Na RDC, o setor agrícola contribui com cerca de 10% para o PIB e emprega aproximadamente 59% da população ativa. No país, onde as exportações continuam amplamente dominadas pelo setor mineiro e pelos hidrocarbonetos, a agricultura representa uma importante alavanca de diversificação económica.
A RDC pretende impulsionar as exportações de várias fileiras agrícolas prioritárias através de um mecanismo de financiamento apoiado pelo Reino Unido no valor de 25 milhões de dólares. A iniciativa foi o centro de uma reunião técnica realizada na segunda-feira, 4 de maio, em Kinshasa, entre Julien Paluku, ministro do Comércio Externo, e responsáveis da Rawbank, o principal banco comercial do país.
Segundo o comunicado oficial, este financiamento britânico visa “reduzir o risco” dos créditos concedidos aos produtores locais através da Rawbank. O objetivo é facilitar o acesso ao financiamento para os atores das fileiras de cacau, café, arroz, mandioca, milho e óleo de palma em várias províncias, incluindo Kivu do Norte, Tshopo, Congo Central, Mai-Ndombe, Kwilu e Equador, no âmbito de uma fase-piloto.
Na RDC, como na maioria dos países da África subsaariana, a agricultura continua a ser o “parente pobre” do financiamento bancário, sobretudo devido aos riscos associados, como a vulnerabilidade às condições climáticas, a falta de garantias, a informalidade das explorações e a fraca estruturação das cadeias de valor.
Segundo o Banco Central do Congo (BCC), os empréstimos bancários atribuídos aos setores da agricultura, pecuária, pesca e silvicultura atingiram apenas 187,8 mil milhões de francos (81 milhões de dólares) em 2024, o que representa apenas 0,8% do total dos créditos bancários, fixado em 23 346 mil milhões de francos (10 mil milhões de dólares) nesse ano.
Para Kinshasa, o desafio será transformar o mecanismo de financiamento anunciado com o Reino Unido em investimentos efetivos nas cadeias de valor agrícolas, num contexto marcado por constrangimentos logísticos e desafios de segurança.
Mercados a conquistar
Para além do financiamento, Kinshasa procura também reforçar a presença dos produtos agrícolas congoleses em vários mercados internacionais no âmbito da sua parceria com o Reino Unido. “O diretor comercial da Rawbank garantiu o apoio da instituição para ajudar a RDC a conquistar os mercados chinês, emiradense, britânico e norte-americano com a AGOA assegurada pelo Ministério do Comércio Externo”, refere o comunicado.
Esta abordagem deverá também contribuir para consolidar o desempenho recente do setor agrícola congolês nas exportações. No seu último relatório anual, a BCC indica que as exportações agrícolas da RDC geraram 519 milhões de dólares em 2024, quatro vezes mais do que em 2023 (119,8 milhões de dólares).
Este crescimento representa o nível mais elevado da última década, embora ainda corresponda apenas a 0,4% do total das receitas de exportação do país em 2024.
Na RDC, as fileiras do cacau e da madeira foram os principais motores das exportações agrícolas em 2024. “As exportações de madeira aumentaram 264,1%, impulsionadas pela forte procura do Quénia. Além disso, a melhoria do acesso da madeira congolesa ao mercado europeu, graças à implementação de sistemas de rastreabilidade e certificação florestal, facilitou as exportações. O cacau beneficiou igualmente da subida acentuada dos preços em 2024”, explica a BCC. Entre os outros produtos agrícolas de exportação destacam-se o café e a borracha natural.
Stéphan Assocle
A produção de algodão em África insere-se num contexto em que as questões de rendimento e competitividade ocupam um lugar central. Em paralelo, as condições climáticas e as evoluções do mercado moldam o desempenho do setor.
A capital togolesa acolhe, a partir de terça-feira, 5 de maio, as 22.ªs Jornadas anuais da Associação Algodoeira Africana (ACA), um encontro importante que reúne os principais intervenientes da fileira do algodão no continente. Os trabalhos, organizados pela Nova Sociedade Algodoeira do Togo (NSCT), foram abertos pelo secretário-geral do ministério responsável pela agricultura, Tekize Madadozi, em representação do ministro.
Durante quatro dias, os participantes irão debater os desafios que a fileira enfrenta, partilhar experiências e propor soluções para melhorar a produtividade e a competitividade do algodão africano. As discussões incidirão sobretudo sobre a adaptação aos efeitos das alterações climáticas, a melhoria da qualidade e da rastreabilidade, bem como a otimização dos sistemas de produção.
«Estas jornadas oferecem um quadro privilegiado para a partilha de experiências e para a definição de respostas concretas aos desafios comuns do setor», declarou o diretor-geral da NSCT, Martin Drevon.
Reuniões regionais num contexto de fortes mudanças no setor
Este encontro, organizado em conjunto com a 18.ª reunião de balanço do Programa Regional de Produção Integrada do Algodão em África (PR-PICA), decorre num contexto económico internacional instável, marcado pela volatilidade dos preços do algodão nos mercados mundiais e pela subida contínua dos custos dos fatores de produção agrícola. A fileira algodoeira africana enfrenta exigências crescentes em termos de qualidade e rastreabilidade, bem como efeitos cada vez mais evidentes das alterações climáticas sobre os rendimentos, os calendários agrícolas e a sustentabilidade dos sistemas de produção.
Segundo o presidente da Associação Algodoeira Africana, Kassoum Koné, estas mudanças exigem uma rápida adaptação dos sistemas de produção, através da inovação, do reforço das capacidades dos produtores, da mecanização das operações agrícolas e de uma melhor coordenação entre os atores da cadeia de valor. Ele sublinhou ainda a necessidade de reforçar as parcerias para acompanhar a transformação estrutural do setor.
No Togo, nos últimos anos, a produção de algodão tem conhecido uma recuperação impulsionada pelas reformas no setor e pelos esforços de organização dos atores. As iniciativas implementadas visam melhorar os rendimentos, reforçar o acompanhamento dos produtores e promover práticas agrícolas mais eficientes e sustentáveis. Esta dinâmica insere-se também nas orientações mais amplas definidas a nível africano, nomeadamente no seio da Associação Algodoeira Africana, em favor de um algodão mais competitivo e melhor integrado.
Criada em 2002, a Associação Algodoeira Africana tem como missão promover a concertação entre os atores da fileira do algodão, fomentar o desenvolvimento sustentável do setor e reforçar a competitividade do algodão africano nos mercados internacionais.
Gautier Agbekodovi
Em 4 de maio, a Comissão Europeia publicou o seu novo texto revisto sobre a desflorestação (EUDR). Esta lei visa proibir a importação de produtos como gado, cacau, café, soja, borracha, óleo de palma e madeira, identificados como principais motores da conversão de florestas em terras agrícolas.
Inicialmente adotado em junho de 2023, o texto foi revisto duas vezes, no final de 2024 e novamente no final de 2025, com o objetivo de introduzir simplificações direcionadas. Aguardada com grande expectativa pelas organizações ambientais contrárias à própria ideia de revisão, esta alteração pretende oferecer maior clareza aos operadores económicos, aos Estados-membros, aos países terceiros e a todas as partes interessadas, garantindo ao mesmo tempo um quadro jurídico estável e previsível. Eis os principais pontos a reter.
O que muda
Segundo a Comissão Europeia (CE), o regulamento revisto inclui um conjunto de medidas destinadas a facilitar a sua implementação, reduzindo significativamente a carga administrativa para as empresas.
O objetivo é reduzir cerca de 75% dos custos anuais de conformidade em relação ao regulamento inicial, passando de aproximadamente 8,1 mil milhões de euros para 2 mil milhões de euros para as empresas sujeitas às obrigações do EUDR.
Concretamente, a simplificação mais relevante consiste em transferir a principal responsabilidade de diligência devida para o primeiro operador que coloca os produtos no mercado europeu ou os exporta, enquanto os operadores a jusante e os comerciantes passam a concentrar-se sobretudo na recolha e conservação de informações de referência, sem necessidade de apresentar as suas próprias declarações de diligência.
A revisão também introduz um regime simplificado para micro e pequenos operadores primários, especialmente em países de baixo risco, que passam a poder limitar-se a uma única declaração simplificada, em vez de declarações repetidas para cada operação.
O sistema de informação do EUDR é igualmente ajustado, com formulários simplificados, especificações de API atualizadas, um plano de contingência em caso de indisponibilidade e uma funcionalidade de agregação voluntária das declarações de diligência, de forma a responder melhor às necessidades das empresas.
Por fim, a Comissão propõe ajustes específicos ao âmbito dos produtos através de um projeto de ato delegado, incorporando contributos das partes interessadas. O texto prevê a inclusão de alguns produtos transformados, como o café solúvel e derivados do óleo de palma, bem como a exclusão de certos artigos, como couro, pneus recauchutados, amostras de produtos e alguns materiais de embalagem. O projeto está aberto a consulta pública até 1 de junho de 2026.
O que não muda
Apesar destas alterações, a arquitetura fundamental do EUDR mantém-se inalterada: o regulamento continua a garantir que os produtos colocados no mercado da UE não contribuem para a desflorestação nem para a degradação das florestas.
As obrigações essenciais não foram flexibilizadas. Qualquer operador ou comerciante que coloque estes produtos no mercado europeu ou os exporte deve demonstrar que os bens não provêm de terras recentemente desflorestadas, que não contribuíram para a degradação das florestas e que foram produzidos legalmente de acordo com a legislação do país de origem.
Os requisitos de rastreabilidade e geolocalização das parcelas de produção continuam no centro do sistema, embora com algumas simplificações para pequenas empresas.
A revisão também não altera o calendário de aplicação: após o adiamento decidido em 2025, as obrigações entram em vigor a 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas e a 30 de junho de 2027 para micro e pequenas empresas.
Perspetivas para os países africanos
No continente africano, um dos principais fornecedores de produtos tropicais para a UE, esta revisão deverá ser recebida de forma positiva, sobretudo pelos países classificados como de baixo risco.
Vários países já estão a adaptar-se a esta mudança regulatória, investindo em sistemas de rastreabilidade, reforçando a transparência e promovendo práticas de produção mais sustentáveis e competitivas.
Na Etiópia, por exemplo, um sistema digital de rastreabilidade do café acompanha a cadeia de abastecimento desde a parcela até à exportação. No Quénia, são utilizadas tecnologias de deteção remota para preparação da aplicação do EUDR. Na Costa do Marfim, mapas nacionais de uso do solo de alta resolução foram desenvolvidos em cooperação com o Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia.
Para referência, na classificação da UE, vários países africanos como Gana, Gabão, Congo, África do Sul, Tunísia e Madagáscar estão na categoria de “baixo risco”, enquanto países como Camarões, RDC ou Costa do Marfim permanecem classificados como de “risco padrão”.
Espoir Olodo
O arroz é o principal cereal importado na África Ocidental. Na região, vários países procuram proteger mais a sua cadeia produtiva face às importações a baixo preço provenientes da Ásia.
No passado dia 29 de abril, o Burkina Faso anunciou a interrupção imediata das suas importações de arroz.
Esta decisão foi acompanhada pela suspensão da emissão das Autorizações Especiais de Importação (ASI) e por um período transitório de dois meses durante o qual os operadores com esta autorização podem ainda exercer atividade, findo o qual as suas licenças serão anuladas. Se, para as autoridades, a medida visa favorecer o escoamento da produção local, ela também tem implicações no comércio intra-regional.
Nuvens que se acumulam
Ao anunciar a suspensão das importações, o governo burquinabê cria um novo desafio para os exportadores indianos de arroz para a África Ocidental, principal polo de consumo.
De facto, estes já estavam a recuperar da recente mudança na política aduaneira do Bénim relativa ao cereal. Segundo informações divulgadas pela empresa de análise Platts, que cita um documento oficial datado de 22 de abril, para obter uma licença, os importadores devem comprovar implantação no Benim há pelo menos três anos, situação fiscal e aduaneira regular, bem como meios técnicos e logísticos considerados suficientes.
A isto junta-se a obrigação de depositar uma garantia de 1 mil milhão de FCFA (1,7 milhões de dólares) numa conta dedicada do Tesouro público e o compromisso de encaminhar mensalmente entre 50 000 e 100 000 toneladas de arroz.
Com este endurecimento, a Platts refere que as cargas inicialmente destinadas a Cotonou estavam a ser redirecionadas para Lomé, de onde são habitualmente reexpedidas para o Burkina Faso, mas a nova restrição deste país faz agora recear uma acumulação de stocks nos portos e uma queda dos preços.
O Nigéria, novo destino de referência?
Enquanto alguns observadores consideram que os fluxos poderão ser redirecionados para outros mercados, como o Gana ou mesmo fora da sub-região, outros acreditam que o Nigéria poderá tornar-se nos próximos meses uma solução de recurso para os operadores.
Segundo a Platts, a Índia expediu cerca de 1,57 milhões de toneladas de arroz não basmati para o Benim em 2025, uma queda de 15% num ano. Cerca de 90% desse volume seria depois reencaminhado para o mercado nigeriano, segundo estimativas.
Embora os importadores nigerianos usem o porto de Cotonou como ponto intermédio antes do transporte por fronteiras terrestres para evitar tarifas elevadas, a decisão do governo nigeriano de reduzir as suas tarifas a partir de 1 de julho poderá alterar estes fluxos transfronteiriços.
Em detalhe, o direito de importação sobre o arroz a granel ou em quantidades superiores a 5 kg é reduzido de 70% para 47,5%, enquanto a tarifa sobre o arroz partido passa de 70% para 30%. Neste contexto, os operadores nigerianos poderão optar cada vez mais por importações diretas para o país, em vez de recorrer a rotas indiretas, o que beneficiaria os exportadores indianos.
Espoir Olodo
Na Argélia, a aquacultura ainda ocupa um lugar modesto no abastecimento de peixe. Perante o aumento da procura de produtos halieúticos e os limites da pesca tradicional, as autoridades estão a apostar no desenvolvimento desta atividade para melhorar a oferta local de peixe.
A Argélia está a reforçar as suas capacidades em aquacultura. É nesse sentido que o Ministério da Agricultura prevê duplicar a produção aquícola para atingir 20 000 toneladas em 2026. Segundo informações divulgadas pelos meios de comunicação locais, o anúncio foi feito a 23 de abril, por ocasião de uma reunião nacional organizada pelo ministério com os atores do setor.
Esta perspetiva de crescimento é sustentada pela sementeira de 80 milhões de alevins de dourada e robalo durante a presente época, contra 50 milhões de alevins introduzidos em gaiolas flutuantes em 2025. As autoridades indicam ainda que existem atualmente 28 explorações marinhas em atividade no país, com uma dinâmica de expansão das capacidades de produção através do aumento do número de gaiolas de cultivo e da abertura de novas zonas de exploração.
Para além do aumento da oferta de alevins, Argel aposta também na melhoria do acesso aos alimentos para peixes, que representam uma parte importante dos custos de produção.
Neste sentido, vários projetos industriais foram lançados ou relançados. As autoridades anunciaram, por exemplo, a reativação da unidade de produção de alimentos para peixes e camarões de Ouargla, no âmbito de uma parceria com a Coreia do Sul. “Colocada sob a tutela do Gabinete Nacional de Alimentos para Gado (ONAB), esta unidade encontra-se atualmente em fase de testes e deverá produzir alimentos específicos, nomeadamente destinados à criação de camarões”, explicou Miloud Triaa, diretor-geral da pesca e aquacultura no Ministério da Agricultura, em declarações citadas pela Algérie Presse Service a 29 de abril.
Segundo o responsável, o setor privado também participa nesta dinâmica com a entrada em funcionamento da AviFish, uma unidade especializada na produção de alimentos aquaculturais instalada na província de Bouira.
Num relatório publicado em janeiro de 2026, o Fórum Económico Mundial (WEF) sublinha que, em África, as dificuldades de abastecimento de alimentos para peixes tornam os custos de produção aquícola 10% a 20% mais elevados do que a média mundial. “Estes custos elevados explicam-se por uma forte dependência de alimentos para peixes convencionais, frequentemente importados devido à falta de capacidade local de produção […]”, explica a organização.
Um ambiente favorável ao investimento no setor
Para apoiar a expansão do setor aquícola, o governo argelino também reforçou as medidas de incentivo destinadas a investidores e fabricantes de insumos aquaculturais.
Desde janeiro de 2026, a lei orçamental prevê, por exemplo, a isenção de direitos aduaneiros e a aplicação de taxa reduzida de IVA às importações de matérias-primas utilizadas na fabricação de alimentos para a aquacultura. Prevê igualmente que os produtos locais resultantes desta produção sejam sujeitos à taxa reduzida de IVA, de forma a reforçar a competitividade nacional.
As autoridades esperam assim reduzir os custos de produção, atrair mais investimento e garantir a sustentabilidade das explorações aquícolas. “Esta medida constitui uma prioridade para assegurar a disponibilidade de alimentos de qualidade para os aquacultores e ajudará a reduzir os custos de gestão, diminuindo a carga fiscal na importação, o que favorecerá inevitavelmente a continuidade das atividades aquícolas”, refere o documento de apresentação do Projeto de Lei Orçamental para 2026.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a produção halieútica da Argélia foi de 82 366 toneladas em 2023, das quais 93% provenientes da pesca. Com um consumo aparente estimado em cerca de 127 000 toneladas nesse ano, o país registava então um défice de produção de cerca de 45 000 toneladas.
Stéphanas Assocle
Em 2025, a borracha natural foi uma das poucas matérias-primas agrícolas a registar uma subida de preços nos principais mercados. As últimas projeções sugerem que esta tendência poderá continuar em 2026.
Os preços da borracha natural deverão manter a sua dinâmica de alta em 2026, segundo as mais recentes projeções do Banco Mundial, divulgadas no seu relatório “Commodity Outlook” publicado em abril. O preço médio do quilo de borracha natural de grau TSR20, a categoria mais utilizada na indústria automóvel, deverá assim aumentar 7,34% ao longo do ano, atingindo 1,90 dólares, contra uma média de 1,77 dólares registada em 2025.
Segundo a instituição financeira, a subida projetada em 2026 depende da continuidade do crescimento regular da procura nos países emergentes e em desenvolvimento, onde a indústria automóvel está em plena expansão. No período de 12 meses terminado em janeiro de 2026, o Banco Mundial indica que a procura mundial da matéria-prima aumentou ligeiramente, liderada pela China e pela Índia (cerca de 2% cada).
“A fabricação de pneus, que representa quase dois terços da utilização da borracha natural, manteve-se globalmente estável para veículos ligeiros, mas reforçou-se para veículos pesados, sustentando assim o consumo global”, sublinha o relatório. Já em fevereiro, a Associação dos Países Produtores de Borracha Natural (ANRPC) antecipava um crescimento moderado da procura mundial para 15,6 milhões de toneladas em 2026, mais 1,7% em relação ao ano anterior.
Um mercado mundial sob tensão há vários anos
De forma geral, a subida esperada da procura insere-se num contexto mundial marcado por um desequilíbrio persistente entre oferta e procura há vários anos. Segundo a ANRPC, o mercado mundial deverá registar um défice de cerca de 400 mil toneladas em 2026, marcando o sexto ano consecutivo de escassez desta matéria-prima. Uma situação que confirma que a procura cresce mais rapidamente do que a oferta, por várias razões.
Entre condições meteorológicas desfavoráveis e a replantação insuficiente de plantações de seringueiras envelhecidas, os países produtores enfrentam desafios estruturais que limitam o seu potencial.
Independentemente das realidades do lado da produção, a subida prevista dos preços representa uma oportunidade para gerar mais receitas de exportação nos países africanos produtores, onde a maior parte da oferta é exportada em bruto.
Dados compilados na plataforma Trademap mostram que os países africanos exportaram cerca de 3 mil milhões de dólares em borracha natural em 2024, representando 18,5% das exportações mundiais, que totalizaram 16 mil milhões de dólares. A Costa do Marfim lidera amplamente, concentrando 82% das exportações continentais em valor, ou seja, 2,45 mil milhões de dólares.
Entre os outros grandes exportadores de borracha natural encontram-se, entre outros, a Libéria, o Gana, o Camarões e a Nigéria. No total, 21 países africanos exportaram borracha natural em diferentes formas em 2024, segundo o Trademap.
Stéphanas Assocle
Na Nigéria, o setor de pecuária contribui com 35% para o PIB agrícola e ocupa um papel estratégico na economia rural. Em um contexto marcado pela persistência de doenças animais, as autoridades desejam modernizar os serviços veterinários e limitar os riscos sanitários.
Na Nigéria, um plano nacional de 10 anos para fortalecer a gestão da saúde animal e modernizar os serviços veterinários no período de 2026 a 2036 foi aprovado durante um workshop organizado pelo Ministério do Desenvolvimento da Pecuária, realizado de 28 a 30 de abril em Abuja.
De acordo com um comunicado publicado no site do ministério, este plano visa melhorar a vigilância das doenças animais, fortalecer as capacidades dos laboratórios veterinários, desenvolver sistemas de vacinação e modernizar os mecanismos de identificação e rastreabilidade do gado.
Como parte dessa estratégia, as partes interessadas adotaram várias resoluções sobre o fortalecimento das capacidades institucionais, a criação de mecanismos de financiamento sustentáveis e a melhoria dos sistemas de notificação de doenças. Também está prevista a elaboração de uma estratégia nacional coordenada de vacinação entre os estados, a expansão das parcerias público-privadas na cadeia de valor da pecuária, além da transformação digital e uma abordagem integrada das questões de saúde animal, humana e ambiental.
"Este plano fornece uma visão clara e prospectiva para construir um sistema veterinário moderno, resiliente e conforme com as normas internacionais, que apoia a produtividade da pecuária, protege a saúde pública e facilita o comércio seguro", afirmou Idi Mukhtar Maiha, Ministro do Desenvolvimento da Pecuária.
Esta medida ocorre em um momento em que a Nigéria enfrenta um aumento dos casos de febre carbúnculo (também conhecida como antraz) após mais de um ano sem grandes surtos. Trata-se de uma infecção bacteriana que afeta principalmente o gado (bovinos, ovelhas, cabras, cavalos).
Em 2 de abril, as autoridades nigerianas informaram à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) sobre o aparecimento de um novo surto da doença em uma criação doméstica no estado de Zamfara. Antes disso, a Nigéria não havia reportado um surto significativo de antraz desde janeiro de 2025.
Uma situação zoossanitária mais preocupante?
Além do antraz, que está atualmente no centro das atenções sanitárias no setor de pecuária na Nigéria, outras doenças animais continuam a representar uma ameaça significativa para o desenvolvimento do setor, com distribuição variada conforme as regiões e os sistemas de produção.
Em seu último relatório sobre o desempenho do setor agrícola, o Serviço Nacional de Extensão Agrícola e Ligação para Pesquisa (NAERLS) já traçava um quadro preocupante da situação sanitária do rebanho nacional em 2024. Segundo o documento, os bovinos continuam particularmente expostos à pneumonia contagiosa bovina (CBPP), febre aftosa (FMD) e tuberculose bovina, que foram relatadas em várias regiões do país.
Os pequenos ruminantes, como cabras e ovelhas, são fortemente afetados pela peste dos pequenos ruminantes (PPR), com surtos registrados nas regiões Centro-Norte, Nordeste e Noroeste.
Na avicultura, a doença de Newcastle (NCD) aparece como a patologia mais comum, relatada em praticamente todas as regiões do país em 2024. Os produtores também enfrentam episódios recorrentes de gripe aviária altamente patogênica (HPAI), cólera aviária, doença de Gumboro (IBD), tifo aviário e doenças respiratórias crônicas (CRD), dependendo da região.
A suinocultura também não está imune. O relatório do NAERLS mencionou também casos de peste suína africana (ASF), principalmente no Centro-Norte, enquanto diversas doenças parasitárias continuam a afetar os rebanhos no Nordeste.
Resta saber em que medida o novo plano anunciado será capaz de reduzir de forma sustentável a vulnerabilidade sanitária do rebanho nigeriano nos próximos anos.
Stéphanas Assocle
Nos Camarões, a fileira do açúcar emprega milhares de pessoas, sobretudo nas plantações e nas fábricas da Sosucam. A empresa prossegue o seu crescimento com a entrada em funcionamento de uma nova unidade.
A Société sucrière du Cameroun (Sosucam) investiu 2,5 mil milhões de FCFA (cerca de 4,5 milhões de dólares) numa nova unidade de produção de açúcar em cubos no seu site de Nkoteng, uma localidade situada na região do Centro, segundo informações recolhidas pelo Investir au Cameroun. Financiado com recursos próprios, o projeto foi iniciado há mais de dois anos. A nova instalação já entrou em funcionamento, confirmou um alto responsável da filial do grupo Castel.
Com uma capacidade de produção de 100 toneladas por dia, esta unidade deverá permitir à empresa reforçar a sua oferta no segmento do açúcar transformado. Substitui a antiga instalação de Mbandjock, que se tornou menos adequada às exigências técnicas atuais.
Com este investimento, a Sosucam procura melhorar a qualidade da sua produção e modernizar os seus processos industriais. Segundo fontes internas, a empresa pretende igualmente consolidar a sua posição no mercado nacional, num contexto marcado pela evolução da procura e pelo aumento da concorrência em alguns segmentos.
Esta nova capacidade poderá assim permitir ao produtor responder melhor à procura das famílias e dos industriais, ao mesmo tempo que reforça a sua presença no mercado local.
Uma fileira em recomposição
O investimento realizado em Nkoteng insere-se numa perspetiva de recomposição do mercado camaronesa do açúcar. Vários operadores procuram, de facto, aumentar as suas capacidades de produção num mercado estruturalmente deficitário.
É o caso da Wega Food. Com sede na zona industrial de Douala, a empresa prevê elevar a sua capacidade de produção para 700 toneladas por dia graças a uma expansão em fase final.
Esta dinâmica reflete a vontade dos operadores presentes no mercado de reforçar a oferta nacional. No lançamento da campanha 2025/2026, a Sosucam já descrevia um ambiente internacional desfavorável, marcado, segundo a empresa, pelas políticas de apoio implementadas por grandes produtores como o Brasil e a Índia.
Segundo a empresa, estas subvenções contribuiriam para manter os preços mundiais em níveis artificialmente baixos, alimentando nos Camarões as reivindicações dos importadores a favor de uma maior abertura do mercado. Neste contexto, a Sosucam defendia a continuidade regulatória para evitar o que considera ser uma desregulação prejudicial à produção local.
Um mercado local sob tensão
As tensões no mercado interno permanecem, contudo, elevadas. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INS), os Camarões exportaram 8.047 toneladas de açúcar em 2025, contra 512 toneladas em 2024.
Este aumento ocorre, no entanto, num contexto de défice estrutural do mercado local. Com uma produção anual geralmente entre 120.000 e 160.000 toneladas, a Sosucam cobre apenas uma parte de uma procura nacional estimada em cerca de 300.000 toneladas. Este desequilíbrio leva regularmente as autoridades públicas a autorizar importações para garantir o abastecimento do mercado.
Nestas condições, o aumento das exportações levanta menos questões sobre a competitividade internacional da fileira do que sobre a natureza dos fluxos comerciais. Pode refletir arbitragens pontuais em direção a mercados vizinhos mais remuneradores, mais do que uma presença duradoura do açúcar camaronesa no mercado internacional.
Contactado pelo Investir au Cameroun, um interveniente do setor estima que estes volumes poderão corresponder, pelo menos em parte, a reexportações para países vizinhos. Uma hipótese que ainda não foi oficialmente confirmada.
Esta tensão não é nova. Em 2022, as autoridades camaronesas suspenderam as exportações de vários produtos de primeira necessidade, incluindo o açúcar, para a República Centro-Africana. O objetivo era limitar as saídas para mercados externos mais lucrativos, numa altura em que já se registavam tensões de abastecimento no mercado local.
Amina Malloum (Investir au Cameroun)
O arroz é o 4.º cereal mais produzido no Burkina Faso, depois do sorgo, do milheto e do milho. No entanto, trata-se de um dos alimentos de base cujo consumo está em forte crescimento.
No Burkina Faso, as importações de arroz foram suspensas a 29 de abril e até nova ordem. Segundo as autoridades, esta restrição insere-se num conjunto de medidas destinadas a favorecer o escoamento da produção local.
«Consequentemente, a emissão das Autorizações Especiais de Importação (ASI) de arroz fica suspensa. Os importadores que atualmente detenham ASI de arroz válidas dispõem de um prazo de dois (02) meses para cumprir as formalidades de importação. […]. Em qualquer caso, qualquer infrator desta decisão fica sujeito a sanções de acordo com a regulamentação em vigor», detalha um comunicado conjunto dos ministérios da Indústria e Comércio, da Economia e Finanças, e da Agricultura.
Até ao momento, não foram fornecidos mais detalhes oficiais sobre as dificuldades enfrentadas pela cadeia de produção local nem sobre eventuais stocks não vendidos. No entanto, esta decisão junta-se a outras tomadas na sub-região da África Ocidental, onde vários países têm adotado, desde o último trimestre de 2025, medidas para impulsionar a comercialização da produção local, num contexto de forte concorrência com o arroz importado da Ásia.
Enquanto no Senegal as autoridades optaram por uma subvenção de 50 francos CFA por kg de arroz local comprado e por restrições temporárias às importações, bem como incentivos para que instituições públicas privilegiem o arroz nacional, o governo do Mali decidiu adquirir 26 030 toneladas de arroz local não vendido para estabilizar o mercado e apoiar os produtores.
No Gana, as autoridades destinaram 200 milhões de cedis (cerca de 18 milhões de dólares) à National Food Buffer Stock Company (NAFCO) para comprar excedentes de milho e arroz aos agricultores e distribuí-los a instituições públicas como escolas, hospitais e prisões, com o objetivo de estabilizar o mercado.
Embora nesses três países o arroz tenha um papel mais importante na alimentação do que no Burkina Faso, a sua importância tem vindo a aumentar nos últimos anos no país dos “Homens Íntegros”.
Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o consumo aumentou cerca de 300 mil toneladas entre 2015 e 2022. O país, 8.º maior importador africano de arroz, deverá importar cerca de 900 mil toneladas de arroz branco em 2025/2026, contra 700 mil toneladas em 2021/2022.
Espoir Olodo
O mercado dos fertilizantes é um dos mais afetados pelas perturbações no transporte marítimo no estreito de Ormuz, tal como o petróleo e o gás. Perante esta situação, multiplicam-se as preocupações com a segurança alimentar.
Em 2026, os preços mundiais dos fertilizantes poderão subir mais de 30% devido ao conflito no Médio Oriente. O alerta foi emitido pelo Banco Mundial na terça-feira, 28 de abril, na mais recente edição do relatório «Commodity Markets Outlook». Desde o início do conflito há dois meses, o mercado global de fertilizantes tem sido marcado por fortes tensões, devido às perturbações no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do comércio marítimo mundial de fertilizantes, ou seja, cerca de 16 milhões de toneladas por ano.
Já em março, o preço da ureia subiu para 725,6 USD por tonelada, ou seja, +53,7% face a fevereiro, atingindo o valor mais elevado em quatro anos. Ao mesmo tempo, a tonelada de fosfato diamónico (DAP), o fertilizante fosfatado mais utilizado, era negociada a 658,3 USD por tonelada (+5%), enquanto o cloreto de potássio (MOP) passou de 372,5 USD para 380,6 USD por tonelada entre fevereiro e março.
No total, o índice dos preços dos fertilizantes aumentou mais de 12% entre o último trimestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026. «Os fertilizantes nunca estiveram tão pouco acessíveis desde 2022, reduzindo os rendimentos dos agricultores e ameaçando as futuras colheitas», explica a organização.
A ureia como motor da subida nos próximos meses
A situação já é crítica para a agricultura e para a segurança alimentar mundial, e a instituição financeira não prevê melhorias num futuro próximo. Nos próximos meses, a subida dos preços deverá continuar, impulsionada sobretudo pela ureia, o fertilizante azotado mais utilizado no mundo.
Segundo o relatório, com as tensões no mercado, os preços da ureia deverão terminar o ano em 675 USD por tonelada, cerca de 60% acima de 2025, antes de recuar 25% em 2027, caso haja uma melhoria no preço do gás natural.
«Entre os principais riscos em alta estão a continuidade das fortes restrições ao transporte marítimo no Médio Oriente ou uma nova escalada do conflito, o que poderá agravar as escassezes. Além disso, receios de falta de fertilizantes nos mercados internos podem levar grandes exportadores a impor restrições, enquanto uma subida maior do que o esperado do gás natural aumentaria ainda mais os custos de produção (o gás representa 80% a 90% do custo da amónia, principal componente da ureia). Se estes riscos se concretizarem, o preço médio da ureia em 2026 poderá ultrapassar os 700 dólares por tonelada registados em 2022», alerta o Banco Mundial.
Quanto aos restantes fertilizantes, as subidas serão mais moderadas. Os preços do DAP deverão aumentar cerca de 6% em 2026 face a 2024, antes de recuarem 10% em 2027 com a entrada de novas capacidades de produção. Já o MOP deverá subir cerca de 12% em 2026, com uma descida de 6% prevista até 2027.
«A mais longo prazo, a entrada em funcionamento de novas capacidades de produção, nomeadamente no Canadá o maior produtor e exportador mundial de potassa, poderá pressionar os preços em baixa. No geral, os riscos para as perspetivas de preços parecem relativamente equilibrados, já que a produção e exportação de MOP não dependem fortemente do Médio Oriente», indica o Banco Mundial.
Espoir Olodo
À escala global, a desflorestação continua a ser uma ameaça importante para a biodiversidade, o clima e os meios de subsistência das populações. Perante um fenómeno que continua a ganhar terreno, os esforços de combate estão a multiplicar-se.
A boa notícia é que o ritmo de crescimento da desflorestação mundial está a abrandar; a má notícia é que não o faz com rapidez suficiente. Este é o resumo das informações publicadas na quarta-feira, 29 de abril, pelo Global Forest Watch (GFW), um projeto lançado pelo World Resources Institute (WRI) e pela Universidade de Maryland.
No total, em 2025, o mundo perdeu 4,3 milhões de hectares de floresta tropical primária (florestas que não sofreram intervenção humana), um nível cerca de 36% inferior ao de 2024, que tinha sido um ano particularmente negativo. O principal fator de perda da cobertura florestal continua a ser a expansão das terras agrícolas para a produção de matérias-primas destinadas aos mercados internacionais ou para a agricultura de subsistência das famílias, seguida pelos incêndios.
Uma tendência positiva impulsionada pelo Brasil
Segundo o GFW, o abrandamento registado em 2025 deve-se sobretudo aos bons resultados do Brasil. Na maior economia da América do Sul, a perda de cobertura florestal caiu para 1,63 milhões de hectares no último ano, contra 2,82 milhões em 2024, contribuindo para a descida da média global. Esta situação está diretamente ligada ao reforço do combate ao abate ilegal por parte do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o aumento das operações de controlo.
«A título de exemplo, a sua administração relançou o PPCDAm, um quadro estratégico de combate à desflorestação que coordena a ação de 19 agências federais, alargando-o agora a todos os biomas do país. Criado pela primeira vez em 2004, o PPCDAm já tinha permitido fortes reduções da perda de florestas primárias na Amazónia no início dos anos 2000. O componente repressivo também foi reforçado: a agência ambiental federal IBAMA aumentou, entre 2023 e 2025, o número de notificações de infrações ambientais em 81% e o valor das multas em 63%, em comparação com o período 2020-2022», explicam os autores da publicação.
Durante o período analisado, foi Madagáscar o país mais afetado em termos relativos à extensão das suas florestas primárias, com uma perda de 1,9%, equivalente a 90.000 hectares. Na ilha, a agricultura de corte e queima e a extração ilegal de safiras e níquel, que se desenvolvem respetivamente no norte e no sul do corredor Ankeniheny-Zahamena (ZAC), um dos últimos grandes vestígios de floresta primária, são consideradas as principais ameaças.
Tal como em 2024, a República Democrática do Congo, que abriga o segundo maior pulmão ecológico do planeta depois da Amazónia, continua a ser o terceiro país do mundo com maiores perdas em termos absolutos, com 560.000 hectares destruídos devido à expansão agrícola, à exploração de madeira para lenha e à produção de carvão vegetal, principal fonte de energia.
Segundo o Banco Mundial, a biomassa representa 98,8% do consumo energético total dos agregados familiares no país, dos quais 81,8% corresponde a lenha e 17% a carvão vegetal, sendo muito limitada a utilização de fontes de energia mais limpas.
Progressos ainda insuficientes face aos objetivos climáticos
Embora a redução seja encorajadora, o GFW sublinha que as perdas em 2025 equivalem a mais de 11 campos de futebol por minuto e que o fenómeno continua 46% acima do nível registado há dez anos. Além disso, o organismo alerta que as alterações climáticas estão a tornar as florestas mais vulneráveis e a transformar estes sumidouros de carbono em potenciais fontes de emissões.
Por outro lado, a desflorestação continua demasiado elevada para cumprir a Declaração de Nova Iorque sobre Florestas de 2014, que previa o fim deste fenómeno até 2030.
«Os dados de 2025 mostram que é possível reduzir a perda de florestas. As fortes quedas registadas no Brasil, bem como níveis relativamente baixos ou estáveis na Colômbia, Indonésia e Malásia, demonstram como as escolhas políticas, o reforço da aplicação da lei e os compromissos das empresas podem melhorar o estado das florestas. Ao mesmo tempo, as perdas elevadas noutras regiões lembram a necessidade de intensificar os esforços para travar a destruição florestal. A poucos anos do prazo para atingir o objetivo global de travar e inverter a perda de florestas até 2030, os países terão de acelerar a sua ação», alertam os autores.
Espoir Olodo
O café, juntamente com o óleo de palma, o cacau, a borracha e a madeira, faz parte das principais matérias-primas visadas pela lei da União Europeia sobre o combate à desflorestação. Neste setor, a mobilização está em curso.
No dia 22 de abril, os grandes comerciantes e torrefadores lançaram a «Coffee Canopy Partnership», uma iniciativa destinada a mapear explorações agrícolas à escala mundial através de dados de satélite, inteligência artificial e verificações no terreno.
Esta iniciativa, que envolve empresas como JDE Peet’s NV, Louis Dreyfus Company, Touton, Sucafina SA e Neumann Kaffee Gruppe, deverá resultar num feito inédito: o primeiro mapa mundial, completo e de acesso livre, da produção de café.
«Ao recorrer à tecnologia avançada de satélites da Airbus, a parceria irá mapear as plantações de café em todas as paisagens cafeeiras, identificar zonas de perda de cobertura florestal e trabalhar com os governos na restauração dos ecossistemas e na prevenção de futuras desflorestações», indica o comunicado.
Este programa surge num contexto em que a aplicação do Regulamento da União Europeia sobre a Desflorestação (RDUE) está prevista para 30 de dezembro para os grandes operadores e para junho de 2027 para os mais pequenos, após dois adiamentos sucessivos.
O regulamento exige que cada lote de café colocado no mercado europeu seja totalmente rastreável até à parcela exata onde foi cultivado e que essa parcela não tenha sido objeto de desflorestação após 31 de dezembro de 2020.
Uma fase-piloto de grande escala na África Oriental
O primeiro eixo operacional deste programa centra-se na África Oriental, com uma área-piloto de cerca de 1,2 milhões de quilómetros quadrados de paisagens cafeeiras. Abrange a Etiópia, o Quénia, o Uganda, a Tanzânia, o Ruanda e o Burundi.
Estes seis países, onde a produção é assegurada em mais de 80% por pequenos agricultores, exportam principalmente o seu café para membros da União Europeia como a Alemanha, a Bélgica, a Itália e os Países Baixos. A iniciativa deverá apoiar os esforços já em curso nesses países para se adaptarem à nova exigência europeia.
Na Etiópia, o regulador da fileira (Ethiopian Coffee and Tea Authority – ECTA) anunciou em março a receção técnica de uma nova plataforma nacional de rastreabilidade digital que permite geolocalizar as parcelas, acompanhar o café desde a exploração agrícola até ao porto de exportação e avaliar o risco de desflorestação através de uma aplicação móvel.
Para além da África Oriental, a Coffee Canopy Partnership prevê alargar progressivamente o mapeamento a todas as regiões cafeeiras do mundo, com cobertura total prevista até 2027, graças a co-investimentos adicionais da indústria e de instituições públicas ou multilaterais. Esta base de dados deverá tornar-se uma ferramenta de referência para empresas, autoridades nacionais e reguladores europeus.
Espoir Olodo
As restrições associadas às alterações climáticas estão a aumentar nos sistemas alimentares globais. Entre o aumento das temperaturas e fenómenos climáticos recorrentes, os desafios acumulam-se em todas as cadeias de valor.
As vagas de calor extremo surgem como uma ameaça cada vez menos negligenciável para os sistemas alimentares mundiais. É o que estima um relatório conjunto publicado na quarta-feira, 22 de abril, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM).
Em todo o mundo, as vagas de calor mais frequentes, mais longas e mais intensas são frequentemente acompanhadas por secas prolongadas, conduzindo a uma pressão crescente sobre a produção vegetal e animal, bem como sobre as comunidades rurais e as economias nacionais que delas dependem. Segundo a FAO e a OMM, este fenómeno já compromete os meios de subsistência de cerca de 1,23 mil milhões de pessoas que dependem diretamente da agricultura, ao mesmo tempo que fragiliza a disponibilidade alimentar para centenas de milhões de outras.
Mais do que uma simples ocorrência climática, o relatório sublinha que as vagas de calor se afirmam agora como um dos fatores que redefinem profundamente as condições de funcionamento dos sistemas agroalimentares, atuando como um «multiplicador de riscos». De facto, explicam os autores, quando as temperaturas ultrapassam certos limiares – frequentemente em torno dos 30 °C para culturas como o milho ou o trigo – os rendimentos começam a diminuir, a estrutura das plantas enfraquece e a produtividade global reduz-se.
Ao mesmo tempo, o gado sofre a temperaturas ainda mais baixas, em particular os suínos e as aves de capoeira, que veem o seu crescimento e produção leiteira diminuir, com casos de mortalidade em massa durante episódios extremos.
«Observa-se já que os rendimentos das principais culturas alimentares, como o milho e o trigo, diminuíram respetivamente 7,5% e 6,0% por grau Celsius de aquecimento, e deverão recuar até mais 10% adicionais por cada grau de aquecimento futuro. […] Nos meios aquáticos, as vagas de calor marinhas já provocam episódios repetidos de mortalidade em massa e obrigam cardumes inteiros de peixes a migrar para águas mais frias. Os pomares de frutas e frutos secos, assim como as florestas naturais, também sofrem perdas de produção e uma exposição crescente a incêndios florestais mais frequentes e mais intensos. Todas estas perdas alimentam um círculo vicioso perigoso: para compensar a queda dos rendimentos, a agricultura tende a expandir-se, o que aumenta as emissões de gases com efeito de estufa e, por sua vez, agrava as alterações climáticas», explica o relatório.
Adaptar com urgência os sistemas agroalimentares
A FAO e a OMM consideram que o reforço da resiliência dos sistemas agroalimentares face ao calor extremo exigirá uma ação coordenada, a nível de todo o sistema – do campo à cadeia de valor – e ao longo do tempo, para se adaptar à evolução.
Entre as principais prioridades, o relatório destaca a necessidade de disseminar práticas agrícolas resilientes ao clima, melhorar a gestão da água e dos solos, desenvolver variedades de culturas e raças animais mais tolerantes ao calor e reforçar a governação dos riscos. Ajustar calendários de sementeira, adaptar técnicas de produção, reorganizar infraestruturas de pecuária ou o sombreamento de pastagens, bem como diversificar sistemas agrícolas, são igualmente caminhos a explorar.
Para além destas medidas, o relatório destaca a importância da antecipação. Embora os riscos associados às vagas de calor ainda sejam frequentemente subestimados nas políticas climáticas e de desenvolvimento, os autores sublinham que estes fenómenos são em grande parte previsíveis, o que abre oportunidades para reduzir perdas e proteger os trabalhadores agrícolas.
Sistemas de alerta precoce fiáveis, serviços meteorológicos e climáticos acessíveis e avisos agro-meteorológicos adaptados podem ajudar agricultores, criadores de gado, pescadores e silvicultores a preparar-se, ajustar o seu trabalho ou até suspender temporariamente as atividades mais expostas.
Espoir Olodo
A África do Sul desempenha atualmente um papel marginal no mercado mundial da pistácia, dominado pelos Estados Unidos e pelo Irão. As recentes tensões geopolíticas não deixaram o setor local indiferente.
A guerra no Irão não faz apenas vítimas. Na África do Sul, o setor da pistácia quer aproveitar a subida dos preços mundiais para relançar a produção na próxima década. Com o conflito no país do Médio Oriente, segundo maior produtor mundial deste fruto seco, e a fraca situação da produção nos EUA (principal fornecedor mundial), a libra de pistácios (0,45 kg) atingiu 4,57 dólares, um nível inédito em oito anos.
Este contexto permite agora aos operadores sul-africanos ambicionar novas perspetivas de crescimento e posicionar-se como alternativa para muitos importadores que procuram diversificar as suas fontes de abastecimento a curto e médio prazo, de forma a responder a uma procura mundial crescente.
De facto, nos últimos anos, novas tendências de consumo trouxeram a pistácia novamente para o centro das atenções, com a sua utilização em tabletes de chocolate, gelados ou café, estimulando o interesse no mercado.
No país mais industrializado do continente, o setor pretende assim aumentar a produção de 20 toneladas em 2025 para 60 000 toneladas até 2040, um nível que permitiria ao país tornar-se o 6.º ou 7.º maior produtor mundial e captar 5% a 8% do mercado de exportação.
«A produção mundial de pistácios está concentrada em países do hemisfério norte, e muitas dessas regiões enfrentam limitações de água, pressões climáticas ou riscos políticos, o que cria para nós uma oportunidade evidente de entrar neste mercado», afirmou numa entrevista à Bloomberg a 24 de abril David Muller, diretor-geral da Karoo Pistachios.
No país, já o maior produtor mundial de macadâmia e o terceiro maior produtor de noz-pecã, encontra-se o Karoo, a única região do continente onde o cultivo de pistácio em grande escala é viável, embora tenham sido realizados ensaios no Egito, em Marrocos e na Tunísia.
«Por natureza, a pistácia adapta-se às condições extremas do Karoo», sublinha Muller. «O Karoo tem um clima muito próximo do do Médio Oriente. Estamos realmente no início de uma fase de crescimento e expansão», prevê o responsável.
Espoir Olodo
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