Carrefour, um dos líderes da grande distribuição na Europa, ambiciona expandir-se em África
Ser um dos grandes pesos da distribuição em França já não basta ao Carrefour. O gigante francês pretende também tornar-se líder do setor no continente africano nos próximos quatro anos. Este é um dos muitos objetivos da empresa, que revelou, na quarta-feira, 18 de fevereiro, o seu plano estratégico “Carrefour 2030”, destinado a acelerar o crescimento e melhorar a rentabilidade.
Mais concretamente, a empresa visa uma presença total em 22 países africanos, dos 45 que integra no seu plano de expansão internacional.
Uma ofensiva já em curso
O grupo francês, presente em África há mais de duas décadas através de acordos de franquia, não pretende mudar a sua receita. Embora não tenha divulgado mais detalhes, nos últimos três meses marcou posição ao associar-se a novos parceiros com forte presença local ou regional, para expandir as suas atividades.
Em janeiro, anunciou na Etiópia um acordo de franquia e fornecimento com a Queens Supermarket PLC, subsidiária do grupo privado local Midroc Investment Group. Este acordo prevê a conversão de 13 supermercados existentes para a marca Carrefour em 2026 e, até 2028, a abertura de 17 novas lojas. Em dezembro de 2025, o Carrefour associou-se à Brands For All no Gana para implementar lojas, know-how e produtos sob a sua marca. Este acordo permitirá assumir e rebrandizar 7 lojas do distribuidor sul-africano Shoprite até abril do próximo ano.
Estes novos parceiros juntam-se a colaboradores de longa data, como o conglomerado de Dubai Majid Al Futtaim (MAF), que gere lojas no Egito, Quénia, Uganda, Médio e Próximo Oriente, e a CFAO Retail, que opera em África francófona (República Democrática do Congo, Gabão, Camarões e Senegal).
Além disso, o grupo conta com parceiros franchisados na Tunísia (Ulysse Hyper Distribution), Argélia (Hyper Distribution Algérie) e Marrocos (Label’Vie). No total, o Carrefour possui cerca de 700 lojas em África.
Um rival sério para o Shoprite?
Enquanto o plano de expansão africano do Carrefour se desenrola, a empresa terá de enfrentar um concorrente já bem estabelecido: o sul-africano Shoprite. Líder incontestável da grande distribuição alimentar no continente, o grupo operava 3.478 lojas em 2025 (incluindo África do Sul) e registou vendas superiores a 250 mil milhões de rands (cerca de 15,6 mil milhões de dólares).
No entanto, as estratégias dos dois grupos diferem claramente. O Shoprite apostou durante muito tempo na expansão direta, antes de reduzir a presença em vários países onde o retorno sobre o investimento se mostrou insuficiente: saída da Nigéria, Quénia, Uganda, RDC, Madagascar, e venda das operações no Gana e Malawi para se concentrar no mercado doméstico e em alguns países da África Austral considerados mais estáveis.
O grupo opta por uma estratégia de consolidação em vez de expansão indiscriminada. O Carrefour, por seu lado, adota um modelo de menor capital próprio, apoiado em parceiros regionais, procurando ocupar os espaços deixados pelo gigante sul-africano, especialmente no Gana.
Espoir Olodo
Na Costa do Marfim, o setor agrícola representa cerca de 15% do PIB e emprega aproximadamente 46% da população ativa. No âmbito da sua política de soberania alimentar, o governo apoia ativamente o desenvolvimento da produção agrícola no país.
No dia 17 de fevereiro, a Agência Nacional de Apoio ao Desenvolvimento Rural (ANADER) anunciou a adoção do seu novo plano estratégico de desenvolvimento para o período 2026-2030. Este plano, com um custo total estimado em 167,42 bilhões de francos CFA (aproximadamente 300 milhões de dólares), tem como objetivo reforçar a produtividade agrícola e promover a resiliência das populações rurais.
Eixos estratégicos do plano
De acordo com a Agência Ivoirienne de Imprensa (AIP), este plano estratégico assenta em cinco eixos principais, nomeadamente:
Reforçar a competitividade agrícola,
Intensificar e personalizar o aconselhamento aos produtores,
Facilitar o acesso a insumos e à mecanização,
Desenvolver um quadro rural integrado, com a estruturação das organizações profissionais, a sensibilização para a saúde comunitária e a nutrição,
Apoiar as autoridades locais na sua planificação e desenvolvimento territorial.
Objetivos de rendimento e modernização
O plano tem como alvo principal culturas alimentares estratégicas, como o arroz, o milho, a mandioca, os cultivos hortícolas, assim como a pecuária de bovinos, ovinos e suínos. O objetivo é aumentar os rendimentos e as superfícies cultivadas, enquanto se modernizam as práticas agrícolas e pecuárias. A ANADER prevê, por exemplo, aumentar o rendimento da mandioca de 22 para 45 toneladas por hectare e o rendimento do arroz de 4 para 8 toneladas por hectare.
Para alcançar esses objetivos, a ANADER irá colocar ênfase na modernização das práticas agrícolas, adotando soluções como a digitalização das operações no terreno, o uso de drones, a mecanização das explorações agrícolas e um reforço do ancoramento territorial com as suas 60 zonas de intervenção e 1.100 centros rurais por todo o país.
Dependência das importações alimentares
Apesar desses esforços em favor da soberania alimentar, a Costa do Marfim continua a ser fortemente dependente das importações de produtos alimentares. De acordo com um relatório publicado pela CNUCED em julho de 2025, a Costa do Marfim importou cerca de 2,89 bilhões de dólares de produtos agrícolas e alimentares entre 2021 e 2023. Entre as principais importações, encontram-se o arroz, as carnes e miudezas comestíveis, que são precisamente os setores visados pelo novo plano da ANADER.
Um país em busca de segurança alimentar
Apesar do seu potencial agrícola, a Costa do Marfim está classificada como o segundo país da África Ocidental com as maiores despesas em importações alimentares, depois da Nigéria. O governo, através da ANADER, procura reduzir esta dependência e aumentar a produção local para melhorar a segurança alimentar do país.
Stéphanas Assocle
No Burkina Faso, o setor pecuário contribui com 12% para o PIB e ocupa cerca de 72% da população. A avicultura é um componente importante deste setor, concentrando sozinha quase metade do rebanho.
No Burkina Faso, a Câmara de Comércio e Indústria do Burkina Faso (CCI-BF) realizou, no dia 17 de fevereiro, a inauguração oficial de uma granja avícola localizada em Tolotama, no município de Bobo-Dioulasso. Segundo as informações divulgadas pela mídia local Ouest Info, esta nova instalação, cujo custo de construção é estimado em 700 milhões de francos CFA (aproximadamente 1,2 milhão de dólares), é obra da empresa Pharmapath Burkina.
Nomeada "Poulet et l'Œuf" (Frango e Ovo), esta granja, que ocupa uma área de 2 hectares, será dedicada à produção de pintos e ovos férteis de qualidade, destinados ao abastecimento dos criadores de aves. De acordo com Alidou Ouédraogo, coordenador da Pharmapath Burkina, está prevista a produção de um milhão de ovos férteis já em 2026, com o objetivo de duplicar esse estoque em 2027.
“A nossa visão, através deste projeto, é permitir que o consumo de frango não seja um luxo reservado para ocasiões especiais ou para os mais abastados, mas que cada burquinês possa consumir ao menos um pedaço de frango por dia”, explicou o responsável.
Um ambiente favorável para o surgimento de campeões locais
O lançamento desta granja ocorre em um contexto favorável, que melhora a competitividade dos produtores locais de pintos. O governo burquinês suspendeu, em 3 de outubro de 2025, a importação de pintos de corte. Esta medida visa estimular a produção interna, proteger a cadeia avícola e reforçar a soberania alimentar. Ela cria um ambiente onde iniciativas privadas, como a Pharmapath Burkina, podem se desenvolver em um contexto de crescente demanda de consumo com o aumento da população.
Os dados compilados na plataforma Trade Map indicam, por exemplo, que o Burkina Faso importou anualmente, entre 2020 e 2024, pinto de corte no valor médio de 736.000 dólares, com um pico de 1,06 milhão de dólares em 2024. De acordo com os fluxos de importação, o Marrocos, a Bélgica, a França e a Turquia estavam entre os principais fornecedores estrangeiros para o país em 2024.
Para recordar, a produção de pintos de um dia é fundamental para sustentar a criação de frangos de corte, destinados à produção de carne. No Burkina Faso, o rebanho contava com cerca de 71 milhões de cabeças de animais em 2023, dos quais 49,5% eram aves, segundo os dados compilados pelo Instituto Nacional de Estatística e Demografia (INSD).
Stéphanas Assocle
Uganda: a indústria aquícola é a mais desenvolvida na África Oriental e o governo aposta em novas oportunidades comerciais para atrair mais investimentos e melhorar o desempenho do setor.
O Uganda pode agora exportar peixe proveniente da aquicultura para a União Europeia a partir de 18 de fevereiro de 2026. O anúncio foi feito a 28 de janeiro, no Regulamento de Execução da Comissão Europeia, que atualiza a lista de países não membros autorizados a enviar certos produtos de origem animal para o mercado europeu.
De acordo com as autoridades, o Uganda poderá exportar inicialmente até 4.000 toneladas por ano de peixe, um volume que poderá ser reavaliado nos próximos anos à medida que os sistemas de inspeção e regulação forem reforçados. Vale destacar que as principais espécies de peixe cultivadas em aquicultura no país são o tilápia e o peixe-gato.
Em declarações sobre o assunto, divulgadas pelo meio local Daily Monitor a 18 de fevereiro, Joseph Bwanika, comissário de Aquicultura e Regulação das Pescas do Ministério da Agricultura, afirmou que o governo iniciou um levantamento dos produtores para avaliar os volumes disponíveis e preparar as primeiras expedições previstas para o final de 2026.
Este acesso ao mercado europeu deve melhorar a contribuição da piscicultura nas receitas de exportação de produtos pesqueiros. Segundo dados compilados na plataforma Trade Map, a UE comprou, por exemplo, cerca de 68.097 toneladas de peixe, com um valor estimado de 521,8 milhões de dólares no mercado internacional em 2024.
Por outro lado, a perspectiva de aceder a um novo mercado pode estimular investimentos no setor aquícola em expansão. As autoridades estimam que o acesso à UE pode gerar um aumento de 40 a 60% nas receitas de exportação relacionadas com a aquicultura e atrair novos investimentos na transformação e nas infraestruturas da cadeia de frio. "O acesso aos mercados premium europeus incentivará uma produção de qualidade e fortalecerá toda a cadeia de valor aquícola", afirmou Bwanika.
De acordo com dados da FAO, a produção aquícola no Uganda foi de 130.000 toneladas em 2023.
Stephanas assocle
Ghana e Costa do Marfim representam cerca de 60% da produção mundial de cacau
A Costa do Marfim e o Gana são responsáveis por cerca de 60% da produção mundial de cacau. Cada um desses países enfrenta desafios no segmento de comercialização das sementes de cacau.
Na Costa do Marfim, as autoridades podem seguir o exemplo do Gana e reduzir o preço do cacau à beira do campo. Segundo a Reuters, em 18 de fevereiro, fontes próximas ao assunto, que pediram anonimato, informaram que um comitê interministerial se reuniu para discutir a questão e uma decisão deve ser tomada em breve.
Se essa medida for confirmada, ela marcará o fim do impasse entre o Conselho Café-Cacau (CCC) e os negociantes, que têm solicitado a redução dos preços de compra, atualmente fixados em 2.800 Fcfa/kg (cerca de 5.000 dólares por tonelada), devido à queda de cerca de 70% nos preços internacionais desde o pico de final de 2024.
Redução de preços no Gana e a espera pela Costa do Marfim
O Gana anunciou, uma semana antes, uma redução de 28,6% nos preços de compra, fixando-os em 41.392 cedis (3.764 dólares por tonelada) para o restante da temporada 2025/2026. Na Costa do Marfim, nenhum detalhe sobre a amplitude de uma possível redução foi revelado.
Porém, os observadores acreditam que uma possível redução no preço na Costa do Marfim deve ser semelhante, ou pelo menos próxima, à do Gana, para evitar que o cacau marfinense seja desviado para o ex-Ghana (atualmente Gana). Em relação ao momento da redução, alguns analistas acreditam que a diminuição poderia ser implementada durante a campanha intermediária, que começará em abril e terminará em setembro.
Costa do Marfim-Gana: uma aliança à prova de fogo?
Enquanto aguardam mais detalhes do governo marfinense ou do regulador da cadeia de cacau, os analistas concordam que a crise atual testará a força da cooperação entre os dois países produtores de cacau.
Desde 2017, os dois gigantes da indústria do cacau, que juntos representam 60% da oferta mundial, aproximaram-se para enfrentar a crise de preços e ter maior influência no mercado, além de obter uma fatia melhor da cadeia de valor global do cacau.
Essa aliança lutou e obteve, em 2020/2021, a implementação de um diferencial de receita de 400 dólares por tonelada comprada pelos traders mundiais, com o objetivo de melhorar as condições de vida dos produtores.
Com a nova queda nos preços, os olhares estão voltados novamente para esses dois países, cujos sistemas de comercialização são diferentes (totalmente liberalizado na Costa do Marfim e parcialmente aberto aos privados no Gana).
A coordenação eficaz no nível dos preços será determinante nos próximos meses. De acordo com Alex Assanvo, secretário-executivo da Iniciativa Cacau Costa do Marfim-Gana (ICCIG), os dois países podem discutir essas questões em uma reunião futura.
“A organização continua mobilizada para coordenar as políticas nos dois países”, disse ele à Reuters, acrescentando que todos os atores do setor serão reunidos para examinar a evolução do mercado e propor melhorias nos mecanismos de estabilização dos preços.
Espoir Olodo
O trigo é a segunda cereal mais consumida no mundo, depois do milho. A Índia é o segundo maior produtor dessa planta.
A Índia, que é o segundo maior produtor mundial de trigo, anunciou a retomada de suas exportações de trigo em 2026, após mais de três anos de interrupção. De acordo com informações divulgadas pela firma de análise Platts, as autoridades indianas aprovaram, em 13 de fevereiro de 2026, a liberação de 2,5 milhões de toneladas de trigo e 500.000 toneladas de produtos derivados para o mercado internacional. Esta decisão encerra um período de restrições iniciado em 2022, que visava conter o aumento dos preços internos da grão, que estava pressionado por uma oferta limitada.
Aumento da produção e estabilização dos preços
Com a disponibilidade aumentada de estoques e previsões de uma produção recorde, o governo indiano decidiu permitir a exportação do trigo, com o objetivo de estabilizar os preços internos, melhorar a liquidez do mercado e garantir uma rotação eficiente dos estoques. A medida também visa apoiar os agricultores locais, aumentando sua renda enquanto assegura a segurança alimentar nacional.
O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) projetou uma colheita recorde de 117,9 milhões de toneladas de trigo na Índia para a temporada 2025/2026, superando a produção de 113,2 milhões de toneladas do ano anterior.
O impacto no mercado global
A decisão de reabrir as exportações é vista com otimismo pelos atores locais, mas alguns analistas têm reservas. Embora o mundo tenha vivido um aumento nos preços do trigo devido à guerra na Ucrânia em 2022, as condições mudaram desde então. A produção global de trigo está em níveis elevados e a pressão sobre os preços diminuiu. A produção global de trigo é projetada para atingir um novo recorde de 841 milhões de toneladas para a temporada 2025/2026, o que pode fazer com que as exportações indianas não tenham um impacto significativo nos preços internacionais.
Apesar de ser o segundo maior consumidor e produtor de trigo, a Índia é um exportador menor em comparação com gigantes como Rússia, Canadá, Austrália e Ucrânia. O preço do trigo indiano está atualmente em torno de 280 a 290 dólares por tonelada, considerado menos competitivo do que o trigo de outros países produtores.
Essa retomada das exportações indiana deve ser limitada a mercados próximos, à medida que as ofertas mais baratas de outros países, como a Argentina, mantêm a competitividade global.
Espoir Olodo
O relatório apela aos governos africanos e seus parceiros de desenvolvimento para aumentarem os investimentos em bancos de genes, fortalecerem as capacidades científicas e técnicas na conservação das espécies ameaçadas e apoiarem os agricultores e as comunidades como guardiões da diversidade genética vegetal.
A África está perdendo sua diversidade genética vegetal a um ritmo alarmante, o que representa uma séria ameaça para a segurança alimentar, os meios de subsistência das populações e a capacidade dos sistemas agrícolas de resistir aos choques climáticos. Este é o alerta feito por um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) na quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026.
O relatório intitulado "The Third Report on the State of the World’s Plant Genetic Resources for Food and Agriculture" destaca que as variedades locais de plantas cultivadas, as espécies selvagens relacionadas a plantas cultivadas e as plantas selvagens consumidas como alimentos estão desaparecendo mais rapidamente do que estão sendo conservadas.
Várias variedades de culturas adaptadas às condições climáticas da África, desenvolvidas e transmitidas por agricultores ao longo de muitas gerações, estão desaparecendo das lavouras, reduzindo as opções para os agricultores africanos à medida que as secas e as altas temperaturas se tornam mais frequentes e intensas. Isso inclui variedades de culturas de base como sorgo, milho, mandioca, arroz e algodão tradicional. Estas culturas locais frequentemente são mais bem adaptadas aos solos e ao clima do que as variedades comerciais, que nem sempre foram selecionadas para as condições agroecológicas específicas da África.
O relatório também destaca o declínio das plantas alimentícias selvagens, que fornecem nutrientes essenciais e servem como uma rede de segurança alimentar em tempos de escassez. Entre essas plantas estão o baobá, o karité, o marula, o tamarindo e o mangueiro africano (Irvingia gabonensis), além de vegetais folhosos nativos como o amaranto, a morela africana e as folhas de feijão-caupi.
Capacidade de conservação insuficiente
De acordo com o relatório, mais de 70% das plantas alimentícias selvagens avaliadas na África estão ameaçadas de extinção, com variações de 72% na África Subsaariana a 77% na África do Norte, devido principalmente à perda de habitat natural, mudanças no uso da terra e o impacto das mudanças climáticas. O ritmo de declínio dessas plantas é duas vezes mais rápido do que a média global.
Além disso, o relatório destaca a perda de várias espécies selvagens relacionadas a plantas cultivadas, como o sorgo, o milho, o arroz, a mandioca, o feijão-caupi e a berinjela africana. Essas plantas selvagens oferecem recursos genéticos essenciais para a seleção de culturas mais produtivas e resistentes às mudanças climáticas, pragas e doenças. Mais de 70% dessas espécies estão ameaçadas de extinção.
Outro dado alarmante é que as bancos de genes africanas conservam apenas cerca de 14% das espécies selvagens relacionadas às plantas cultivadas, o que expõe a perda irreversível de características adaptativas importantes, à medida que as mudanças climáticas aceleram a extinção dessas espécies.
Ação urgente necessária
A FAO faz um apelo urgente para uma ação coordenada dos governos africanos e seus parceiros de desenvolvimento para investir mais na conservação de recursos fitogenéticos. Isso inclui o fortalecimento das capacidades científicas e técnicas para a conservação de espécies vegetais ameaçadas, o apoio a sistemas semeadores e bancos de genes, e o reconhecimento do papel crucial dos agricultores e das comunidades como guardiões da diversidade genética vegetal.
A FAO enfatiza que, sem uma intervenção urgente, a perda contínua da diversidade genética vegetal na África comprometerá não só a segurança alimentar no continente, mas também a resiliência dos sistemas agrícolas face às mudanças climáticas.
Walid Kéfi
Alemanha: Bayer propõe acordo de 7,25 bilhões de dólares para resolver litígios sobre o Roundup nos EUADesde 2018, a Bayer, gigante química alemã, está envolvida em litígios nos EUA relacionados ao Roundup, o herbicida mais utilizado no mundo. Sete anos depois, parece que a empresa finalmente vê um caminho mais claro à frente.
Para encerrar as disputas legais nos EUA, a Bayer está novamente disposta a abrir o seu cheque. Na terça-feira, 17 de fevereiro de 2026, o grupo alemão propôs um plano de compensação de 7,25 bilhões de dólares para resolver « as reclamações atuais e futuras » ligadas às ações coletivas sobre o caráter cancerígeno do glifosato.
O princípio ativo do herbicida Roundup, produzido pela Monsanto, que a Bayer comprou em 2018, é acusado de ter causado em seus usuários o desenvolvimento de linfoma não-Hodgkiniano (LNH), um tipo de câncer do sistema linfático.
No âmbito deste programa coletivo, o grupo explica que serão realizados pagamentos anuais, limitados e progressivamente decrescentes, ao longo de um período que pode chegar a 21 anos.
Além disso, essa proposta, que foi aceita pelos principais escritórios de advocacia que representam os reclamantes, ainda precisa ser validada por um tribunal no estado americano do Missouri, terra natal da Monsanto.
« O acordo proposto, juntamente com o processo perante a Suprema Corte, oferece uma via essencial para sair da incerteza judicial e nos permite focar completamente nas inovações que estão no centro da nossa missão: saúde para todos, fome para ninguém », disse Bill Anderson, CEO da Bayer.
Fim do pesadelo jurídico à vista?
Essa quantia anunciada se somaria aos 10 bilhões de dólares já pagos pelo gigante de Leverkusen para resolver cerca de 130.000 reclamações por meio de acordos extrajudiciais. Mas isso parece ser apenas uma parte da estratégia.
Na Bayer, celebra-se uma vitória parcial. Em janeiro passado, a Suprema Corte dos EUA anunciou que estava disposta a examinar os argumentos da empresa contra as reclamações dos usuários do Roundup, e uma decisão deve ser tomada até junho.
« A decisão da Suprema Corte de revisar este caso é uma boa notícia para os agricultores americanos, que precisam de clareza regulatória. Ela também representa um passo importante em nossa estratégia multidimensional para conter de forma significativa esse litígio. Já está na hora do sistema judicial americano estabelecer que as empresas não devem ser punidas pelas leis estaduais quando cumprem as exigências federais de rotulagem e advertências », comemorou Anderson.
Desde a finalização da aquisição da Monsanto por 63 bilhões de dólares, a empresa sempre negou os riscos relacionados ao câncer pelo Roundup, e a linha de defesa não mudou.
« A Monsanto conduz as ações relacionadas ao Roundup apenas para conter o litígio, e os acordos de compensação não envolvem qualquer reconhecimento de responsabilidade ou culpa. Na verdade, os principais reguladores mundiais, incluindo a EPA dos EUA e os órgãos reguladores da UE, continuam a concluir, com base em um amplo corpo científico, que os herbicidas à base de glifosato [...] não são cancerígenos », destaca o grupo.
Possível futuro sem mais litígios
De acordo com analistas, uma decisão favorável da Suprema Corte poderia levar ao arquivamento de milhares de processos contra a empresa e bloquear futuras reclamações. Com tal perspectiva, a Bayer não precisaria mais considerar a falência de sua operação agroquímica Monsanto. Um artigo do Wall Street Journal, publicado em maio de 2025, revelou que a empresa alemã estava considerando declarar falência para a sua filial Monsanto caso o seu plano de resolução das queixas não fosse bem-sucedido.
Esperança Olodo
Na África Ocidental, o Gana é o 4.º maior produtor de tomate, depois da Nigéria, da Guiné e do Níger. Embora o país ainda importe parte das suas necessidades de concentrado de tomate do mercado internacional, as perspetivas de investimento na indústria local continuam promissoras.
No Gana, a GB Foods Africa, filial africana do grupo espanhol GB Foods, ativo na produção e comercialização de bens de consumo relacionados com a culinária, adquiriu recentemente uma concessão de cerca de 2.428 hectares localizada nas Afram Plains, na região do Leste. O anúncio foi feito num comunicado publicado a 17 de fevereiro pelo Ministério do Comércio, Agronegócio e Indústria, que especifica que esta concessão será dedicada ao cultivo de tomates industriais em benefício da GB Foods Gana, filial local do grupo espanhol.
Com esta aquisição, a GB Foods planeia instalar uma das suas maiores quintas na África Ocidental. Este investimento, cujo custo e modalidades de exploração não foram divulgados, sugere a intenção da empresa de melhorar o seu abastecimento em matéria-prima para aumentar a produção de concentrado de tomate no país.
É de notar que a GB Foods opera desde 2023 uma unidade de transformação de tomate em Tema. Com um custo total de 5 milhões de dólares, esta unidade industrial permite à empresa produzir e comercializar as suas marcas de concentrados de tomate «Gino» e «Pomo» no país.
«Para nós, trata-se de desenvolver a indústria onde operamos. Não se trata de importar; trata-se de reforçar a capacidade local», declarou Vicenç Bosch, CEO da GB Foods Africa. O interesse da GB Foods em aumentar a produção de concentrado de tomate visa continuar a sua conquista do mercado ganês, substituindo progressivamente as importações.
Os dados compilados pela FAO mostram, por exemplo, que a antiga Costa do Ouro importou, em média, cerca de 54.361 toneladas de polpa de tomate por ano entre 2020 e 2024. Paralelamente, a fatura associada a estas compras atingiu, em média, 54,4 milhões de dólares por ano no mesmo período, com um pico de 85,4 milhões de dólares registado em 2024.
Stéphanas Assocle
A África Ocidental é a segunda região importadora de produtos lácteos em África, depois da África do Norte. Na Guiné, como em alguns países da sub-região, o governo está a trabalhar para melhorar a produtividade do gado com o objetivo de reduzir essa dependência.
Na Guiné, o Ministério da Pecuária anunciou na segunda-feira, 16 de fevereiro, ter assinado uma parceria com a empresa brasileira Rio Verde Group para reforçar a produtividade e a produção animal, nomeadamente em carne e leite, através de uma transferência de tecnologias e competências.
Em um comunicado publicado no seu site, o ministério indica que este acordo permitirá introduzir mais de 2.000 vacas de raças puras brasileiras no Centro de Apoio e Demonstração em Pecuária (CAE) de Boké, a fim de estimular o gado nacional e melhorar o seu desempenho.
"Com o grupo Rio Verde, trata-se, entre outras coisas, de importar raças puras do Brasil para realizar inseminação artificial através da tecnologia, mas também de proceder à transferência de embriões e estabelecer um laboratório que permita, com os técnicos do Ministério da Pecuária, realizar todas essas técnicas de transferência de embriões para o país", explica Félix Lamah, Ministro da Pecuária.
É importante notar que o Brasil tem uma boa reputação pelo potencial genético das suas raças bovinas adaptadas para pecuária em ambientes tropicais e ocupa uma posição dominante no mercado mundial de produtos derivados.
Os dados compilados pela FAO mostram, por exemplo, que o país sul-americano é o segundo maior produtor mundial de carne bovina, depois dos EUA, e o maior exportador mundial. O Brasil também é o 5º maior produtor mundial de produtos lácteos, após a Índia, os EUA, o Paquistão e a China.
Globalmente, a parceria com a Rio Verde vem concretizar a cooperação entre Conacri e Brasília na melhoria genética do gado. Já em outubro de 2025, o Ministério da Pecuária anunciava o apoio da Agência Brasileira de Cooperação no âmbito da implementação do programa de melhoria genética da raça N’Dama.
A parceria também ajudará a apoiar os esforços para melhorar a produtividade do gado nacional. Assim, no âmbito de uma parceria com a FAO, o Ministério da Pecuária lançou, por exemplo, em novembro de 2025, um programa de inseminação artificial de 1.000 vacas no distrito de Dubréka. O objetivo era cruzar a raça local N’Dama com a Montbéliarde, uma raça francesa polivalente, conhecida por fornecer tanto leite de alta qualidade quanto carne apreciada.
Uma tendência sub-regional
Mais amplamente, a cooperação entre Conacri e o Brasil na melhoria genética do gado bovino não é um caso isolado na África Ocidental. Em janeiro deste ano, o Burkina Faso, através do seu Ministério da Agricultura, revelou um programa de importação de 710 vacas gestantes de raças bovinas Guzerá, Gir, Holstein e Nelore com alto potencial para a produção de leite e carne, vindas do Brasil. O anúncio foi feito após discussões realizadas em junho de 2025 com o Instituto Daniel Franco (IDF), reconhecido no Brasil pela sua experiência em seleção animal e pecuária sustentável.
Um pouco antes, em novembro de 2024, o governo senegalês também anunciou a importação de 1.000 cabeças de gado da raça Guzerá, com alto potencial para carne, do Brasil, no âmbito de uma parceria público-privada. Tal como na Guiné, a ambição declarada desses dois países é melhorar a produtividade do seu gado através da melhoria genética, com o objetivo de aumentar a oferta local de carne bovina ou de leite.
Os dados compilados pela FAO mostram, por exemplo, que a Guiné importou cerca de 9.373 toneladas de produtos lácteos (leite cru, leite inteiro, manteiga, iogurte, etc.) em média por ano entre 2020 e 2024. Paralelamente, a fatura associada a essas compras foi de cerca de 20,66 milhões de dólares, em média, por ano no mesmo período.
Stéphanas Assocle
Na Costa do Marfim, o setor agrícola representa 15% do PIB e emprega cerca de 46% da população ativa. Como em muitos países africanos, a gestão das perdas pós-colheita é um desafio constante que afeta a segurança alimentar e a renda dos agricultores.
A União das Sociedades Cooperativas Agrícolas da Costa do Marfim (USCOCI‑COOP‑CA) iniciou, no dia 14 de fevereiro, um projeto de construção de 80 armazéns agrícolas em todo o país. Com um custo total de 50 bilhões de francos CFA (aproximadamente 90,3 milhões de dólares), esta iniciativa é financiada por um consórcio financeiro internacional, denominado Rascom, com sede no Cabo, África do Sul, e origem australiana.
O primeiro armazém, com capacidade para 9.000 toneladas, será construído em Toutoubré, perto de Gagnoa, e será dedicado ao armazenamento e processamento de cacau, café, caju e produtos alimentares. O objetivo do projeto é reduzir as perdas pós-colheita, melhorando a conservação, valorização e comercialização dos produtos agrícolas.
Este investimento complementa os esforços já realizados pelo governo e seus parceiros, como o acordo com a empresa canadense O5 Technologies para a implementação de plataformas logísticas alimentadas por energia renovável, que visa reduzir as perdas pós-colheita.
Na África Subsaariana, as perdas pós-colheita podem atingir até 50% para alguns produtos, com consequências econômicas e nutricionais significativas. O novo projeto da Costa do Marfim busca melhorar a segurança alimentar e a sustentabilidade das atividades agrícolas no país.
Stéphanas Assocle
No Gana, o cacau continua a ser a principal força motriz das exportações agrícolas. Contudo, o país dispõe também de vantagens significativas em outras culturas arbóreas, que ocupam um lugar crescente no comércio externo, mas cujo potencial permanece largamente subexplorado.
No Gana, a Autoridade para o Desenvolvimento das Culturas Arbóreas (TCDA – Tree Crops Development Authority) organiza de 17 a 20 de fevereiro o 1.º Cimeira Ganesa sobre Investimento em Culturas Perenes (GTCIS). A instituição pretende, através desta iniciativa, mobilizar 100 milhões de USD em compromissos de investimento para cada uma das seis cadeias estratégicas de culturas arbóreas que regula, perfazendo um total de 600 milhões de USD. As cadeias abrangidas são: caju, palma de óleo, seringueira, coco, karité e manga.
Sob o tema «Crescimento sustentável através de investimentos em culturas perenes: reiniciar e construir a economia verde do Gana», o GTCIS espera atrair mais de 6 000 participantes, incluindo investidores institucionais, instituições de financiamento do desenvolvimento, operadores agroindustriais, decisores políticos e parceiros comerciais vindos de África e de outras regiões.
A TCDA aposta nesta afluência para estabelecer parcerias e garantir os compromissos financeiros necessários ao desenvolvimento das cadeias. Segundo informações veiculadas pelos meios de comunicação locais, estes financiamentos, se obtidos, deverão apoiar a expansão da transformação local, melhorar os rendimentos dos produtores e reduzir a dependência das exportações de matérias-primas.
«O setor das culturas perenes do Gana representa uma das nossas oportunidades mais promissoras para um crescimento económico inclusivo e uma transformação industrial. O GTCIS 2026 não é apenas uma conferência: é uma plataforma para demonstrar a nossa prontidão para o investimento, criar parcerias duradouras e construir uma cadeia de valor competitiva a nível global», afirmou Andy Osei Okrah, diretor-geral da TCDA, citado pelo meio local Graphic Online.
Entre ambições e desafios
Esta necessidade de novos investimentos reflete a vontade de acompanhar as ambições de crescimento do governo para cada uma das cadeias agrícolas-alvo e de explorar melhor o seu potencial.
Em agosto de 2025, a TCDA estimava que cada uma destas cadeias poderia gerar até 2 mil milhões de USD em receitas de exportação anuais até 2030, com a mobilização de investimentos adequados, capacidade de transformação suficiente e sistemas de mercado estruturados. Em comparação, as exportações de caju, que se posicionam como o segundo produto agrícola mais exportado após o cacau, renderam apenas 237 milhões de USD em 2024, segundo dados do Serviço Estatístico do Gana (Ghana Statistical Service).
Desde o anúncio desta projeção ambiciosa pela TCDA, multiplicam-se iniciativas e programas de desenvolvimento em várias cadeias arbóreas. Por exemplo, Accra anunciou, a 6 de fevereiro, a intenção de duplicar a área dedicada ao cultivo de coco para 180 000 hectares até 2028, com a implementação de um programa de distribuição de sementes de alto desempenho. Este programa de expansão visa aumentar em 60 % as receitas provenientes das exportações de coco e produtos derivados, para 18,1 milhões de USD por ano, consolidando a cadeia ganesa como líder em África.
Mais cedo, em janeiro, o presidente John Dramani Mahama lançou a construção de um polo industrial dedicado ao karité em Wa, na região do Alto Gana Ocidental. O objetivo é atrair investimentos destinados a valorizar esta matéria-prima na indústria cosmética, agroalimentar, nutracêutica e farmacêutica, seguindo a nova orientação de criar mais valor na cadeia.
Quanto à cadeia da palma de óleo, também tem registado renovado interesse nas políticas públicas, que reafirmaram o objetivo da autossuficiência já em 2025. No âmbito da sua Política Nacional de Desenvolvimento Integrado da Palma de Óleo para 2026‑2032, Accra decidiu, por exemplo, criar uma linha de financiamento de 500 milhões de USD para apoiar os investimentos do setor privado na cadeia da palma de óleo.
Embora ainda não tenham sido anunciados planos de desenvolvimento de grande escala para as cadeias de caju ou seringueira, sabe-se que os atores destes setores solicitam o apoio do governo para desenvolver a transformação industrial. Em setembro passado, a Associação dos Transformadores de Borracha (Rubber Processors Association – RPA) lamentou uma perda potencial de mais de 100 milhões de USD por ano na cadeia da seringueira, destacando o baixo nível de transformação e a fraca regulação, que não incentiva a indústria.
Stéphanas Assocle
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA): um serviço estatístico fundamental para os mercados agrícolas na África e no mundo.
Em 13 de novembro de 2025, a administração americana reabriu as portas após um shutdown de 43 dias, o mais longo de sua história. A retomada foi recebida com alívio pelos analistas agrícolas, que aguardavam a reativação das atividades do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Eis a importância desse órgão para as estatísticas mundiais.
Um dos maiores provedores globais de dados de referência
Hoje, é amplamente reconhecido que o USDA está entre as mais importantes fontes de dados de referência para a agricultura mundial, tanto pela abrangência das informações publicadas quanto pela sua regularidade. De modo geral, o órgão fornece séries detalhadas sobre as principais culturas de cereais (milho, trigo, cevada, arroz etc.), oleaginosas (soja, colza, girassol, óleo de palma, amendoim etc.), algodão, açúcar, além do setor pecuário (bovinos, suínos, aves, laticínios etc.).
Para cada uma dessas cadeias produtivas, os indicadores cobrem vários aspectos da produção, desde as intenções de plantio até as áreas cultivadas e colhidas, passando pela produção total, níveis de estoques iniciais e finais, exportações e importações. O USDA também publica relatórios específicos por país, permitindo comparar as dinâmicas de grandes exportadores como o Brasil, a Argentina e a União Europeia com as dos Estados Unidos.
Compilado a partir de dados oficiais, o relatório WASDE (World Agricultural Supply and Demand Estimates), publicado mensalmente, é altamente aguardado, pois orienta decisões de agricultores, traders e até governos. Como prova de sua relevância, diversas fontes de mercado destacaram a incerteza provocada pelo desaparecimento temporário desses dados durante o shutdown. Muitos agentes tentaram recorrer a análises privadas, rumores de mercado ou dados fragmentados, que não oferecem a mesma precisão que os relatórios do USDA.
Entre bússola e fator de influência nos preços globais
Ao disponibilizar esse conjunto detalhado de indicadores atualizados mensal ou anualmente, conforme o produto, o USDA não apenas informa: ele influencia diretamente os mercados globais de commodities agrícolas. Seus relatórios, especialmente sobre estoques e produção, podem ter impactos significativos devido ao caráter muitas vezes inesperado das previsões.
Uma estimativa de estoques acima do esperado pode provocar queda nos preços do milho ou da soja na Chicago Board of Trade (CBoT). No fim das contas, os dados do USDA funcionam como uma bússola confiável, porém imprevisível, obrigando traders, governos e produtores a ajustarem suas estratégias em tempo real e evidenciando a interconexão dos mercados agrícolas globais.
E a África?
Em uma África onde a agricultura responde por cerca de 25% do PIB e emprega 60% da força de trabalho, os dados do USDA desempenham papel relevante. Os relatórios sobre economias agrícolas estrangeiras, elaborados por adidos agrícolas americanos baseados em mais de 130 embaixadas e consulados, beneficiam muitos países africanos, abordando não apenas dados de produção, mas também temas como biotecnologia, normas de exportação, serviços alimentares e políticas comerciais.
Esses relatórios ajudam a avaliar o potencial de diversas cadeias produtivas no continente, especialmente diante da escassez de dados locais. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), outra importante fonte de estatísticas, menos de 50% dos países africanos reportam dados básicos de produção agrícola (terras, fertilizantes, rendimentos).
Nesse contexto, torna-se fundamental intensificar os esforços para melhorar a disponibilidade, a consistência e a granularidade das estatísticas agrícolas locais, complementando os dados valiosos, mas externos, do USDA. Isso exige investimentos maciços em infraestrutura de coleta de dados, cadastros atualizados e plataformas continentais como o Sistema Africano de Informação sobre os Mercados Agrícolas (SAIMA). Trata-se de um pré-requisito essencial para a formulação de políticas públicas bem calibradas e, mais amplamente, de uma questão de soberania.
Espoir Olodo
Madagascar é o terceiro maior produtor africano de arroz, depois do Nigéria e do Egito. Apesar dessa posição de destaque no continente, o país do leste africano enfrenta dificuldades para estabilizar sua produção e mantém uma dependência cada vez maior do arroz importado.
Em Madagascar, o governo pretende criar 150.000 hectares de novos perímetros arrozeiros. Com esse objetivo, o Ministério da Agricultura assinou, no sábado, 14 de fevereiro, um protocolo de acordo com a empresa privada COM’ON HOLDING & PARTENAIRE.
No âmbito dessa nova parceria, está prevista a criação de áreas-piloto “protótipo” em zonas produtoras como Atsinanana e Alaotra Mangoro para testar técnicas agrícolas avançadas que integrem mecanização no transplante de mudas e o uso de colheitadeiras, a fim de otimizar os rendimentos.
“Será assegurado rigor técnico com a integração de sementes certificadas do AfricaRice e validação científica sistemática pelo FOFIFA (Centro Nacional de Pesquisa Aplicada ao Desenvolvimento Rural). O protocolo reafirma que a produção resultante dessa parceria será prioritariamente destinada ao mercado nacional. Contudo, caso os objetivos de segurança alimentar sejam alcançados, a exportação de arroz especial poderá ser autorizada, reforçando a atratividade econômica do setor agrícola malgaxe”, informa comunicado publicado no site do governo.
Embora o custo total do investimento ainda não tenha sido divulgado, a ambição é clara: melhorar a produtividade do setor arrozeiro. O desafio é ainda mais estratégico diante do fortalecimento da dependência da Grande Ilha em relação às importações.
Dados compilados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostram, por exemplo, que o volume de arroz importado por Madagascar mais que dobrou, atingindo 800.000 toneladas em 2025, contra cerca de 300.000 toneladas um ano antes. Essa explosão nas compras reflete a incapacidade da cadeia produtiva malgaxe de acompanhar de forma sustentável a demanda do mercado interno.
Uma dinâmica que deve continuar em 2026
As perspectivas para 2026 não são animadoras. Em seu relatório sobre a análise da produção agrícola mundial, publicado em 12 de dezembro, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima a produção de arroz beneficiado em 2,7 milhões de toneladas em 2025/26, o que representa uma queda de 19% em relação à safra anterior e de 12% em comparação com a média dos últimos cinco anos.
Para justificar essa previsão, o órgão aponta uma redução de 8% na área cultivada, para 1,8 milhão de hectares, e uma queda esperada de 12% no rendimento médio, para 2,40 toneladas por hectare, em meio a condições climáticas desfavoráveis.
“O potencial da colheita foi afetado por uma seca em março e por temperaturas acima da média durante toda a temporada, resultando no menor rendimento registrado nos últimos 20 anos para 2025/26 […] As chuvas sazonais atrasaram, reduzindo a germinação das culturas, diminuindo a área plantada e limitando o potencial produtivo devido a um ciclo de crescimento encurtado”, indica o USDA.
Nesse contexto, a parceria público-privada entre o governo e a COM’ON HOLDING & PARTENAIRE poderá, se bem-sucedida, fortalecer a base produtiva do setor malgaxe na próxima safra.
Um potencial ainda amplamente subexplorado
Em relatório de análise da cadeia produtiva malgaxe publicado em abril de 2025, o Fundo Monetário Internacional (FMI) destaca a existência de um grande hiato entre os rendimentos atuais e a capacidade teórica de produção. Enquanto o rendimento médio do arroz na Grande Ilha permanece em torno de 2,75 t/ha desde o fim dos anos 2000, a instituição afirma que esse número poderia teoricamente alcançar até 11 t/ha em condições ideais.
Diversos fatores explicam essa diferença. Além da seca, o relatório menciona a recorrência de outros choques climáticos, como ciclones que afetam os recursos hídricos em um país onde mais de 80% das áreas arrozeiras são irrigadas. Soma-se a isso o acesso limitado a insumos modernos, mecanização insuficiente, degradação das terras cultiváveis e o uso ainda disseminado de práticas agrícolas tradicionais.
É nesse cenário que Antananarivo vem afirmando, desde 2025, sua intenção de integrar em larga escala o cultivo de arroz híbrido para superar a baixa produtividade. O arroz híbrido pode alcançar rendimentos de até 8,5 toneladas por hectare, cerca de três vezes superiores aos das variedades tradicionais (2,45 a 2,7 toneladas por hectare). No projeto de lei orçamentária de 2025, o governo anunciou, inclusive, a intenção de destinar 573 bilhões de ariarys para a compra de sementes de arroz híbrido destinadas aos agricultores.
Stéphanas Assocle
O bioetanol é visto como uma alternativa parcial aos combustíveis fósseis, principalmente no transporte rodoviário. Na África do Sul, o governo tem vindo,...
O algodão é um pilar socioeconómico fundamental nos Camarões, especialmente nas regiões do norte. No entanto, nos últimos anos, o setor tem enfrentado...
A África afirma-se como um dos principais polos de crescimento para as multinacionais do setor agroalimentar, que procuram tirar partido da rápida...
No Quénia, a fileira do chá é um dos pilares da economia. O país continua, no entanto, dependente dos seus mercados tradicionais, localizados sobretudo na...
Marrakech. Maroc