova disso é o longo litígio que o opõe à Shell em torno do bloco OML 29. Peters reclama 9 mil milhões de dólares ao gigante anglo-holandês, acusando-o de ter sabotado repetidamente o oleoduto Nembe Creek, peça central das infraestruturas adquiridas. Este diferendo ilustra as crescentes tensões entre as majors internacionais e os operadores africanos independentes, num contexto de reconfiguração do panorama petrolífero regional.

Desde então, Peters ampliou o seu campo de atuação, integrando comércio, armazenagem, distribuição, transporte marítimo e produção de eletricidade. Investe em ativos elétricos na Nigéria e desenvolve uma estratégia multinacional, com presença na Costa do Marfim, Guiné, Namíbia, Suíça, Serra Leoa, Líbia e agora em Moçambique.

A diversificação estende-se também aos minerais estratégicos. Por meio da Bravura Holdings, explora recursos críticos para as cadeias de produção ocidentais: ouro no Gana, cobre na Zâmbia, cobalto na RDC, lítio no Zimbabué, urânio e platina na África Austral. Aliás, segundo Gbenga Ojo, CEO da Bravura Holdings, a empresa deverá iniciar a produção de lítio no Zimbabué antes do final deste ano, nomeadamente no projeto Kamativi. A expectativa é produzir 30 mil toneladas de concentrado de espodumena, utilizado para fabricar carbonato ou hidróxido de lítio, compostos essenciais na produção de baterias de iões de lítio.

Ciente do peso geopolítico do setor, Peters estrutura este ecossistema através de um programa trianual lançado em parceria com o Africa Center do think tank norte-americano Atlantic Council. Um grupo de trabalho internacional coordena assim governos, agências de desenvolvimento e atores privados em três continentes.

De Lagos a Harare, passando por Maputo, a estratégia de Benedict Peters parece clara: controlar infraestruturas críticas, enraizar-se nas cadeias de valor e influenciar as negociações internacionais sobre matérias-primas estratégicas. Se a sua visibilidade pública permanece limitada, a sua pegada industrial expande-se rapidamente.

Resta saber até onde o bilionário nigeriano, à frente de um conglomerado tão discreto quanto influente, conseguirá levar a sua vantagem num ambiente cada vez mais geopolítico.

Olivier de Souza

 

Entrevista com a Dra. Doris Uwicyeza, CEO do Rwanda Governance Board (RGB)

Em 2025, o Ruanda mantém a sua primeira posição na África Oriental e continua entre os três primeiros no continente, segundo o Chandler Good Government Index. A Dra. Doris Uwicyeza fala sobre os pilares de um desempenho sustentável e as prioridades futuras.

O Ruanda mantém em 2025 a primeira posição na África Oriental e continua entre os três primeiros da África. Quais alavancas concretas explicam essa regularidade?

Essa regularidade se deve, primeiramente, a uma liderança forte e visionária, que soube consolidar a governança ruandesa a longo prazo, mantendo-se atenta ao seu contexto histórico. A estabilidade do país repousa sobre fundamentos sólidos: a unidade nacional e a segurança, protegidas por uma Constituição que proíbe qualquer forma de discriminação, e uma democracia consensual que privilegia o diálogo em vez da confrontação.

A participação cidadã também é central nesse modelo. Graças à descentralização, os ruandeses participam no planejamento e na implementação das políticas públicas. Iniciativas endógenas, baseadas na cultura e na experiência do país, ajudam a oferecer soluções adaptadas aos seus desafios. A inclusividade é outro pilar: a representação das mulheres, dos jovens e das pessoas com deficiência é garantida por lei. Por fim, a responsabilidade institucional, assegurada pelo Ombudsman, pelo Auditor Geral, pelo Senado e pelo RGB, juntamente com a digitalização dos serviços públicos, tem fortalecido a transparência, a boa gestão dos fundos públicos e a confiança entre o Estado e os cidadãos.

O país é o 4º no mundo em termos de visão de longo prazo e o 6º em adaptabilidade. Como essas vantagens se traduzem nas políticas públicas atuais?

Pensar no futuro é uma decisão coletiva que os ruandeses tomaram após o Genocídio de 1994. Desde então, nossa ação pública baseia-se em um planejamento rigoroso de médio e longo prazo. A Visão 2050 estabelece dois objetivos claros: alcançar a categoria de países de renda média-alta até 2035 e a de países de alta renda até 2050, com um PIB per capita de 12.476 USD.

Essas ambições integram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a Agenda 2063 da União Africana. A implementação é orientada por ciclos de cinco anos da Estratégia Nacional de Transformação, que permitem ajustes e avaliações dos progressos. A adaptabilidade do Ruanda se reflete na rápida integração de tecnologias emergentes, inovações em governança e na participação cidadã. O Rwanda Governance Scorecard, elaborado pelo RGB, realiza anualmente um acompanhamento objetivo e mensurável de nosso desempenho.

Os indicadores também destacam a estabilidade regulatória e a eficiência dos gastos públicos. Qual o impacto direto disso sobre o investimento e a confiança dos cidadãos?

A estabilidade macroeconômica e regulatória é condição essencial para a confiança, tanto dos investidores quanto dos cidadãos. O Ruanda baseia-se em uma gestão orçamentária rigorosa, fundamentada na transparência e no planejamento de longo prazo. O controle parlamentar, os quadros de despesas e de dívida de médio prazo garantem uma gestão responsável das finanças públicas.

Na área monetária, o Banco Nacional do Ruanda mantém a inflação próxima de 5% e assegura a estabilidade do sistema financeiro. Essa coerência fortalece a credibilidade do país e protege os investimentos. A digitalização dos serviços públicos, por sua vez, ajudou a reduzir a burocracia e a melhorar a eficiência da ação pública, traduzindo a boa governança em resultados tangíveis: infraestrutura, acesso à saúde, educação e proteção social.

Por outro lado, o relatório aponta fraquezas em comércio internacional, emprego e meio ambiente. Quais prioridades foram estabelecidas para superar essas lacunas?

Como um país sem acesso direto ao mar, o Ruanda enfrenta custos logísticos elevados, o que prejudica sua competitividade. O governo responde a esse desafio com a política Made in Rwanda, que incentiva a produção local e a substituição de importações, ao mesmo tempo em que investe em infraestrutura, zonas econômicas especiais e redes de transporte.

A integração regional também é uma prioridade: visa reduzir as barreiras tarifárias e não tarifárias dentro da região. No campo do emprego, o país escolheu investir na educação e na formação dos jovens para construir uma economia baseada no conhecimento. A Estratégia Nacional de Transformação 2024-2029 tem como meta a criação de pelo menos 200.000 empregos por ano, apoiada pelo Programa Nacional para o Emprego, que coordena as ações pública e privada nesta área.

Por fim, a política ambiental e climática do Ruanda, alinhada com a Visão 2050, a Agenda 2063 e os ODS, reflete o nosso compromisso em construir uma economia verde e resiliente. Seu sucesso depende da colaboração entre o governo, as empresas, a sociedade civil e as comunidades locais.

Finalmente, a reputação internacional do Ruanda continua sendo um desafio. Quais iniciativas estão em andamento para reforçar a influência e a imagem do país no exterior?

Nossa posição internacional está profundamente ligada à nossa história e à nossa visão de mundo. O Ruanda escolheu uma diplomacia baseada no respeito mútuo, na justiça e na coerência. Rejeitamos qualquer abordagem de dois pesos, duas medidas, na resolução das crises. Com base em sua experiência de reconstrução, o país se engaja ativamente na manutenção da paz, tanto sob a égide das Nações Unidas quanto por meio de cooperações bilaterais.

No continente, acreditamos em soluções africanas para problemas africanos. Essa convicção se reflete em nossa política de abertura de vistos e em nosso compromisso com a Zona de Livre Comércio Africana. Nossa reputação internacional também é sustentada pela constância de nossos valores: justiça, transparência, responsabilidade e contribuição para a estabilidade regional e mundial.

No início de 2025, muitos esperavam um confronto entre Niamey e a China National Petroleum Corporation Niger Petroleum (CNPCNP), à semelhança das tensões observadas nos setores mineradores de Burkina Faso ou Mali. Após a expulsão de executivos chineses e as exigências de Niamey para uma aplicação rigorosa das regras de conteúdo local, um confronto parecia inevitável. No entanto, apesar desses sinais, a exploração e as exportações de petróleo continuam sem interrupção, gerando mais de 2 bilhões de dólares em receitas.

No final de outubro, a calma permanece, embora as discussões sigam nos bastidores. Resta entender por que Niamey, por enquanto, evita um confronto direto com seu parceiro chinês, mesmo com a magnitude dos interesses envolvidos.

Nos últimos anos, os membros da Aliança dos Estados do Sahel (AES) adotaram posturas mais firmes em relação aos seus parceiros estrangeiros, especialmente nos setores extrativos. Burkina Faso nacionalizou algumas minas industriais de ouro e aumentou a participação do Estado nos novos projetos. Por sua vez, o Mali aprovou uma legislação que fortalece a soberania nacional sobre os recursos, permitindo que o Estado e investidores locais possuam até 35% do capital das empresas mineradoras.

Uma cautela ditada pela dependência do petróleo

Essa postura cautelosa se explica, antes de tudo, pela forte dependência econômica do Níger da renda do petróleo. Em abril de 2024, a CNPC concedeu a Niamey um adiantamento de 400 milhões de dólares sobre as vendas de petróleo bruto, a ser pago em doze meses, para financiar a segurança, a agricultura e a saúde. Um alívio para um país ainda fragilizado pelas sanções da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) após o golpe de estado de julho de 2023.

De acordo com o Banco Mundial, a economia nigeriana cresceu 8,4% em 2024, contra 2% em 2023, um crescimento impulsionado pelo início das exportações em grande escala. Manter o fluxo de exportações é crucial para as finanças públicas, o pagamento de salários e o financiamento de serviços essenciais.

Além disso, a CNPCNP detém 65% do campo de Agadem e investiu mais de 5 bilhões de dólares para desenvolver a área, construir as infraestruturas associadas e o oleoduto de 1.950 km até Cotonou. Esse oleoduto, estratégico para o Níger, oferece acesso direto ao mar e aos mercados internacionais. No entanto, controladas a partir de Pequim, essas infraestruturas, que dependem de tecnologias difíceis de dominar localmente, limitam a margem de manobra de Niamey. A refinaria da SORAZ, essencial para o consumo interno, é um exemplo disso, já que também está sob gestão chinesa.

No início de 2025, Niamey solicitou a abertura de capital da WAPCO, a empresa responsável pela gestão do trecho do oleoduto, consciente da fragilidade de sua posição atual.

Paralelamente, as autoridades nigerianas estabeleceram metas ambiciosas para o conteúdo local, exigindo que 80% dos funcionários nos projetos petrolíferos sejam nacionais, com mais quadros locais, além de um reajuste nos disparos salariais. Atualmente, apenas 30% da força de trabalho é composta por nacionais. No entanto, a falta de competências técnicas, frequentemente destacada pela parte chinesa, torna difícil alcançar esse objetivo no curto prazo.

Essas exigências também têm uma dimensão social e política: a população espera benefícios concretos em termos de empregos e transferência de conhecimento. Nesse contexto, a cautela de Niamey se impõe como uma escolha econômica mais do que diplomática. Romper com a CNPCNP seria muito arriscado para as finanças públicas, enquanto o país tenta afirmar sua soberania e, ao mesmo tempo, manter a estabilidade de sua produção.

Uma firmeza possível quando a relação de forças o permite

O Níger mostrou que pode adotar uma linha mais firme quando detém os recursos necessários. Exemplo disso foi a Orano: o regime militar anunciou em junho de 2025 a nacionalização da Somaïr, filial do gigante francês do urânio, que já havia constatado, desde dezembro de 2024, a “perda do controle operacional” da mina. Apesar da oposição do grupo francês e de duas ações de arbitragem no CIRDI, Niamey assumiu o risco jurídico dessa nacionalização, acreditando ter margem de manobra suficiente para realizá-la.

A situação no petróleo é diferente, pois o Níger depende de um único investidor, de infraestruturas críticas e de tecnologias estrangeiras. Essa assimetria explica a cautela de Niamey em relação a Pequim.

A experiência do Níger ilustra uma tendência mais ampla na África: os Estados buscam retomar o controle sobre seus recursos, mas sua capacidade de fazê-lo depende do nível de investimento estrangeiro, da dependência tecnológica e da complexidade das infraestruturas.

Resta saber até onde Niamey poderá ir na reafirmação de sua soberania. A junta demonstrou sua vontade política, mas sua dependência da CNPCNP limita suas margens no setor petrolífero. Em contrapartida, a estratégia mais audaciosa adotada no setor do urânio pode servir de inspiração para outros países da região.

Olivier de Souza

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