A medida que o Mali acelera a digitalização dos seus serviços públicos e da sua administração, a questão do alojamento e da proteção de dados torna-se um desafio central. A conservação local das informações é um dos principais objetivos do novo data center.
As autoridades malianas procederam, no sábado, 31 de janeiro, à inauguração oficial de um data center de nível Tier III em Bamaco, no âmbito da 3.ª edição da Semana do Digital do Mali. Apresentada como uma infraestrutura estratégica, esta instalação visa reforçar a soberania digital do país, promovendo o alojamento local de dados públicos e sensíveis, até agora maioritariamente armazenados no estrangeiro.
«Esta realização constitui um passo determinante para a conservação e segurança dos dados nacionais, garantia de soberania digital e autonomia tecnológica», declarou o ministro da Comunicação, Economia Digital e Modernização da Administração do Mali, Alhamdou Ag Ilyène, durante a cerimónia.
Segundo informações divulgadas pelas autoridades, o data center cumpre os padrões internacionais mais exigentes. De nível Tier III, garante uma disponibilidade de serviços de 99,982 %, graças à redundância completa dos equipamentos críticos, alimentação elétrica segura e continuidade de serviço assegurada mesmo durante operações de manutenção. A infraestrutura foi concebida para alojar plataformas de administração eletrónica, bases de dados estratégicas do Estado e, futuramente, serviços digitais destinados ao setor privado.
Para além do desafio técnico, esta iniciativa insere-se numa vontade mais ampla de reduzir a dependência do Mali em relação a infraestruturas estrangeiras e soluções de cloud extraterritoriais. As autoridades indicaram que está previsto um processo gradual de repatriação dos dados atualmente armazenados fora do país, nomeadamente para plataformas resultantes de programas de desmaterialização de serviços públicos. O objetivo declarado é reforçar a segurança da informação, melhorar o desempenho dos serviços digitais e garantir um melhor controlo regulatório.
Soberania digital no Sahel: uma dinâmica regional em marcha
A inauguração deste data center ocorre num contexto regional marcado por uma aceleração dos investimentos digitais na AES (Aliança dos Estados do Sahel). Poucos dias antes, o Burkina Faso também inaugurou infraestruturas digitais de última geração, enquanto o Níger anunciou a intenção de se dotar em breve de centros de dados de grande capacidade. Esta dinâmica reflete a vontade comum dos Estados do Sahel de construir uma base digital soberana, assente no alojamento local de dados e na partilha de capacidades técnicas.
No entanto, tal como noutros países africanos, a soberania digital não se limita às infraestruturas. Engloba também aplicações, sistemas operativos, equipamentos e fornecedores de serviços, segmentos ainda largamente dominados por atores estrangeiros.
Embora o desenvolvimento de data centers constitua um avanço estruturante, os desafios relacionados com a cibersegurança, competências locais e surgimento de soluções tecnológicas nacionais permanecem centrais.
A longo prazo, as autoridades malianas estimam que esta infraestrutura poderá contribuir para acelerar o governo eletrónico, apoiar a inovação local e reforçar a atratividade digital do país, ao mesmo tempo que estabelece as bases para uma integração digital mais avançada no espaço da AES.
Samira Njoya
Com os Alsat‑3A e Alsat‑3B, a Argélia consolida a sua constelação de satélites, abrindo novas perspetivas para a observação da Terra, a gestão de recursos e a prevenção de catástrofes.
Duas semanas apenas após o lançamento do satélite Alsat‑3A, a Argélia procedeu, no sábado, 31 de janeiro, à colocação em órbita do satélite Alsat‑3B. A operação decorreu a partir do centro espacial de Jiuquan, no noroeste da China, sob a supervisão do general do Exército Saïd Chanegriha, ministro delegado junto do Ministro da Defesa Nacional e chefe do Estado-Maior do Exército Nacional Popular (ANP), a partir da estação terrestre de sensoriamento remoto em Argel.
«Dou os meus parabéns pessoais aos quadros e aos colaboradores da Agência Espacial Argelina (ASAL), bem como aos serviços do ANP, pela concretização destes projetos. Exorto-os a utilizar os conhecimentos e experiências adquiridos para dominar plenamente estes satélites e prosseguir o desenvolvimento das tecnologias espaciais na Argélia», declarou o general Chanegriha.
Fruto da cooperação entre a ASAL e a China Aerospace Science and Technology Corporation, o Alsat‑3B completa a constelação nacional que já inclui Alsat‑1B, 1N, 2A, 2B e 3A. O satélite fornece imagens de alta resolução, essenciais para a cartografia nacional, modelos digitais de elevação e múltiplas aplicações estratégicas, desde a gestão de recursos naturais à prevenção de catástrofes e monitorização ambiental.
O lançamento do Alsat‑3B desempenha também um papel na soberania digital e estratégica do país, reduzindo a dependência de dados estrangeiros e consolidando a autonomia do Estado. O programa Alsat‑3 insere-se no Programa Espacial Nacional (PSN), que visa explorar o espaço de forma estruturada, pacífica e sustentável, ao mesmo tempo que desenvolve as capacidades nacionais em geo-inteligência e telecomunicações espaciais.
A nível continental, a economia espacial africana deverá atingir 22,64 mil milhões de dólares até 2026, segundo a Space in Africa. Este crescimento responde a desafios estruturais significativos: insegurança alimentar, alterações climáticas, défices de infraestruturas e gestão de catástrofes naturais. As tecnologias espaciais (observação da Terra, telecomunicações via satélite, navegação e posicionamento) oferecem alternativas inovadoras, rentáveis e escaláveis às abordagens tradicionais, melhorando a produtividade agrícola, o planeamento de infraestruturas e a prevenção de riscos.
Para além das aplicações técnicas, o programa Alsat‑3 representa também um motor para o desenvolvimento de competências locais. O envolvimento ativo do ANP e da ASAL na operação e exploração dos satélites contribui para formar uma mão-de-obra especializada, capaz de apoiar a indústria espacial emergente do país e de exportar serviços de alto valor acrescentado para o continente.
Finalmente, esta constelação espacial abre perspetivas para uma cooperação regional reforçada, permitindo à África aproveitar melhor os dados geoespaciais para a segurança alimentar, gestão de recursos e planeamento territorial. A Argélia consolida assim a sua posição entre os principais atores africanos no setor espacial, ao lado de países como Egito, Nigéria e África do Sul, combinando conhecimento nacional, domínio tecnológico e parcerias internacionais.
Samira Njoya
O vandalismo das infraestruturas constitui um dos principais desafios do sector das telecomunicações na Nigéria. Manifesta-se, nomeadamente, através do corte de cabos de fibra óptica, roubo de equipamentos, destruição de torres de telecomunicações, bem como o saque ou roubo de baterias, geradores e combustível diesel.
O regulador nigeriano das telecomunicações está a reforçar a sua luta contra a degradação das infraestruturas de fibra óptica. A atenção centra-se agora nas empresas de construção, empreiteiros e outras partes interessadas cujas obras provocam danos recorrentes na fibra, afetando a qualidade dos serviços prestados aos consumidores.
Neste contexto, a Nigerian Communications Commission (NCC) associou-se ao Nigeria Security and Civil Defence Corps (NSCDC), segundo a imprensa local que cita um comunicado conjunto de domingo, 1 de fevereiro. Os dois organismos pretendem tomar medidas contra quaisquer danos futuros causados às infraestruturas de fibra óptica durante trabalhos de escavação, construção rodoviária ou engenharia civil realizados sem consulta ou coordenação prévia com os operadores de rede e reguladores competentes.
A NCC salienta que os trabalhos de escavação, pavimentação, perfuração e abertura de valas são as principais causas de danos acidentais nos cabos de fibra óptica. Por exemplo, dos mais de 50.000 incidentes de corte de fibra registados em 2024, cerca de 30.000 estavam relacionados com atividades de construção rodoviária levadas a cabo pelas autoridades federais e estaduais.
Esta parceria surge na sequência da criação, em fevereiro de 2025, de um comité interministerial para a proteção da fibra óptica, implementado pelo Ministério Federal de Obras Públicas e pelo Ministério das Comunicações, Inovação e Economia Digital. Composto por membros destes dois departamentos e da NCC, o comité funciona como órgão de coordenação para todas as questões relacionadas com a proteção dos cabos antes, durante e após os projectos rodoviários. Reúne-se regularmente para identificar problemas, definir soluções sectoriais, estabelecer procedimentos e normas de intervenção e partilhar relatórios de desempenho mensais.
Em 26 de maio de 2025, a NCC lançou uma plataforma pública para denúncia destes atos, acessível a todos. Em abril de 2025, os operadores de telecomunicações criaram um grupo sectorial de proteção das infraestruturas para coordenar esforços de prevenção e reação face aos incidentes.
Estas iniciativas sucedem ao decreto de agosto de 2024 assinado pelo presidente Bola Ahmed Tinubu, que declara as infraestruturas de telecomunicações, incluindo a fibra óptica, como Infraestruturas Nacionais Críticas de Informação (CNII). A sua degradação passa a constituir crime, nos termos do Cybercrimes (Prohibition, Prevention, etc.) Act 2015.
«Qualquer pessoa que, intencionalmente, cometa uma infração punível nos termos da presente lei contra uma infraestrutura nacional crítica de informação […] está sujeita, em caso de condenação, a uma pena de prisão até dez anos, sem possibilidade de multa», estipula a lei.
Apesar destes esforços, o vandalismo da fibra óptica continua. A operadora MTN declarou ter sofrido 9.218 cortes de fibra em 2025, ou cerca de 25 por dia. Estes números representam um aumento em relação aos 9.000 incidentes de 2024 e 6.000 de 2023.
Um obstáculo à transformação digital
O vandalismo da fibra óptica pode atrasar a realização das ambições de transformação digital das autoridades nigerianas, que pretendem colocar as TIC ao serviço do desenvolvimento socioeconómico. Segundo a NCC, a fibra óptica é a espinha dorsal das telecomunicações modernas, oferecendo Internet rápida, chamadas claras e serviços digitais fiáveis.
«Ao contrário dos cabos de cobre, a fibra oferece uma largura de banda muito elevada, transmissão rápida e baixa latência. É essencial para comércio, educação, banca, saúde e muitas outras atividades», explica o regulador. Acrescenta, contudo, que mesmo pequenas perturbações podem causar interrupções completas do serviço. Consoante a gravidade e a localização, um único corte pode afetar alguns utilizadores, bairros inteiros ou mesmo vastas regiões.
A proteção da fibra é ainda mais crucial porque o governo lançou um projecto de cerca de 2 mil milhões de dólares para implementar 90.000 km de fibra em todo o país, já concluído em 60%, segundo o ministro das Comunicações, Bosun Tijani. A longo prazo, esta iniciativa deverá melhorar a velocidade e fiabilidade da Internet, elevar a penetração da Internet para mais de 70% e oferecer acesso a milhões de lares, empresas, escolas e hospitais, sobretudo em zonas mal servidas.
O projeto deverá também gerar até 20.000 empregos diretos e mais de 150.000 indiretos, estimulando a inovação. Contribuirá para o crescimento da economia digital nigeriana, com um impacto potencial de 1,5% no crescimento do PIB per capita, elevando o PIB da Nigéria de 472,62 mil milhões de dólares para cerca de 502 mil milhões em quatro anos.
Isaac K. Kassouwi
Segundo a ITIE-Burkina Faso, a mina de ouro Sanbrado foi em 2024 o terceiro maior contribuinte do setor extrativo para o orçamento do país, atrás de Essakane e Houndé, que ocuparam respectivamente o primeiro e o segundo lugares.
No relatório financeiro publicado em 28 de janeiro de 2026, a mineradora australiana West African Resources (WAF) indicou ter pago 100,35 milhões de dólares australianos (69,8 milhões USD) ao Burkina Faso em 2025, referentes a royalties e outros impostos relacionados à produção. Esse valor representa um aumento de 67% em relação aos 59,9 milhões de dólares australianos declarados em 2024, refletindo principalmente dois fatores: a contínua alta do preço do ouro e algumas reformas fiscais no país.
Em 2025, o preço do ouro subiu 67% ao longo do ano, impulsionado por tensões geopolíticas e pelo maior interesse dos investidores nesse ativo de refúgio. O governo burquinense aproveitou essa situação para revisar o regime de royalties sobre o ouro. Antes limitado a 7%, o imposto passou a 8% para preços entre 3.000 e 3.500 USD por onça, aumentando 1% para cada faixa adicional de 500 USD acima desse intervalo.
Esses fatores explicam em grande parte o aumento significativo das receitas do Burkina Faso com a mina Sanbrado em 2025. Segundo a WAF, a reforma fiscal contribuiu para a elevação dos custos de royalties ao longo do ano, incluindo um aumento de 19% no quarto trimestre, em comparação com o trimestre anterior. Vale também destacar que o valor declarado inclui pagamentos feitos para a contribuição ao desenvolvimento comunitário, obrigatória no país.
No Burkina Faso, as empresas com licença mineral devem destinar 1% do faturamento mensal bruto ao Fundo de Desenvolvimento Minerário, destinado a apoiar projetos locais. A WAF não detalhou o valor exato dessa contribuição, mas informou que seu faturamento anual cresceu para 1,08 bilhão de dólares australianos, frente a 723,2 milhões no ano anterior.
2026 começa com mercado de ouro ainda em alta
Além do efeito do aumento do preço do ouro, o crescimento do faturamento da WAF também reflete um aumento de 2% nos volumes de venda em relação a 2024. Os pagamentos ao Burkina Faso não incluem dividendos relativos à participação de 15% do Estado na mina Sanbrado nem outros impostos, como o imposto de renda corporativo.
O mercado de ouro em 2026 permanece favorável: durante um novo rally, os preços atingiram mais de 5.500 USD por onça, recuando depois para 4.800 USD, ainda assim 13% acima dos níveis de início de janeiro. Nessas condições, o Burkina Faso poderia receber royalties de até 11% sobre os rendimentos da Sanbrado.
Operações futuras e expansão
A WAF ainda não divulgou metas de produção para 2026, mas planeja iniciar a produção do depósito satélite Toega no terceiro trimestre. Além da Sanbrado, a mineradora iniciou em 2025 a produção na mina Kiaka, sua segunda operação no país, que terá sua primeira exploração completa em 2026. O Estado burquinense já aposta nessa mina para aumentar suas receitas e pretende elevar sua participação de 15% para 50%.
Em resumo, o aumento do preço do ouro, a reforma fiscal e o crescimento das operações da WAF explicam a forte subida das receitas do Burkina Faso na mina Sanbrado em 2025.
Aurel Sèdjro Houenou
No âmbito da sua estratégia de melhoria do transporte público e de prevenção de riscos de acidentes rodoviários, as autoridades argelinas estão a modernizar a frota nacional de autocarros.
Na Argélia, um primeiro lote de 335 autocarros foi recebido no domingo, 2 de fevereiro de 2026, no porto de Argel, no quadro do programa de importação de 10 000 autocarros para renovar a frota nacional destinada ao transporte coletivo de passageiros. Estas unidades fazem parte de um lote de 6 800 autocarros encomendados na China e na Alemanha.
O plano de aquisição dos 10 000 autocarros foi divulgado no final de 2025, num contexto de acidentes recorrentes envolvendo autocarros, que provocaram várias mortes e feridos. Esta aquisição constitui também a primeira etapa de um programa governamental mais amplo de modernização do transporte público e de substituição dos veículos envelhecidos da frota nacional, estimada no ano passado em cerca de 84 000 autocarros.
O programa de substituição está a ser implementado em paralelo com reformas legislativas, incluindo a revisão do Código da Estrada iniciada em novembro de 2025. O novo texto visa um controlo mais rigoroso de toda a cadeia de segurança: escolas de condução, condutores, veículos e mecanismos de fiscalização. Entre os pontos principais incluem-se exames médicos periódicos e surpresa para condutores profissionais, acreditação de agentes habilitados para investigar acidentes, bem como a dotação das forças de segurança com ferramentas tecnológicas, como testes de deteção de drogas e terminais de pagamento eletrónico para infrações.
De acordo com dados oficiais, os acidentes rodoviários causaram mais de 2 500 mortes e cerca de 20 000 feridos na Argélia em 2024.
Henoc Dossa
Na esteira de Simandou, os projetos de minério de ferro multiplicam-se na África Ocidental. Historicamente dominada pela Libéria, Mauritânia e Serra Leoa, a produção regional regista um crescimento sustentado, impulsionado sobretudo por investimentos chineses.
ArcelorMittal garante o seu futuro na Libéria
A ArcelorMittal anunciou a 30 de janeiro que o parlamento liberiano ratificou um acordo de desenvolvimento mineiro que prolonga a sua presença no país até, pelo menos, 2050. Este acordo protege um investimento de 1,8 mil milhões de dólares destinado a quadruplicar a produção de minério de ferro na Libéria, tornando o grupo de origem indiana uma exceção numa região dominada por atores chineses.
Atualmente principal produtor na Libéria, a ArcelorMittal dispõe de uma capacidade de 5 milhões de toneladas por ano. Desde o início da década de 2020, a empresa lançou um plano para aumentar essa capacidade para 20 milhões de toneladas anuais, com um investimento total de 1,8 mil milhões de dólares. O projeto inclui a modernização do corredor ferroviário Tokadeh–Buchanan e a melhoria das infraestruturas portuárias, com conclusão prevista para 2026.
A longo prazo, o grupo planeia expandir a ferrovia para transportar até 30 milhões de toneladas de minério por ano. De acordo com o acordo com o governo, a ArcelorMittal pagará 200 milhões de dólares à Libéria por direitos mineiros adicionais e acesso à capacidade ferroviária investida. O presidente Joseph Boakai destaca que a implementação de uma ferrovia gerida de forma independente a partir de 2030 aumentará a eficiência e permitirá acesso multi-utilizador.
A ArcelorMittal representa cerca de 90% das exportações liberianas de minério de ferro, segundo o relatório de 2023 da Iniciativa para a Transparência nas Indústrias Extractivas. A crescente importância do grupo deverá elevar a produção nacional de 5,2 milhões de toneladas em 2024 para 18 milhões em 2026.
A China domina a produção regional
O boom na Libéria insere-se num contexto de transformação do setor na África Ocidental. Embora a Serra Leoa, Mauritânia e Libéria tenham historicamente dominado, a Guiné torna-se agora o principal motor com Simandou, cuja produção deverá atingir 120 milhões de toneladas por ano a plena capacidade. No início de 2026, a produção estimada em Simandou é de 35,4 milhões de toneladas.
Os principais investidores de Simandou são chineses: a Baowu Resources aumentou recentemente a sua participação de 49% para 51% no Winning Consortium Simandou, operador dos blocos 1 e 2. Os blocos 3 e 4 são explorados por uma joint venture entre a Rio Tinto e a Chinalco.
Noutros países, a presença chinesa também é significativa: a China Union explora as Bong Mines na Serra Leoa, enquanto a China Kingho Group desenvolve uma mina com produção alvo de 10 milhões de toneladas anuais, extensível a 30 milhões. Na Guiné, a Ivanhoe Atlantic desenvolve o projeto Kon Kweni com produção inicial prevista entre 2 e 5 milhões de toneladas, extensível a 30 milhões.
Um setor orientado para a exportação, pouca transformação local
Na região, o minério de ferro é maioritariamente exportado sem transformação local. Na Guiné, apenas Simandou prevê, a médio prazo, a construção de uma siderurgia ou fábrica de pelotas, segundo o diretor de gabinete do presidente guineense.
Em 2023, África representava 4% da produção mundial de minério de ferro, mas apenas 1,2% da produção mundial de aço bruto. A China, em comparação, detinha 54% da capacidade mundial de produção de aço. O continente continua, portanto, principalmente fornecedor de matérias-primas, enquanto o valor acrescentado é gerado noutros locais, nomeadamente na China e na Europa.
Emiliano Tossou
De acordo com o U.S. Geological Survey, Moçambique é um dos maiores produtores de grafite em África, ao lado de Madagascar e da Tanzânia. Num contexto de mercado difícil, a indústria enfrenta desafios nas suas principais minas.
No final da semana passada, Moçambique inaugurou uma nova unidade de produção de grafite na província de Niassa, com um investimento estimado em 200 milhões de dólares. Este é um passo importante para um setor que vinha a perder ritmo nos últimos anos devido às persistentes tensões no mercado mundial.
Fecho e retoma gradual
Até 2023, a produção de grafite em Moçambique dependia principalmente da mina de Balama, operada pela australiana Syrah Resources, e de Ancuabe, detida pela holandesa AMG. Confrontadas com um mercado em baixa, marcado pela concorrência do grafite sintético e pela diminuição da procura e dos preços do grafite natural, ambas as empresas ajustaram gradualmente as suas estratégias.
Em 2024, a AMG anunciou a saída de Moçambique, fechando a mina de Ancuabe. Quanto a Balama, a mina manteve-se inativa a partir de meados de 2024 e retomou operações apenas em junho de 2025, de forma parcial, com produção ajustada à procura do mercado. Estes movimentos conduziram a uma queda na produção nacional de grafite.
Segundo o U.S. Geological Survey, a produção moçambicana de grafite caiu de 98.000 toneladas em 2023 para 75.000 toneladas em 2024. É neste contexto que surge o projeto Nipepe, liderado pela chinesa DH Mining. Localizada no distrito homónimo, a mina tem uma capacidade média anual de 200.000 toneladas de grafite, com uma vida útil estimada em 25 anos.
O projeto emprega atualmente cerca de 890 pessoas, com uma segunda fase de exploração que deverá elevar este número para 2.000 funcionários. Por agora, poucos detalhes foram divulgados sobre os objetivos de produção para 2026.
Investimento chinês e americano em apoio
Para além do projeto Nipepe, Moçambique conta ainda com outro ativo avançado de grafite: Ancuabe. Situado próximo da antiga mina da AMG, este projeto é operado pela australiana Triton Minerals, que pretende reduzir a sua participação de 100% no ativo. Está em curso um acordo com a chinesa Shandong Yulong, que prevê investir 17 milhões de dólares para adquirir 70% das ações.
Existe a opção de comprar os 30% restantes à Triton, mas ainda não foi tomada decisão. Com esta transação, a empresa chinesa deverá futuramente desenvolver a mina, com produção média anual de 60.000 toneladas de grafite ao longo de 27 anos. A esta presença chinesa juntam-se também interesses americanos em Balama, onde a agência americana Development Finance Corporation (DFC) apoia financeiramente a Syrah Resources nas operações da mina.
Recorde-se que a Syrah Resources planeia «retomar uma utilização mais elevada» das capacidades de Balama assim que a procura por grafite natural aumentar. Considerada a maior mina de África deste mineral usado em baterias de veículos elétricos, Balama tem capacidade de produção de 350.000 toneladas.
Em Moçambique, o grafite é um dos principais produtos minerais, ao lado do carvão e das pedras preciosas, incluindo rubis. O ouro também é produzido, mas em quantidades modestas.
Aurel Sèdjro Houenou
Moçambique LNG retoma oficialmente após quase cinco anos de suspensão
Suspenso durante quase cinco anos devido a uma crise de segurança significativa, o projeto Mozambique LNG vai retomar oficialmente as atividades. Esta retomada segue uma longa trajetória marcada por compromissos industriais e financeiros precoces, uma interrupção abrupta, fortes controvérsias e uma recomposição gradual do quadro do projeto.
Quando a TotalEnergies anuncia, no final de janeiro de 2026, a retomada completa das atividades do projeto Mozambique LNG, o empreendimento sai de um longo período de suspensão anunciado em abril de 2021. Esta retomada ocorre num contexto ainda frágil em Cabo Delgado, mas também após uma série de decisões que progressivamente tornaram quase impossível o abandono do projeto.
Um projeto estruturado desde a origem como ativo estratégico
O Mozambique LNG ganha nova dimensão em 2019, quando a TotalEnergies anuncia a aquisição dos ativos africanos da Anadarko. Em 30 de setembro de 2019, o grupo confirma a finalização da operação e a compra da participação de 26,5% da Anadarko no projeto por 3,9 mil milhões de dólares, tornando-se operador da Área 1 na bacia do Rovuma.
O projeto baseia-se então em dois trens de liquefação com capacidade aproximada de 13 milhões de toneladas por ano, desenvolvidos a partir dos campos Golfinho e Atum. A decisão final de investimento é tomada em junho de 2019, com base num projeto já amplamente assegurado comercialmente. A TotalEnergies indica que cerca de 90% dos volumes estão cobertos por contratos de longo prazo com compradores internacionais, principalmente na Ásia e na Europa.
Uma etapa importante é alcançada em julho de 2020 com a assinatura de um financiamento em dívida sénior de 14,9 mil milhões de dólares, para um investimento total estimado em cerca de 20 mil milhões de dólares. Este financiamento envolve várias agências de crédito à exportação, bancos comerciais e uma instituição multilateral africana. Após o período de força maior anunciado em 2021, a TotalEnergies esclarece, em dezembro de 2025, que alguns apoios públicos não foram reconfirmados, mas que a sua retirada foi compensada por um aporte adicional em capital próprio dos parceiros.
Em 29 de janeiro de 2026, a TotalEnergies anuncia a retomada completa das atividades onshore e offshore. O projeto encontra-se avançado em cerca de 40%, com vários milhares de trabalhadores mobilizados.
Segurança, direitos humanos e contenciosos judiciais
A situação de segurança na província de Cabo Delgado começa a deteriorar-se em 2017, com uma intensificação progressiva dos ataques armados. Em 2020, uma unidade conjunta, a Joint Task Force, é criada no âmbito de um memorando entre a filial moçambicana da TotalEnergies e o Estado moçambicano, para garantir a segurança do sítio de Afungi.
Após os ataques à cidade de Palma em março de 2021, a TotalEnergies evacua o seu pessoal. Em 26 de abril de 2021, o grupo declara força maior e suspende todas as atividades.
O componente judicial abre-se posteriormente com dois processos distintos. Em 2023, sobreviventes e familiares das vítimas do ataque a Palma apresentam uma queixa em França, acusando a TotalEnergies de não ter assegurado a segurança de subcontratados-alvo. Em março de 2025, o Ministério Público de Nanterre abre um inquérito preliminar contra a TotalEnergies, nomeadamente por homicídio involuntário e omissão de auxílio a pessoa em perigo.
Paralelamente, surgem alegações sobre eventos ocorridos entre julho e setembro de 2021 no ou próximo do sítio de Afungi, conhecidos como “container massacre”. Estas acusações são divulgadas a partir de setembro de 2024 pelo Politico e depois retomadas por Le Monde e SourceMaterial.
Em novembro de 2025, o European Center for Constitutional and Human Rights (ECCHR) apresenta uma queixa criminal em França contra a TotalEnergies por cumplicidade em crimes de guerra, tortura e desaparecimentos forçados, junto do Ministério Público Nacional Antiterrorismo. A ONG afirma que a empresa teria fornecido apoio material e logístico à Joint Task Force, apesar de conhecimento prévio de alegadas violações dos direitos humanos.
A TotalEnergies rejeita todas estas acusações e afirma nunca ter tido conhecimento dos fatos alegados. No meio destas controvérsias, a empresa decide encomendar uma missão independente para avaliar a situação em Cabo Delgado. O relatório da missão, publicado em maio de 2023, conduz a um plano de ação e à criação da fundação Pamoja Tunaweza, com um orçamento de 200 milhões de dólares.
Reação política e continuação do projeto
Alguns dias após a apresentação da queixa pelo ECCHR, o presidente moçambicano recém-eleito, Daniel Chapo, nega publicamente quaisquer violações graves de direitos humanos cometidas pelas forças de defesa e segurança em Cabo Delgado. Afirma que as acusações divulgadas pela imprensa internacional “não são verdadeiras” e destaca o envolvimento das autoridades judiciais e da Comissão Nacional de Direitos Humanos na análise dos fatos.
Esta tomada de posição ocorre quando uma parte significativa dos investimentos já foi realizada, os equipamentos principais já foram encomendados e os compromissos contratuais foram mantidos.
A continuação do Mozambique LNG insere-se agora num calendário industrial claramente identificado, com a primeira produção de GNL prevista para 2029, dez anos após a decisão final de investimento. Símbolo de um projeto cujos impactos económicos e financeiros são demasiado grandes para ser abandonado, independentemente dos riscos de segurança ou ambientais.
Abdoullah Diop
Desde há várias semanas que se registam tensões sociais no setor dos hidrocarbonetos no Gabão, evidenciadas pelo depósito de um pré-aviso de greve pelos sindicatos dos trabalhadores da indústria.
Face a estas tensões no setor petrolífero, as autoridades gabonesas decidiram reunir, por instrução presidencial, todos os operadores do setor de petróleo e gás. A iniciativa foi noticiada na quinta-feira, 29 de janeiro de 2026, pela imprensa local.
Esta medida surge num contexto em que os sindicatos que representam os trabalhadores do setor privado apresentaram um pré-aviso de greve, situação que coloca em risco potenciais perturbações num setor chave da economia gabonesa. Segundo o Banco Mundial, a indústria petrolífera representou cerca de 50% das receitas públicas e 65% das exportações nacionais em 2024.
Neste quadro, o Presidente da República, Brice Clotaire Oligui Nguema, recebeu em audiência, na quarta-feira, 28 de janeiro, os representantes sindicais. O encontro visou analisar as suas reivindicações e abrir um quadro de discussões, nomeadamente sobre a regulamentação relativa ao controlo do emprego e aos procedimentos de despedimento no setor. No final destes diálogos, a presidência anunciou encontros destinados a identificar soluções para os litígios em curso, procurando assim apaziguar o clima social e evitar uma paralisação que possa afetar a produção e as receitas públicas.
Segundo as últimas informações da imprensa local, os encontros realizaram-se na sexta-feira, 30 de janeiro, sob a égide do vice-presidente do Governo, Hermann Immongault. Estas negociações resultaram na definição de um calendário até 7 de fevereiro, enquanto as organizações sindicais mantêm o seu pré-aviso de greve.
Intenções governamentais face às fragilidades do diálogo social
As tensões sociais observadas ocorrem num contexto em que o Governo tem manifestado, nos últimos meses, a intenção de rever o enquadramento do emprego nos hidrocarbonetos. Desde outubro de 2025, foi anunciado o objetivo de reduzir a precariedade laboral no setor, com ênfase no controlo das práticas de subcontratação e nos termos contratuais. Também se abordou a aplicação mais rigorosa das normas relativas à prioridade de emprego para a mão-de-obra nacional.
Até ao momento, estas orientações foram apresentadas como metas de política pública, sem que tenha sido formalmente anunciado um novo quadro regulatório ou um calendário de implementação vinculativo.
Paralelamente, o quadro institucional para o diálogo social nos hidrocarbonetos foi relançado através da Comissão Nacional do Diálogo Social nos Hidrocarbonetos, reunindo Estado, empresas operadoras e sindicatos. Contudo, este processo revelou limitações.
Como noticiou a Agência Ecofin, em outubro de 2025, a TotalEnergies EP Gabon, um dos principais operadores do setor, não se apresentou a uma sessão desta comissão dedicada ao emprego e à subcontratação. Esta ausência foi interpretada pelos sindicatos como um sinal das dificuldades persistentes em estabelecer um diálogo social eficaz e inclusivo na indústria petrolífera.
Abdel-Latif Boureima
A Carlyle estava a ponderar a possibilidade de adquirir os ativos petrolíferos da Lukoil no estrangeiro desde meados de novembro de 2025. Na altura, o fundo norte-americano indicou que se encontrava no início de um processo para avaliar a viabilidade da operação.
Enquanto várias empresas manifestaram interesse nos seus ativos internacionais, o grupo petrolífero russo Lukoil, presente em diversos países africanos, anunciou um acordo de princípio com o fundo norte-americano The Carlyle Group para a sua venda.
Num comunicado publicado na quinta-feira, 29 de janeiro, o grupo indicou ter chegado a um acordo com a Carlyle relativo à venda da Lukoil International GmbH, a subsidiária que concentra quase todos os seus ativos fora da Rússia.
O âmbito da transação inclui os interesses da empresa, as suas instalações e operações fora da Rússia, nomeadamente em África, Europa, Médio Oriente, Ásia Central e América Latina. Os ativos localizados no Cazaquistão estão excluídos da operação, precisou a empresa.
Outro ponto importante é que o acordo com a Carlyle não é exclusivo, permitindo à Lukoil continuar a negociar com outros potenciais compradores interessados na aquisição destes ativos.
Além disso, o grupo não divulgou o montante potencial da transação nem a data prevista para a sua finalização. Segundo informações de vários meios internacionais, os ativos da Lukoil no estrangeiro estão avaliados em cerca de 22 mil milhões de USD, incluindo vários campos petrolíferos, refinarias, estações de serviço e atividades de trading.
Esta operação surge num contexto em que o grupo russo tinha previamente aceite uma oferta da Gunvor para a compra de todos os seus ativos internacionais. Uma proposta que, conforme reportou a Agência Ecofin em outubro de 2025, estava sujeita a várias condições suspensivas, incluindo a obtenção de autorização do Office of Foreign Assets Control (OFAC), o organismo norte-americano responsável pela aplicação de sanções. No início de novembro, a Gunvor retirou-se do processo, segundo a mesma fonte.
Pelo menos mais dez empresas, além da Gunvor e da Carlyle, manifestaram interesse nestes ativos. Entre elas estão as multinacionais norte-americanas Chevron e ExxonMobil, bem como empresas do Golfo, incluindo Midad Energy (Arábia Saudita) e International Holding Company (Emirados Árabes Unidos), citadas pela Reuters.
Tal como no caso da Gunvor, a transação com a Carlyle está sujeita à obtenção das autorizações regulatórias necessárias, incluindo a aprovação do OFAC, precisou a Lukoil. A finalização da operação depende desta etapa.
Abdel-Latif Boureima